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Eu nunca fui feminista

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Coluna Leitura do Dia

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Mauricio- A história que não está no gibi

Por Lorena Moura Eu não sei vocês, mas eu sou completamente apaixonada pela Turma da Mônica. Foram ...

Curtas

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Menina Sem Nome – Documentário

O documentário mostra um crime que chocou os recifenses nos anos 70. Uma menina que apareceu morta, o crime até hoje não foi desvendado e ...

Mauricio- A história que não está no gibi

2Por Lorena Moura

Eu não sei vocês, mas eu sou completamente apaixonada pela Turma da Mônica. Foram essas tirinhas que me ajudaram a ser a leitora que sou hoje. Lembro que na minha infância a maior alegria era ver o carteiro chegando com um pacotinho de gibis da turminha. Sério! Nada me deixava mais feliz do que isso, nem os doces tinham esse poder ainda. A turma criada pelo Maurício de Sousa  acabou sendo o ponto de partida para o meu vício pelos livros.

Eu sempre me identifiquei com alguma característica dos personagens. Seja a bravura da Mônica, a comilança da Magali ou a leveza, ingenuidade, lealdade e coragem do Cebolinha e do Cascão. Eles foram meus melhores amigos e até hoje têm um espaço reservado no meu coração. Todo esse mundo mágico foi criado pelo Mauricio de Sousa, que ganhou agora uma biografia bem linda, “ Mauricio-A história que não está no gibi”.

O livro é dividido em 39 capítulos onde o Mauricio vai contando sua história que começa bem antes dele ter nascido, com a vida dos seus avós e pais. Ao longo da obra vamos acompanhando as etapas e dificuldades enfrentadas por ele ao longo de sua vida. Mauricio começou a trabalhar cedo para ajudar em casa e teve os mais variados tipos de trabalho, de datilógrafo a repórter policial, até finalmente se dedicar integralmente ao desenhos. Uma vida cheia de batalhas, como a da maioria dos brasileiros, mas que teve um destino com mais coisas para comemorar.

O livro tem uma leitura bem contínua e fácil. É como se estivéssemos em uma conversa com o próprio Maurício e vamos conhecendo aos poucos todos os detalhes da vida do cara que criou a Mônica e toda a sua turma. Muito legal mesmo! Gostei de ver também como surgiram os personagens e como eles tem alguma inspiração em uma pessoa real, como no caso do amigo do Maurício que falava de maneira “elada” e ainda por cima tinha os cabelo espetados. Isso lembra alguém para vocês? Hehehe

Eu já tinha ideia de todo o sucesso da turma, mas fiquei sabendo de outros dados, como que a Mauricio de Sousa Produções já vendeu mais de 1 bilhão de gibis e tem em seu portfólio quase 400 personagens. Além de mais de três mil produtos licenciados.

Acho que toda criança deve ser apresentada ao mundo fantástico dos gibis, é uma ótima forma de se começar a construir a formação de um leitor. O gibi é cheio de cores e diálogos mais curtos que acabam facilitando o entendimento dos pequenos. Eu sempre me pego pensando, como deve ser incrível para o Mauricio saber que fez parte da infância de várias gerações. E essa é uma tradição que quero seguir e passar para os filhos que um dia eu venha a ter. Boa leitura!

Lorena Moura- Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

Eu nunca fui feminista

Por Clodoaldo Turcato

20938658_1381500245281404_785749661_nQuando fui convidado pelo querido Adriano Portela para escrever esta coluna de arte, aceitei de pronto, pois entendia que faltava alguém que escrevesse de maneira simples e até coloquial sobre artes plásticas. Todos os escritos que se vê sobre arte às vezes mais embrulham do que destrincham. Os críticos partem para o lado teórico e a pessoa que busca compreender uma obra de arte, principalmente abstrata, fica perdido em palavras e conceitos.

A proposta era escrever para que quem lesse compreendesse obras de Jackson Pollock e desmistificasse a ideia de que aquilo era apenas tinta jogada na tela, ou que O quadro negro de Kazimir Malevichnão passe duma aberração artística, uma galhofa de dois quadrados que qualquer pessoa com um mínimo de coordenação motora faria. Enfim, o objetivo desta coluna, que irá completar três anos, sendo publicada todas as segundas-feiras (com raras exceções de esquivo) é desenrolar este bicho feio chamado arte plástica e expor os reais motivos da eterna pergunta “por que aquele quadro de Pablo Picasso é tão estimado?”

Não sei se respondemos isso ainda.

De qualquer maneira, neste caminho intensificamos os estudos, buscamos referências, artistas, museus, galerias e sites e muitos livros para reforçar os argumentos. Simplificar arte não é fácil. Para isso é fundamental se aprofundar, digladiarmos com conceitos, argumentos, teses e depois transformar tudo em compreensível para o leigo ou leiga.  Neste percurso intelectual, comprovei um processo enfadonho, cruel e mesquinho que sempre excluiu a mulher artista.

No passado, existia ainda mais dificuldade para as mulheres que desejavam seguir o caminho da criação, pois, além de a sociedade ser completamente machista, com a mulher tendo seu papel enclausurado no lar, sem trabalhar, havia outras complicações. Em algumas épocas, escolas de arte que aceitavam garotas eram poucas, e as que aceitavam cobravam mais delas do que deles. Também, seria mal visto uma artista desenhar a partir de um modelo nu masculino, importante para o aprendizado da anatomia do homem, além de ser também um problema ficarem horas sozinhas com um homem que deveria ser retratado, por exemplo. Se esmiuçarmos os livros de arte deste período iremos encontrar Sofosniba Anguissola e duzentos anos depois Artemisia Gentileschi, artistas que tiveram reconhecimento, no entanto vidas privadas tumultuadas, já que pintar era ofício de homem. No entanto, é abundante o nome de artistas homens que se descrevem nestes manuais, como maravilhosos, exuberantes, gênios e tal. Para as mulheres sobram as migalhas de “mesmo sendo mulher ela conseguiu ser artista” .

Ao chegarmos ao impressionismo e expressionismo, oriundos de países ditos libertários e libertinos como a França, a mulher artista sempre esteve abaixo do homem pintor. Grandes são Claude Monet, Paul Cézanne, Edgar Degas, Pierre-August-Renoir, Camille Pissaro e Henri Matisse.  Berthe Morisot, Mary Cassatt, Eva Gonzalès e Lila Cabot Perry, dentre outras, são citadas mais como namoradas, amigas, amantes e conhecidas ou alunas de homens que pela própria obra em si.

No Brasil, o movimento da Semana de Arte Moderna de 1922, tida como revolucionária, uma proposta nova de ver arte e principalmente quebrar os conceitos da tradicional família brasileira, expôs poucas mulheres, como Pagu, Anita Malfati, Tarcila do Amaral e Elsie Houston, sempre com a entonação de quase piedade, como algo raro e espetacular, uma sensação de que por trás de grandes obras como Tropical e O Àbaporú, estaria um macaco adestrado.

Na noite de 17 de agosto, estive no Instituto de Arte Contemporânea, no Bairro do Benfica, participando do lançamento do livro De Sinhá prendada a artista visual, um projeto coordenado pela Doutora Madalena Zacarra, com as pesquisadoras Bárbara Collier, Marluce Carvalho e XavanaCelesnahe produzida pelo artista Itamar Morgado, com apoio do Funcultura. O livro reúne 87 perfis – que compreendem dados biográficos, cronologia, acervo de crítica sobre a obra e comentário – de artistas que viveram no Estado entre 1900 e 2016. Além disso, 118 outras criadoras tiveram seus dados registrados, pois não foram encontrados dados suficientes para um perfil completo. O que me impressionou neste trabalho, além da qualidade inquestionável do trabalho em sim, foi o grande número de trabalhos “esquecidos” ou maquiados por uma sociedade paternalista, parcial e apoiada em conceitos machistas.

Eu, no início citei que precisei estudar para escrever, ou simplificar. De tudo, e todos meus apanhados, pouco ou nada ouvira de Fedora Rego Monteiro, aceita em grandes salões da Europa e pouco valorizada no Brasil e Recife onde nasceu e morreu.  Menos vi de Maria Francelina que ousou pintar temas fora da mitologia ou religião e com seu belo Modelo em Repouso escancara sua técnica maravilhosa. Tantas vezes me maravilhei com o belo Vitral da Biblioteca Central da UFPE, sem saber, ou querer saber, que se tratava de uma criação de Aurora de Lima.

Sem um trabalho como este, como sabería de Marianne Peretti, Lenira Regueira ou Teresa Costa Rêgo?  Temos o privilégio de compreender mais de Isa do Amparo, Janete Costa e Ana Ivo. Como é bom ver as cores de Margot Monteiro e a singeleza de Suzana Azevedo, além da expressividade de Ana Santiago. Somente uma pesquisa refinada como essa tem condições de revolver o passado e expor o presente da criação artística da mulher pernambucana. Expor a mulher sem medos, como faz Bárbara Collier e Barbabra Rodrigues e que isso fique registrado para posteridade, é necessário, fundamental para a memória, o futuro dos estudiosos e apreciadores de arte e principalmente para compreender o processo de evolução da sociedade, com todas as mazelas sofridas pela mulher artista ou não.

Convido as leitoras e leitores a terem este livro em suas mãos. É um passeio itinerante pela história da arte, com conceito, profissionalismo, e mesmo sendo um livro criado por mulheres feministas, não levanta esta bandeira, apenas expõe a dura realidade destas mulheres nascidas para cama e mesa, que resolveram buscar seu lugar e o fazem sem meias verdades ou sombras. Elas são artistas e fim. O trabalho de ontem e de hoje cá está, o gosto pessoal e a extensão deles não cabe discutir hoje. O livro é o nosso objeto. As produções e suas artistas precisam ser registradas e ovacionadas. O passado e o presente refletem o quanto fomos e ainda precisamos evoluir na busca urgente de soluções que não escondam estas memórias.

Confesso que esta coluna não me tornará mais ou menos feminista. Não sou! Este livro me faz rever métodos e procurar melhor neste palheiro que o preconceito insiste em esconder. Talvez ao final da leitura deste trabalho eu me torne um estudante melhor, mais capacitado e encontre na Sereia de Cláudia Santos o verdadeiro conceito do ser homem, sem ser machista. 

Meus dias com você

Meusdiascomvoce_CapaWEB.jpg ok okPor Lorena Moura

Se tem uma coisa que aprendi até agora nessa minha curta vida é que o tempo passa rápido e as escolhas que fazemos moldam toda a nossa vida. Simples? Acho que não, afinal leva um certo tempo para nos darmos conta disso, eu mesma ainda estou no meio desse aprendizado. E muitas vezes costumamos jogar a culpa no “destino”, e esquecemos que somos nós mesmos que construímos esse danado. São as nossas atitudes e escolhas que definem quem somos e o que queremos.

Com gancho nesse jogo de escolhas, erros e acertos, a autora Clare Swatman escreveu o seu livro “ Meus dias com você”. A história começa em uma fatídica manhã em que o casal da obra, Zoe e Ed tem uma discussão e eles saem brigados de casa. Um tempo depois, um ônibus acerta a bicicleta de Ed e ele não resiste aos ferimentos. Zoe é surpreendida no trabalho com a terrível notícia e fica ainda mais triste por não ter dito a Ed o quanto o amava. Escolhas lembram?

Zoe fica se questionando que talvez se eles tivessem sentado e conversado, Ed ainda poderia estar vivo. E se, e se… Dois meses se passam e Zoe ainda se culpa por não ter dito que amava Ed em sua última briga. Em uma dessas suas cobranças mentais, ela cai no seu jardim e desmaia. Ao acordar, descobre que voltou no tempo e está em 1993, no dia em que conheceu Ed na faculdade. Daí para frente, passamos acompanhar os dias que mais marcaram a vida desse casal e vamos conhecendo um pouco mais sobre essas duas pessoas que se amam, mas assim como a maioria dos casais enfrenta seus problemas diários.

Nessa volta ao tempo, Zoe descobre que é possível mudar as coisas, e assim ela começa a tentar mudar para melhor pequenos detalhes da sua vida com Ed na esperança de que no futuro consiga impedir aquele acidente que no tempo presente tirou a vida de Ed. Ah, se todo mundo tivesse essa chance né? De poder corrigir alguns erros e escolhas do passado.

O bacana desse livro é a mensagem que fica, de que cada um pode mudar agora o seu futuro, não precisamos esperar por uma milagrosa e estranha volta no tempo. É se importando mais com seus familiares, sendo mais generosa, aproveitando a vida com toda a intensidade que ela nos oferece, e vivendo o presente como se cada dia pudesse ser o último.  Assim, você poderá ter menos coisas para se arrepender. Viva mais! Ame mais! Boa leitura!

Lorena Moura- Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

O incrédulo Tomé, um quadro pintado por anjos e Caravaggio

Por Clodoaldo Turcato

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Algumas obras de arte são míticas. Já se falou demais em Monalisa e teorias surgem todos os anos, sem que se saiba exatamente o que o pintor Italiano pensava naquele momento em que tinha Gioconda diante de seus olhos. Eu, mais um “teorista”, imagino que ele estaria apenas testando um novo experimento e o fato de ter criado Monalisa foi um acaso, que poderia ter sido repassado a obras como um gato, um cão, um pássaro… enfim, um contexto de claro e escuro, composição e temática tão comum a Da Vinci.

De qualquer maneira, Monalisa impressiona pela técnica, mesmo que a maioria dos que sabem do quadro não compreenda o porquê de tanta fama se é “apenas uma mulher sorrindo.” Não é isso, e comentamos sobre isso noutros textos – Não irei me repetir. Algumas outras obras são tão impressionantes quanto, e vou escrever sobre uma delas hoje, que ao meu primeiro olhar me deixou estupefato.

Aos que me classificam como modernista ou “um cara que gosta apenas dos quadros fáceis de pintar”, este texto vai demostrar que sigo com coerência minhas observações: eu não gosto de arte fácil de pintar. Eu gosto de arte. Eu tento entender a arte e não sou modernista, sou um crítico que procura o mérito sempre em detrimento do demérito. Portanto, um quadro sendo bom vai me encantar sempre. Um dos maiores mestre de todos os tempos foi Michelangelo Merisi ou Amerighi, conhecido como Caravaggio. Sua morte desgraçada ou sua suposta homossexualidade (isso em nossos tempos) são temas recorrentes. Vejam os senhores. Que pena que seja a desgraça o primordial em alguns críticos. E sua obra? E os quadros? Caravagio foi escolhido o maior pintor de Roma, isso em tempos de Rubens. Ele foi o mestre maior do Barroco e dono de uma técnica inconfundível, superior, divina.

Esta impressionante técnica foi demostrada em sua obra O incrédulo Tomé, um Óleo sobre tela medindo 107×146 cm, que está em Potsdam, Berlim, Alemanha. Depois da crucificação, São Tomé toca as feridas de Cristo para ver se são reais. As cabeças de Jesus e dos três Apóstolos são o foco da composição. O momento é intenso – os apóstolos olham por cima de São Tomé, que, com a testa muito franzida, mergulha o dedo no flanco de Jesus. O impacto deste detalhe chocantemente realista e ampliado pela luze sombras intensas.

A tela pintada por Caravaggio volta de 1601, por encomenda do Marchese Vincenzo Giustiniani, para a galeria de pinturas de seu palácio, conforme consta em: “A vida dos escultores pintores e arquitetos” de Giovan Pietro Bellori, publicado em 1672, em Roma, e também por muitos documentos que se relacionam com o inventário. Caravaggio constrói a pintura através de uma estrutura simples que, a essencialidade da cena aponta direto para o coração da narrativa evangélica. Cristo é cercado por três apóstolos, incluindo Pedro, por trás, e os outros dois na posição mais alta, e Tomé, que assustou, ao se deixar levar pelo próprio Cristo e colocá-lo na ferida em seu lado. Jesus é representado com uma tez mais clara do que o grupo de apóstolos, criando, assim, um forte contraste cromático que resultaria na narrativa; para levar os fiéis a um envolvimento direto na ação, fazendo presente do que está acontecendo debaixo de seus olhos, e para enfatizar a fisicalidade do Cristo ressuscitado como o texto do Evangelho descreve.

Os três apóstolos de sobrancelhas franzidas espontaneamente (curvas salientes) perante o mistério da Ressurreição, seus olhos e bocas estão de alerta e abertos sem uma palavra, como que petrificados; ‘um retrato do momento em que são pegos de surpresa’; diferencia a atitude psicológica de Tomé, que tem os olhos arregalados e perdeu com o olhar atônito para o abismo do que ocorre na sua frente. Jesus, inclinando a cabeça, com a mão direita desvia suavemente capa, mostrando a ferida no lado ainda em aberto e com a mão direita do apóstolo, introduzindo o dedo trêmulo de Tomé na ferida em seu lado; seu rosto parece sugerir uma expressão de dor imperceptível enquanto acompanhava o gesto que realiza com a mão de Tomé. O dedo de Tomé mergulha na carne de Jesus; a mão áspera com unhas sujas de seu trabalho diário, é a mão de todos os que são chamados por fé para crer em Cristo. O ceticismo derrete na maravilha; olhos estão bem abertos na frente dessas feridas e a boca tremendo gagueja em uma voz fraca: “Meu Senhor e meu Deus!”.

A pintura de Carravaggio apresenta uma das questões centrais do Barrico – o questionamento do pensamento religioso e, por consequência, o questionamento da existência de Deus. Tomé precisa ver para crer, assim como o homem barroco, que não aceitava mais silenciosamente os preceitos católicos, como o homem medieval. A dúvida de Tomé, metaforicamente, representa a dúvida do homem renascentista dia da perspectiva do pensamento vigente: na arte barroca, há uma tensão que nasce da tentativa de fundir visões opostas – perspectiva de antropocêntrica, herdada do Renascimento, e a teocêntrica, resgatada pela Contrarreforma, como fica evidente na dúvida demostrada por São Tomé. Tomé precisa primeiro se certificar, colocar o dedo na ferida e depois acreditar.

Caravaggio foi um criador de um movimento sozinho. Ao contrário do que se poderia imaginar, aproveita seu papel como artista “sacro” para desacreditar a própria religião. Poucos percebem que em obras como Judite e a decapitaçãoHolofernes, Salomé com a Cabeça de São João Batista, Medusa, Cristo na coluna, Flagelização de Cristo, Narciso, Cristo coroado com espinhos, David com a cabeça de Golias, A decapitação de São João Batista, A negação de Pedro, O sacrifício de Isac, Baco doente e O descanso em viagem ao Egito (onde usou prostitutas como modelo), o artista se utiliza de duetos,  formas metafóricas para demostrar sua descrença em religiões e tudo aquilo que não pode constatar.

Depois de parar para refletir em tudo isso, o leitor ou leitora, irá perceber que não tinha visto isso. Então percebam que tantas vezes não vemos o que está diante de nosso nariz por pura preguiça ou preconceito. Mesmo desatento, uma obra de Caravaggio deixará sua marca em qualquer espectador. Não se trata apenas de crer ou não em Deus. Isso é irrelevante. Se tratar de olhar a obra, entrar no quadro e sentir as emoções de seus componentes. Isso poucos quadros conseguem. O quadro O Incrédulo Tomé é um caso.

O novo livro de Dani Atkins

nossa_musica_-_capa_webPor Lorena Moura

Essa semana tive uma grata surpresa com o novo livro da autora Dani Atkins, “ Nossa Música”. Foi uma daquelas leituras envolventes, em que me peguei torcendo real por um personagem. Na história, Ally teve o seu último encontro com David há oito anos. E hoje em dia o que ela menos deseja é rever o ex namorado e sua esposa Charlotte. Mas agora Ally e Charlotte se reencontram em uma sala de um hospital, em uma noite decisiva. Cada uma em seu lugar, reza pela vida do seu marido.

David foi o primeiro amor e a primeira decepção de Ally. Eles foram namorados na adolescência e acabaram de uma forma brusca. Charlotte poderia ter sido a melhor amiga de Ally, se David jamais tivesse entrado na sua vida.

A história me comoveu tanto. Fiquei com o coração apertado diversas vezes, porque achei tudo tão real, coisas que poderiam ter acontecido comigo ou com você que está lendo essa Coluna agora. Porque Dani Atkins imprimiu um nível de realismo muito próximo do que conhecemos. É como se fosse o seu amigo contando a história da vida dele, ou aquela conversa que escutamos sem querer em um ônibus lotado. Ela nos mostra que o que somos é fruto das nossas escolhas e somos nós os responsáveis por todas as nossas decisões.

O livro é tão envolvente que nem senti as horas passando e quando vi já estava perto da meia noite. O livro aquece o coração com sua história de amor, doação, amizade, escolhas, renúncias, tempo e família. Com uma uma narrativa corrida, o livro é contado pelas duas personagens principais, Ally e Charlotte, que alternam suas vidas entre o presente e o passado.  São histórias  entrelaçadas que fazem com que você corra com a leitura para saber qual o final a autora reservou para a obra. Super indicado! Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

A arte do sonho aflito

Por Clodoaldo Turcato

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Um sentimento incomoda. Um estado de visagem. Pequenos fragmentos do sono. Sonho. Irreal, extrema sensação de aflição. Isso pode acontecer num quadro? Pode, claro que pode. Alguns pintores conseguem nos fazer sentir sensações extremas, calos na alma ou simplesmente nos forçam a olhar para o lado. Um dos pintores que mais me arrepia e me condiciona a sentimentos estranhos é Mar Chagall.

Seu nome era Moïshe Zakharovich Shagalov nasceu em 7 de julho de 1887 em uma família pobre, de dez filhos, na cidade Vitebsk, Rússia. Sua iniciação no universo das artes plásticas ocorreu em sua própria terra natal, no ateliê de um célebre pintor de retratos local. Dele Marc herdou tanto o ofício da pintura, quanto o prazer estético e a inclinação para expressar sua vocação artística.

Em 1908 ele entrou na Academia de Arte de São Petersburgo, daí partindo para Paris, o centro da cultura e da arte. Antes disso, porém, em uma passagem por sua aldeia, conheceu Bella, com quem mais tarde se casaria, retratando sua musa em 1909.Um ano depois já se encontrava na capital francesa, ao lado de Blaise Cendrars, que batizaria grande parte de suas obras, de Max Jacob e Apollinaire, bem como dos pintores Delaunay, Modigliani e La Fresnay.Na cidade-luz ele conheceu todas as nuances da arte moderna e das vanguardas, lutando para encontrar um espaço para suas miragens oníricas no universo de fauvistas e de cubistas.

Neste contexto em que imperava um sistema filosófico que valorizava apenas a forma, marcado também pela abstração, sua obra se distinguia pela presença do conteúdo temático surreal, o qual revela suas origens nas esferas emocionais e culturais do pintor.

Guilhaume Apollinaire escolheu as telas de Chagall para a exposição que realizou em 1914, em Berlim, na galeria Der Sturm. Essa exposição teve grande influência sobre o expressionismo de pós-guerra.

De volta à Rússia, quando explode a Primeira Guerra Mundial, Chagall é mobilizado, contrariando estas diretrizes, ele permanece em São Petersburgo, casando-se com Bella, seu grande amor, em 1915.Após o desabrochar da Revolução Socialista de 1917 o artista alcança o posto de comissário de belas-artes, no governo de Vitebsk, sua aldeia natal. Ele institui então sua própria escola artística, livre para incluir qualquer inclinação modernista; ao mesmo tempo ele cria murais para o teatro judaico de uma escola local.

Voltando para Paris, em 1922, reconhecido e recebido como grande pintor, ele atende a uma encomenda empreendida pelo editor Ambroise Vollard, ilustrando o Livro Sagrado e realizando 96 gravuras para um exemplar do livro Almas Mortas, do escritor Gogol, o qual só seria lançado em 1949. Uma versão das Fábulas de La Fontaine foi também ilustrada por Chagall, em 1927. Sua etapa paisagística, marcada pela temática das flores, pertence a este período.

A partir de 1935, o clima de perseguição e de guerra repercute em sua pintura, nas quais surgem elementos dramáticos, sociais e religiosos.Em 1941, parte para os EUA, onde sua esposa falece em 1944. Chagall mergulha, então, em um mundo de evocações, quando conclui o quadro “Em torno dela”, que se tornou uma síntese de todos os seus temas.

Uma das obras que resume o conceito de Chagall é Sobre a cidade, um óleo sobre tela medindo 400×200 cm. Acima de uma cidade construída por simples casas de madeira e celeiros, duas figurasfantásticas coam pelo céu. A mão do homem gentilmente aconchega o peito da mulher. Eles parecem amantes e talvez estejam fugindo. A cidade exótica e ingenuamente composta, pintada em blocos de cor, com bonitas cercas de madeira e tons quentes, mostra o interesse de Chagall por contos de fadas. Muito da imagística do artista russo tem raízes no folclore judaico de sua infância. O quadro nos dá a sensação de fuga e ao mesmo tempo de superioridade sobre a pequena cidadela, que aparentemente dorme enquanto o casal passa sem destino, olhando para trás, temendo a perseguição – angústia.

No âmbito da arte contemporânea, marcada pelo formalismo e a abstração, a pintura de Chagall se destaca pela importância que tem nela o elemento temático, de fundo onírico, que, por sua vez, reflete as profundas raízes afetivas e culturais do artista. Sua obra, moderna, assimilou todas as conquistas formais da arte contemporânea.Com o final da guerra, ele volta de vez para a França, e neste país ele elabora as famosas pinturas dos vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.Nos anos 50 Chagall viaja várias vezes para Israel, atendendo a diversas encomendas. Seus vitrais e mosaicos também se tornaram célebres, e pode-se dizer que ele demonstrou igual cuidado com a cerâmica.Em 1957, a 4ª Bienal de São Paulo dedicou uma sala especial às obras de Chagall.

Em 1973, como uma homenagem ao artista, foi aberto o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, em Nice, cidade francesa. Quatro anos depois o Estado francês entregou-lhe a Grã-cruz da Legião de Honra.Ele morreu em Saint-Paul-de-Vence, cidade do sul da França, no dia 28 de março de 1985, como um dos maiores e mais famosos pintores do século XX.

Chagall desperta de maneira zombeteira os nossos mais profundos medos, repassando em nosso cotidiano o sonho do mundo onde a sensação predomina. Não é belo nem feio, e nem pretende ser um dos dois. Chagall é cirúrgico quando nos afeta.

Outras obras do pintor são Eu e a princesa, O prometido, A chuva, Maternidade, Maria cortando o pão e O violinista verde.