Tag: Dorian Gray

Contrastes

retratodedoriangray_01Por: Patricia Tenório

O que tem a ver Albert Einstein, O retrato de Dorian Gray, o Renascimento, Milton Nascimento e Emilson Zorzi?

Albert Einstein sempre rondou meu imaginário, seja na admiração que meu pai tem por ele, seja num desejo antigo meu de ser cientista. Desejo meu ou desejo do outro que é meu pai, materializando-se através da filha mais velha?

Retornei de uma viagem pela Itália, particularmente visitei a Toscana. Aproveitei a ocasião para estudar in locuo sobre o Renascimento.

Há mais ou menos dois meses terminei de ler O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Havia lido e muito me impressionou De Profundis A alma do homem sob o socialismo.

No voo de volta da Itália, assisti Einstein & Eddington([1]).

Trata-se de um trecho da vida de Albert Einstein quando, com a ajuda de Arthur Eddington, descobre a Teoria da Relatividade. O que mais me toca no filme, além da fotografia de uma Cambridge do início do século XX e uma Berlim a caminho da 1ª Grande Guerra Mundial, é a delicadeza e a violência ao mesmo tempo do gênio criador. Eddington, apesar de Einstein pertencer à nação inimiga, defende a Ciência acima dos preconceitos e atrocidades humanas. Einstein permanece em seu centro, ou procura permanecer, ainda que solitário, ainda que forçado a assinar uma lista de 93 cientistas a favor do Kaiser, ele encontra em si sua máxima coerência. Lembro do livro Como vejo o mundoonde Albert Einstein discorre sobre temas diversos. Abre com uma crônica homônima ao título e se considera “profundamente um solitário”, mas ao mesmo tempo crê “profundamente na humanidade”, apesar da sua “inconsistência”.

 

Certas Canções – Milton Nascimento

A máxima do Renascimento foi a imitação como forma de aprendizado. Segundo Alexandre Ragazzi([2])

“… o artista, por meio da imitação de diversos modelos, fatalmente acabaria por criar uma nova obra.”

Ao processo de imitação caberia seguir o outro, se equiparar a esse outro esuperá-lo. Através da cópia, da humildade do discípulo em abrir-se aos ensinamentos e conhecimentos do mestre, uma fresta ilumina o que em si habita, e, através do estudo, contínuo e persistente, pode ser revelado. A escavação, às vezes, leva toda uma vida se assim o quiser, tornando-se independente de seu mestre caso seja esta a sua natureza.

Retiramos máscaras atrás de máscaras e não nos reconhecemos mais, e não aceitamos que eram apenas máscaras o que usávamos quando nos aparentávamos bons, belos, próximos à imagem e semelhança divina. Mas vemO retrato de Dorian Gray e nos retira mais uma máscara de vaidade, e nos faz cair ao rés-do-chão e apanhar as últimas partículas do ser, tentando montar um espelho partido do outro, um espelho que precisamos para nos reconhecer e nos por em pé novamente e tentar desfazer os nós que em nós mesmos criamos.

Desfazem

nós

tramam…

nós seguimos,  nós

desfazemos,

um a um, nó, só, nós…

desfazem-se os nós,

nós,

podemos desfazer os nós, contras e prós

nós e nós

nós com nós com nós

não há nós

fio reto para tecer-nos

ternos ex-nós

(Nós, Emilson Zorzi)

Param

As vespas cantantes

No santuário

Do meu canto límpido

Você

Atravessa o espaço

Outrora alheio

Agora nosso

Para

Desfazer os nós

Que em nós se armaram

Até os ossos

Vem

Na manhã fria

Uma luz, um fio

A costurar palavras

Onde agora posso

Refazer os nós

Dos que se amaram

Até os ossos

(Nós, Patricia Tenório)

 

(1) Dirigido por Philip Martin, com Andy Serkis (Einstein) e David Tennant (Eddington).  

(2) Revista O tempo do renascimento, Vol. 3 – 1480 a 1500.

http://www.patriciatenorio.com.br/?p=286

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