Tem lugar a poesia?

download (2)Por: Danuza Lima

O sumiço habitou as páginas em branco dos cadernos, os passos surdos desses pés que andam, caminham, sem chegar a lugar algum… Contudo, a poesia, ou como quiserem chamá-la, mantem-se aqui, zunindo em meio a insônia, pragmatizando o holocausto que parece ser o nascimento do verbo.  

[Nunca decodifiquei a rosa-dos-ventos, não é minha pretensão a medição, a normatização, tampouco a ostentação, tão em moda. Não gosto dos modismos, apenas aqueles que se fazem velhos.]

Talvez a  poesia se tenha feito velha, anciã… quem sabe?

Não há estatuto para  velhice da poesia.

Há algumas semanas, a Academia Brasileira de Letras divulgou nota esclarecendo a ausência de premiação para o gênero poesia, a justificativa: “nenhum livro publicado em 2014 agradou a comissão julgadora”. Apesar das discussões por deveras agressivas levantadas tanto nas redes sociais quanto nos jornais, revistas, fanzines, folhetos etc, o caso ainda repercute e em meio a tantos comentários, tendenciosos, imparciais e de coligação, vale a pena pensar:

Tem lugar a poesia?

Pode ser entre o cisco do olho e o argueiro, deve ser.

Não. É.

Se poesia é revolução, tem que causar incômodo. Incômodo? Onde? Quando?

[É sempre bom deixar as sutilezas. Corriqueiramente, elas nos conduzem as esferas imaginativas da razão impura, como o poema, impuro.]

Normal, a literatura parece urgir sobre uma doença ou uma loucura, delírio. A doença de permanecer “atento e forte”, a loucura em delírio de “não ter tempo de temer à morte” a cada palavra posta. E por mais ausentes que sejam tanto a crítica [que ainda mantem-se distante da produção atual], do próprio poeta, revolucionário em sua essência, nega-se a publicações oficiais, contudo, a poesia está aqui, ali, aí. Há motivos de queixas e suas respectivas razões por ambos os lados, justificáveis, não levanto bandeira, apenas visualizo os pormenores dos fatos…

Mesmo na existência absurda de prognósticos de que hoje, limitemos o verbo a caleidoscópicas imagens Klimtianas recortadas em fagulhas iluminativas, pondo floreios bonitos no discurso poético, porque se há lugar para a poesia, seu canto de sala é o incômodo, o azedo de um refluxo, há de surgir a cada holocausto verso, a lâmina sangrenta de uma nova voz a desabar da timidez.

Tem lugar a poesia desde o nascimento da catástrofe, da dor e da morte, que nos gera doentes, loucos e decrépitos. Das dissonâncias entre o que sou e onde estou. Tem lugar a poesia na fome secular dos excluídos, no grito agudo da criança que desvela o mundo amarrada a um cordão de sangue. Desde a objetiva de Hitchcock a Wood Allen, há espaço e lugar precisos para a poesia.

Não tragam ilusões que o material é corrosivo e se alimenta do fel do poeta e da sede do leitor. Tratados são inúteis, não legalizam o espaço que deve ocupar o discurso poético, só hipotetizam futuras verdades, utópicas, mas quem um dia, não confiou à Florbela Espanca os segredos de um sonho amoroso?

Esta poesia é do escombro. Que poesia? Esta, do arguto e singular tóxico da era. Esta que priva a parca plateia do aplauso, que trava a saliva na boca e faz arregalar os olhos, preencher os dias intranquilos deste tempo. A “esta” para o “este”. 

Sem mais delongas, há espaço sim, só não há a taça que aceite a estriquinina  radioativa da poesia.

Me calo e espero os percalços.

Danuza Lima é escritora, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE. 

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