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Conto da “barata-morcego”

Por: Jacqueline Souza (educadora e colaboradora do Parlatório)

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Encontrava-me numa região litorânea do Nordeste, na casa de praia dos meus primos, feliz da vida, à noite, sem preocupações, quando de repente, vi algo voando e reparei que era imenso, pensei que fosse um morcego, mas me disseram se tratar de uma barata voadora. Fiz o óbvio, saí correndo assustada, ao passo que todos riram muito da minha atitude. De todas as coisas perfeitas e maravilhosas da natureza, refleti: “por que asas na barata?”. Enfim tudo passou, ela foi embora e decidimos dormir.

Atacada pela insônia, jogava um pouco no celular. Acabei dormindo, porém de madrugada, despertei e precisei ir ao banheiro. Nem me lembrava daquele ser.  Entrei tranquilamente, fechei a porta e quem vejo lá na parede, pronta para me atacar, aquele monstro horrível. Rapidamente abri a porta e meu coração disparou de tal maneira que quase saiu do peito. Tentei respirar fundo, tranquilizando-me para não acordar as pessoas. Vi um inseticida no armário do corredor, peguei-o e somente com o braço para dentro do recinto, joguei tudo que podia contra ela.  “E agora, estou apertada, o que farei?” Aguardei e entrei, havia desaparecido, nem sinal do monstro. Acalmei-me. Voltei ao quarto e deitei.

Sonhei, ou melhor, tive um pesadelo com aquela barata, que parecia um ser sobrenatural sobrevoando o quarto, com suas asas que mais pareciam um morcego. Gigante e assustadora, asquerosa, horripilante, igual a uma “barata-morcego”. Ainda pensei, isso não existe e ela pareceu rir de mim, começou a subir pelos pés da minha cama e vinha pelo meu corpo e não conseguia me mexer. Queria fugir, desejava que alguém me acordasse. Completamente em pânico, tentei gritar, todavia a voz não saiu. Aquelas pernas roçando todo o meu corpo e o meu rosto, como a querer me engolir ou me cobrir com aquelas asas de morcego, cobrindo-me feito um casulo. Senti alguma coisa balançando o meu braço e quando olhei para o lado vi uma “baratona”, maior ainda que aquela, gritei e pulei da cama, sobressaltada e como só a luz do abajur estava acesa, não percebi a porta fechada e dei de cara com a ela, caindo desmaiada no chão.

Recuperei-me dentro de uma ambulância com a ajuda dos enfermeiros, notei que toda a vizinhança estava lá, até a polícia havia sido chamada, pois acharam que alguém tivesse entrado na casa e me machucado. Sem contar que o meu marido não estava entendendo por que corri dele, ao toque de sua mão em mim. Ao contar o ocorrido, começaram a dar muitas risadas, sem mencionar que virei motivo de piada na região no dia seguinte.

Prova

(Danuza Lima é escritora, professora e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE)   

fotolia_342297_XSPercebeu que a casa estava trancada por dentro. Esqueceu a chave. Cansada do trabalho, despejou as pastas na calçada úmida, o musgo crescia. Necessário lavar, mas como? Seria preciso semana de folga. Outra vez encontraria desculpas e quando ele retornasse? Como faria, como? Ele a consumia, toda.

 Quando retornava de suas viagens desconhecidas, ele sempre se trancava por dentro para que nada atrapalhasse a circulação do cheiro dos dois dentro da casa. Ela gostava da prisão, sentia-se a única. Pensou que ele pudesse ter voltado, desistido de viver sozinho. Como poderia viver sozinho? Sem ela? Como? Impossível viver sem o cheiro dos dois.

Bateu por incansáveis vezes. Nada. Nem silêncio ruindo na sala, nem a surdez da confiança do outro. Nada. Gritou ao portão por alguém que imaginara que estivesse lá. E se não estivesse? Já não sabia como chamar. Havia voltado como prometido. Sabia. Sim, voltara. Não poderia nunca entender como aquele adorar havia renovado as forças. Não poderia nunca entender.

Estava mesmo cansada. Ele a consumia. Necessário distanciar-se dele, não poderia mais fingir. Não queria entender. Lembrou da chave deixada propositalmente no canto do portão. Necessário encarar o abrir. Abriu: havia o asco de sua dor e a leveza de sua alegria. Olhou o vazio deixado por ela e o preenchimento colocado por ele.  Amargo como se fustigado o coração, corresse frouxo o ar pesado da sala, antes, cenário de passarinho, seguiu o corpo. A cama parada no cheiro dele. O último lugar para dar adeus a esperança da não volta. Parado lá, estava ele, o tempo todo. Debruçado no fogão, cozinhava aos poucos o adorar em banho-maria, no fogo baixo, para não queimar, girando cuidadoso a colher, devagar, sempre devagar, o tempo todo, para não queimar. Olhou a mulher: calada, assustada, resignada como sempre, o tempo todo. A fez cheirar o caldo vermelho, cheiro de retorno. Serviu em pratos fundos. Gosto de fim de prova. Carregada pelo corpo dele ao quarto, bosque de delírios, veio a certeza: não iria mais embora. O cansaço passou. Adorar. Engolia o amor para não mais fingir. Ao acordar, pegou a chave e foi embora. Ela o consumia, todo.

Fechado

Por Danuza Lima (escritora, professora, mestra em Teoria da Literatura – UFPE)

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Fechado.

Por ler a placa de fundo preto, voltou sem almoçar ao trabalho. Suor a pingar pleno, espassante por entre as dobras singulares do rosto já enrugado. Teclas, café, olhares da mulher ao lado. Suor. Acendeu um cigarro para que a fumaça dissonante se espalhasse crua e batizasse os pulmões virgens. Papeis, o papel de fome que não foi embora. 19:00h. Elevador cheio. Como descer as escadas? Sem nó na gravata. Carro, trânsito, luzes acesas, ruas cheias de gente e uma cidade vazia.

            Porta, chave. Cozinha, água. Geladeira, pudim para uma noite doce.

            Pegou a faca, olhou-a e o seu olhar de lâmina surdamente saiu e o fez por novamente o nó na gravata. No banheiro, deu um nó. Pés pendurados. Não haveria mais fome.

***

 

O desbotado

 

“Semana que vem eu começo”, disse ela com um olhar discreto olhando fixadamente para a pilha de roupas sujas da área de serviço escura. Recusava-se a lavar as roupas que o outro deixara de propósito, mas como livrar-se delas? Mandaria assim mesmo, sujas? Não poderia. Então tentou adiar ao máximo o contato íntimo com os restos do outro. Passaram-se semanas até que se sentiu preparada, enfrentou o horrível espaço ocupado pela dor dentro de si e seguiu choramingando para o tanque. Pegou todas as roupas e as despejou na grande fenda cheia de água. Algumas camisas, bermudas, meias, cuecas, sinônimos da presença do outro que permaneciam lá. O cheiro do perfume ainda persistia ativo, mas resistiu fracamente. Aos poucos molhou todas as peças e começou o trabalho de lavagem e libertação. Primeiro delicadamente, depois com uma força violenta que a invadia do interior para fora como se arrancasse de dentro das roupas o dono daquele cheiro. Arrancou. Saiu nu, molhado, desprendendo o fôlego como se emergisse das profundezas das dores dela. 

 

Uma releitura de um conto de fadas

EnquantoBelaDormia_18mm.inddPor Lorena Moura

Sempre gostei dos contos de fadas e dos seus finais felizes. Acredito que faz bem consumir esse tipo de leitura quando se é criança. Faz com que a vida seja mais leve e feliz. Tem gente que acha piegas, que ilude por exemplo, ao fazer com que as meninas acreditem que príncipes encantados existem… Mas sério, polêmicas a parte, o importante é que as crianças cresçam felizes, protegidas e que tenham boas memórias para contar.

Já li todos esses contos de fadas e pela primeira vez consegui me imaginar dentro de um livro como esse. Me vi passeando pelos castelos, espiando seus romances, mistérios, intrigas, fofocas, vestidos esplendorosos, funcionários leais, rainhas sentimentais, princesas dispostas e príncipes e reis nem tão encantadores assim, já que o livro resenhado hoje tem uma abordagem mais moderna e que foge do estilo batido dos contos de fadas que conhecemos. “ Enquanto Bela Dormia”, é uma contagiante releitura daquele velho clássico da Bela Adormecida.

O livro começa nos apresentando a personagem principal, que pasmem, não é a princesa, e sim Elise, uma simples camponesa, que consegue trabalhar no palácio e ficar amiga da rainha e protetora da princesa. Ela dedicou sua vida a essas pessoas. Os anos se passam e Elise que já virou uma senhora, decide contar a sua neta, a história desse conto de fadas, a partir do seu olhar.

É claro que já sabemos todas as vírgulas dessa história, mas nessa narrativa criada pela escritora norte-americana Elizabeth Blackwell, conseguimos enxergar esses mesmos pontos a partir de perspectivas diferentes. Porque uma coisa é certa, os contos de fadas são imortais, mas nada impede que se faça uma nova releitura. O importante é que seja tão bom como foi esse livro. Em muitas partes fiel ao conto original, mas também ousado e moderno ao permitir que a história seja contada através de outros olhares. Fui fisgada pela forma como a autora escreveu a história, Blackwell inova e conquista logo na primeira página. Mais do que indicado. Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

Costura

quem esta doente nao sabe como pedir ajuda666vvcffPor: Danuza Lima

Costura 

            Frescor de laranjeira a perpetuar a sanha do desejo. Naquela manhã, ele acordou

mas sozinho que… nem antídoto para curar o enjoo agudo da falta do corpo dela, do copo ébrio no qual derramava-se todo, para bebê-la leve, aos soluços. Era o copo, o corpo, o líquido. Um caboclo sem lança, arrefecido pelo peso da ausência.

            Tarde demais para ser… qualquer coisa… tarde demais.

À queimar, a chama ardia ao calor das mãos que irrompiam com seu próprio viço. Calos.

            Costurou seus sonhos com linhas rubras, ponteou cada punho, o volume dos seios, os cabelos, a lã negra se fez. Era difícil a ausência dela. À queimar, a chama ardia entre os dedos calejados das mãos: esperar, jamais. Colou seu viço ao sexo dela e sussurrou baixinho a penetração do seu amor. Os olhos quadruplicaram-se num afã de botões madrepérola. Enfim, irrompeu com o seu próprio grito: caboclo com lança.

*** 

Fora do manual

            Tinha aprendido nos manuais a conquistar marido.

Ao conquistá-lo, tudo vinha dos manuais: O bolo, o pão, o almoço, como passar colarinhos? A forma de sentar-se, como portar-se em público junto ao seu marido? Como entregar-se? Como sorrir? Como cruzar as pernas? O manual era o guia de sua vida. O marido veio, mas o amor não. Os manuais não serviam para aprender a amar.

            Até mesmo o marido comportava-se como fruto de um manual – sorria quando necessário, falava baixo, de carinho, suave, era terno,– os manuais ensinavam que as brigas eram necessárias – , ele movia-se a elas, sempre de embriões fúteis. Para não decepcioná-la, seguia as vastas folhas para reconciliar-se.

Surgiu um dia, o outro – que não estava nos manuais – assustou-se – Como não se apaixonar por alguém apaixonável? Os manuais não explicavam e ele sorria. Como perder o marido por amor a outro? Nada nos manuais.

 – Foge comigo.

Consultou os manuais: como fugir com o homem amado? Percebeu que amava, amava deveras e que a impossibilidade de seguir vinha justo desse amor, não sabia como lhe dar com ele. Explicou ao marido. Ele entendia. Tinha lido nos manuais que casamentos acabavam quando um outro amor chegava.

Num dia sem chuva, fez as malas, mergulhou os pés nus na água do mar como nunca havia feito. Foi embora com ele: que lhe roubou a seriedade. Jogou todos os manuais fora, ele lhe ensinaria tudo.

Um conto sombrio

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Por Jacqueline Souza

Naquela noite de setembro de 1980, deparei –me com meu corpo deitado em minha cama. Fiquei em choque, não sabia o que estava acontecendo e tentava gritar, mexer no meu corpo, tudo em vão. Comecei a chorar e a rezar, pedia que Deus me deixasse voltar. De repente, retornei como uma bomba. Acordei ofegante e completamente aturdida.

Na manhã seguinte já recuperada, contei às amigas da escola, o que me sucedera na noite anterior, obviamente que todas riram. Apesar disso tudo, fiquei intrigada, mas logo entramos em sala de aula e o assunto perdeu-se de contexto.

Ao chegar a casa, depois de terminar todos os afazeres domésticos, pois ajudava minha mãe e meu pai com os meus irmãos, porque éramos muito pobres, fui me deitar e novamente aquela sensação estranha, um torpor que me envolvia de maneira que não podia impedir…

Novamente fora do corpo, desta vez, alguém mais estava em meu quarto e me tomou pelas mãos e disse – Venha, estou à sua espera desde longa data… – não consegui ver seu rosto, confesso que fiquei com muito medo, mas o segui. Ele me levou a um casarão que tinha um salão repugnante, terrível, escuro e com um cheiro insuportável. Lá pude ver diversos corpos que serviam de alimentos para outros seres horríveis que se debatiam com ferocidade ao comer aquelas carnes…

Acordei novamente com um profundo pavor, mas enfim, fora um pesadelo – pensei.

De volta à escola, conversei com minhas amigas Ana e Simone, que desta vez, ficaram a me olhar como se eu fosse louca, entretanto me disseram pra deixar pra lá, porque a minha imaginação estava aflorada demais.

Dias depois, correu um boato nas redondezas de que algumas pessoas estavam desaparecendo, então se instalou o pânico e ninguém mais queria sair à noite. Até na rádio da cidade, pediram que ficassem em seus lares e vigiassem uns aos outros.

Logo começaram a surgir pedaços de corpos jogados nas portas das pessoas, daí a comoção foi geral e a população queria investigações sobre aquela coisa macabra, só podia ser algum psicopata desumano e cruel, todavia nada foi resolvido.

Passaram-se alguns dias e tudo voltou ao normal. Retornamos à escola e nos encontrávamos tranquilas, minhas amigas e eu, até que me recordei do sonho e disse às meninas que achava uma certa ligação com o que envolvera a cidade nos últimos tempos.

Lembrava-me do caminho e fomos a um  casarão  que ficava fora das redondezas. Já na entrada um odor de podre… e lá vimos um homem com um casaco preto, velho, parecia um morador de rua. Quando nos percebeu, virou-se contra nós e vimos seu rosto sombrio e monstruoso, com presas no lugar dos dentes. Vociferou e nos levou para dentro do salão. Havia muitos corpos lá, e também os tenebrosos seres dos infernos…

Percebemos que ele os alimentava raptando as pessoas da cidade…

Minha surpresa maior foi saber que eu fazia parte daquilo tudo, porque deixei as meninas lá para serem sacrificadas. Olhei para o homem, que era o mesmo dos meus sonhos, que me conduzia todas as noites até aquele lugar, para que me lembrasse e entendesse que eu também era responsável por aquelas criaturas…

Professora Jacqueline da Silva Souza.

Atuo na E. E. Prof. Afonso Penna Júnior e FASM (Faculdade Santa Marcelina).