Teimosia nossa de cada dia

Pensando-em-se-matarnem-pensar-200x200

Por Limar Macedo (poeta, publicitário, ácido!)

Inverno no Recife, 28°. A cidade teima em não obedecer às estações do ano, e castiga quem vive nela. Eu vinha de passagem pela Praça do Derby quando parei para comprar aquela água de 1 real no fiteiro Frei Miguelinho. Nisso, a dona do fiteiro conversava com a filha. Uma jovem de dezoito anos, morena, cabelos cacheados. Sentada num banquinho, ela só ouvia a mãe descarregar o caminhão da experiência naquelas palavras dirigidas aos ouvidos da filha. Olhando pro chão estava a jovem. Me parecia ser um momento interessante para aprender naquele dia. Resolvi esperar meu ônibus, o sol já havia me vencido. Eu resolvi esperar meu ônibus e ficar por ali… A conversa era “problemas amorosos” que a filha estava passando. Aí eu só lembro que ela começou a falar: “Tá bom, vai lá, vai acreditando nisso que te falam. O amor é invenção. É correr atrás do invisível. Tu já viu o amor, menina? O amor só está na sua cabeça, é imaginação. Como você pode acreditar numa coisa que não vê? Quem inventou Deus, inventou o amor. Tudo para manter o ser humano preso a alguma coisa. É a bola de ferro que prende a gente na terra.  São os óculos de grau que deixa meu povo vesgo. O amor é certeza. E a certeza dói, minha filha. A certeza dói por ser a mesma coisa: Amar, morrer. É melhor se divertir. Sem contrato e sem avisos. Eu queria ter a tua idade e não dar bobeira pro amor como eu fiz antes. O amor é lei. Fui sujeita ao teu pai, somente por amor. O amor dói porque prende. Eu só pensava em tu. Por isso que eu fiquei. Não quero que você passe o mesmo, filha. Olha pra mim, – A filha levantou a cabeça. Minha filha, você é nova para amar.” O dia? Era domingo.

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