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A beleza em seu coração antigo

Por Danuza Lima

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A exímia capacidade de narrar é sem dúvida, fruto de uma observação e um perspicaz olhar antigo sobre coisas também antigas ou novas em seus aspectos mais simples, o que deságua no rio plástico que toda história assume ter: beleza, sobretudo, beleza. É neste quesito simples, sobre o belo, somente o belo e o futuro dele derramado que reside e finca espaço nossa coluna de hoje.

Ademais aos tantos causos, estórias, cânticos e cordéis, cenas simples costumam àqueles que dela se prendem, render belas narrativas, contudo, é preciso estar presa completamente a cena, ao ponto de a partir dela, criar a atmosfera cósmica de encantamento e ao gosto Barthes, de “fruição da leitura”. Sem o olhar antigo e bonito de quem humildemente observa, é quase impossível a beleza, a beleza em seu coração antigo, a simplicidade.

Não é de estranhar que esta a quem ainda atentam por chamar Elena Ferrante, consiga construir com tamanha beleza e engenhosidade simples e direta, a cena de um banho. O acontecimento narrativo está contido no primeiro volume da tão comentada tetralogia Napolitana, “A amiga genial”.

Juntam-se aí dois rituais cíclicos distintos e de naturezas e interpretações também distintas: o banho e a véspera de minuto do casamento, ritos de iniciação e fertilização.  Mas aqui, nos cabe recordar o banho, a água que cai sobre o corpo, que é encontro, “o primeiro dos ritos, aquele que sanciona as grandes etapas da vida, em especial o nascimento, a puberdade e a morte” (Chevalier e Gheerbrant). É justamente Elena Grego, Lenuccia, Lenu que se encarrega de tal rito. A cena, construída, como todo o romance, em primeira pessoa, ultrapassa o simples relato para gerir a esfera afetiva do olhar apreensivo de Lenuccia sobre o destino daquela que vestia o emblema da liberdade, por Lenu, nunca alcançada: ser quem se é. O reconhecimento desta constatação fica contida na aparente vergonha diante do corpo nu de Lila e a inconveniente certeza da nulidade de si diante da figura massiva e forte da menina de apenas dezessete anos que em breve seria deflorada. E quantas meninas não a são ao longo de nossos dias rompidas, e se destituem de si mesmas na inverossímil certeza de um destino apático, expatriado ao lado de quem apenas servir-se-á de seu corpo, como quem consome carne de açougue? A afetividade do olhar de Lenu converte-se inevitavelmente em uma unidade de presença de toda a Lila :

“Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem nos está perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta emoção que nos abala de modo que você se obriga a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre um piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias inflamam”.

(Elena Ferrante,  p. 312, 313)

 Esta unidade de presença só o é de todo completa tendo em vista o poder afetivo de Lila sobre Lenuccia. A potencialidade subjetiva que dela emana que é ela própria, violável a todo sentido cognoscente e cartesiano rompe os limites práticos da simples ação narrativa e gera este  forte efeito da intensa presença da jovem na vida de Lenu. É claro que o relato deságua naquilo que o sentido não consegue transmitir,  Esta “produção de presença” (Hans Ulrich Gumbrecht), a beleza neste caso, propõe uma experiência para o leitor fora do campo de linguagem e todo o efeito gerado pela cena fica para o além da leitura:

“Lavei-a com gestos lentos e acurados, de início deixando-a agachada no recipiente, depois lhe pedindo que ficasse de pé, e ainda tenho nos ouvidos o rumor da água que escorre, e me ficou a impressão de que o cobre da bacia tinha uma consistência semelhante à da carne de Lila, que era lisa, sólida, calma. Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraça-la, chorar com ela, beijá-la, puxar-lhe os cabelos, rir, fingir competências sexuais e instruí-la com voz doutoral, repeli-la com palavras bem no momento da maior intimidade. Mas no final restou apenas o pensamento hostil de que eu estava purificando da cabeça aos pés, de manhã cedo, só para que Stefano a emporcalhasse durante a noite.”

(Elena Ferrante, p. 313)

 E quem um dia dirá da beleza que estas coisas simples acarretam a uma mente e um olhar de coração antigo? 

Prova

(Danuza Lima é escritora, professora e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE)   

fotolia_342297_XSPercebeu que a casa estava trancada por dentro. Esqueceu a chave. Cansada do trabalho, despejou as pastas na calçada úmida, o musgo crescia. Necessário lavar, mas como? Seria preciso semana de folga. Outra vez encontraria desculpas e quando ele retornasse? Como faria, como? Ele a consumia, toda.

 Quando retornava de suas viagens desconhecidas, ele sempre se trancava por dentro para que nada atrapalhasse a circulação do cheiro dos dois dentro da casa. Ela gostava da prisão, sentia-se a única. Pensou que ele pudesse ter voltado, desistido de viver sozinho. Como poderia viver sozinho? Sem ela? Como? Impossível viver sem o cheiro dos dois.

Bateu por incansáveis vezes. Nada. Nem silêncio ruindo na sala, nem a surdez da confiança do outro. Nada. Gritou ao portão por alguém que imaginara que estivesse lá. E se não estivesse? Já não sabia como chamar. Havia voltado como prometido. Sabia. Sim, voltara. Não poderia nunca entender como aquele adorar havia renovado as forças. Não poderia nunca entender.

Estava mesmo cansada. Ele a consumia. Necessário distanciar-se dele, não poderia mais fingir. Não queria entender. Lembrou da chave deixada propositalmente no canto do portão. Necessário encarar o abrir. Abriu: havia o asco de sua dor e a leveza de sua alegria. Olhou o vazio deixado por ela e o preenchimento colocado por ele.  Amargo como se fustigado o coração, corresse frouxo o ar pesado da sala, antes, cenário de passarinho, seguiu o corpo. A cama parada no cheiro dele. O último lugar para dar adeus a esperança da não volta. Parado lá, estava ele, o tempo todo. Debruçado no fogão, cozinhava aos poucos o adorar em banho-maria, no fogo baixo, para não queimar, girando cuidadoso a colher, devagar, sempre devagar, o tempo todo, para não queimar. Olhou a mulher: calada, assustada, resignada como sempre, o tempo todo. A fez cheirar o caldo vermelho, cheiro de retorno. Serviu em pratos fundos. Gosto de fim de prova. Carregada pelo corpo dele ao quarto, bosque de delírios, veio a certeza: não iria mais embora. O cansaço passou. Adorar. Engolia o amor para não mais fingir. Ao acordar, pegou a chave e foi embora. Ela o consumia, todo.

O prego e a narrativa

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Por Danuza Lima

Finca por sob a madeira da narrativa, um prego,  impiedoso, movido pelas mãos do escritor, atinge o soalho de nossas portas.

Inicio a metáfora, corro o risco de uma reflexão massacrante. Mas quem de nós, diante das faces rituais do tempo, não massacra o texto com impropérios alógicos?

Não tenho pré-tensão alguma por teorizações, valho-me das excentricidades e imbricações que o texto, esta carnificina semiótica, lança sobre mim. Deixe esta página, caso não agrade a minha sinceridade. Arremato: as fomes do texto se matam com o texto, as fomes da teoria, se matam com a análise.

Tenho esta imagem em mente há tempos: o prego, o texto. A perseguição inicia a cada parágrafo escrito e entendam, não vai embora quando concluído o trecho, pelo contrário, finca, prende a palavra como uma ferpa, mas nos olhos do leitor se instaura o ato. Pobre dele. Mas pobreza de leitor é relativa, às vezes, ao saciar-se do alimento devorado, dimana mais fome.

E tem o prosador, a meu ver, a tarefa da mão firme, apregoar na madeira do texto, o prego da impaciência, da bússola intersemiótica, que cruel fura os olhos e os ouvidos quando em vez. Pregar na história os pontos da lucidez e da loucura. Algumas narrativas lidas por esses tempos, causaram-se ferimentos, digo, bonitos de ver. Sim, todos nós sentimos prazer pelo grotesco, pelo sangue derramado, não minta, não leve à serio, o sangue também é metafórico, se assim o desejar. Estão aqui, apregoados na retina e nas mãos, “Os piores dias de minha vida foram todos” de Evandro Affonso Ferreira, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk, a exemplo dos pregos que busco e que me acham. Eu corro já nua por essa cidade suja, pelas ruas estreitas e simples deste resquício de chão metropolitano com cara de interior. Rogai por nós, Teresa-menina, Ofélia pura dos dias tempestivos, crava teu prego narrativo neste peito de leitora sedenta. Sim, os pregos estão lá, na Antígona, carpideira de todos os dias, na Teresa, santa-guia de todos os dias, n”A única voz” de Wilson Freire que lança marteladas uníssonas nas portas ingênuas do meu pseudocrivo.

Não pretendo elencar narrativas que a meu ver, pregam no texto o fio condutor de uma história  interessante [perdoe-me o chulo adjetivo]. Mas salientar a presença dos pregos narrativos a delinearem no texto o curso da história. Quem inicia e põe entre os dedos uma nova história, enreda-se nos liames interpretativos dela e quem, martelador cruel, não finca seus pregos na história, a fim de apregoar também o leitor, corre o risco de fadar na atividade fetichista da criação. Sim, minha sede é tamanha, o bicho de minha consciência urra pelo apregoamento da narrativa, tragam-me pregos, desvirtuam-me o nexo das coisas que quero o “bem, cruel”.

 

Danuza Lima é escritora, professora e mestra em Teoria da Literatura pela UFPE.