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Arte boa e ruim não significa asfalto e favela: está em todo lugar

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Por Clodoaldo Turcato

Falar de arte sem sair de casa e ficar em livros é como ver jogos na televisão, ler em tela, ver obras em livro e ver filme em casa – sem calor, frio e uma atividade solitária.

Nos últimos dias eu estive em encontros culturais vendo arte e pessoas – calor. Participei da Feira Literária da Periferia em São Lourenço da Mata, Pernambuco e visitei a Galeria Garrido, em Casa Forte, Recife. Dois extremos. Num lado a periferia se expressando, com improvisos, som mal equilibrado, performances circenses e sangue na veia. De outro, o formal, o pródigo, a fama, o glamour e sangue na veia.

Claro que alguns irão perguntar e o que isso tem a ver?

Por acaso, este gajo que vos escreve foi convidado para os dois eventos: a favela e os asfaltos – não me perguntem como isso aconteceu. Convidaram-me, fui. THE END!

Por acaso eu pinto, ou penso que pinto. Por acaso eu me atiro feito louco e às vezes dá certo. Tomem este texto como exemplo. Não será formal, nem terá a pesquisa devida. É algo menos sublime ou todo sublime. São linhas sem rumo, bêbadas, que irão expor um sentimento ou apenas um relato que me levou a transacionar nestes dois mundos. O faço a muito tempo. No começo foi à rua, depois foi o museu, voltei para rua e tornei ao museu. Isso não me diminuiu bem aumentou apenas me oportunizou ser imparcial.

Após ter a honra de conhecer José Claudio, fui para a internet em busca de dados e imagens do grande mestre. Encontrei um vídeo onde ele expõe seu modo de pensar em arte. Não me parecia à vontade, temia, por certo, se expor. Porém relatou algo que para mim foi crucial sempre: é besteira discutir figurativo ou abstrato. É imprudente eleger arte por critério pessoal e não tentar compreender o que não se gosta. Estou me repetindo, enfim.

Isso não é um argumento para justificar a arte de má qualidade. Eu vi, nestes dias, arte de boa e má qualidade na favela e no asfalto. Tentei ser imparcial, justo e não colocar meu gosto acima de conceitos. Vi a obra pura. Mesmo assim, encontrei várias obras com grande apuro e outras apenas uma mistificação.

Como avaliar se uma obra é boa ou ruim. Difícil? Talvez. Nem tanto. Imagine que você vai viajar para a Europa e vai visitar diversos museus. Você não vai querer chegar a essas galerias e querer ir embora meia hora depois porque não entendeu nada. Arte é algo para se mergulhar, e que faz muito bem não somente ao cérebro, mas à alma. Mas como entender arte?

É difícil de catalogar arte, assim como dizer isso ou aquilo é arte, ou até que aquela arte é boa e aquela é ruim. Mas, pelo menos, você pode usar alguns truques. Quando estiver diante de algo, olhe bem para a obra e, depois da observação, feche os olhos e tente descrevê-la para si próprio.

 

Uma boa obra de arte é difícil de esquecer. No caso de você ter ido a um museu ou galeria, ponha-se a pensar em todas as obras e veja de quais se lembra e quais não. Se você conseguiu se recordar de algumas, é porque, de alguma maneira, elas chamaram sua atenção.  Como escrevi acima, é um truque e não basta isso, apenas.

 

As boas obras de arte despertam sentimentos e sensações. Quando o artista trabalha em uma ideia, ele normalmente quer expressar emoções como alegria, angústia, tristeza, euforia, amor, serenidade, etc. Se você está na frente de uma pintura que não desperta nada em você, siga adiante.As obras de arte também podem ser analisadas de acordo com sua complexidade de realização. Quase sempre uma peça tem um valor em razão da técnica utilizada e do conceito que apresentam.Você pode gostar mais de Rococó e seu amigo preferir o  Renascimento. O importante é apreciar a arte e, a partir da observação delas, aprender sobre os variados estilos artísticos e os pintores.Leve em consideração, ainda, que muitos artistas reconhecidos atualmente passaram a vida sem escutar que sua arte era boa, tamanha é a dificuldade de avaliar uma obra de arte.

 

A arte boa é uma ação boa: com potencial eu daimônico, de inspirar, propiciar, convidar para vidas melhores, mais amplas, inclusivas, saudáveis, criativas, compassivas. Seja lá qual forma isso ganhe na prática. A arte pela arte, conceitualmente arbitrária, feita-porque-sim, pelo mero comércio, entretenimento ou distração, essa eu proponho botar em cheque — não censurar ou negar, mas perguntar claramente a que veio: por que lhe devo dar atenção, tempo e vida?​Destrinchar os infinitos meandros teóricos e práticos desse problema ainda é responsabilidade inevitável de cada um, em cada caso. Nenhuma atividade humana escapa, nem a arte.

Curioso notar que quando pensamos “bom” ou “compassivo” o que vem à mente é alguma coisa meio carola, moralista, certinha, higienizada, apolínea. E não é o caso, a cara da compaixão não é boazinha, é a cara provisória que precisar e funcionar.Para a saúde da própria arte, é necessária a proliferação dos movimentos que contestam as tendências e estilos correntes. Para a saúde das pessoas, são necessários artistas capazes de ler a cultura e a sociedade, de ter compaixão e habilidades técnicas, estéticas e de linguagem para pacificar, enriquecer, magnetizar, destruir, contestar — intervir e oferecer o que for necessário.

Nenhuma obra, não importa seu preço, originalidade ou provenance, nenhum movimento, estilo, refinamento técnico ou estético é critério suficiente, porque nada disso é absolutamente bom em si, sempre, para todos. O que é remédio agora, vira veneno depois; o que ajuda uns, atrapalha outros.Mas um critério não muda: há ou não há potencial eudaimônico. Esse referencial é necessário para todos, sem exceção, mas é especialmente necessário para quem for capaz de estimular as pessoas emocionalmente e de mobilizar a cultura. E não é porque alguém está dizendo, é porque cada umviu que há um sofrimento imenso no mundo e que a felicidade genuína é possível.

Há duas ideias realmente ruins que pairam sobre o mundo moderno e que inibem a nossa capacidade de extrair força da arte.A primeira é que a arte deveria ser feita pela arte. Uma ideia ridícula. A ideia de que a arte deveria viver em uma bolha hermética e não deveria fazer nada a respeito deste mundo problemático. Eu não poderia discordar mais. A outra coisa em que acreditamos é que a arte não deveria explicar a si mesma, que artistas não deveriam dizer a que vieram, porque dizer isso seria destruir a magia – acharíamos tudo muito fácil. É por causa disso que um sentimento muito comum que temos quando visitamos museus ou galerias – vamos admitir – é “eu não estou entendendo isso”. Mas se somos pessoas sérias, não vamos admitir. Essa sensação de que há um enigma é fundamental à arte contemporânea.

Religiões tem uma atitude bem mais sã em relação à arte. Eles não tem problemas em nos dizer para que ela serve. Arte serve para duas coisas em todas as fés maiores: primeiro, ela tenta lembrar você do que há para ser amado, segundo, ela tenta lembrar você do que há para ser temido e detestado. E é isso que é a arte, um encontro visceral com as ideias mais importantes da sua fé.

Então, quando você caminha por uma igreja ou mesquita, o que você está sorvendo com seus sentidos são verdades que de outra forma chegariam a você pela mente. Essencialmente isso é propaganda. Rembrandt é um propagandista do ponto de vista cristão. Agora, a palavra propaganda soa alarmes – pensamos em Hitler, Stalin –, mas, não é necessário. Propaganda é uma maneira de ser didático a respeito de alguma coisa. Se essa cosia é boa, não há problema algum. Todas as obras de arte estão nos falando sobre coisas, e se fôssemos capazes de arrumar espaços para passar pelas obras, poderíamos usar essas obras de arte para fortalecer essas ideias na mente, e a arte nos seria muito mais útil. A arte tomaria para si o dever que costumava ter e que negligenciamos por causa de ideias mal fundadas. Arte deveria ser uma das ferramentas com as quais melhoramos a nossa sociedade, arte deveria ser didática.

Não compreendeu muito?

Bom, para compreender tudo é necessário que você saia de sua zona de conforto, tome a rua e conheça os trabalhos bons e ruins que existem por aí. Com essa bagagem e vontade sincera de se transformar você compreenderá finalmente que arte existe tanto no asfalto como na favela e a experiência desse contato é insubstituível.

Este meu escrito é ilustrado pela obra É frevo, de José Claudio.