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Labirínticos! Elis Regina

ElisPor Danuza Lima

Labirínticos são os caminhos que percorremos entre a literatura e a música, juncos, notas musicais, sons adversos, versos e parágrafos interligados; mas entre os textos e uma determinada voz, isso sim, é tarefa para o chamado leitor-audiente. Falo de uma voz em particular, Elis Regina, não apenas como mulher, como voz, estridente, os olhos, o olhar, os trejeitos interpretativos, a imensa figuração quase onírica de sua voz. Ela tinha a rara habilidade de fazer-se pertencente ao instrumento que a acompanhava, piano, violão, percussão, quase todos pareciam humildemente render-se aos seus afinados acompanhamentos vocais, assim como “as palavras são diabólicas”[1], sua voz o era, veneno aos ouvidos, veneno que não mata, inebria.

Ao relembrarmos os 70 anos de nascimento da cantora, os aplausos e festejos são quase infindos, mas o que pouco vemos são nossos passos interligados entre entre ela  e a literatura  [conexões, perdoem, íntimas demais].

Apesar de ter sido apenas intérprete e nesta tarefa, talvez a melhor em nossa música, comulgamos nossos pensamentos aos mais findos e misteriosos caminhos desses labirintos. “O efeito que um livro exerce sobre nós só é real se experimentarmos o desejo de imitar sua intriga, de matar se o herói mata, de estar ciumento, de estar doente ou morimbundo se ele morre”, disse E.M Cioran. Eis a reação ao ouvir a voz de Elis que rodopia na vitrola antiga, incitando-nos a rodopiar também, como nos versos ritmicos de Cecília Meireles, a vontade é rodar, girar, mergulhar os mares, posto que  “por todos os lados/o mar me rodeia”.  Se há letra, é na voz que se produzem as emulações dos sonhos, despencamo-nos como um kamikase nos terrenos íngremes de sua voz, ao percorrer o “Jardin do Éden”, do senhor Ernest Hemingway, cheio de calor e da malícia-pimenta de seus choros. Nélida Piñon e seu “A casa da paixão” deixam as pedrinhas a ladrilhar os caminhos juntamente com o “me deixas louca”, é a essência – palavra perigosa – do ser mulher, na irreparável interpretação de  “atrás da porta”, docemente acompanhada do desespero calmo do campônio, ao dizer a sua amada “Não quero despojar-me de um coração que te ofereci com tanta opulência”[2]. “O menino de engenho”[3] paira  em seus pululos de “Upa neguinho”. Combinações possíveis e caminhos trilhados, joguemos esses ladrilhos, intorpecemo-nos dessa voz que (re)desenha os textos, os versos, tornemo-nos leitores-audientes, jogando areias, plantando flores nos terrenos quase absurdos da literatura e da música, para tornar não só esta voz, célebre lembrança de presentes, pretéritas e futuras leituras, mas virar “corsário”, como um velho lobo do mar…

Danuza Lima é contista, poetisa, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE.

 


[1] Leyla Perrone-Moisés_Flores na escrivaninha

[2] Nélida Piñon_O calor das coisas

[3] José Lins do Rego