Um conto sombrio

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Por Jacqueline Souza

Naquela noite de setembro de 1980, deparei –me com meu corpo deitado em minha cama. Fiquei em choque, não sabia o que estava acontecendo e tentava gritar, mexer no meu corpo, tudo em vão. Comecei a chorar e a rezar, pedia que Deus me deixasse voltar. De repente, retornei como uma bomba. Acordei ofegante e completamente aturdida.

Na manhã seguinte já recuperada, contei às amigas da escola, o que me sucedera na noite anterior, obviamente que todas riram. Apesar disso tudo, fiquei intrigada, mas logo entramos em sala de aula e o assunto perdeu-se de contexto.

Ao chegar a casa, depois de terminar todos os afazeres domésticos, pois ajudava minha mãe e meu pai com os meus irmãos, porque éramos muito pobres, fui me deitar e novamente aquela sensação estranha, um torpor que me envolvia de maneira que não podia impedir…

Novamente fora do corpo, desta vez, alguém mais estava em meu quarto e me tomou pelas mãos e disse – Venha, estou à sua espera desde longa data… – não consegui ver seu rosto, confesso que fiquei com muito medo, mas o segui. Ele me levou a um casarão que tinha um salão repugnante, terrível, escuro e com um cheiro insuportável. Lá pude ver diversos corpos que serviam de alimentos para outros seres horríveis que se debatiam com ferocidade ao comer aquelas carnes…

Acordei novamente com um profundo pavor, mas enfim, fora um pesadelo – pensei.

De volta à escola, conversei com minhas amigas Ana e Simone, que desta vez, ficaram a me olhar como se eu fosse louca, entretanto me disseram pra deixar pra lá, porque a minha imaginação estava aflorada demais.

Dias depois, correu um boato nas redondezas de que algumas pessoas estavam desaparecendo, então se instalou o pânico e ninguém mais queria sair à noite. Até na rádio da cidade, pediram que ficassem em seus lares e vigiassem uns aos outros.

Logo começaram a surgir pedaços de corpos jogados nas portas das pessoas, daí a comoção foi geral e a população queria investigações sobre aquela coisa macabra, só podia ser algum psicopata desumano e cruel, todavia nada foi resolvido.

Passaram-se alguns dias e tudo voltou ao normal. Retornamos à escola e nos encontrávamos tranquilas, minhas amigas e eu, até que me recordei do sonho e disse às meninas que achava uma certa ligação com o que envolvera a cidade nos últimos tempos.

Lembrava-me do caminho e fomos a um  casarão  que ficava fora das redondezas. Já na entrada um odor de podre… e lá vimos um homem com um casaco preto, velho, parecia um morador de rua. Quando nos percebeu, virou-se contra nós e vimos seu rosto sombrio e monstruoso, com presas no lugar dos dentes. Vociferou e nos levou para dentro do salão. Havia muitos corpos lá, e também os tenebrosos seres dos infernos…

Percebemos que ele os alimentava raptando as pessoas da cidade…

Minha surpresa maior foi saber que eu fazia parte daquilo tudo, porque deixei as meninas lá para serem sacrificadas. Olhei para o homem, que era o mesmo dos meus sonhos, que me conduzia todas as noites até aquele lugar, para que me lembrasse e entendesse que eu também era responsável por aquelas criaturas…

Professora Jacqueline da Silva Souza.

Atuo na E. E. Prof. Afonso Penna Júnior e FASM (Faculdade Santa Marcelina).

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