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A luz e o mundo

Por: Danuza Lima

Por Jonatas Onofre

Por Edilma Cavalcanti

“O mundo é vasto” (Luckács).  A exata medida de nossa casa pode ser a medição correta de uma saudade inominável. Assim como os espaços vazios de nós mesmos, prenhes de significado, podem, a qualquer intervalo telúrico de tempo, preencher-se de coisas, pessoas e sentimentos, nós nos preenchemos com a memória afetiva de um lugar, do mundo. Mesmo a luz, “o aspecto final da matéria que se desloca com uma velocidade limitada” (Chevalier), ou a luz do ideal iluminativo, pode gerar o mundo, tanto dentro de nós, como no espaço físico ao nosso redor, tudo é tão vasto, grande e forte.

O mundo somos nós, os mares, as ruas cheias de gente, as ruas vazias, cheias de cães, a sala incrivelmente habitada pela mistura ocre do cheiro, nossos olhos doentes de ver e ouvir, as infinitas combinações matemáticas encerradas nos cachos de nossos cabelos, nossa existência desatinada. O mundo cabe nas nossas perguntas sem respostas, nas coisas inalteráveis da vida. Tudo é o mundo e tudo culmina nesta vastidão de rumo fractal que encontro no primeiro álbum de Jonatas Onofre, “Aparicíon”. Um encontro abismal, luminoso, mas como todo encontro, frágil. Todo encontro é frágil, veneno e paz, remédio e dor.

Jonatas Onofre

Jonatas Onofre

Antes de ser música, “Aparicíon” é sobretudo palavra, antes de ser palavra, é poesia. Do corte preciso de antes, ao uso eloquente dela, Jonatas Onofre a põe na balança, sem pretensão alguma de medi-la. Semelhante a colheita simples, usar as palavras em música é como catar feijão, penetrar no escuro profundo do reino delas, com cautela, com cuidado, Jonatas sabe que este “viver é perigoso” (Rosa). Mas, sim, há morte nestes versos em música e mesmo na ausência das palavras há também a morte em presença delas. Não estando lá, ou aqui, o álbum exerce um “fascínio fundamental sobre a questão de saber como as diferentes materialidades afetam o sentido que transportam” (Gumbrecht). Tudo é palavra e o perigo de matá-las é que são espécies de Hidra, fica sempre uma cabeça. Foi nessa cabeça que fiei as minhas observações – como sempre, dentro da mesma despretensão de uma leitora-audiente que sou – .

Acompanhar Ep a Ep até o nascimento deste álbum foi para mim, uma das melhores experiências com a palavra que tive por esses meses. Ver-ler-ouvir, como trinômio, as emoldurações e ondulações da voz e a procura pela palavra que ainda viva já não sangra ou fere, mas ilumina; fez de cada canção, o ponto primordial que engendra a extensão e irradiação desta mesma luz, como na tradição da antiga Cabala, Aor é este ponto vivo. Neste novo projeto, o canto é também o mergulho nas forças fecundantes uranianas, de onde brotam a água criadora, a força que penetra o útero, mas também a expressão do medo, do imutável. Porque a luz, assim como o yin-yang, representa da ascensão à sombra.  Desse ponto de vista, a sombra faz parte deste processo de “aparição”, é preciso que se tenha escuridão para que haja luz. Na tradição cristã, o Fiat Lux oferece uma operação cosmogônica: a separação do dia e da noite.

“Aparicíon” é sobre a luz que aparece, o corpo luminoso do deserto que somos nós, o rosto de sol, a iconografia  do fogo, que passa desde o despertar do desejo à purificação pela sua chama. E vejo desabrochar no jeito típico de dedilhar o violão, a mesma potência dos outros trabalhos, inclusive em literatura. A separação entre poesia e música neste caso é perigosa e falível, a canção urge pela palavra, ela ferve feito a palavra, ilumina feito a palavra, nasce com a matéria sensível da vida: a poesia e não consigo ver-ler-ouvir de outra forma senão grudada a papeis e presa ao fone de ouvido. A medida que busca a clareza, regida sob o signo de Urano, o céu por ele mesmo personificado, o álbum se mostra em cada canção, neste “imenso é cantar”, no qual “Aparicíon”, busca “o que o sentido não consegue transmitir” (Gumbrecht)[1]

Acesso ao álbum: https://jonatasonofre.bandcamp.com/



[1] As aspas são de:

A teoria do romance, George Luckács

Dicionário de símbolos, Chevalier e Gheerbrant

Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa

Produção de presença, Gumbrecht

Perigo e resistência

E me inventei nesse gosto de especular ideia.

[...] Viver é negócio muito perigoso…

(João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

b59bcf0adba0aac7addefdbfa869285f_thumbPor Danuza Lima (Mestra em Teoria da Literatura – UFPE, escritora, educadora)

Estranhamente, tendemos a considerar o eminente perigo que ronda a literatura, contudo, perigo maior nos oferece ela mesma. Perigosa, foi ela materializada em páginas, infladas, rasgadas; sem páginas, foi e é assediada, mostra o assédio, ama e mostra o amor, odeia e mostra o ódio. Veneno e antídoto no mesmo frasco. Veredas da vida transmutadas no verbo. Há algo mais perigoso do que a vida? Do que a literatura?

Não é a ameaça de sua inimaginável extinção, enfraquecimento ou mesmo a falência, que nos deve preocupar, mas sim, seu fôlego renascido a cada morte nas ruas, cada verso que imanentemente sangra “o corpo estendido no chão”, cada Impeachment, cada grito. A literatura resiste e persiste e oferece perigo diante da dor e da alegria que insistem.  Para Northrop Frye, em O caminho crítico, “a obra-prima profunda parece nos puxar para um ponto no  qual  podemos  ver  um  número  enorme  de  configurações  convergentes  de significação”, e a literatura fonte de tudo isso, germina em seu ventre, a matéria sensível que nos mantém “atentos e fortes”. Ela é metáfora de si mesma. 

Sabia disso o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov (1939-2017) falecido na última terça-feira.  Decidido a ampliar e viver esse perigo que é a vida e o viver literatura, Todorov escolhe estudar e viver na França. A fuga direta de seu país e do regime totalitarista, revelou durante toda sua trajetória acadêmica este desejo incessante que o guiou ao longo da vida: viver perigosamente a literatura, estudou e tornou-se amigo de Gèrard Genette e Roland Barthes. Mas para além desta escolha e desejos visíveis em suas obras, prefácios carregados de sinceridade, à exemplo do livro “A literatura em perigo”, Todorov nos deixou o medo, sim, o medo deste “duro golpe”, não da falência da literatura, da escassez de mecanismos para composição literária, mas para o perigo de não sabermos levar a literatura à diante. Em outra ocasião, nos perguntávamos quem teria fôlego para escrever o que ainda viria e o que se passou. Pois bem, nesta rápida e simples reflexão, Todorov nos asseguraria o perigo de deixarmos para trás a responsabilidade de seguir com a literatura, pois, se por um lado, acreditamos no perigo que ela representa –  perigo bom –  por outro, não sabemos como torná-la viva. E esta não é uma lição apenas dos “educadores”, mas sim, do que como Todorov, fugiram de uma clausura intelectual para viverem esse perigo eternamente, ou até quando houvesse fôlego. O ato de disciplinar a literatura somente contribui para este perigo alertado por Todorov, ela não deve ser “institucional”, mas sim, libertadora. É com as palavras de Tzvetan Todorov que encerramos a coluna de hoje, na certeza do porvir:

“Sendo o objeto da literatura a própria condição humana, aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do ser humano. Que melhor introdução à compreensão das paixões e dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios? Se entendermos assim a literatura e orientarmos dessa maneira o seu ensino, que ajuda mais preciosa poderia encontrar o futuro estudante de direito ou de ciências políticas, o futuro assistente social ou psicoterapeuta, o historiador ou o sociólogo?”

Parlatório Sidney Nicéas

Adriano Portela recebe o escritor Sidney Nicéas. Confira!
#escritor #literaturaPE #Parlatório

O prego e a narrativa

Nails

Por Danuza Lima

Finca por sob a madeira da narrativa, um prego,  impiedoso, movido pelas mãos do escritor, atinge o soalho de nossas portas.

Inicio a metáfora, corro o risco de uma reflexão massacrante. Mas quem de nós, diante das faces rituais do tempo, não massacra o texto com impropérios alógicos?

Não tenho pré-tensão alguma por teorizações, valho-me das excentricidades e imbricações que o texto, esta carnificina semiótica, lança sobre mim. Deixe esta página, caso não agrade a minha sinceridade. Arremato: as fomes do texto se matam com o texto, as fomes da teoria, se matam com a análise.

Tenho esta imagem em mente há tempos: o prego, o texto. A perseguição inicia a cada parágrafo escrito e entendam, não vai embora quando concluído o trecho, pelo contrário, finca, prende a palavra como uma ferpa, mas nos olhos do leitor se instaura o ato. Pobre dele. Mas pobreza de leitor é relativa, às vezes, ao saciar-se do alimento devorado, dimana mais fome.

E tem o prosador, a meu ver, a tarefa da mão firme, apregoar na madeira do texto, o prego da impaciência, da bússola intersemiótica, que cruel fura os olhos e os ouvidos quando em vez. Pregar na história os pontos da lucidez e da loucura. Algumas narrativas lidas por esses tempos, causaram-se ferimentos, digo, bonitos de ver. Sim, todos nós sentimos prazer pelo grotesco, pelo sangue derramado, não minta, não leve à serio, o sangue também é metafórico, se assim o desejar. Estão aqui, apregoados na retina e nas mãos, “Os piores dias de minha vida foram todos” de Evandro Affonso Ferreira, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk, a exemplo dos pregos que busco e que me acham. Eu corro já nua por essa cidade suja, pelas ruas estreitas e simples deste resquício de chão metropolitano com cara de interior. Rogai por nós, Teresa-menina, Ofélia pura dos dias tempestivos, crava teu prego narrativo neste peito de leitora sedenta. Sim, os pregos estão lá, na Antígona, carpideira de todos os dias, na Teresa, santa-guia de todos os dias, n”A única voz” de Wilson Freire que lança marteladas uníssonas nas portas ingênuas do meu pseudocrivo.

Não pretendo elencar narrativas que a meu ver, pregam no texto o fio condutor de uma história  interessante [perdoe-me o chulo adjetivo]. Mas salientar a presença dos pregos narrativos a delinearem no texto o curso da história. Quem inicia e põe entre os dedos uma nova história, enreda-se nos liames interpretativos dela e quem, martelador cruel, não finca seus pregos na história, a fim de apregoar também o leitor, corre o risco de fadar na atividade fetichista da criação. Sim, minha sede é tamanha, o bicho de minha consciência urra pelo apregoamento da narrativa, tragam-me pregos, desvirtuam-me o nexo das coisas que quero o “bem, cruel”.

 

Danuza Lima é escritora, professora e mestra em Teoria da Literatura pela UFPE.

A armadilha da arte conceitual

12714086_910392165725550_2079363702_nPor: Clodoaldo Turcato

Você já provavelmente deve ter esbarrado numa exposição em que francamente achaste uma loucura, que o sujeito que o fizera tinha um parafuso a menos e principalmente o local que recebera tal obra estava totalmente lesado. E se for ler ou estudar um pouco da arte a partir dos anos 60 e não seguir até o final, sem paixão ou conceitos, dirá que tudo feito até então não passa de uma viagem de gente maluca e drogada. Latas contendo excrementos humanos, um sujeito explicando obras de arte para uma lebre, um homem enrolado em lona de feltro, uma cadeira de madeira simplesmente colocada na parede, um tubarão guardado em formol numa caixa de vidro são algumas das grandes obras reconhecidas e expostas em grandes museus no mundo. Então você se pergunta: isso é arte? Bem, com toda humidade eu posso garantir que sim, apesar de ter reservas, é arte.

A arte conceitual surgiu em 1960, como um desafio às classificações impostas à arte por museus e galerias. As galerias afirmavam  categoricamente ao público “isso é arte!” Fim. O filósofo e ativista Henry Flynt fez a primeira referência à arte-conceito em 1961, mas o temos arte conceitual só foi usado no fim da década. Em 1967, o artista Sol LeWitt escreveu um artigo para o jornal Arforum intitulado Parágrafos sobre a arte conceitual. Nesse texto, ele afirmava que a nova arte era uma inversão das artes anteriores e que trazia o conceito para o primeiro plano, tornando a produção da própria arte algo secundário, remontando suas origens ao dadaísmo e à Fonte de Duchamp.

A arte conceitual também era uma reação à arte considerada mercadoria. O artista italiano Piero Manzoni questionou a natureza da arte criticando a produção de massa e consumismo de modo particularmente provocativo. Em 1961, ele produziu 90 latinhas com o rótulo “Merda do artista”. Cada lata continha supostamente fezes do artista e valia seu peso em ouro. Como abrir a lata seria o mesmo que destruir a obra, nunca se soube o que as latas continham de fato. De qualquer maneira, esta atitude não foi para provar ou não se dentro da lata tinha ou não fezes. Longe disso. Uma obra de arte conceitual tem muito mais de crença  ou de virtudes na originalidade do que no significado pleno que queremos dar a ela. De qualquer maneira existem alguns problemas em não compreender o conceito. Então o excremento de cachorro que encontramos na rua todos os dias é arte? Tudo é arte? Esta é uma armadilha que precisamos sair.

A arte conceitual já proporcionou momentos engraçados no Brasil e no mundo. Em outubro passado o artista Goldschmied and Chiari havia montado uma obra chamada Onde vamos dançar esta noite?, composta por bitucas de cigarro, garrafas vazias e confetes, a obra tem o objetivo de representar o hedonismo e a corrupção política vividos na década de 1980. Ocorre que na manhã de sábado uma faxineira nova do museu achou que aquelas “sujeira” era o resultado de uma festa que teria ocorrido na noite de sexta-feira e simplesmente limpou o local. Um acidente similar ocorreu em Bari, no sul da Itália, em fevereiro de 2014. Uma faxineira jogou fora trabalhos que faziam parte de uma instalação da galeria Sala Murat. Segundo a empresa responsável pelo serviço de limpeza do local, a faxineira confundiu as peças, feitas de jornais e cartões, com lixo. Ela disse à época que estava “apenas fazendo seu trabalho”.  Em 2009, o Museu de Arte Contemporânea de Olinda estava mostrando uma coletiva de arte conceitual. Em dado momento um dos funcionários do museu percebeu que três pessoas estavam diante do extintor de incêndio discutindo a “obra”. A discussão se adiantou ao ponto de um dos visitantes perguntar ao funcionário por que não havia o nome do artista na obra. O funcionário respondeu que não havia nome por que se tratava do extintor de incêndio do prédio – armadilha. 

No caso de Olinda, o extintor estava no lugar cumprindo sua função. Logo era apenas um extintor. Imagine que um artista resolva tirar este extintor de seu ambiente e coloca-lo num berço ou pendurado numa sala de estar flertando com um lustre de luxo? Seria arte então? Depende se este objeto exprime algo além da mesmice. Isto é o diferencial para se compreender o que é arte ou não. De qualquer maneira algumas produções são bem questionáveis, o que não deixa de ser arte. Prova disso foi a participação brasileira 56ª Bienal de Arte de Veneza. André Komatsu, Berna Reale e Antonio Manuel representaramnuma mostra política, com o título É Tanta Coisa Que Não Cabe Aqui.Os três construíram um lugar de aprisionamento como crítica a uma falsa liberdade em que transita o indivíduo contemporâneo.É como se o trio dissesse que para, sermos livres, precisamos estar trancafiados num espaço cirurgicamente limpo, falso, montado por nossa imaginação, na estética do “condomínio”, citando Christian Dunker. E há também o aprisionamento do outro, na pobreza econômica, na violência física, social e cultural, que é uma maneira de garantir nossa própria e mesquinha sobrevivência. Há, portanto, um paraíso de felicidade eterna, sem conflito, límpido e o inferno são os outros. Cada trabalho postos separadamente perdem totalmente  o sentido, embora atinham lá seus objetivos. Porém, juntos,  é muito interessante como cada trabalho dialoga entre si e com o resto das obras da mostra central no Arsenal, onde esta ideia de desordem aparece explícita em criações de artistas do mundo todo. A artista Berna Reale já surpreendeu com uma performance feita 2014 na cidade de Belém. Munida de uma carroça de tração humana, ela cruzou as ruas da capital paraense com ossos humanos. Está carroça foi exposta em diversas cidades brasileiras. A ousadia da artista não para por aí: uma de suas obras mais celebre chama-se Cantando na chuva, onde a artista aparece no meio de um lixão, sobre um tapete vermelho, vestindo um terno dourado com uma máscara de gás, sambando. Antônio Manuel é outro artista que incomoda com seus trabalhos. Sua obra exposta em Veneza, Ocupations Discoveries, é uma série de murros de tijolos com um buraco feito à marretadas. O visitante precisa passar pelos buracos e sentir. Assim interage com a obra, fazendo parte dela. Arte?

O artista mais celebrado em arte conceitual é sem dúvida o inglês Damien Hirst.Quando jovem estudante, ele descobriu as pinturas macabras de Francis Bacon. Na época ele estava tentando se fixar como pintor, mas acabou desistindo por achar todas suas telas “Bacon ruins”. Em 1990, ele produziu A Thousand Years, uma obra de concepção brilhante e execução esplêndida que conseguiu ser mórbida e afirmadora da vida. Consiste em uma grande caixa de vidro retangular, medindo 4 metros de comprimento, por 2 metros de largura e 2 metros de altura, com uma moldura de aço preta. No centro há uma divisória de vidro em que foram furados 4 orifícios redondos do tamanho de um punho. De um lado da divisória há uma caixa cúbica feita em MDF que parece um enorme dado, com a diferença que todos os lados estão marcados com um ponto preto. No meio do assoalho do outro lado da parede está a cabeça de uma vaca morta em putrefação. Sobre ela está pendurado um insectocutor (dispositivo que combina luz ultravioleta e eletrocussão, do tipo que se vê em açougues). Em dois cantos da caixa de vidro estão duas tigelas com açúcar. Para completar a peça, Hirst acrescentou moscas e larvas. O ciclo de vida e morte se completa num único espaço: moscas põem ovos na cabeça da vaca, o ovo vira larva, a qual se alimenta da carne deteriorada da vaca antes de se transformar numa mosca, que depois come um pouco de açúcar, copula com outra mosca, põe alguns ovos sobre a cabeça da vaca e é fulminada pelo insectocutor, cai em cima da cabeça da vaca, onde seu corpo, agora morto, torna-se parte matéria orgânica e fonte de alimentação para novas larvas. Repulsivo! Bonito! Arte! Sim, arte! Hirst não era biólogo, portanto que sua criação não é um estudo em laboratório, mas uma peça de arte.

Em resumo, a obra de Hirst resume o objeto da arte conceitual. Não basta para estes artistas estarem nas paredes, presos por molduras ou elevados. A ideia é tornar-se componente do espaço que ocupam e interagirem diretamente com o espectador, criando um laço de amor ou ódio. Você pode não gostar, ter ressalvas, fugir da exposição ou amar. Bem, isso é muito particular. Porém, admita: a arte conceitual é a mais questionadora de todas as formas de expressão. Artistas como Hirst nos faz rever milênios de conceitos e concepções que são comuns e escondemos embaixo de nosso tapete. Então arte conceitual não é para olhos virgens, necessitamos de calos nos olhos e mente aberta para compreender todo o processo e a ideia, Uma obra para atingir espectador precisa ser bem construída, logo não pode ser feita por qualquer um, tem que ter lógica, embora parece fora de qualquer parâmetro, e assim não ser apenas um embuste.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

Um livro para se deliciar

cap (1)Por Lorena Moura

Eu sou o tipo de pessoa que entra em uma livraria e se sente em um parque de diversões. O ruim é que não tenho dinheiro disponível para comprar tudo que tenho vontade. Mas passear pelos labirintos de uma loja assim me faz muito feliz. Fora a área de literatura com seus romances, thrillers, policiais, biografias, uma outra forma de leitura que me chama a atenção é a do setor de gastronomia. Sério…fico apaixonada e morta de fome ao ver aquelas receitas tentadoras. Tenho vontade de comprar tudo, mesmo que eu não faça todas as receitas, mas acho muito importante ter alguns desses itens em casa. Porque vai que um dia você acorda com aquela aptidão para chef…Nunca se sabe.

Depois de toda essa redação sobre meus hábitos estranhos, venho informar que o livro resenhado é de comida, ou melhor, de doces. “ Fabricando chocolate” é um livro lindo e claro, provoca aquela vontade desesperada de comer o danado do chocolate, que desde que foi inventado só apresenta alegria na vida das pessoas. A obra marca os onze anos da marca Cacau Noir, que foi criado por Solange Wiltgen e sua filha Adriana. É possível conferir desde o redescobrimento do cacau no Brasil, as tendências em chocolateria, a trajetória da marca e também receitas deliciosas. São bombons, bolos,  trufas, ganaches, drageados, biscoitos, sorvetes e bebidas.

A obra é cheia de fotos incríveis que despertam o paladar das pessoas. Mas uma coisa é certa, se você está de dieta, devo pedir desculpas por apresentar esse livro tão delicioso. O exemplar foi feito com muito capricho, em capa dura, ele é um verdadeiro luxo! Boa leitura, ou melhor, boa sorte no preparo das delícias.

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com