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Fatos. De Fernanflor a Crônica Fantástica de Olinda

20151012_221723Por Adriano Portela

As duas últimas semanas foram permeadas de livros e ideias. Na sexta (09) fiquei bem feliz com a comemoração dos dois mil exemplares do meu romance “A última volta do ponteiro”; o número pode até parecer inexpressivo, mas para uma publicação independente e em meio à crise no país, me dou por satisfeito, pelo menos por enquanto. Porém, o que me deixou mais entusiasmado foram as recentes leituras, resultado da X Bienal Internacional do Livro de Pernambuco e de um lançamento que reuniu diversos escritores da cena recifense.

Em pleno feriado, dia de Nossa Senhora Aparecida – padroeira do Brasil -, troquei a praia pela leitura do novo romance de Sidney Rocha. Em minha rede foi parar “Fernanflor”. É um tanto ousado de minha parte arriscar escrever sobre a obra, ousado por diversos motivos: o primeiro de todos é por saber que o autor está ou estará lendo esse texto; o segundo é que é quase impossível se expressar depois de ter assistido os comentários que os professores Anco Márcio Tenório e Zuleide Duarte teceram sobre a obra. Enfim.. vamos ao que interessa!

Lido

“Memória e sonho. Os dois têm os pés enterrados no tempo morto”. Essas frases vaguearam a minha mente horas e horas após a leitura do romance. Os períodos se interligam metaforicamente e parecem ao mesmo tempo costurar toda narrativa. Fernanflor é memória e sonho; Fernanflor está enterrado neste tempo morto, neste tempo em que nos perdemos quando estamos lendo, neste tempo em que o enredo se encaixa em qualquer momento e em qualquer lugar, digo isso tanto pensando no leitor como nas personagens. Se escrevo bobagem, não interessa, o importante é que a obra me proporcionou um espaço para divagação literária. O narrador joga com o leitor, nos leva de uma forma clara e poética, e a trama vai se amarrando e você não consegue parar de ler, vai num alto e baixo, nesse claro e escuro, como alcunha Gonçalo M. Tavares, e de repente um diálogo surpreendente nos deixa sem ação. Um escorpião e um defunto parecem, em poucas páginas, resumir, não só a obra, mas o sentido da vida. “Fernanflor” conta a saga do pintor Jeroni Fernanflor. Em alguns momentos lembrei-me da escrita de Balzac em “O pai Goriot”, nas peripécias do jovem Rastignac, um estudante adaptando-se ao “movimento futuro da sociedade”. Finalizo apenas afirmando que: Fernaflor é uma deliciosa leitura e que você não pode passar sem ela.

Lendo

Outra obra que me seduziu foi o livro de crônicas “Sete anos”, de Fernanda Torres. Pela segunda vez sou levado à escrita da autora/atriz. Primeiro foi com o romance “Fim”. Minha esposa o comprou, leu e me fez tantas citações verbais que não resisti e me entreguei a leitura. Surpreendi-me com o romance de estreia de Torres. Uma narrativa forte, curta, bem amarrada, dizendo tudo em linhas quase simétricas. O livro conta a história de cinco amigos. No cenário do Rio de Janeiro, eles vivem situações parecidas com a nossa: casamentos, festas, brigas… A trama parece plausível, mas a forma como o texto foi escrito é o que fascina. Com “Sete anos” a história se repetiu, desta vez minha esposa ganhou e rapidamente – só bastou ver o livro – eu o levei para minha rede. Li várias crônicas, desde uma bem curtinha sobre Dercy Gonçalves a maior delas: “Kuarup”. A crônica é muito imagética, parece que estamos assistindo a um filme, e não ao making of escrito do filme “Kuarup”, como parece ser a proposta. Torres nos dá uma aula de como relatar memórias. memórias de dois meses e meio de filmagem na selva, além de nos inserir no tempo político-social, com o fim da Embrafilme e a consequente crise do cinema na era Collor.  Finalizo apenas afirmando que: estou doido para terminar de ler! Acho que quando você estiver lendo essa coluna, já devo ter levantado da rede com o livro fechado.

Para ler

Na sequência: “O Esqueleto: crônica fantástica de Olinda”, de Carneiro Vilela. Você, provavelmente, já leu ou escutou falar de “A emparedada da Rua Nova”, pois é, romance também de Carneiro Vilela. No último sábado (10), fui a um debate interessantíssimo na Bienal. Os professores André de Sena e Fábio Andrade e o roteirista de quadrinhos e editor do site “O Recife Assombrado”, André Balaio trouxeram o imaginário de Vilela e comentaram “O esqueleto”, que, segundo eles, é a quarta edição de uma das primeiras novelas de horror publicadas no Brasil. Finalizo apenas afirmando que: vou ler e na próxima semana trago minha opinião sobre a obra!

Adriano Portela é jornalista, escritor, diretor de cinema, mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE e autor de “A última volta ponteiro” (prêmio internacional José de Alencar, pela UBE-RJ).