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A velha da cumeeira

13995645_1224311070923111_6505795813293242401_oPor Jacqueline Souza

Quando era criança sempre ouvi os mais velhos repreendendo as pessoas que chamassem nomes feios, como palavrões. Mas havia uma em especial, que se pronunciada traria muito mal para a vida de quem a proferisse.

            A maioria das crianças tem medo de “malassombro”, assim como eu. Meus pais são pernambucanos e meus irmãos e eu nascemos em São Paulo. Eles trouxeram uma bagagem de contos que arrepiam. Na terra deles, essas histórias eram contadas nas calçadas. As pessoas se juntavam à luz do candeeiro e conversavam sobre muitas coisas, inclusive de terror. Em nossa casa, ao faltar energia elétrica à noite, meu pai nos falava de tais episódios. Depois dormíamos com medo.

Um dia resolvi perguntar na escola para os amigos e até para minha professora, qual palavra não se poderia dizer. Todos me olharam com cara de não saber sobre o assunto. Fiquei desapontada. Talvez fosse um conto regional, pensei.

            Cheguei a casa e corri para falar com minha mãe que lavava as roupas. Ela me fitou demoradamente e percebendo que aquilo me afetava, pegou-me pelo braço, chamou meus irmãos e decidiu contar para nós o caso da velha da cumeeira.

            Nem conhecia essa palavra. Explicou que se tratava da parte mais alta da casa, o encontro entre os telhados, na verdade, o cavalete do telhado. Então, neste instante, olhamos para cima, nossa casa possuía uma cumeeira.

            Relatou-nos que havia no sertão de Pernambuco um homem muito “brabo”, ignorante e chamava todos os tipos de palavrões. Ninguém conseguia suportá-lo de tão rude e arrogante. Morava numa casa imensa com quintal enorme, com banheiro fora da casa, no fim de um corredor. Para mim, um banheiro tem de ser dentro de casa, enfim, voltemos ao conto.

            De repente, uma grande seca veio para aquela região e todos tiveram de sair daquele lugar. Ele, contra a vontade, começou com suas lamúrias, blasfemando, chamando todos os tipos de impropérios, todavia precisava ir embora ou morreria de sede e fome. Pegou suas coisas e sentiu uma mão em seu ombro. Levou um susto terrível, seu coração bateu desesperadamente. Olhou para trás e viu uma velha carcomida com uma trouxa de roupas nas costas. Usava um lenço rasgado que cobria seus cabelos esbranquiçados. Um hálito tenebroso e apodrecido. Assustado perguntou quem era ela e o que estava fazendo em sua casa. Ela respondeu:

¾ Ora, sou sua companheira, moro na cumeeira…

Ele começou a rir. Não entendia suas palavras, como poderia morar em seu lar se nunca a vira por lá e ainda na cumeeira. Deve ser alguma velha maluca. Decidiu perguntar seu nome.

- Afinal de contas, quem é a senhora?

Com uma risada no canto da boca disse:

- Você não sabe? Viveu sua vida a me chamar todos os dias. Acabou de me invocar, não se recorda?

- Não chamei ninguém, muito menos invoquei! A senhora deve ser doida! Isso sim! Saia daqui!

- De jeito nenhum!

- Saia, desgraça!

- Ora, lembrou-se de mim?

- Do que está falando?

- Meu nome é Desgraça! – riu descontroladamente e desapareceu como num passe de mágica.

Ao ouvir aquilo compreendeu que havia chamado para si o mal. Dizem que deixou de falar palavras de baixo calão e principalmente aquela palavra abominável e enquanto viveu, ensinou sobre o seu causo de horror.

Depois disso, nós também aprendemos a não pronunciar tal palavra. Não sei se é verdade, entretanto, mães não mentem. Na dúvida, melhor não dizer, vai que a velha da cumeeira aparece…