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Nossa colunista num passeio intersemiótico!

Danuza lima publica carta escrita para o seu grande amigo, o poeta, músico e autor de “Opusfábula” (CEPE), Jonatas Onofre. “Há uns 15 dias ele me enviou o seu EP – “Ermo” e tal foi meu encantamento com o álbum que, como de costume, enviei uma carta com minha leitura despretensiosa, de quem não é musicista, mas que ouve música como quem lê poesia…”. Danuza.

EP: https://jonatasonofre.bandcamp.com/album/ermo

Por: Danuza Lima

Devo iniciar confessando o que já sabes: sobre a música, me dedico a ouvi-la como quem lê, como quem escreve e passa tempos recolhendo e acolhendo o texto para acoplar a palavra no corte certo da navalha.  Por isso, as impressões que te deixo funcionam como setas despretensiosas e imaturas de quem lê para ouvir ou vice-versa, como quem aponta o prumo frente a leitura da poesia da vida, o pulsar e a roda dela a girar, enquanto em poema, ficamos nós leitores, assim como em “ermo”, apontando vibrações audientes por sobre os versos, que palavra e nota musical coadunam-se na linha motriz deste pulsar: a música. 

No mundo céltico, diz-se que Cuchulainn gravou uma inscrição num círculo de madeira, para defender-se do exército da Irlanda. A inscrição feita na escritura celta ordenava a quem lesse a proibição de seguir a diante na caminhada, de aceitar o duelo. Teu EP, assim como o símbolo mágico para os celtas, é “o limite mágico infraquecível”, aceito teu duelo. Foi exatamente a imagem circular, o símbolo fundamental do universo, segundo a razão imaginária, que me veio à mente quando ouvi “girou, girou”. E não só pelo resgate semântico do título, mas pela forma como as cordas do violão produzem um som circular, construindo nas engrenagens da razão, a imagem e o som do “círculo como signo da Unidade de princípio”. A própria voz, em escaleta traduzida, é um poema sobre as distâncias circulares da vida e do tempo, você mesmo o sabe de sua imutabilidade, músico que é, o tempo para você é matéria viva de uma realidade cósmica, tangível apenas através da arte de “poder tocar um instrumento”, ou usar o aqueduto vocal.

Mas é sobre distâncias este teu EP, distâncias circulares ou quadradas, versadas no centro de algo, sendo assim, teus caminhos, me parece, retornam sempre à unidade fundamental da vida, da leveza e dor de ser quem é, nesses caminhos trilhados “a ermo”.

Lembro que te disse uma vez, que teu violão, acompanha uma voz inquieta por soar aos caminhos, agora essa voz, se mostra, este violão que duramente se examina e se estuda junto ao piano, visivelmente influenciado pelos caminhos mineiros do Milton, do Clube, digo “visivelmente”, sabes porquê. Por isso, em tuas “vastidões”, os giros da roda da vida indicam uma totalidade, a perfeição de um tempo que engloba os números cotidianos das placas difusas das ruas, dos anônimos nos coletivos, da especulação de um olhar poético sobre os lugares, agredindo sensivelmente o fio das horas, da matemática musical.

Ao acompanhar esse passeio, sigo teu conselho e chego ao teu ermo caminhar, que eu, audiente-leitora, sou levada pela bela execução de um instrumento que para mim, com relação a você, é novo. Como todo novo, o impacto soou longe, essa era tua intenção, imagino; este “ermo” caminho que aos poucos vai encontrando um varadouro provisório (como toda volta no círculo do tempo) para um transeunte como você. As faixas vão se ajustando, não pouco a pouco, mas leves, muito leves e talvez essa tua leveza, seja para mim, tua melhor conspiração para com a poesia de tua música. E se na composição “profética” deste EP, os recursos foram simples, tua música, cada vez mais, se mostra mais elaborada, sensorialmente “infranqueável”, como as faces do tempo, aos olhares de Minervina, que você resgata tão bem.

Mas uma vez, sou compelida à imagem central: o círculo, que todo caminho é, mesmo pela estrada longa que se trilha, ermo que seja, é todo circular, que sai de giros e volta, em ti, para a cantiga popular.

Não te digo mais nada, por hora. Eu paro no silêncio, única forma de burlar o giro da roda da vida, ao menos metaforicamente, e espero mais destes teus caminhos, sempre.

 

Danuza Lima é escritora, professora e mestra em Teoria da Literatura!