Tag: texto

O texto que é o mundo

12742813_910810955683838_6743114343016444486_n

Por: Danuza Lima

O texto que é o mundo não é um texto único: cada página é tradução e metamorfose da outra, e assim sucessivamente. O mundo é a metáfora de uma metáfora. O mundo perde sua realidade e se transforma numa figura de linguagem.

[Octavio Paz, Os filhos do barro]

Juncos, linhas, agulhas e o desespero da caneta parada, eis as categorias de uma escrita. Os juncos que nos ligam à terra, ao barro do qual mitologicamente viemos, as linhas das palavras que nos distanciam do animal que lutamos para erradicar em nós, as agulhas para costurar as linhas no tecido enigmático do texto, o desespero de burlar nossas inquietações. Tal metaforicamente [permita-me dizer que isto é um devaneio] se resume a composição lírica. Por toda a vida é a briga para moldar o barro da vida, transpô-lo em matéria sensível, audível, inscritível – para não nos distanciarmos das fórmulas matemáticas –, eis o poema. O mundo é vasto, mas tão íntimo quanto nossas mais efêmeras dores e inquietações, o texto é tão plural, mas tão nosso quanto qualquer palavra que no ambiente da mente ainda não foi professada.

“O texto que é mundo” me empresta a metáfora.

O mundo que somos nós me empresta a certeza.   

Se o texto se funda em um oco – espaço entre o silêncio, a experiência do mundo em nós e as palavras – os poetas são decifradores de enigmas do mundo. Encarceram-se nesse oco embrionário da linguagem e retornam a superfície munidos do princípio ativo da vida, sua essência. A tarefa de cifrar a realidade tangível, a essência da vida e novamente torná-la cifrada somente se efetiva na perspectiva de um texto que é o mundo, de um texto que responda as inquietações, ao desespero e apresente novamente os juncos ao qual nos ligamos. O que quero dizer é que mesmo absurdamente solipsista, mergulhado no Daisen, o texto é o mundo e sua presença em nós, avisa-se na sua decifração constante. É o tecido da vida costurado sob uma malha fina, composta por outros textos – cuja definição permanece a mesma – um palimpsesto para ler a vida. A experiência da vida, sua cifra na escrita e a constante interpolação de baús míticos reconcilia o texto com a história, o torna único, “metáfora da metáfora” da vida. Não há quem duvide ao abrir um poema para o seu mundo particular ver saltar sua própria vida e sentir um cheiro úmido de um junco milenar, não se assuste, é somente você, vertido em metáfora do mundo em texto.

Danuza Lima é escritora, professora e mestran

Vida Virtual: realidade escrava

12208160_873757902723518_2145342235_nPor: Milissa

Quando a internet era discada, eu lembro que além dela, tudo era precário: relações pessoais e tecnologia, principalmente. Todas as pessoas conhecidas: os amigos, a família ou colegas de trabalho, queriam ter um relacionamento e, pra isso, criavam pseudônimos escrotos com medo do outro pseudônimo, que podia ser um bandido, um pedófilo ou um mero senhor e senhorita de bem. Como podia uma coisa dessas engrenar? As pessoas eram falsas ideologicamente e a tecnologia não era dominada. Tosco!

Hoje, diferentemente do passado, óbvio, ‘dominamos’ a tecnologia avançada e temos vidas compartilhadas com estranhos ou não, sem medo. Sem pseudônimos. A internet evoluiu, mas as relações continuam precárias. Os sites de relacionamentos são quase extintos. Claro, sempre tem um ou outro levantando os acessos. Mas foram as relações que agora mudaram de ângulo: o objetivo é afetar seu concorrente ou dar dicas do seu dia a dia pros amigos. Aos concorrentes, temos que causar inveja e avançar de nível. Quem não aguenta a brincadeira só faz olhar, mas vou te contar: quase ninguém olha. É uma corrida insana pra saber quem chega na frente. Aos amigos, os poucos amigos, são apenas indicações, lembranças de dias especiais e um contato rápido.

Funcionamos assim: ‘’Quer saber onde estarei? Entra na minha Time Line e procura o evento que confirmei para o dia.’’ ‘’Quer falar comigo? Nem me telefona, estou online a todo momento, aparece no chat. ’’ ‘’Quer saber se estou bem ou mal? Minhas publicações estão aí. ’’ ‘’E se estou rico ou pobre? É só prestar atenção nas minhas fotos. ‘’

Um dia, parada na parada, esperando o ônibus 1990 sentido Olinda Sítio Histórico, um senhor, vendo todos estáticos em frente a um pequeníssimo celular móvel, como robôs serventes da internet, pensando que as relações eram somente as virtuais, me disse: “minha jovem, uma coisa que não me conformo, é essa vida na internet. É verdade que ela nos traz informações sábias, mas servir a um negócio desse chamado de rede social, como vacas seguem o boi, é tolice. Socializar é contato vivo: ouvir a voz, tocar na pele. Claro, isso foi uma boa ideia, tudo sempre é. As pessoas que são ignorantes e não entendem o propósito. Essas redes são pra auxiliar e facilitar a vida da gente, não viciar e nos deixar eternos drogados. Olhe, a escravidão foi abolida há tempos, mas ainda existem escravos: nós criamos uma realidade que serve escrotamente à internet. Ninguém vive, se não for para ela. Ainda bem que tudo evolui, ou pelos menos, muda.’’

E assim, como o senhor, espero o progresso das pessoas. Uma nova abolição!

Milissa é artista plástica, compositora, roteirista e produtora de cinema.

Becky Bloom voltou

pyupftrJa0M96LdxN_EryP9u0LK5lPjlCNPEAzXyXYEPor Lorena Moura

Ao escolher um livro da Sophie Kinsella para ler, a única certeza que tenho é que vai ser uma leitura super divertida. É a mais pura verdade. Se você leitor, já leu algum livro dessa autora sabe do que estou falando, mas se ainda não teve essa oportunidade, o único conselho que eu posso dar é o seguinte: corra já e garanta o seu exemplar. Ela já tem tantos livros publicados no Brasil, que você vai ter diversão garantida pelos próximos meses.

É incrível o poder dessa escritora. Ela nos contagia logo de cara com a sua criatividade e animação. E é essa energia que ela coloca na sua personagem mais conhecida e querida, a linda e irreverente Becky Bloom, ou melhor, agora é a senhora Brandon, já que Becky virou uma mulher casada. Nessa nova aventura, a consumista mais alucinada do mundo, vai chegar em Hollywood. Já pensaram as confusões que ela vai armar por lá? Pois Sophie pensou, e nos apresenta agora no seu novo livro, lançado este mês pela Editora Record, “Becky Bloom em Hollywood”.

E dessa vez, ela tem muitos motivos para surtar, afinal ficar perto dos homens e mulheres mais cobiçados do mundo, pode ser muito interessante. E claro que Becky vai tentar se infiltrar nesse meio, e levar todo o seu conhecimento de moda e glamor para essas celebridades. Toda essa loucura começou, quando o marido de Becky, o Luke é contratado para cuidar da carreira de uma grande atriz, e esse é só o primeiro passo para Becky já começar a imaginar que ela também está destinada a ser produtora de uma grande celebridade. Mas a confusão começa a piorar quando ela entra para a equipe da maior inimiga da cliente de Luke. Já imaginaram? Serão muitas gargalhadas e aquele desejo louco de se tornar amiga da Becky. Ah, e Alicia, uma rival de Becky está de volta e agora é uma das mães mais queridinhas da pré-escola de Minnie(a filha de Becky).

A história é a de sempre, Becky armando as maiores trapalhadas e tentando consertar todas as burradas que ela mesma cria. Mas sempre, Kinsella consegue se inovar. Ela nunca cai em um lugar comum. “Becky Bloom em Hollywood”, é mais bom motivo para continuar acompanhando o trabalho dessa escritora britânica. Porque uma coisa é certa, talento ela tem, mas o que a torna tão especial para os seus fãs é o fato dela conseguir deixar o mundo mais leve e colorido com todas as loucuras e graças da sua Becky.

Lorena Moura-Jornalista
lorenamoura87@gmail.com

Machadomania

machado2Por Adriano Portela

Na última terça-feira estava gravando o meu programa de web TV, o Parlatório TV (que vai ao ar todas as quintas aqui neste portal) quando escutei uma frase do ator Talles Ribeiro que me chamou bastante a atenção: “fui dar aula a criançada, comecei por Dom Casmurro e os meninos enlouqueceram, eles são fascinados por Machado de Assis, Machado é tipo um Justin Bieber em Vitória de Santo Antão.’’ A partir daí fiquei pensando nessa “machadomania”. Recordei-me que em julho deste ano, quando estava em Belém do Pará, no Abralic – Congresso Internacional de Literatura Comparada -, fui assistir a uma mesa com o professor curitibano  Ismail Xavier, e depois de muito tempo foi que consegui um lugarzinho no chão e no corredor. O assunto: Machado! O professor abordava a questão da adaptação da obra do autor para o audiovisual, trazendo por referência a microssérie Capitu, escrita por Euclides Marinho, dirigida por Luiz Fernando Carvalho e exibida em dezembro de 2008 na Rede Globo. A palestra foi um sucesso e público parecia não querer ir embora. 

Joaquim Maria Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, desperta até hoje a curiosidade de milhares de brasileiros, sem mencionar os admiradores internacionais. Falando em curiosidade, fiquei querendo saber quantas dissertações e teses já existem sobre o escritor. Uma conta hoje quase que impossível; só no banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de pessoal de nível superior, a Capes, são, até agora, 221 registros; no site do Ministério da Educação são 161, e se você for pesquisar pelos registros, apenas das universidades federais, esses números já triplicam. Na minha turma de mestrado mesmo, na UFPE, tem gente estudando o “bruxo do Cosme Velho” (epíteto consagrado a Machado, depois de um poema do Drummond).

Autor de dez romances, e mais um batalhão de contos, poesias, crônicas, textos para teatro, traduções e por aí vai, Machado sai da literatura e frequenta outros ambientes também. Na última quinta-feira (17), a jornalista Denise Godinho comandou um encontro sobre gastronomia, na Fundação Ema Klabin, em São Paulo. A mostra chamava-se “Capitu vem para o jantar”. Um dos objetivos era saber quais os hábitos alimentares da época em que Machado escreveu Dom Casmurro.

Um mês antes da mostra gastronômica, o escritor ganhou um aplicativo. O intuito era mostrar ao turista os principais pontos do Rio de Janeiro, cenário das obras machadianas. Capitu e Bentinho, por exemplo, foram moradores da rua Riachuelo, na Lapa. O projeto, que mostra vida e obra do autor, foi desenvolvido pela 32 Bits. A novidade foi testada e agora a empresa promete que o app ficará disponível para ser baixado tanto para iOS quanto para Android no dia primeiro de outubro, e será totalmente gratuito.

Enfim, a coluna de hoje foi mais um milésimo texto sobre o bruxo do Cosme Velho, e isso é muito bom, pois, quanto mais ressaltarmos o nosso adorado escritor, mais fomentamos e despertamos a curiosidade da massa para leitura das suas obras. Vida longa ao nosso, literalmente, IMORTAL!

Adriano Portela é jornalista, escritor, mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE e autor do romance “A última volta do ponteiro” (prêmio internacional José de Alencar 2012, pela UBE-RJ).

Nelson Rodrigues em “A desconhecida”, de “A vida como ela é”

capa a vida como ela é 2Por: Adriano Portela

O filme e a literatura

Em meio a essa indústria cultural imagética que vivemos, diversos são os debates em torno da adaptação livro-filme. Não vou entrar na discussão sobre a fidelidade ao original, até porque esse é um tema já bem analisado pelos pesquisadores. Prefiro ficar na condição de “ganho’’, mantendo viva a obra de Nelson, numa crescente: texto, cinema, TV e internet. Gosto de lembrar a definição do poeta John Keats, quando diz que a obra de arte é uma alegria eterna.

Nelson Rodrigues e o audiovisual

O professor e pesquisador Ismail Xavier ressalta que Nelson é um dos autores mais transcodificados para o audiovisual. Antes das adaptações para a televisão e para o cinema, Nelson, em 1963, já escrevia direto para a mídia TV. Sua primeira telenovela foi encomendada pela TV Tupi e chamava-se ‘’A morta sem espelho’’. Um ano depois ele escreveu ‘’Sonho de amor’’, com Fernanda Torres no elenco, e ‘’O Desconhecido’’, estrelado pela atriz Nathalia Timberg. Em seguida vieram às adaptações para as telas. As novelas “Meu destino é pecar” e as duas versões de “Engraçadinha” – a última com atuação de Alessandra Negrini. As telenovelas foram exibidas na Rede Globo de Televisão.

O cinema serviu como grande divulgador da obra do pernambucano. Até agora mais de 20 filmes foram baseados nos textos de Nelson, e alguns com mais de uma versão, como, por exemplo, “Bonitinha, mas ordinária”.

A vida como ela é – Jornalismo, Literatura e TV

“A vida como ela é” foi uma coluna, a princípio, publicada no jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer. Nelson, que já havia passado pelos periódicos A Manhã, Crítica, Jornal dos Sportes e O Globo, aceitou a proposta do editor e começou a entrar no ramo do jornalismo policial literário. 

A coluna, inaugurada em 1951, foi um sucesso e durou dez anos no Última Hora, em seguida ela passou a fazer parte do jornal Diário da Noite, de Assis Chateaubriand. “A vida como ela é” trazia como tema principal, retratado nas quase duas mil histórias, o adultério. O cenário era o Rio de Janeiro e os personagens integravam a sociedade carioca dos anos 50. Nelson tornou-se um dos jornalistas mais famosos do Rio de Janeiro e a coluna começou a deixar o papel, partindo para outras mídias. Foi de “A vida como ela” que “A dama do Lotação” (um dos contos) ganhou adaptação para o cinema e teve um sucesso esplendoroso.

Em 1996, o Fantástico, programa de jornalismo e entretenimento da Rede Globo, levou o universo rodriguiano para a TV. Euclydes Marinho, autor de séries de televisão e também diretor de fotografia, foi o responsável pela adaptação e criação dos roteiros; a série homônima teve 40 episódios, cada um com aproximadamente nove minutos, e foi filmada em película, o que deu um tom cinematográfico ao trabalho.  A direção ficou por conta de Daniel Filho e Denise Saraceni; no elenco nomes como Tony Ramos, Malu Mader, Marcos Palmeira, Laura Cardoso, Gabriela Duarte, Maitê Proença e outros. Os narradores foram Hugo Carvana e José Wilker.

A desconhecida – do texto ao filme

Na reedição de “A vida como ela é” (2006), da editora Agir, o conto “A desconhecida”, é o último das cem narrativas publicadas no livro e um dos primeiros episódios da série homônima exibida no fantástico; se formos tomar por base a gravação em DVD, o episódio é o primeiro do segundo volume. Na adaptação para a TV, a história ganhou novo nome, passou a chamar-se “Para sempre desconhecida’’. Para tentar entender o porquê de esse título ter mais palavras do que o título literário, poderíamos levar em conta as seguintes hipóteses: primeiro, a televisão precisa vender, anunciar o seu produto, é uma mídia que, na realidade, vive de chamar o público para assistir a sua produção, essa seria uma alternativa; segundo, podemos levar em consideração a questão pessoal, sabendo que o adaptador, Euclydes Marinho, gosta de títulos grandes. O seu primeiro trabalho no cinema levou o nome de “A Estrela Sobe (1974)’’, de Bruno Barreto; na TV, integrou a equipe de autores da série ‘’Ciranda Cirandinha’’ (1978), e a sua, até agora, produção mais recente, a minissérie, cujo título é: “Felizes para sempre?’’ (2015), de Fernando Meirelles. Em entrevista ao site Memória Globo, Euclydes define seu modo de produzir: “O jeito como eu trabalho é muito curioso. Detesto pensar antes, detesto fazer escaleta. Gosto de sentar e escrever. Quando paro de escrever e me levanto da cadeira, esqueço o que estava escrevendo’’.

A desconhecida traz a história do namorador Andrezinho (Marcos Palmeira), que recebe um desafio de conquistar uma mulher belíssima, o problema é que Peixoto (Tony Ramos), o mesmo que lançou a proposta, implica em não dizer o nome da donzela. Andrezinho acaba se apaixonando por uma dona cujo rosto ele nunca tinha visto. A trama se passa, em grande parte, em um boteco no Rio de Janeiro.

O conto possui apenas cinco páginas, na TV a narrativa ganha nove minutos. A série tem uma abertura padrão e uma trilha sonora temática. Quase todos os episódios são iniciados com a imagem de uma máquina de escrever (poucos são os que começam com alguma cena e um pequeno trecho de diálogo). Em primeiríssimo plano[1], o telespectador vê o título do episódio sendo escrito, escuta o som da máquina de escrever, e em seguida se depara com a inesquecível trilha sonora, a música “This Gun For Hire”, de Jazz at the Movie Band, e a voz do narrador (José Wilker) iniciando a trama. Outras músicas que estão em quase todos os casos narrados são: Me deixas louca, de Elis Regina; Ouça, de Maysa; Segredo, Dalva de Oliveira; Se Queres saber, Nana Caymmi e Ilusão a toa, de Jonny Alf.

Devemos observar que os narradores – conto e TV – são diferentes, cada um tem uma característica própria, mesmo que, em alguns trechos do filme, a narração do texto apareça na íntegra. Como distinguir essas diferenças? Basta analisar ambos, o narrador do texto preza por mais detalhes, o do audiovisual é mais objetivo. No livro, por exemplo, ele traz informações do tipo: “Aproximava-se segurando um pedaço de pão e ainda mastigando’’; na telessérie o personagem Peixoto já entra em cena dialogando e sem o pão. O narrador fílmico só é um pouco mais detalhista na abertura do episódio, já que ele precisa apresentar o protagonista ao telespectador e fazer com que ele se interesse pela história. A finalidade: audiência. ‘’A princípio Andrezinho fazia por brincadeira, mas com a repetição aquilo tornou-se um vício, o fato é que perguntava por toda parte’’. No papel, a narrativa é iniciada justamente com essa pergunta de Andrezinho “Sou ou não sou bonito?’’.

Na TV alguns elementos podem resolver as passagens de tempo, desde o próprio narrador, como imagens de apoio, ou transição entre cenários. No livro, a troca de cenários fora resolvida com o simples intertítulo: “o bonito’’. No vídeo, precisou-se do narrador, da trilha e da imagem para cobrir o texto falado. A transição foi do bar para a praia, da praia para o quarto, e lá se desenvolveu uma sequência de flashbacks das mulheres que frequentavam o local. Mas isso não significa ser um padrão, no segundo intertítulo, “misteriosa”, ocorre o contrário, o filme utiliza um simples efeito de corte, saindo da imagem de Andrezinho no carro com duas mulheres para o bar. No texto temos a introdução do narrador: “Até que, numa conversa de café, o Peixoto, que não gostava do Andrezinho, diz que conhecia uma fulana. Andrezinho saltou. Já com seu instinto de sedutor nato em polvorosa, pôs a mão no ombro do outro: – Pra mim, não existe a mulher inconquistável.”

Alguns elementos textuais, na TV são resolvidos apenas com imagens. A narrativa traz que Peixoto saía com sua perna mais curta do que a outra; na série basta mostrar o movimento da personagem. É como se a câmera fosse o nosso olhar, o telespectador acompanhando cada passo; no cinema e na TV chamamos essa técnica de câmera subjetiva.

“Nessa noite, Andrezinho custou a dormir. Estava acostumado à mulher bonita, à conquista fácil, mas o fato é que Peixoto soubera criar uma sugestão diabólica. Quem seria? Como Seria?’’. Neste terceiro intertítulo os narradores – texto e filme – iniciam com as mesmas palavras. Na TV se ganha o acréscimo da bela voz de Elis Regina, interpretando a canção ‘’Me deixas louca’’. E a frase ‘’Que mágica besta’’ fecha as duas partes, a textual e a fílmica.

Os dois últimos intertítulos (conto) e as cenas finais (filme) são marcadas por pequenas trocas de palavras. O texto traz “edifícios”, a TV vem com “Catedrais”; Nelson escreve que Andrezinho estava em pânico por estar apaixonado por uma mulher que não sabia qual era o rosto; Euclydes Marinho e Daniel Filho mostram esse desespero. Na cena vária mulheres nuas, sem aparecer o rosto, permeiam os pensamentos do galanteador. A trilha principal (This Gun For Hire) volta no anúncio da morte de Peixoto.

[...] ao atravessar uma rua, Peixoto morrera imprensado entre um bond e um ônibus. Andrezinho uivou: ‘Morto?’ E soluçava: ‘Não é possível! Não pode ser!’ Uns quinze minutos depois entrava no necrotério. Ao ver o outro, na mesa, definitivamente silencioso, sentiu-se condenado a amar uma mulher, que jamais conheceria. Enfureceu-se. Atirou-se ao cadáver, sacudia-o, gritando:

-Diz o nome! Quero o nome! Fala!…

Foi agarrado, dominado. Então, caiu de joelhos, no ladrilho. Seu choro era grosso como um mugido.

Cena final. Plano fechado. Close no rosto de Peixoto. Imagem fica num tom cinza, dando a ideia de uma página de livro já desgastado.

Podemos ultimar que as duas obras “A vida como ela é” (literatura) e “A vida como ela é” (TV) somam na divulgação do nome Nelson Rodrigues. Seu texto grita por ser lido, grita por outras mídias. O teatro rodriguiano é o nosso cotidiano, a TV e o cinema estão arraigados em nossa vida. O próprio Nelson dizia que o mais importante que ler é reler; podemos levar esse pensamento para o campo intersemiótico e transformar essa releitura em outras mídias. Nelson Rodrigues, Daniel Filho e Euclydes Marinho, no fim das contas, estão trazendo a tona a nossa realidade e fingindo que ela é uma ficção.

Adriano Portela é jornalista, escritor, cineasta e mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE. Portela é autor do romance A última volta do ponteiro (prêmio internacional José de Alencar de Literatura, pela UBE-RJ).

[1] Imagem bem fechada em algum objeto ou pessoa.  

Eu, comigo e Deus

vista_thumb1Por: Patricia Tenório*

 

Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

 

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

 

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

 

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

 

– Não acredito em Deus.

 

Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

 

– Venha mesmo assim.

 

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar, e resolvi caminhar pelo pequeno jardim, e me sentei em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

 

– Foi aqui.

 

Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando numa espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

 

– Deus está aqui.

 

Freud se engasgou com o gelo da limonada rósea quando a moça (que será uma velhinha) trouxe um senhor de barba branca, comprida, para sentar na outra espreguiçadeira.

 

Ficaram os dois fazendo ninho em suas barbas brancas. “Então, assim que era Deus?”, pensou Freud, ele e os seus pensamentos que não paravam de pensar.

 

– Sim, sou mesmo assim. Ou de outra forma qualquer. Mas quis te aparecer como ao povo judeu, judeu que tu és.

– … produto da minha imaginação…

– Herança da tua fé.

Freud serviu-se de mais limonada. Serviu também a Deus.

– Aceita?

– Obrigado.

– Mas, ao que devo a visita?

– Tu deves saber.

– Não sei.

– Adivinha.

– Não sou bom com jogos.

– Mas desvendas estórias.

A limonada estava doce demais. Freud serviu-se de algumas pedras de gelo.

– Algum de seus filhos.

– O maior de todos.

– O Cristo?

– Exatamente. Há séculos me atormenta um fato. Por isso vim aqui falar contigo.

– Sou todo ouvidos.

– O Horto das Oliveiras.

– O Horto das Oliveiras… Da grande angústia… O suor de sangue…

– Teria ele vacilado? Será que ali meu filho, meu grande filho, o maior de todos, me traiu?

– Por que me pergunta isso? Pelo que dizem, você sabe de tudo…

– Mas eu quero saber o que tu pensas.

– Você sabe o que eu penso…

– Quero ouvir-te falar.

 

Freud se levantou da espreguiçadeira. Eram duas cadeiras espreguiçadeiras pintadas de branco. Antes, porém, eram na madeira, sem pintura, com apenas uma camada de verniz.

 

– Se eu acreditasse em você – disse Freud caminhando pelo jardim, em um típico dia de verão londrino –, eu diria que seu filho não o traiu. Aliás, nunca ele foi mais fiel do que naquele momento em que, suando sangue, antecipando tudo o que iria sofrer num futuro próximo, bem próximo, pediu “Pai, afasta de mim este cálice de amargura”, para, logo em seguida, voltar atrás e dizer “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

– Mas tu não acreditas em mim.

 

Freud tirou do bolso uma pequena caixa de charutos.

 

– Aceita?

– Não, obrigado.

 

Acendeu o charuto, deu uns cinco passos e voltou a sentar na espreguiçadeira.

 

– Eu diria que ele não o traiu. As circunstâncias eram propícias para que desistisse: ele sabia que os amigos o abandonariam, que seria torturado e morto, o que tinha a seu favor? Até hoje me pergunto: “O que tinha a seu favor?” Um louco alemão que extermina judeus feito ele? Que por isso precisou fugir para a Inglaterra? Um câncer na boca que o impediria de falar? Um futuro mais que incerto, com dissidências entre os seus seguidores, julgamentos cretinos dos seus estudiosos? Não, não, ele não o traiu. Ele permaneceu coeso, coerente, com toda a sua humanidade, continuou escrevendo e fumando o seu charuto, e vivendo o restante da vida que ainda possuía.

 

A conversa estava fluindo bem quando a moça (que um dia será uma velhinha) interrompeu.

 

– Tem um rapaz, barbudo, cabelos longos, querendo falar com os senhores.

– Arrá! Agora vai ficar interessante, “Deus”! ‒ Freud fez o gesto de aspas.

 

Deus deu de ombros.

 

– Pode mandar o rapaz entrar, Fräulein, e traga mais uma cadeira para ele.

 

O jovem, barbudo, cabelos longos, atravessando o jardim lentamente, conversando com a moça, que seria velha um dia, explicando a diferença entre as margaridas e os girassóis, acompanhando o voo das borboletas.

 

Ao se aproximar de Deus e Freud, o jovem parou. Cumprimentou Deus com a cabeça. Olhou diretamente para Freud e falou:

 

– Prazer, sou o Cristo.

– Prazer, Sigmund Freud.

 

A espreguiçadeira devidamente arranjada, a limonada rósea servida.

 

– Bonita casa, Sigmund.

– Obrigado, Cristo, gentileza sua.

 

De repente, Freud começou a rir. Ria balançando os óculos, balançando o charuto, fazendo as cinzas caírem na grama bem aparada do jardim de verão londrino.

 

– Só falta agora o Espírito Santo!

– Mas ele já está aqui, Sigmund. Lembre-se, “Onde dois ou mais estiverem reunidos…”.

– E sua santa Mãe?

– Freud…

– Desculpe, Deus, mas não pude resistir… É tão hilário, tão absurdo! Ter vocês aqui! Os dois. Quer dizer, os três.

– Não acredita, não é, Sigmund? Quer ver minhas chagas, feito Tomé?

– Acredito no poder da mente, oh, Cristo. Acredito no poder da minha imaginação, que viaja quase dois mil anos para conversar com você e com seu pai, graças ao “Espírito Santo” – Freud com as aspas nos dedos.

 

Ficaram os três se entreolhando: Freud, Deus e Cristo. O Espírito Santo deveria estar protegendo o lugar, pois ninguém mais chegou e interrompeu o colóquio divino-humano.

 

– Mas como você ia dizendo, Deus…

– Não, eras tu quem transcorria sobre a não traição do meu filho, o maior de todos.

– Obrigado, Pai.

– Mas por que me pergunta, se ele está aqui? Ele próprio pode responder.

– Mas ele já respondeu com a própria vida. Basta.

– Sigmund, queremos saber o que você pensa.

– Mas vocês o sabem!

– Será?

– E não seria? Se vocês forem quem dizem que são e fazem o que dizem que fazem, decerto possuem a minha resposta. A propósito, como conseguiram chegar aqui e entrar com tanta facilidade? Fräulein é muito desconfiada com visitas… Entendam, o meu caso é muito delicado. Estou numa posição em que todos querem saber o que penso: o que penso de Hitler, dos campos de concentração, da mente humana, dos sonhos, de jovens escritores que um dia virão aqui visitar esta mesma casa, atravessar o mesmo jardim, e (talvez) quem sabe sentar nesta cadeira com seu bloco de anotações, caneta em punho e fazer surgir palavras – desconexas, a princípio –, mas que em seguida irão se conectando, e congruindo, e se mostrando lúcidas e coerentes. Acredito nessas palavras, nessas, eu acredito. Acredito porque foram ruminadas, e ficaram rondando e rodando a cabeça jovem sem dar explicações, simplesmente existindo. Até que o toque de uma pessoa amada, o sorriso de uma criança, ou apenas um dia de verão londrino, entre margaridas e girassóis, as borboletas em seu voo solitário, até que um desses elementos extraordinários da vida trouxesse à tona o sentido dessas palavras. O sentido que as aproximou do seu centro, e nada mais importava para quem escrevia, porque ao centro chegou.

 

A senhora bem velhinha tocou no meu ombro.

 

– Faltam dez minutos para o museu fechar.

 

Fiquei assim, sem palavras, meu corpo, sem movimento, porque estive eu, comigo e Deus durante a tarde inteira e não senti a tarde passar. Como se o passado, o presente e o futuro houvessem se fundido em um tempo só, e como se os personagens tivessem preenchido meu corpo, ao mesmo tempo.

 

Então, tempo e espaço me coabitaram. Ou melhor, tempos e personagens. Porque fui Deus, Freud e Cristo, fui o Espírito Santo entre eles.

 

Minhas mãos tremiam, e muito me custou juntar o bloco de anotações, a caneta, a mochila. As pernas também estavam bambas, e foi com dificuldade que me levantei e me apoiei na senhora bem velhinha para atravessar o jardim, a loja de souvenirs, a casa-museu de dois andares e chegar até a porta do 20, Maresfield Gardens.

 

A velhinha me acenou em despedida. Parecia mais jovem do que eu, eu que havia envelhecido séculos em uma tarde.

 

Ao me lembrar disso tudo, hoje, eu, com meus filhos e netos, sinto como se o tempo não houvesse passado, ou como se houvesse passado tão rápido que estivesse próxima a hora do reencontro com os personagens, no mesmo jardim inglês, naquelas espreguiçadeiras brancas.

 

– Vejam, ainda guardo comigo a ponta do charuto de Freud!

 

* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br