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O zen-budismo e a influencia sobre a arte oriental

Por: Clodoaldo Turcato (artista plástico, escritor, jornalista).

14375374_1055005607930871_725864959_o (1)Todo estudo de História formal que conhecemos, sempre foi feito com base na trajetória humana ocidental. Se algum alienígena chegasse a uma cidade Europeia e fosse estudar História, imaginaria que o mundo se resume ao Ocidente. A parte Oriental no mundo surge vez por outra quando se faz necessário embasar os feitos “heroicos” do ocidente, ignorando a ampla cultura oriental.

Em artes é um pouco mais terrível este descaso. Aqui tem o ingrediente de mercado que não se faz de rogado em tentar inibir uma possível concorrência que uma expansão dos estudos sobre o Oriente pudesse causar. O mesmo se faz com a América do Sul. Nenhum artista Sul Americano foi reconhecido da Europa para cá. O artista tem que sair daqui, ralar na Europa e Estados Unidos e ser descoberto pelo mercado local e daí se expande. Vejam os casos recentes como os Pernambucanos Cicero Dias e Romero Brito. O mesmo se diga da maioria dos Orientais que aparecem para o mundo. Eles sempre migram para os Estados Unidos e Europa e desponta com seus trabalhos.

A arte oriental foi descoberta e admirada pelos maiores artistas europeus dos séculos XVIII e XIX, influenciado em seus trabalhos. A arte japonesa, principalmente, determinou alguns movimentos artísticos e abriu a visão de artistas como Monet, Cezzane, Tissot, Picasso e Matisse, só para citar alguns. Porém, a obra chegava a eles por envio de amigos em viagem pelo Japão, compras em feiras locais, etc,  nunca por uma exposição exclusiva ou vinda do mercado.

Este vácuo prejudica muito ao estudioso que fica rodando sempre nas mesmas escolas, conceitos e estilos, minimizando o que poderia ser melhor aproveitado se houvesse um estudo sério de arte mundial e fossemos buscar obras em países como Vietnã, Correia do Sul, Mongólia, por exemplo.  Neste texto de hoje, tentaremos mostrar um pouco da arte japonesa, um resumo de um período importante da presença zen-budista que se enraizou até nossos dias por todo Oriente.

O fundador do zen-budismo, Bodhidharma – também conhecido como Daruma(em atividade no século V) -, foi um lendário monge indiano que viajou para aChina com o intuito de pregar seus ensinamentos radicais. O zen (chán, em chinês) enfatiza a autoconfiança e a prática da meditação, rejeitando os estudos tradicionais das escrituras budistas e a realização de complicados rituais. O Zen foi introduzido no Japão no século XIII por monges japoneses que viajaram para a China a fim de estudar as mais recentes doutrinas. A simplicidade e a autodisciplina rígida ensinadas pelos mestres zen atraíram a classe dos samurais (guerreiros), e muitos templos zen foram construídos no Japão entre os séculos XIII e XV.

Os monges japoneses trouxeram da China não apenas os ensinamentos zen, mastambém muitas obras de arte, entre elas pinturas a nanquim e caligrafias; os monges introduziram também o costume de beber chá em pó em tigelas de cerâmica. O comércio com a dinastia Ming (1368-1644) chinesa foi estimulado pelo xógum (governante militar japonês), e os monges zen eram a vanguarda desse intercâmbio cultural e econômico com o vizinho do continente asiático. Templos zen foram fundamentais para as atividades religiosas e artísticas dos monges, e a pintura com nanquim e a caligrafia tornaram-se parte da educação. No Japão secular, a estética zen também foi adotada com entusiasmo pelos xóguns e suas cortes, e o zen se tornou o ideal filosófico mais importante a moldar a cultura japonesa nos séculos seguintes. Muitas das formas de arte ainda praticadas no Japão de hoje, como a cerimônia do chá, a pintura com nanquim, o teatronô, os jardins de pedra e os arranjos florais, desenvolveram-se nesse período sob influência do zen-budismo.

Os jardins de pedra zen, chamados kare-sansui (paisagem árida) não exibem as árvores e plantas coloridas que caracterizam a jardinagem ocidental. Os jardins de pedra do templo Ryõan-ji, em Kyoto, contêm apenas 15 rochas de tamanhos variados, dispostas em canteiros retangulares cobertos com pedregulhos brancos. As pedras são distribuídas em grupos de sete, cinco e três, e os pedregulhos rastelados criam a impressão de um vasto oceano pontuado por pequenas ilhas. Os observadores são convidados a interpretar esse cenário puro e contemplativo a seu modo.

As pinturas chinesas feitas com nanquim eram muito admiradas no Japão, e os xóguns formaram uma grande coleção dessas obras de arte. Monges em monastérios Zen a princípio Copiaram as técnicas de pintura Com nanquim chinesas, mas aos poucos desenvolveram uma nova abordagem temática e um estilo mais adequado aos japoneses. SesshüTõyô (142O-15o6) foi um monge pintor que estudou com o mestre da pintura de paisagens com nanquim, TenshõShubun (1418-1463), no famoso templo zen Shokoku-ji, em Kyoto. Depois de estudar a técnica da pintura com nanquim ao estilo Song chinês, Sesshü viajou para a China afim de estudar as obras de artistas Ming da época. De volta ao Japão, ele se fixou em Yamaguchi, no oeste do país, e abriu um ateliê de pintura onde continuou produzindo paisagens Com seu estilo extremamente espontâneo. Sua tela com seis painéis dobráveis Pássaros e flores das quatro estações: outono e inverno, na qual o outono é retratado à direita e o inverno à esquerda, é uma impressionante composição que sugere uma incrível profundidade espacial. Os galhos em primeiro plano servem Como moldura para uma vista distante das montanhas, que são representadas com pinceladas e tons de nanquim extremamente contidos. Os desenhos de pássaros e folhas refletem os modelos chineses que Sesshu havia estudado, e não a preexistência de uma tradição japonesa.

Um Século mais tarde, a pintura com nanquim japonesa alcançou um novo patamar de sofisticação técnica. A imagem de Daruma pertence a um gênero devocional no qual os retratos do fundador do zen-budismo são feitos com pincele nanquim Como um caminho para a iluminação espiritual. O artista desenha a cabeça e os cabelos do fundador com várias linhas finas, contrastando essa técnica delicada Com as pinceladas rápidas e amplas que representamas Vestes de Daruma. Diferentemente, astelas intituladas Floresta de pinheiros criadas por Hasegawa Tohaku, um nanquim sobre papel medindo 156×347 cm,  no mesmo período, exibem um estilo alegórico e etéreo.

No Japão, o ato de beber o chá foi aos poucos transformado numa forma de arte que incorporava a estética zen. O mestre Sen no Rikyū (1522-1591) pediu ao ceramista Chojiro (1516-1592) que criasse tigelas de chá que personificassem seus ideais de beleza natural. As tigelas de Chojiro receberam a aprovação do líder militar ToyotomiHideyoshi (1536-1598), que apelidou Chojiro de “Raku”, o qual acabou estampado nas tigelas. As cerâmicas Raku eram feitas à mão com argila, queimadas individualmente em altas temperaturas e logo depois esfriadas. O esmaltado escuro e grosso ressalta a cor verde do chá e a forma irregular da tigela Confere um prazer tátil ao usuário. Os descendentes de Chojiro continuam a fazer as cerâmicas Raku até hoje.