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Arte e polêmica são um casal que amam e brigam o tempo todo

Por Clodoaldo Turcato

 

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De todas as polêmicas envolvendo arte, eu particularmente prefiro ficar longe, por padecer de entendimento, por não estar com todos os recursos para opinar ou simplesmente por que o fato não vale nenhuma linha, como discutir se pichar é arte ou não, se arte digital é arte, se arte abstrata é arte, etc. Isso é um grande mar de argumentos que vai cair na vala comum e ficaremos olhando com nossos mais escusos instintos em nome de orgulho pessoal. Estes temas são discutidos e rediscutidos sem que prejudique o todo.
No entanto, quando uma exposição de arte é fechada por pressão extremista, daí estamos atuando no campo das liberdades individuais. Não vamos analisar as obras expostas. Algumas poderiam ser de mau gosto, dependendo de uma série de fatores que mencionamos tantas vezes aqui neste espaço. Gostar ou não de um trabalho é questão pessoal. Ponto final. O que nos preocupa é o Santander Cultural ter aberto a exposição, justificado sua execução e com uma semana, pressionado por grupos que não demonstraram ainda qual a finalidade, encerrar contradizendo o que justificara anteriormente. Então o que se imagina em total bom senso é que o Grupo de Curadores do Santander Cultural não tem posição firme, não acredita em seus valores (ou não os tem) a ponto de recuar. Seria o que se diz na mesa de bar “Uma Maria vai com as outras”.
O grupo Santander perdeu uma grande oportunidade de discutir arte e expressão artística. Perdeu a chance de levar à sociedade conversar sobre temas que são escondidos sob tapetes e esclarecer as crianças que aquelas demonstrações existem, são comuns e como evitá-las, caso queiram. Contudo, preferiram se esconder, correr, fugir do debate e corta bruscamente o processo.
A arte sempre foi campo de exposições extremas. A vida comum é extrema e se a arte plástica representa esta vida, logo teremos pedofilia, zoofilia, nus, sexo homossexual, sexo hetero, corpos nus e demais situações que ocorrem desde os primórdios – a vida não é somente flores. A pintura vive seu tempo. A exposição e exploração da mulher condicionando-a ao homem também está refletida nas artes plásticas. A nudez feminina funcionou como uma maneira de controlar e determinar a sexualidade e os comportamentos das mulheres. Os quadros que circulavam nas grandes galerias retratavam mulheres idealizadas, que denotavam padrões vigentes naquela sociedade e cujo comportamento deveria ser seguido. Em meados do século XIX, esse gênero se converteu na forma dominante da arte figurativa europeia, e era considerada a forma artística ideal. Mas o nu feminino estava vinculado às ideias de sensualidade, fluidez e passividade, e talvez nunca tenha sido tão cultivado como naquele período. Enquanto isso, na vida cotidiana, o corpo era zelosamente estudado e perscrutado, sobretudo o feminino. Esse organismo humano sofria diversas pressões e controles por parte de um conjunto de instituições tuteladas pela ciência, que detinham a hegemonia dos discursos sobre a sexualidade, a doença e a saúde. Não por acaso, a mulher constituiu o motivo principal do nu como gênero na pintura a óleo europeia, mesmo quando o tema ilustrado fosse uma alegoria ou uma história mítica. 
Assim, as figurações do nu feminino reforçavam o status dominador do homem na ordem social vigente, enquanto a mulher permanecia inerte, devendo ser dominada, subjugada ou idealizada pelo poder físico, social e econômico da potência masculina. Como exemplo dessa fêmea subjugada, vale observar a obra Susana e os velhos, da artista Artemisia Gentilesch, Nascimento de Vênus de Sandor Boticelli e Maja Desnuda de Goya.
Como criticar, baseando-se na retórica feminina atual ou conceitos conservadores, Vênus Adormecida de Giorgione, Vênus de Urbido de Ticiano ou Nú de Mondigliani? Estas obras teriam que ser queimadas, jogadas no lixo, esquecidas por retratarem a mulher nua? Seria esse o caminho que elevaria o ser humano? O interesse pelo nu não é um fenômeno exclusivo da contemporaneidade. Ao contrário, a representação do corpo nu surgiu como um gênero da História da Arte Ocidental na Grécia Clássica. Era tido como natural, sagrado, uma aproximação com os deuses, a ilusão do corpóreo aparece como a idealização do corpo perfeito. Os corpos que representavam os deuses gregos eram perfeitamente proporcionais e sem nenhum dos defeitos do corpo “real” – muito parecidos com os corpos que se apresentam hoje para nós. Com o passar dos anos, o nu nas artes plásticas teve inúmeras representações, retratando o masculino e o feminino. Mais adiante ainda na história a religiosidade se volta contra o homem natural e o que era a semelhança e imagem de Deus teve a necessidade de ser coberto.
A divisão entre o corpo e a alma foi radicalizada e a nudez corporal passou a ser entendida como um símbolo de vergonha e humilhação. Como consequência, a figura humana nua quase não existe na arte medieval cristã, exceto como representação do pecado, nas cenas de Adão e Eva e do Juízo final. O sexo se torna tabu e o corpo passa a ser recipiente do pecado criado pela moral vigente. Quando o nu masculino é sensualizado ele desaparece nas artes, pois coincide com a necessidade de reproduzir a prole, lá pelos idos de XVII. No final da Renascença a beleza clássica vai perdendo o valor. No neoclassicismo o corpo feminino prevalece no nu. Se analisarmos a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e prestarmos atenção nas ilustrações de Gustav Dore, se percebe o ressurgimento do nu masculino já com cânones diferentes para valorizar os músculos, originando a silhueta dos super-heróis, o que vem de encontro e retoma a perfeição criada na Grécia nas esculturas. Na representação do nu na arte contemporânea é possível visualizar as releituras e reflexões que artistas atuais fazem da nudez de períodos diversos da história da arte. Se, historicamente, o nu esteve ligado à técnica e um ideal de beleza e harmonia, a arte contemporânea se apropria dessas características com uma boa dose de crítica e ironia.
Estamos profundamente condicionados à ilusão de que somos este corpo, bem como condicionados a forma de como ele deva ou não deva ser. Do mesmo modo que, quando na fase infantil, o eu, se identifica de forma ilusória como sendo este corpo, em sua fase adulta, pela experiência do testemunhar, precisa se “desidentificar” para o alcance da consciência de sua real natureza. Independente da imagem de um corpo nu ser idealizado ou “real”, ela jamais será um corpo neutro, visto que sempre será lida a partir de um código e incorporará discursos diversos. O corpo na arte é sempre um corpo-representação, um corpo imaginário que revela narrativas e cria (ou reforça) sentidos. Dessa forma, a percepção humana não ocorre de maneira neutra, já que ela se dá por meio de uma interpretação e a interpretação depende dos hábitos perceptuais das pessoas: o que vemos quando olhamos para alguma coisa depende do que vimos antes.

 

Quando expressamos através de um quadro, nele está contido muito mais do que simplesmente o visual. Em 1863, Honoré-Victorien Daumier pintou A lavadeira. O quadro foi proibido em diversas galerias europeias por representar gente comum. Olímpia de Manet foi outra obra esculachada em seu tempo. O escândalo não é apenas com o nu, a homossexualidade, o sexo, etc. O escândalo ocorre principalmente quando nossos defeitos são escancarados. Os segredos que tememos escancarados preocupam em qualquer lugar do mundo. A escultura Tumbling Woman (Mulher Caindo) foi a resposta do americano Eric Fischl aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao ser exibida pela primeira vez, em 2002, a obra foi alvo de protestos tão violentos que uma semana depois acabou sendo recolhida. Trata-se da figura de uma mulher que, tendo se atirado de uma das Torres Gêmeas, tem seu corpo esmagado ao chocar-se com o chão. Alguns acharam a obra apelativa. Outros a consideraram um tributo à coragem de uma mulher que decide escolher como morrer; para esses, a escultura de Fischl era uma alegoria da dignidade humana.

 

Ao avaliar com cuidado o que ocorreu em Porto Alegre à luz da história, em todos os tempos, verificaremos que sempre ocorreram retaliações em arte e o conteúdo ofensivo ou sujo, não é necessariamente a motivação. A exposição do Santander foi fechada pelo momento político em que o Brasil está vivendo. Noutra época seria mais uma exposição. Estamos vivendo um momento extremado, dividido e o reflexo disso está na sociedade em geral, não apenas nas artes. Artistas consagrados e admirados, com grandes trabalhos, estão sendo rechaçados por tomarem posições contrárias aos seus admiradores. Caso fático é de Chico Buarque, que sempre foi de esquerda, mas amado por todos, passa momentos de enfrentamento por sua posição.

 

Sugiro ao leitor que analise a obra de Lucas Cranasch, o velho, pintor germânico que passou boa parte de sua vida pintando Príncipes Alemães e líderes da Reforma Protestante, como Martinho Lutero. Sua obra teve dois tópicos: a arte aceitável, já que foi mestre em retratos e seus nus, que incomodavam demais aos religiosos de plantão, como o quadro Vênus, um óleo sobre madeira medindo 37×25 cm, exposto no museu Stadelsche Kunstinstitut, em Frankfurt, Alemanha. Vênus usa apenas uma rede de cabelo adornada de joias e dois colares. Ela segura com falso pudor um véu de áfano e olha sedutoramente para observador. Seu corpo é idealizado, talvez por que os artistas da época pouco usassem modelos vivos femininos. A representação de mulheres nuas não era comum, a menos que figurassem numa cena narrativa ou como Deusas míticas. Cranasch parece ter ignorado o espirito clássico da época, e seus nus tem uma aparência quase primitiva. A escolha de um tema mitológico e não religioso para este quadro, talvez se devesse ao fato de seu mecenas ser protestante. Pouco se sabe sobre Cranasch, além da grande influência que teve na Alemanha protestante. Ele parece ter surgido subitamente, produzindo as melhores obras no início de sua longa carreira e depois ter levado a vida fácil de pintor da corte. É conhecido como Lucas, o velho, por que iniciou uma dinastia de artistas que deram continuidade ao seu estilo.

A Vênus de Cranasch é um belo exemplo de como arte e polêmica são um casal amam e brigam o tempo todo.