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A última ceia é uma quadro espetacular e fim

Por Cldoaldo Turcato

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Durante o domínio de Napoleão em Milão, no século XIX, o refeitório foi usado como estábulo e como se não bastasse, em agosto de 1943, durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o complexo de Santa Maria Delle Grazie foi quase que completamente destruído. As paredes laterais e o telhado do refeitório não resistiram; a Santa Ceia, protegida por poucos sacos de areia, ficou em pé. Coberta posteriormente por um telão, ainda passará alguns anos a céu aberto, exposta ao sol, chuva e poluição, antes que a cidade e seus monumentos sejam reconstruídos.
Depois de toda essa história, se pode dizer que visitar essa maravilha do Renascimento Italiano é uma das melhores coisas que você pode fazer em Milão e requer uma boa dose de organização na reserva dos bilhetes com pelo menos três meses de antecedência.
A obra não foi a única que Leonardo deixou na cidade. Durante a sua estadia em Milão, que durou cerca de 20 anos, o gênio projetou as comportas e eclusas para o sistema de canais de Milão (realizadas posteriormente a partir de seus desenhos), afrescou uma sala no Castelo Sforzesco, ainda existente (Sala delle Assis), pintou o quadro Retrato de Músico, exposto na Pinacoteca Ambrosiana e escreveu muitos dos famosos Códigos Vincianos. Milão hospeda hoje dois deles: o Código Trivulziano, hospedado no Castelo Sforzesco e o Código Atlântico, exposto por partes na Biblioteca Ambrosiana.
Um livro lançado recentemente no Brasil, best-seller em 43 países, levanta novas controvérsias em relação às supostas intenções de Da Vinci. Para o jornalista e pesquisador espanhol Javier Sierra, autor de “A ceia secreta”, o quadro é uma agressão explícita à Igreja Católica, comandada à época pelo Papa Alexandre VI.
O artista faz eco à visão do Duque de Milão, Ludovico Sforza, que encomendou a obra para ser a peça central do mausoléu de sua família. Sforza estava prestes a entrar em guerra com o Papa, que pretendia expandir seus domínios até a cidade. Para o nobre, a obra-prima de Da Vinci deveria atacar o líder da Igreja, que subornou os cardeais para conquistar o Pontificado. Tradicionalmente, a ceia é retratada como um momento em que Jesus consagra a Eucaristia. Da Vinci, no entanto, esquivou-se de qualquer visão doutrinal. O cálice do Santo Graal, um símbolo da aliança entre Deus e os homens, não está sobre a mesa. Não existem auréolas, que representavam os apóstolos como santos.
A inspiração do artista foi um versículo do livro de João, na Bíblia Sagrada, quando Cristo anuncia: “um de vós me trairá”. Judas seria a resposta óbvia. Mas não para Da Vinci. No contexto religioso, Judas é realmente o traidor. No entanto, como esta é uma obra política, a resposta é diferente. A única arma que aparece na cena, uma adaga, está na mão de Pedro. Ele, como fundador da Igreja, na época, simboliza o Papa. Então, para Da Vinci, o Pontífice é o verdadeiro traidor de Cristo.
O afresco de Da Vinci foi o primeiro a dispor todos os personagens lado a lado. Até então, configurações diferentes da mesa deixavam alguns discípulos de costas para o espectador. A visão de todos os personagens contribuiu para que o artista imprimisse suas convicções particulares, além dos simbolismos que agradavam Sforza. Algumas destas explicações estariam entre as mais de oito mil páginas de relatos escritos pelo artista e ainda preservados.
Ao contrário dos outros discípulos, três apóstolos à esquerda de Jesus estão de costas para Ele, como se estivessem confabulando. O trio é, originalmente, formado por Mateus, Judas Tadeu e Simão. Da Vinci, no entanto, muda os personagens. Ele põe seu próprio rosto no lugar de Judas Tadeu, o segundo a partir do fim da mesa. Da Vinci aparece quase identicamente em seu autorretrato, pintado cerca de três anos depois.
A razão para Da Vinci dar seu rosto a São Judas Tadeu é um mistério não explicado em seus esboços e notas . Uma hipótese é de que Judas Tadeu sempre foi o santo das causas perdidas ou difíceis, aquele a quem recorremos quanto tudo já falhou. Da Vinci tinha esta sensação sobre o seu trabalho. Todos o procuravam para resolver problemas. Sua fama de inventor capaz de resolver qualquer questão o acompanhou até a morte. Então, quem sabe?
À direita de Da Vinci, em vez de Mateus, estaria Marsílio Ficino, amigo íntimo do artista e tradutor dos textos do filósofo grego Platão para o latim. O artista e Ficino olham atentamente para o homem na extremidade da mesa, que parece conversar com a dupla. Na interpretação bíblica, seria o apóstolo Simão. Da Vinci, no entanto, retratou-o como Platão. O rosto do filósofo, no afresco, é semelhante ao visto em seu busto, exibido em Florença.
Antes dele, em 2003, Dan Brown irritou a Igreja com o livro “O Código da Vinci”, em que conta que, ao lado direito de Jesus, está Maria Madalena. Segundo o escritor, eles teriam se casado e tido filhos. O Vaticano chegou a encarregar um arcebispo italiano para desmascarar as teorias levantadas pelo best-seller, que a Igreja definiu como “um saco cheio de mentiras” e pediu para que os cristãos não o comprassem ou lessem. Sierra também acredita que a figura à direita de Jesus é feminina. Trata-se, porém, de João, o apóstolo puro. Ele teria sido retratado desta forma porque, segundo os renascentistas, a pureza está ligada à forma de uma mulher.

É muito pouco provável que Da Vinci se curve ao Duque de Milão para fazer alusões críticas ao Papa. Parece um pouco inverossímil, vendo o conjunto da obra. Naquele momento, ele estava desinteressado por pintura, chegou a dizer que tinha nojo de pincéis. Se a intenção de Sforza fosse difundir críticas no afresco, ele seria exposto em um local mais acessível ao público e não no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie.
Discussões à parte, o que se sabe é que tudo que temos até então são teorias, e são tanta que alguns até duvidam da existência de Da Vinci. De qualquer maneira, A última ceia é uma obra monumental e sobreviveu ao tempo e espaço para nos encantar.