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Um pintor apenas

Por Clodoaldo Turcato

Ao que se aprofunda em arte, como em tudo na vida, vai esmiuçando cada vez mais e aumentando as classificações. Então, se no início você entende as grandes escolas de arte, depois de algum tempo vai descobrir intervalos não menos interessantes e artistas que não se encaixariam em nenhuma escola ou em várias. Eu, particularmente, não gosto muito destas classificações. Afinal, qualquer artista pode transitar em vários estilos e fazer uma construção ampla de experimentos que não fixam, moldam e muito menos prendem. Não se pode encher o peito e falar que é modernista, romântico, barroco, renascentista, etc. Depois do advento da fotografia e a revolução impressionista, o conceito de arte se ampliou a tal por que temos dificuldades em nos situar. É importante estar aberto para o novo, visualizar sem preconceitos e formular estudos para que a comparação seja apenas acadêmica, sem amarras. Um dos grandes artistas mundiais que é inclassificável chama-se David Bomberg.

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David Bomberg nasceu em Birmingham, Inglaterra, em 1890 e era filho de imigrantes poloneses. Em suas obras utilizava formas angulares e semi-abstratas. Com esses trabalhos o artista demonstrava toda a vitalidade que dominava o povo no início do século XX e a agitação que as máquinas estavam trazendo para a sociedade o que passou a modificar muito os costumes da população. Foi um dos mais audaciosos da geração excepcional de artistas que estudaram na Slade School of Art sob Henry Tonks e que incluiu Mark Gertler , Stanley Spencer , CRW Nevinson e Dora Carrington . Bomberg pintou uma série de composições geométricas complexas combinando as influências do cubismo e futurismo nos anos imediatamente anteriores a Primeira Guerra Mundial ; Tipicamente usando um número limitado de cores impressionantes, transformando os seres humanos em formas simples e angulares, e às vezes superpondo a pintura inteira, um forte esquema de coloração de trabalho em grade. Ele foi expulso da Escola Slade de Arte em 1913, com acordo entre os professores seniores Tonks, Frederick Brown e Philip Wilson Steer , por causa da audácia de sua violação da abordagem convencional da época.

Seja por sua fé na era da máquina ter sido quebrada por suas experiências como soldado particular nas trincheiras ou por causa da atitude retrógrada generalizada em relação ao modernismo na Grã-Bretanha Bomberg mudou-se para um estilo mais figurativo na década de 1920 e seu trabalho tornou-se cada vez mais dominado por retratos E paisagens tiradas da natureza. Desenvolvendo gradualmente uma técnica mais expressiva,ele percorreu muito o Oriente Médio e a Europa.De 1945 a 1953, trabalhou como professor na Universidade Politécnica de Borough (agora London South Bank University ) em Londres, onde seus alunos incluíram Frank Auerbach , Leon Kossoff , Philip Holmes, Cliff Holden , Dorothy Mead, Gustav Metzger , Dennis Creffield Cecil Bailey e Miles Richmond . David Bomberg House , um dos salões de estudantes das residências da London South Bank University, é nomeado em sua homenagem.

Uma de suas obras que sintetizam boa parte de seu trabalho é O Banho de Lama, um Óleo sobre tela medindo 152,5 x 224 cm, que está na Tate Gallery de Londres, Inglaterra. De início o quadro pode parecer totalmente abstrato. Na verdade, ele mostra uma sauna usada pela comunidade judaica de Whitechapel, em Londres.Figuras azuis e brancas se acotovelam e pelam no retângulo vermelho da sauna, se atirando em volta do pilar escuro. A peça é brilhante pela composição e distribuição de formar num espaço e saltitam aos nossos olhos nos atirando as formar sensuais das formadoras do quadro. A forma como Bomberg reduz a figura humana a uma série de formas geométricas pode refletir seu fascínio pela era da máquina, que ele compartilhou com os Futuristas e Vorticistas. Esta pintura também pode representar a forma humana, despojada de seu núcleo essencial.

O excelente desenho de Bombergfoi expressado também em uma série de retratos aolongo da vida, desde o início de seu “Cabeça de Poeta” de Botticelli (1913)z, um retrato de lápis de seu amigo, o poeta Isaac Rosenberg, pelo qual ganhou o Prêmio Henry Tonks No Slade , ao seu “Último Auto-Retrato” (1956), pintado em Ronda, uma meditação também sobre Rembrandt . Incapaz de obter uma posição docente após a Segunda Guerra Mundial em qualquer das mais prestigiadas escolas de arte de Londres, Bomberg tornou-se o professor mais exemplar do período imediato de pós-guerra na Grã-Bretanha, trabalhando a tempo parcial em uma escola de padaria no Borough Polytechnic (agora London South Bank University ) no distrito da classe trabalhadora da Southwark. Embora seus alunos não tenham recebido nenhum diploma e não tenham recebido nenhum diploma, ele atraiu alunos dedicados e altamente enérgicos, com quem exibiu em igualdade em Londres, Oxford e Cambridge em dois importantes grupos de artistas em que ele era a luz principal, o BoroughGroup e BoroughBottega . Desenvolveu uma filosofia de arte profundamente considerada,

Após um colapso em Ronda ,Bomberg morreu em Londres em 1957, seu estoque crítico aumentando bruscamente depois disso. Um dos admiradores de Bomberg, o pintor Patrick Swift , desenterrado e editado pensées de Bomberg, e mais tarde foi para publicá-los, juntamente com imagens do trabalho de Bomberg, como ‘The Bomberg Papers’ em seu ‘ X revista (Junho de 1960). Após o seu sucesso inicial antes da Primeira Guerra Mundial, ele foi na sua vida o artista mais brutalmente excluído na Grã-Bretanha. Tendo vivido há anos sobre os ganhos de sua segunda esposa, companheira Lilian Holt e remessas de sua irmã Kitty, ele morreu na pobreza absoluta. Seguindo a sina de muitos grandes artistas, Bomberg foi reconhecido postumamente e hoje seus quadros são leiloados por milhões de dólares.

O reconhecimento póstuma de Bomberg se justifica dado a grandiosidade de seus quadros. É uma arte diferente, desencontrada que se encontra em traços e cores. Um pirilampo que nos leva a passear nossos olhos por todos os cantos da tela e nos tira da mesmice, enaltecendo a beleza e a candura. Não importuna e não incomoda ver um quadro de Bomberg. Ao contrário, nossa alma é talhada, agraciada e refeita. O artista não era abstrato somente, não era modernista, cubista ou qualquer outra classificação. Bombergera um pintor e fim.
Outras obras do artista são A igreja do Santo Sepulcro, Lilian, Ju-Jitsu, Flores e Racerhorses.

Um pouco de arte oriental

Por Clodoaldo Turcato

Em algum momento eu li que a arte reconhecida ou estudada é apenas a Ocidental, devido aos problemas inúmeros, principalmente as distância entre Europa e o Oriente, principalmente Japão e China.  Com esta preguiça, muito pouco se vê em livros desta milenar arte e tão fundamental dentro do ciclo que faz parte a história da humanidade. Isso vale para literatura, artes plásticas e teatro.

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Um pesquisador sério precisa se voltar para a arte Oriental em algum momento e, mesmo que resumidamente, expor outros modos e visões. Nosso intuito desde o começo desta coluna era tentar desmistificar um pouco a arte e coloca-la mais próxima do popular para que pudesse ser apreciada e compreendida. O sucesso dessa empreitada depende muito de empenho e ser honesto com o que se escreve, com alguma competência, evidentemente.

A China sempre foi um dos países mais cativantes que conheço. Em todos os tempos, os chineses ousaram a dar ao mundo grandes artistas e obras em todas as áreas. Não bastaria uma vida para estudar todo processo chinês, além do domínio da língua ser uma necessidade primordial para compreender todas as reviravoltas e controvérsias que transformaram o grande império numa nação metamorfoseada, incrivelmente eclética e com cultura vasta. Então, caro leitor, não há mais tempo para tal intento. Iremos no barco comum do pesquisador tardio e resumir uma obra apenas que tem a amplitude de dar uma ideia do quanto este povo é valoroso.

O Exército de terracota é um excêntrico mausoléu está em Xi’an, a 1.200 km de Pequim. Durante mais de um milênio, Xi’an foi a capital do império unificado e sede de 11 dinastias chinesas. A cidade estava situada em uma importante encruzilhada da Rota da Seda e recebia gente de todas as direções.QinShihuangdi, primeiro imperador da dinastia Qin e responsável pela unificação inicial da China no ano 221 AC, era um tremendo déspota e tentaram assassiná-lo três vezes. Seu currículo de obras é grandioso – inclui até parte da Grande Muralha, a qual foi reforçada durante seu reinado. O imperador abriu novas estradas, ergueu palácios, criou sistemas de irrigação e instituiu um severo código penal. Pesos, medidas e moedas foram unificados. O desenho da famosa moedinha chinesa com um buraco no centro data dessa época.

O delírio de grandeza de QinShihuangdi fez com que ele começasse a construir seu mausoléu logo que entronado, no ano 246 AC, com apenas 13 anos de idade. Como parte da crença, ele aspirava levar com ele, no momento de deixar a vida terrena, tudo que fosse importante. Para ele, o principal era seu exército. Quando morreu em 210 AC, com 49 anos, toda uma hoste de guerreiros em terracota, em tamanho original, acompanhou-o para a seguinte vida. Mais de 700 mil pessoas trabalharam para montar sua majestosa tumba. Ver fotografias ou ler sobre os guerreiros de terracota de Xi’an é uma coisa, estar dentro do pavilhão que protege as escavações é uma sensação muito mais impressionante. Três enormes fossas escavadas revelam o estonteante conteúdo. Na primeira fossa, a maior e a mais rica tumba, possui um imenso retângulo aberto no solo de 62 por 230 metros. São mais de mil soldados de pé, todos olhando para a frente, como se estivessem prestes a atacar.

Os guerreiros formam onze colunas na direção leste. As figuras humanas são de tamanho natural e variam de 1,72 metro a 2 metros de altura. Cada soldado tem uma fisionomia diferente: alguns sorriem, outros são mais sisudos. Uns possuem barba, outros bigodes. O adorno na cabeça identifica o status: quanto mais sofisticado, maior a posição. Enquanto o torso, os braços e a cabeça são ocos, as mãos e as pernas são moldadas com barro maciço.Cada peça de terracota é decorada de maneira diferente. Consigo discernir alguns traços de pintura vermelha e amarela que resistiram ao tempo. Segundo os arqueólogos, a tinta foi confeccionada à base de minerais e fixadores, tais como sangue animal ou clara de ovo. Outra análise mostrou que as peças foram cozinhadas em fornos de até 1.000° C de temperatura, demonstrando uma grande habilidade na arte da cerâmica.Originalmente, os soldados portavam armas verdadeiras, como arcos, flechas, espadas e lanças. Os artefatos de madeira não chegaram aos nossos dias, mas os de bronze e outras ligas foram desenterrados em perfeito estado. Os cavalos em terracota, também em tamanho original, parecem estar vivos e suas bocas abertas sugerem relinchos. Arqueólogos consideram que, se totalmente escavada, essa primeira fossa desvendaria cerca de 6 mil guerreiros, 160 cavalos e 40 carros de guerra.

Fascinante é o fato que o lugar, QinLing, a 30 km a leste de Xi’an, só tenha sido descoberto 22 séculos depois de construído. Em março de 1974, um camponês que furava um poço encontrou um pedaço de cerâmica. Com receio de ter feito algo errado, preferiu chamar as autoridades. Em seguida, chegaram os arqueólogos, sem muitas pretensões. Mas quando ampliaram suas buscas, eles ficaram atônitos: guerreiros e cavalos passaram a brotar da terra dia após dia. Se não fosse o poço do camponês, esses tesouros poderiam ainda estar embaixo da terra.

De qualquer maneira, muitas coisas da China antiga foram perdidas ou esquecidas, pela quantidade de eventos violentos, pelas constantes guerras e pelo tempo. O que restou e se preservou é uma amostra do quanto ainda existe de riquezas em arte naquele continente.

Amor por anexins: uma crítica à retórica vazia, em Artur Azevedo

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Por: Jéssica Cristina Jardim (Mestre em Teoria da Literatura – UFPE)

 

Os votos que neste instante

Fazemos nestes confins

É que nos ameis bastante

Embora por anexins.

(Copla final de Amor por Anexins, de Artur Azevedo)

Naqueles confins, um certo “sentimento de missão”, um contexto social ainda conturbado, uma necessidade ainda imperante de construir uma sociedade, e ao mesmo tempo de conservá-la, uniam-se como sentidos contraditórios, na busca por alguma definição mais palpável da nacionalidade. Um período de transição, claro, sem cortes históricos bruscos, entre um Império decadente e uma República ainda incipiente. Em suma, uma época de definições ainda pouco sólidas. Renato Ortiz observa muito pertinentemente que, nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do XX, é marcante um elemento “significativo e constante na história brasileira: a problemática da identidade nacional” (2006, p. 13). Dessa problemática ocupam-se importantes literatos, estudiosos e intérpretes do Brasil, como Gonçalves Dias, José de Alencar, Artur Azevedo, Nina Rodrigues, Sílvio Romero, Manoel Bomfim, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, cada um discutindo aspectos particulares, munindo-se do ferramental de suas próprias abordagens, das ideias e das ideologias de sua época, na tentativa de compreender nossas origens, nossa formação, os males que nos cercavam, mais de quatro séculos depois da chegada dos Europeus às Américas.

Uma das questões que se apresentava a esses estudiosos dizia respeito às contradições existentes entre os discursos dominantes acerca da realidade, suas formas assumidas na linguagem e as tomadas de ação por parte dos portadores desses discursos. Tentando resumir a um só conceito, podemos dizer que nesses autores havia uma percepção da manifestação de uma certa “retórica” vazia entre os intelectuais e homens públicos latino-americanos. A retórica, enquanto “arte de persuadir pelo discurso” (REBOUL, 2004, p.XIV), concentra-se sobre as formas verbais, escritas ou orais, de início, meio e fim, e visando a produzir um sentido e convencer um público. A retórica, em essência, nada apresentaria de pejorativo, se não fosse o “senso comum”, que, devido ao seu uso como forma sem fundo, a fez ser dotada de um sentido de “coisa empolada, artificial, enfática, declamatória, falsa” (p.XV).

Transportadas a uma dimensão política, essa discrepância seria em muito responsável pelo nosso atraso em relação ao “Primeiro Mundo”, pela nossa estagnação cultural, pelas nossas injustiças sociais; como explica Manoel Bomfim, em América Latina: males de origem (1905), trata-se de uma “contradição permanente entre as palavras e os atos dos homens públicos sul-americanos”. Sérgio Buarque de Holanda diagnostica essa mesma característica em sua crucial análise de nossa formação, Raízes do Brasil (1995 [1936], p. 160): “as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das ideias pareceu-nos a mais dignificante em nossa difícil adolescência política e social”. Esse mesmo traço de nosso possível “caráter nacional” não deixa de ser observado por um dos mais importantes dramaturgos do século XIX, Artur Azevedo, que, com sua veia ferina e seu processo criativo paródico, constrói personagens totalmente incapazes de adaptar seu discurso à realidade, munidos de uma retórica vazia, como Isaías, da comédia de costumes Amor por anexins (1873).

O dramaturgo, poeta e jornalista Artur Azevedo nasceu em São Luís, a 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, a 22 de outubro de 1908, e é considerado por alguns estudiosos o mais importante comediógrafo do país (cf. FARIA, 2013). Artur Azevedo chega ao Rio de Janeiro em 1873, em meio à cultura do teatro de entretenimento, uma das principais vertentes que tomou os palcos brasileiros no final do século XIX. Nesse período, faz grande sucesso o teatro cômico e musicado, sobretudo as montagens de operetas francesas. A presença dessas operetas representava, sem dúvida, um entrave à criação de nossos dramaturgos, já que apenas se traduzia o texto e as musicas eram adaptadas para um público já habituado aos mesmos enredos. (FARIA, 2013) Nossos autores, porém, descobrem uma nova possibilidade, capaz de responder a essa demanda dos espectadores e deixar margem aos criadores de inscrever os costumes da cultura brasileira ao menos como quadro no qual a ação se realizava: a paródia da opereta. Artur Azevedo escreve paródias tais como A filha de Maria Angu (baseada em La fille de Mme. Angot) e Abel, Helena (La belle Helène).

Com o fortalecimento do teatro de entretenimento nacional, começa-se a investir em outro gênero, também de grande sucesso: as Revistas de ano, peças nas quais os principais fatos sociais e políticos do ano eram passados em revista, numa espécie de retrospectiva. Segundo Faria (2013, p.162), Azevedo é um dos principais dramaturgos a inserir “em peças mais longas as formas populares de comicidade e ao mesmo tempo trazendo para o palco algumas facetas da vida brasileira.” Em geral, a comédia das três últimas décadas do século XIX vem em geral preencher esses dois requisitos: o de ser uma adaptação ou releitura de um gênero europeu; e o de introduzir no palco algum costume brasileiro, nossas ações, nossas concepções, nossas formas de linguagem, por vezes recorrendo a recursos parodísticos, ou mesmo dialogando mais diretamente com a realidade empírica, de modo a ser possível reconhecer certos acontecimentos ou figuras públicas no palco.

Amor por anexins é a primeira comédia de Artur Azevedo, denominada de “entreato cômico”. O autor baseou-se na peça do francês Pierre Berton, Les jurons de Cadillac, a história de um capitão da marinha que tem o hábito de praguejar e que, apaixonado por uma viúva, é posto à prova por esta, que lhe exige passar uma hora sem soltar pragas. O capitão se esforça, porém é totalmente incapaz de cumprir a promessa; a viúva, porém, vendo seu esforço, decide aceitá-lo, e ela mesma adota a prática do futuro marido. (FARIA, 2012)

A comédia de Artur Azevedo segue um enredo parecido, porém o autor realiza as adaptações aos costumes brasileiros, inscrevendo os hábitos da província do Rio de Janeiro e os trejeitos de personagens tipicamente brasileiros. Sobretudo, as pragas da versão francesa são substituídas pelo “anexim” – de acordo com Houaiss (2001), “sentença popular que expressa um conselho sábio; provérbio”. Em Amor por Anexins, temos o solteirão Isaías, que corteja a jovem viúva Inês. Ela, porém, abomina o “homem dos anexins” e tem um possível pretendente mais belo, rico e jovem. Isaías, porém, é insistente: envia-lhe cartas, frequenta sua casa, e tenta convencê-la utilizando-se de toda sua “sabedoria” – baseada nos provérbios, na moral e no senso comum:

INÊS — Ainda hoje escreveu-me uma cartinha, a terceira em que me fala de amor, e a segunda em que me pede em casamento. (Tira uma carta da algibeira.) Ela aqui está. (Lê.) “Minha bela senhora. Estimo que estas duas regras vão encontrá-la no gozo da mais perfeita saúde. Eu vou indo como Deus é servido. Antes assim que amortalhado. Venho pedi-la em casamento pela segunda vez. Ruim é quem em ruim conta se tem, e eu não me tenho nessa conta. Jamais senti por outra o que sinto pela senhora; mas uma vez é a primeira.” (Declamando.) Que enfiada de anexins! Pois é o mesmo homem a falar! (Continua a ler.) “Tenho uns cobres a render; são poucos, é verdade, mas de hora em hora Deus melhora, e mais tem Deus para dar do que o diabo para levar. Não devo nada a ninguém, e quem não deve não teme. Tenho boa casa e boa mesa, e onde come um comem dois. Irei saber da resposta hoje mesmo. Todo seu, Isaías.” (2012, p. 366)

Quando Inês recebe por carta a notícia de que seu pretendente conseguira outra proposta de casamento mais vantajosa, ela decide aceitar a corte de Isaías – não sem antes pô-lo à prova: ele deveria passar meia hora sem utilizar os anexins. Isaías se esforça, sem grande sucesso. Vislumbrando, porém, a possibilidade de ficar sozinha, e percebendo o esforço de seu pretendente, decide aceitar a proposta. E ela mesma termina se utilizando das máximas, como na ironia final sobre o amor romântico, pois, como ela mesma afirma: “Sossegue: o amor virá depois. Seja bom marido e deixe o barco andar!” (AZEVEDO, 2012, p. 379).

O título da comédia pode ser compreendido de, pelo menos, duas maneiras: a primeira se refere ao apego dos personagens às máximas; a segunda, que nos interessa especialmente, está ligada às praticas sociais do “amor”, ou melhor, do relacionamento entre homem e mulher no casamento, que, na peça, são perpassadas pelos anexins, ou seja, o amor se concretiza pela mediação dos provérbios. Ora, Isaías é representante de uma classe de pessoas que baseiam seu conhecimento nas máximas, as quais contêm uma ideia ou um conceito sobre a realidade ou resumem alguma regra social. O personagem permanece impassível à recusa da viúva, não dialogando com ela, não compartilhando da realidade de estar sendo rejeitado:

ISAÍAS — Vim em pessoa saber da resposta de minha carta: quem quer vai e quem não quer manda; quem nunca arriscou nunca perdeu nem ganhou; cautela e caldo de galinha…

INÊS (Interrompendo-o.) — Não tenho resposta alguma que dar! Saia, senhor!

ISAÍAS — Não há carta sem resposta…

INÊS (Correndo à talha e trazendo um púcaro cheio d’água.) — Saia, quando não…

ISAÍAS (Impassível.) — Se me molhar, mais tempo passarei a seu lado; não hei de sair molhado à rua. Eh! eh! Foi buscar lã e saiu tosquiada!…

INÊS — Eu grito!

ISAÍAS — Não faça tal! Não seja tola, que quem o é para si, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue! Não exponha a sua boa reputação! Veja que sou um rapaz; a um rapaz nada fica mal…

INÊS — O senhor, um rapaz?! O senhor é um velho muito idiota e muito impertinente!

ISAÍAS — O diabo não é tão feio como se pinta…

INÊS — É feio, é!…

ISAÍAS — Quem o feio ama bonito lhe parece.

INÊS — Amá-lo, eu?!… Nunca!…

ISAÍAS — Ninguém diga: desta água não beberei…

INÊS — É abominável! Irra!

ISAÍAS — Água mole em pedra dura, tanto dá…

INÊS — Repugnante!

ISAÍAS — Quem espera sempre alcança.

INÊS — Desengane-se!

ISAÍAS — O futuro a Deus pertence! (p.368-9)

Para Isaías, seu sistema de ideias permanece incorruptível, por mais que a realidade se apresente incompatível. É claro que Artur Azevedo exagera esse traço visando a reforçar a comicidade do personagem. Porém, é importante lembrar que Amor por anexins também se enquadra na categoria de “comédia de costumes”, o que torna possível uma referência mais concreta à realidade empírica, já que, segundo o Dicionário do teatro brasileiro (GUINSBURG, 2013, p. 88-89), este é um gênero centrado

na pintura dos hábitos de uma determinada parcela da sociedade contemporânea do dramaturgo. O enfoque privilegia sempre um grupo, jamais um indivíduo, e é em geral de natureza crítica ou até mesmo satírica – o que não impede que, por vezes, certos autores consigam um notável efeito realista na reprodução dos tipos sociais, apesar da necessária estilização cômica.

Trata-se, para retomar a expressão de Sérgio Buarque de Holanda, de uma “crença mágica no poder das palavras”, em complementaridade a um certo horror à realidade: Isaías nem mesmo a enxerga, em sua tentativa de evasão; e Inês, por fim, opta por apagá-la sob a camada dos anexins de Isaías, na tentativa de manter uma posição social pelo menos confortável, afinal, “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar” (p.377). Ao final, não é apenas Isaías que sai vitorioso, mas principalmente os anexins. Na comédia de Artur Azevedo, os anexins tomam corpo, progressivamente, passando de uma manifestação da linguagem, em forma paródica, até tornarem-se quase uma dimensão discursiva. Assim, os personagens afastam-se de uma possível realidade zero, mais objetiva, para se voltarem a uma realidade fluida e ideológica. Inês, ao final da peça, precisa adentrar nessa camada discursiva, adaptar-se a ela, jogar as regras do jogo, para poder se localizar em um lugar razoável na sociedade. A ironia da copla final – “Os votos que neste instante / Fazemos nestes confins / É que nos ameis bastante / Embora por anexins” – significa admitir que a realidade se conduz não por dados objetivos, mas por uma camada discursiva à qual é preciso se adaptar.

REFERÊNCIAS 

AZEVEDO, Artur. Amor por anexins. In MATE, Alexandre (et al.) Antologia do teatro brasileiro: séc. XIX – comédia. São Paulo: Cia das Letras, 2012, p. 361-381.

BOMFIM, MANOEL. América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008.

CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2010, p.9-23.

FARIA, João Roberto (dir.). História do Teatro Brasileiro. Vol.1. São Paulo: Perspectiva; SESCSP, 2013.

______. Introdução. In MATE, Alexandre (et al.) Antologia do teatro brasileiro: séc. XIX – comédia. São Paulo: Cia das Letras, 2012, p. 7-53.

GUINSBURG, J. Dicionário do Teatro Brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 2006.

HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2010.

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Editora Brasiliense, 2006.

REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

A sorte é simples

capPor Lorena Moura

A Editora Sextante relançou o livro “A boa sorte”, que contabiliza em sua ficha o número de mais de 3 milhões de livros vendidos. A obra já foi publicada em mais de sessenta países e explica a diferença entre a sorte e a boa sorte. O livro desmistifica essa ideia que as pessoas acreditam que a sorte vem fácil e que até mesmo poderia ser uma questão de acaso. Mas a obra do autor Fernando Trías de Bes mostra que essa ideia está totalmente equivocada.

Segundo o autor, a sorte vem a partir das condições que criamos para que ela possa vir a acontecer nas nossas vidas. É dedicação, força de vontade, disciplina e muito trabalho para que a danada possa simplesmente nos alcançar. O livro começa com um reencontro de dois amigos de infância que não se viam há cerca de 50 anos. Enquanto um se tornou um homem de sucesso, o outro não soube aproveitar as oportunidades que a vida o apresentou. E de acordo com o amigo sortudo, o principal segredo para que ele viesse a se tornar uma pessoa de sorte foi se inspirar em uma fábula que seu avô lhe contava quando era criança e que  foi seu guia ao longo dos anos. Ela fala de dois cavaleiros que partem em busca de um trevo de 4 folhas, que só pode ser encontrado em um lugar específico onde todos acreditam não é possível florescer nada por lá. Mas eles partem em busca do trevo e enquanto um vai fazendo de tudo para assegurar o seu sucesso, o outro acredita apenas no que está à sua frente. São as ações, decisões e pensamentos positivos que mudam a vida.

Eu mesma já pensei em muitos momentos que a sorte vem fácil para algumas pessoas, mas se você der uma chance ao livro e a toda a sua filosofia vai entender assim como eu, que não é bem assim que funciona. Achei muito interessante ele dar dicas  e regras para perceber e saber desenvolver a sua própria sorte. Não existem muitas dificuldades para se criar a sorte, mas é preciso entendimento, foco, disciplina  e muita vontade para conquistá-la. Porque ela está por  aí, esperando o próximo homem ou mulher ir em sua busca. O livro é bem curtinho e tem uma leitura muito fácil. Uma coisa é certa, é preciso acreditar nela e em todos os seus pontos positivos, e o mais importante de tudo, ter esperança. A sorte é uma mistura de muitas coisas. Vale a pena conferir. Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com  

A delicadeza do Rouxinol

o-rouxinol_capaweb.jpg.200x300_q85_upscalePor Lorena Moura

Quando se escuta falar sobre a Guerra Mundial, é comum que os historiadores destaquem apenas os homens que conduziram um dos piores e mais tristes capítulos da história mundial. Mas eles se esquecem das mulheres que sofreram ao ver seus maridos, filhos e parentes sairem de casa para defender o seu país e nunca mais voltarem. Muitas testemunharam o dilaceramento de inúmeras famílias. Viram o futuro se tornar invísivel a cada bomba lançada ou a cada tiro disparado. E o livro resenhado esta semana tem como personagens principais duas mulheres, duas irmãs.

“O Rouxinol”, conta a história de Vianne Mauriac e Isabelle. A primeira assiste seu marido ir para o fronte de combate sem saber se ele irár retornar. Sozinha em casa, ela assiste a chegada  dos soldados, com suas bombas  e aviões que aterrorizam o céu. E que ao invés de se transformarem em chuvas, cai em forma de bombas que destroem cidades. Um dos comandantes nazistas ao tomar a cidade, requisita a casa de Vianne para fazer de moradia, e a nossa personagem vai ter que fazer escolhas dificeis para tentar manter o resto da sua família viva.  Vianne tem uma irmã, a jovem e energética Isabelle, que olha para o mundo com o olhar dos jovens, que contestam tudo e pregam a revolução para melhorar a vida das pessoas. Isabelle irá se apaixonar por um guerrilheiro e decidirá se tornar uma rebelde para libertar seu país. Essas duas mulheres totalmente diferentes um da outra, que tem apenas o mesmo sangue em comum correndo nas veias, irão tentar a todo custo proteger os que amam do terror da guerra, mas o que elas não sabem é que suas decisões podem gerar um preço muito alto a se pagar.

“O Rouxionol” é um livro encantador! Digno de virar filme, ele nos hipnotiza a cada virar de página. Eu me senti angustiada muitas vezes pelas personagens e suas decisões em meio ao um momento tão tenso como uma guerra.Eu nunca tinha lido nada da autora Kristin Hannah e devo dizer que ela me fez chorar. Me deixou impressionada com sua sensibilidade e muitas vezes frieza ao trazer para os leitores situações tão comuns e desesperadoras de uma época tão próxima e ao mesmo tempo distante da nossa realidade.

Devo dizer que muitas vezes eu me senti em plena guerra e também sem forças de condenar ou parabenizar tal personagem por sua decisão tomada. Porque são elas que mudam o nosso destino. E uma das coisas que não me saíram da cabeça em nenhum momento foi a primeira linha do livro que fala que “É na guerra que descobrimos quem somos’. Eu nunca vivi em um momento como esse e sinceramente espero nunca viver, mas acredito que essa citação corresponde em 100% ao que as pessoas são levadas a fazer em uma época como essa, onde fazer o certo, pode ser o errado, e vice-versa. O que vai definir essa questão é a urgência e necessidade da pessoa e até que ponto ela está disposta a ir. “O Rouxinol”, é belo, forte, sensível, e coloca as mulheres em primeiro plano. Em um mundo tão machista, é encantador ver mulheres fortes e donas de suas próprias vontades. Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

 

O Brasil além de Policarpo Quaresma

12650446_902378283193605_1306175734_nPor Clodoaldo Turcato

“Dar volta ao mundo pelas principais escolas de arte sempre me frustra um pouco. Apensar de termos tantas manifestações, ao final de nossa leitura fica a sensação de que nada é nosso, mas é influência ou foi trazido de fora. A arte genuinamente brasileira ainda esta por surgir”. Será? Esta opinião, ou este pensamento, li a algum tempo de um dos grandes pensadores brasileiros. Prefiro não citá-lo, afinal não tenho sua autorização e prefiro preservá-lo. Não importa quem escreveu, o que importa é que esta sensação não é apenas dele, existe uma corrente que ainda busca em artes plásticas algo que seja nosso, típico e que se possa levar aos nossos leitores e apreciadores como sendo a arte brasileira. Se expormos nossa fauna, alguns irão dizer que Paulo Gauguin já o fez quando levou as Ilhas Dominicanas para as telas. O nosso sol nunca foi tão bem descrito como Van Gogh, e o concretismo, bem, nisso os russos são os maiorais.

Discordo e hoje trago aos nossos olhos um pintor que conseguiu uma arte tão genuína que se pode claramente dispor como arte brasileira. Vamos conhecer mais de Di Cavalcanti, um dos primeiros artistas a pintar elementos da realidade brasileira, como festas populares, favelas, operários, o samba etc. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de setembro de 1897e com 17 anos, já fazia ilustrações para a revista Fon-Fon. Em 1917, mudou-se para São Paulo, onde iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Neste mesmo ano, fez sua primeira individual para a revista “A Cigarra”. Em 1919, ilustrou o livro “Carnaval” de Manuel Bandeira. Em 1922, idealizou junto com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, onde elaborou a capa do catálogo e expôs 11 telas. Mudou-se para Paris, em 1923, como correspondente do jornal Correio da Manhã. De volta ao Brasil, em 1925, foi morar no Rio de Janeiro. Em 1926, ilustrou o livro Losango Cáqui, de Mário de Andrade. Nesse mesmo ano entrou para o Diário da Noite, como ilustrador e jornalista. Em 1932, fundou o Clube dos Artistas Modernos, junto com Flávio de Carvalho, Antônio Gomide e Carlos Prado. Em 1934, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Nesse mesmo ano mudou-se para a cidade do Recife. Simpatizante das ideias comunistas, foi perseguido pelo governo de Getúlio Vargas. Voltou para a Europa, onde permaneceu entre 1936 e 1940. O pintor adquiriu experiência expondo seus trabalhos em galerias de Bruxelas, Amsterdã, Paris, Londres, onde conheceu artistas como Picasso, Satie, Léger e Matisse. Di Cavalcanti ilustrou livros de Vinícius de Moraes e Jorge Amado. Em 1951, participou da Bienal de São Paulo e doou seus desenhos ao MAM- Museu de Arte Moderna. Em 1953, recebeu o prêmio de melhor pintor nacional, na II Bienal de São Paulo. Em 1954, O MAM do Rio de Janeiro fez uma retrospectiva de sua obra. Em 1955, publicou o livro “Memórias de Minha Vida”. Em 1956, recebeu o prêmio da mostra Internacional de Arte Sacra de Trieste, na Itália. Em 1958, elaborou a tapeçaria para o Palácio da Alvorada e pintou a Via Sacra da catedral de Brasília. Em 1971, expôs uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Morreu no Rio de Janeiro, no dia 26 de outubro de 1976.

Di Cavalcanti esteve no centro da arte moderna mundial, cercado pelos melhores artistas vivos da época, porém manteve seu estilo e sua brasilidade. Em seu quadro Duas mulatas, um óleo sobre tela de 64×65 cm, ele expõe alguns traços que poderiam ser confundidos com o cubismo. Duas mulatas estão sentadas bebendo, uma delas com o olhar distante, desinteressado do que ocorre, no entanto com o braço no ombro da amiga que está a sua frente olhando para o lado, como se tivesse sido interrompida e

desdenha de um terceiro personagem que não aparece a sua frente. A amiga olha para o lado como se tivesse sido chamada por alguém. As roupas são simples, denotando tratar-se de mulheres de rua, da favela que estão num dia de folga e não tem medo de expor seu corpo. Esta belíssima obra nos leva para os bares da periferia de Recife ou Salvador, onde as mulheres são únicas. Esta unicidade diverge a obra do pintor. Já em Cinco moças de Guaratinguetá, um óleo sobre tela de 70×65 cm, o pintor apresenta cinco mulheres luxuosamente vestidas num hall que poderia ser de teatro a aguardar. Ao fundo uma delas está enfadada, enquanto duas ficam a conversar alegremente, cercada por uma terceira que parece escutar a fofoca em frente de outra que olha para a rua. As duas moças em primeiro plano se conhecem e trocam confidências e parecem falar da que está imediatamente atrás usando um chapéu verde. A quarta moça arma sua sombrinha e deixa o ambiente, nos levando a acreditar que todas estão se protegendo da chuva ou deixando algum evento em dia ruim. Aqui um terceiro elemento, não apresentado na tela, interfere na cena.

Esta característica de expor as nuance do cotidiano das ruas e utilizar um elemento oculto está presente em toda a obra de Di Cavalcanti, dando-lhe singularidade. Se formos para Nu e figuras, um óleo de 42×64 cm, temos um estilo diferente, uma mulher nua está em primeiro plano, ela é observada por um Senhor bem vestido que trás em sua mão um pássaro amarelo. Ao fundo outro homem está de passagem e apenas olha depressa. A mulher demonstra contrariedade com o toque do cavaleiro, um colecionador de pássaros e mulheres. Aqui temos uma tela totalmente diferente das duas anteriores, demonstrando toda a versatilidade de Di Cavalcanti, se aproximando do Impressionismo, mas um impressionismo que preserva os traços abrasileirados de seus rostos.

Ao analisarmos com cuidado a arte nacional pós semana da arte moderna, encontraremos uma busca incessante para refazer o caminho próprio do Brasil. São os Policarpos que lutam para provar que temos características artísticas fortes e nossa, correndo dos que pregam o contrário. Estudar, rever e reconsiderar é preciso para entender que caminhamos e muito bem.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem