Um achado precioso

o-menino-de-pijama-listradoPor Lorena Moura
 

E quando você pensa que todos os temas sobre o Nazismo já foram discutidos e apresentados, surge um autor que vem da Irlanda por vezes um lugar esquecido por todos e de repente coloca uma criança no meio do Nazismo que janta com Hitler e tem um amigo judeu. É quando você para (incrédulo) e se questiona sobre a qualidade e a veracidade do livro. Mas literatura e veracidade muitas vezes não caminham lado a lado. Pelo contrário elas costumam escolher caminhos diferentes. Não que uma seja mais importante que a outra. Apenas, as duas podem simplesmente não existir no mesmo livro. É essa a graça da leitura, você muitas vezes imaginar algo que não existe e passar dias achando que aquilo que você esta lendo é muito real.

Bruno é um menino de 9 anos, que como todos os outros meninos de qualquer época e lugar em que vivam, tem uma alma de inspetor Bunginganga que está sempre disposto a explorar tudo o que ver pela frente. Depois de explorar Berlim, Bruno descobre que terá que deixar a bela cidade e se mudar para um lugar mais afastado. Mas Bruno tem um diferencial. Ele é filho de um comandante Nazista. Sua nova casa fica perto de uma “fazenda”(como ele se refere a um dos muitos campos de concentração criados pelos Nazistas para dizimar todos que não fossem da raça Ariana). Bruno tem uma irmã, Gretel, que ele chama de “caso perdido”. Ela é três anos mais velha do que Bruno, mas gosta de se comportar como bem mais velha, é da juventude hitlerista e sabe que a fazenda, não é um campo de férias. A mãe do garoto, é contra o lema do Nazismo, mas também não faz nada para mudar esse quadro. Fora eles, a casa comporta Maria, a empregada, que quase não fala (por medo do que possa vim a lhe acontecer) e por Pavel, um médico judeu, preso pelos Nazistas, que usa um velho pijama listrado.

Do seu quarto Bruno costuma ver a “fazenda”, e descobre que nela existem adultos, idosos e meninos como ele. O garoto se julga infeliz por não ter ninguém para brincar, enquanto os outros meninos que vivem na “fazenda”, devem se divertir o dia inteiro. É quando ele conhece Shmuel, o menino por trás da cerca, com os pés descalços e uma expressão de tristeza. Mas, uma criança assim como Bruno. Crianças que podem estar na pior situação, mas sempre encontram disposição para brincar e fazer novos amigos.

O menino do pijama listrado, é uma obra prima, o autor utiliza um assunto batido, de interesse de todos, mas com uma abordagem totalmente inovadora. O incrível é ele inserir crianças nessa época tão conturbada. São tantas as problemáticas do Nazismo, que por vezes não costumamos lembrar que deveriam existir crianças no meio disso tudo. E é isso que John Boyne faz. Mistura realidade com uma pitada de inocência que só as crianças são capazes de ver e fazer. A narrativa é de um ritmo constante que no final pega fôlego e cresce de uma forma absurda. Os diálogos são simples, rebuscados de verdade e de intensidade. São reflexões para todos os lados. É mãe que chora, pai nazista que no fim não sabe mais porque faz isso e no final duas crianças de raça, credo e nacionalidade totalmente diferente unidas pelo simples fato de serem crianças. De acreditarem que a cerca que os divide, na verdade é só um incremento para o joguinho no final da tarde. John Boyne construiu um achado perdido, e não um “caso perdido” como Gretel. São páginas de risos e choros, que se intercalam rapidamente.

E quando a leitura acaba fica uma sensação de vazio e de revolta. Não porque o livro fica devendo algo, mas sim por lembrar que foi real, e que o mundo real diferente da literatura pode não ser tão agradável quanto parece.

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

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