Uma interpretação da vida em linhas cheias

Por Clodoaldo Turcato

Quando iniciamos o estudo de arte tudo nos parece muito parecido. Vamos iniciar por aqueles quadros mais figurativos, renascentistas e “difíceis” de pintar. Nossa concepção se aproxima da fotografia e por isso é comum que se diga “este é um grande artista, ele sabe mesmo desenhar”. O desenho é, para iniciantes, o fundamental, o crucial em qualquer obra de arte. Quando vi pela primeira vez O Retrato de Sylvete David 1 , pintado por Pablo Picasso, e o Auto Retrato de Piet Mondrian, não contive o riso. “Isso é o retrato?!”, foi minha primeira reação. Sim, eramdois grandes quadros. Esta concepção de grande só tenho hoje depois de compreender mais a arte, ver os conceitos e perscrutar a beleza das pinturas.

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Este afinamento artístico me oportunizou conhecer o traço de muitos artistas. Isto significa que depois de certo tempo, o estudante vai olhar para uma tela e definir sem medo o autor. Com tempo e dedicação se entenderá um Pollock ou um Da Vinci, um retrato de Kandinsky ou de Vermeer.De tudo, alguns artistas facilitam este reconhecimento imediato, pelo traço, uso de cores, temas ou modos. É muito mais fácil reconhecer um pintor da escola cubista do que da renascença italiana, por exemplo. Um dos traços reconhecíveis de imediato é do Colombiano Fernando Botero.

Botero se consagrou mundialmente com seus personagens volumosos, tanto em suas pinturas como em suas esculturas. Nasceu em Medellin, Colômbia, no dia 19 de abril de 1932. Com 15 anos de idade começou a vender seus primeiros desenhos. Em 1948 trabalhou como ilustrador para o jornal O Colombiano. Em 1950 graduou-se no Liceu San José de Marinilla. Em 1951 mudou-se para Bogotá onde realizou sua primeira exposição.movimento, assumindo a característica de vida humana estática. De natureza humorística à primeira vista, as pinturas de Botero são geralmente um comentário social com toques políticos.O artista Fernando Botero é um dos observadores mais agudos da conjuntura colombiana e é interessante notar os dois traços mais salientes de quase toda a sua obra: suas figuras são gordas e têm a boca fechada. Parecem pessoas bem enredadas em sistemas de clientelismo, no qual recebem comida em troca de seu silêncio.Para este artista a cor é fundamental nos seus quadros porque ilumina a pintura. Nos seus quadros somente existe a forma e a cor interior também procura sempre uma certa monumentalidade.

Uma das obras mais impressionista é Nossa Senhora de Cajica, um óleo sobre tela medindo 234,4 X 181,8. A imagem universal da Madona retratada aqui como uma figura rotunda, inflada, em seu estilo característico. Ele deu monumentalidade à mãe de Cristo contrastando-a com as minúsculas personagens que espreitam das nuvens. Além disso, a serpente na parte de baixo do quadro é invisivelmente longa, de modo a enfatizar a amplidão da figura. A obra parece satirizar as Madonas criadas até então, porém com extrema beleza e particularidades.

A obra de Botero pode ser dividida em diversos temas e modelos, porém tem componentes perceptíveis como As naturezas mortas e retratos de frutas de Botero são curiosos por trazer o volume clássico de seu estilo em formas não-humanas. Peras rechonchudas, melancias gigantescas, até as facas são mais arredondadas que de costume; Sensualidade  as formas das mulheres de Botero em todo seu esplendor. Elas mostram suas formas e opulência com certo recato, ocultando um seio ou o sexo, mas ainda assim oferecendo ao espectador a firmeza de sua carne, o olhar lânguido e ausente, a textura suave da tela ou a lisura arredondada do bronze.O fato do artista não usar muito contraste e evitar a marca do pincel nas pinturas ajuda a construir uma aura esfumaçada, quase entorpecida para o observador, com o circo um lado mais lúdico de Botero, que retrata figuras do cotidiano circense. As cores vibrantes usualmente empregadas ajudam a traduzir a alegria e festividade desse ambiente, mas, em contraste, podemos reparar em expressões plácidas, quase tristes das figuras pintadas. Isto enfatiza o lado humano e individual dos personagens: um palhaço em repouso, sem um sorriso no rosto; uma trapezista concentrada em sua acrobacia aérea; Costumes latino-americanos, Botero gosta de traduzir sua influência renascentista nos costumes do povo latino-americano. Cores fortes, toureiros, siestas e o dia-a-dia colombiano são muito importantes na composição de sua obra, apesar de dividir seu tempo principalmente entre três ateliês em cidades diferentes: Paris, Nova York e Toscana.Críticas sociais muitas vezes entram em seus trabalhos, às vezes de forma discreta e outras vezes abertamente, como a série de desenhos de 2004 retratando a violência dos cartéis de droga colombianos; as releituras como sua versão para a Monalisa, de Leonardo da Vinci, mas o pintor também já fez algumas versões de outros quatros famosos como a releitura de Jan van Eyck, O Casal Arnolfini, como também do quadro Card Players, de Cézanne, em que acrescenta uma mulher nua e até de um Papa (papa Leo X), depois da pintura de Raphael em uma versão rechonchuda e apática, entre outros; e por fim, as esculturas que mantendo seu estilo de utilizar volumes, neste caso ele usa das formas em 3d, no espaço, para retratar sua visão das pessoas e dos costumes. Sua crítica a arte atual, sempre mordaz, também se reflete em suas obras.

Botero é um tipo de artista que nos envolve em suas formas rechonchudas, sem que deixe de modelar nosso conceito, diferindo da caricatura. Não pinta pessoas gordas, as pessoas gordas refletem apenas uma preocupação estética e possui uma função estilística. O artista é atuante, mantém vários ateliês pelo mundo e obras espalhadas por todos os continentes, além de ser um dos poucos artistas latino-americanos a constar em livros e estudos de arte.

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