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A arte do sonho aflito

Por Clodoaldo Turcato

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Um sentimento incomoda. Um estado de visagem. Pequenos fragmentos do sono. Sonho. Irreal, extrema sensação de aflição. Isso pode acontecer num quadro? Pode, claro que pode. Alguns pintores conseguem nos fazer sentir sensações extremas, calos na alma ou simplesmente nos forçam a olhar para o lado. Um dos pintores que mais me arrepia e me condiciona a sentimentos estranhos é Mar Chagall.

Seu nome era Moïshe Zakharovich Shagalov nasceu em 7 de julho de 1887 em uma família pobre, de dez filhos, na cidade Vitebsk, Rússia. Sua iniciação no universo das artes plásticas ocorreu em sua própria terra natal, no ateliê de um célebre pintor de retratos local. Dele Marc herdou tanto o ofício da pintura, quanto o prazer estético e a inclinação para expressar sua vocação artística.

Em 1908 ele entrou na Academia de Arte de São Petersburgo, daí partindo para Paris, o centro da cultura e da arte. Antes disso, porém, em uma passagem por sua aldeia, conheceu Bella, com quem mais tarde se casaria, retratando sua musa em 1909.Um ano depois já se encontrava na capital francesa, ao lado de Blaise Cendrars, que batizaria grande parte de suas obras, de Max Jacob e Apollinaire, bem como dos pintores Delaunay, Modigliani e La Fresnay.Na cidade-luz ele conheceu todas as nuances da arte moderna e das vanguardas, lutando para encontrar um espaço para suas miragens oníricas no universo de fauvistas e de cubistas.

Neste contexto em que imperava um sistema filosófico que valorizava apenas a forma, marcado também pela abstração, sua obra se distinguia pela presença do conteúdo temático surreal, o qual revela suas origens nas esferas emocionais e culturais do pintor.

Guilhaume Apollinaire escolheu as telas de Chagall para a exposição que realizou em 1914, em Berlim, na galeria Der Sturm. Essa exposição teve grande influência sobre o expressionismo de pós-guerra.

De volta à Rússia, quando explode a Primeira Guerra Mundial, Chagall é mobilizado, contrariando estas diretrizes, ele permanece em São Petersburgo, casando-se com Bella, seu grande amor, em 1915.Após o desabrochar da Revolução Socialista de 1917 o artista alcança o posto de comissário de belas-artes, no governo de Vitebsk, sua aldeia natal. Ele institui então sua própria escola artística, livre para incluir qualquer inclinação modernista; ao mesmo tempo ele cria murais para o teatro judaico de uma escola local.

Voltando para Paris, em 1922, reconhecido e recebido como grande pintor, ele atende a uma encomenda empreendida pelo editor Ambroise Vollard, ilustrando o Livro Sagrado e realizando 96 gravuras para um exemplar do livro Almas Mortas, do escritor Gogol, o qual só seria lançado em 1949. Uma versão das Fábulas de La Fontaine foi também ilustrada por Chagall, em 1927. Sua etapa paisagística, marcada pela temática das flores, pertence a este período.

A partir de 1935, o clima de perseguição e de guerra repercute em sua pintura, nas quais surgem elementos dramáticos, sociais e religiosos.Em 1941, parte para os EUA, onde sua esposa falece em 1944. Chagall mergulha, então, em um mundo de evocações, quando conclui o quadro “Em torno dela”, que se tornou uma síntese de todos os seus temas.

Uma das obras que resume o conceito de Chagall é Sobre a cidade, um óleo sobre tela medindo 400×200 cm. Acima de uma cidade construída por simples casas de madeira e celeiros, duas figurasfantásticas coam pelo céu. A mão do homem gentilmente aconchega o peito da mulher. Eles parecem amantes e talvez estejam fugindo. A cidade exótica e ingenuamente composta, pintada em blocos de cor, com bonitas cercas de madeira e tons quentes, mostra o interesse de Chagall por contos de fadas. Muito da imagística do artista russo tem raízes no folclore judaico de sua infância. O quadro nos dá a sensação de fuga e ao mesmo tempo de superioridade sobre a pequena cidadela, que aparentemente dorme enquanto o casal passa sem destino, olhando para trás, temendo a perseguição – angústia.

No âmbito da arte contemporânea, marcada pelo formalismo e a abstração, a pintura de Chagall se destaca pela importância que tem nela o elemento temático, de fundo onírico, que, por sua vez, reflete as profundas raízes afetivas e culturais do artista. Sua obra, moderna, assimilou todas as conquistas formais da arte contemporânea.Com o final da guerra, ele volta de vez para a França, e neste país ele elabora as famosas pinturas dos vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.Nos anos 50 Chagall viaja várias vezes para Israel, atendendo a diversas encomendas. Seus vitrais e mosaicos também se tornaram célebres, e pode-se dizer que ele demonstrou igual cuidado com a cerâmica.Em 1957, a 4ª Bienal de São Paulo dedicou uma sala especial às obras de Chagall.

Em 1973, como uma homenagem ao artista, foi aberto o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, em Nice, cidade francesa. Quatro anos depois o Estado francês entregou-lhe a Grã-cruz da Legião de Honra.Ele morreu em Saint-Paul-de-Vence, cidade do sul da França, no dia 28 de março de 1985, como um dos maiores e mais famosos pintores do século XX.

Chagall desperta de maneira zombeteira os nossos mais profundos medos, repassando em nosso cotidiano o sonho do mundo onde a sensação predomina. Não é belo nem feio, e nem pretende ser um dos dois. Chagall é cirúrgico quando nos afeta.

Outras obras do pintor são Eu e a princesa, O prometido, A chuva, Maternidade, Maria cortando o pão e O violinista verde.

O Ser-se estrangeiro

indexPor Danuza Lima

Carinho e amor são prisões, algemas, barco ancorado. A ideia de permanência desata o nó entre o jovem e a menina, que possui o simbólico nome de Helena, a nos lembrar a Helena de Tróia, que enfeitiça Príamo com o seu olhar. Mas o rapaz não se seduz com olhares e dedicações infantis, seu desejo é romper. Não há uma força que venha de dentro de si e seja controlada pelo afeto e pelo amor; essa força que o ronda vem de fora e de dentro, energias coercitivas que pulsam nas veias do ser estrangeiro. Aquele que, segundo Julia Kristeva, tem por natureza humana “não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor” (1994, p 15). Essa força maior o faz dizer “Não posso ter amarras”, e ela salta de dentro de si, ela o domina.

O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em pleno ar, a própria transição que exclui a parada. Pontos de referência, nada mais. O seu tempo? O de uma ressurreição que se lembra da morte e do antes, mas perde a glória do estar além: somente a impressão de um sursis, de ter escapado (KRISTEVA; 1994. p 15).

O estrangeiro é aquele que está alheio ao sentimento do outro, seu olhar reflete a calma de uma mãe ao ninar o filho, mas a violência e o ímpeto de quem vive sob o peso de si próprio. Na emergência de si, ele rompe violentamente com o mundo que o cerca. Ele foge a Helena de forma crua, mas suas palavras trazem a organização de um discurso sedutor, terno, como a água a correr solta no cais, contudo violento, como as ondas a baterem vorazes sobre os cascos do barco no porto, seu“ rosto queima a felicidade” (KRISTEVA; 1994, p 11). E diante desta prisão emocional vigente, mais uma vez, ele foge:

– Eu não seria um bom pai. Teria pena de você. Amaria muito meus filhos. Seria um amor excessivo, que os incomodaria. Eu não suportaria olhar para eles, à noite, enquanto dormissem. A expectativa com os seus destinos me faria louco. Não se pode viver com demasiada piedade. E, além do mais… (…) tenho uma certa aversão à vida conjugal. À união (LINS; 1994, p 73).

Esse desejo de fuga do estrangeiro se concretiza com o mergulho. Novamente as águas, o mar para molhar a cabeça aflita, fugir da estabilidade de uma vida a dois. O estrangeiro não se une a nada, possui a “felicidade do desenraizamento, do nomadismo, o espaço de um infinito prometido” (KRISTEVA; 1994, p 12). Esse infinito prometido é a imensidão do oceano:

Era preciso, porém, aliviar aquela aflição. Se não, teria um sono inquieto, agoniado. Talvez um grande mergulho no mar…(…) uma onda veio rugindo. Desfez-se, envolveu os pés. Pelo rumor, ele percebeu que outra se levantara, além. Sem mais reflexão, correu de encontro a ela e mergulhou. (…) “Mas…,” pensava… “quando voltar… não estarei no mesmo? Não estarei no mesmo?… (LINS; 1994, p 76).

Ele precisava do “conhecido estranho” que o rondava, precisa romper, necessidade do estrangeiro, e o mar o chamava. Ele personifica-se em navio, pois “para atravessar o mar é necessário um navio; o casamento é um navio frágil” (CHEVALIER, GHEERBRANT; 2003, p 593). Ele não poderia se casar, não poderia se ancorar em um único porto, porque ele se faz múltiplo. Entregava-se ao mar fugindo de algo que não sabia, sabia apenas que o desejo de explorar rasava os céus de seus pensamentos. A entrega é uma fuga da vida humana para a liberdade salgada, pois a para ele “a vida não é mais que a separação das entranhas da terra, a morte reduz-se a um retorno à casa” (ELIADE in DURAND; 2002, p 236).

E nadava. (…) Ele sentia uma alegria confusa. (…) Seria então a paz.  (…) O mistério revelado não seria mais que uma tranquilidade esponjosa e incolor. Não, nem esponjosa nem incolor; nem tranquilidade sequer. O nada (LINS; 1994, p 77).

E o navio rompe o mar, rasa a salinidade com toda sua liberdade, “vê-se nitidamente a morte inverter-se, tornar-se o agradável acordar do mau sonho que a vida aqui embaixo seria” (DURAND; 2002, p 239). O sal tem gosto travado, como a liberdade que para ser conquistada precisa quebrar-se aos poucos, secando ao sol, como nas salinas. Ele desejava atravessar a si mesmo, sendo ele navio. “O fundo do mar é povoado e (…) não havia mais destino a escolher” (LINS; 1994, p 78), “o gosto pelo navio é sempre alegria em fechar-se perfeitamente…” (BARTHES in DURAND; 2002, p 251). Tinha de perder-se na imensidão do azul para afastar de si, pelo menos por um instante, o desejo do nomadismo. “Tornava-se vasto como o mar” (LINS; 1994, p 79), e quando as águas fundem-se em seu casco de navio, a areia o recolhe. Ele se encontra preso ao mar, mas livra-se com o receio de não mais sair, volta ao seu estado de estrangeiro de si mesmo, ancorado ao seu próprio ser.

 

O padroeiro dos artistas

16522514_1189211457843618_1337128883_nPor Clodoaldo Turcato

Nós artistas também temos um padroeiro. As más línguas poderão dizer que se trata de uma mesura desmedida a um fradezinho qualquer, que fez qualquer coisa que chamam de milagres e conseguiu a beatificação.  Não se trata apenas disso, mas sim de um grande artista que mereceria o título independente de sua religião e dos meandros que esta escode.

Giovanni da Fiesole, nascido Guido di Pietro Trosini, mais conhecido como Fra Angelico, foi um dos artistas mais conhecidos da época Florentina,  da península na época do Gótico Tardio ao início do Renascimento. O papa João Paulo II, em 1982, indicou sua festa litúrgica para o dia de sua morte e dois anos depois, o mesmo pontífice declarou-o “Padroeiro Universal dos Artistas”.

Supõe-se que estudou a arte da iluminura com Lorenzo Monaco, cultivador do estilo gótico internacional. Influenciado por Gentile da Fabriano, e por Lorenzo Ghiberti, Fra Angelico adotou novas formas da Renascença em seus afrescos e nos painéis, desenvolvendo um estilo único, caracterizado por cores suaves, claras, formas elegantes, composições muito contrabalançadas. Acrescenta a sua linguagem pictórica as contribuições de Massacio enriquecidas com um achado genial: o uso da luz com uma intenção nada naturalista mas estética, expressa através de um uso inteligente da cor. Sua pintura essencialmente religiosa está dominada por um espírito contemplativo, pois concebe a pintura como uma espécie de oração. Seus temas mais frequentes e característicos são a Virgem com o Menino, a coroação da Virgem e a Anunciação. Nas suas representações do paraíso, pinta com dedicação e amor franciscanos flores e ervas dos prados por onde caminham os escolhidos.

Do ponto de vista técnico, Fra Angelico parte do gosto preciosista e delicado do gótico internacional, enriquecido com o interesse pela perspectiva característico da época. Insiste mais na linha que na cor. Pelos seus temas, pelo seu tratamento da natureza, pela sua incorporação da arquitetura, é inequivocamente renascentista. Pinta frequentemente em colaboração com os seus discípulos.

Neste espaço, vou expor uma de suas obras mais expressivas e importantes: o quadro A anunciação, um afresco medindo 187×157 cm, pintado na parede de uma cela no Mosteiro de São Marcos, em Florença, Itália.

A sua obra a Anunciação (história bíblica que narra o encontro do anjo Gabriel com a Virgem Maria, para lhe dizer que ela fora escolhida como a mãe do Salvador), tendo o retratado por diversas vezes. O retábulo acima ilustra o começo do estilo renascentista, iniciado no século XV. Na pintura já se encontram inseridas ideias que vigorariam no Renascimento, como a perspectiva científica.As colunas são em estilo clássico.Uma cerca e uma sebe florida fazem a separação entre o cenário, onde se encontram a Virgem e o anjo Gabriel, e aquele onde se vê Adão e Eva sendo expulsos. Duas rosas brancas destacam-se, representando a pureza da Virgem. As flores delicadas, que se espalham pelo jardim, são parecidas com as estrelas vistas no teto negro do pórtico. Do outro lado da cerca, encontram-se árvores frutíferas.Na pintura encontram-se dois anjos: Gabriel e aquele que aponta sua espada para Adão e Eva, ao expulsá-los. Os anjos são retratados como dois jovens. Gabriel encontra-se ricamente vestido, com raios dourados ejetando-se de suas vestes e traz asas esplendorosas. Diferentemente de outras pinturas, o anjo Gabriel faz gestos com as mãos.

Adão e Eva, num plano superior, envergonhados, são expulsos por um anjo do Jardim do Éden. Os dois encontram-se num terreno árido e desolador, diferentemente da beleza vista em derredor. Ao contrário de outras representações de Adão e Eva, FraAngelico retrata-os vestidos, de acordo com o objetivo que ele via na pintura.

Ao lado esquerdo do anjo Gabriel, encontra-se uma passagem, coberta com uma cortina vermelha, que leva ao quarto de Maria. A cobertura do passadouro simboliza o recolhimento e a vida recatada da Virgem.Uma aura de luz, comum em todos os santos, circula a cabeça de Maria e dos dois anjos, simbolizando a santidade.A Virgem, com sua figura delgada, está assentada numa cadeira vistosa, e tem no colo as Sagradas Escrituras. Encontra-se vestida com simplicidade e tem os cabelos cobertos por um fino véu. As mãos cruzadas sobre o peito demonstram sua humildade e sua reverência diante de tão divina missão.As palavras do anjo significam: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra.” E as da Virgem: “Eis a serva de Deus; faça-se em mim segundo a tua palavra.”.

A pomba, acima da cabeça de Maria, simboliza o Espírito Santo. E a descida do Espírito Santo simboliza o momento da concepção.

Na sua pintura Anunciação, FraAngelico apresenta a expulsão de Adão e Eva do Paraíso e a visita do anjo Gabriel à Virgem, ao mesmo tempo. Como suas pinturas tinham sempre o objetivo de doutrinar, ele quis mostrar que, apesar da queda da humanidade, Cristo nasceria para libertá-la de seus pecados. A sensibilidade e o tratamento que FraAngelico dá a luz e cor impressionam até hoje aos especialistas em arte, principalmente por que a maioria de suas pinturas foram feitas em períodos em que esteve detido por ir contra aos ditames da Igreja Católica.

Entre as suas obras principais estão o “Retábulo da Madona”, em Perugia; a “Coroação da Virgem cercada por anjos músicos” (Louvre, Paris); o “Cristo cercado de anjos, patriarcas, santos e mártires” (NationalGallery, Londres) e o “Juízo final” (Galeria Nacional, Roma).

Crônica de fim de jornada

15608637_1146356692129095_515034633_oPor Clododaldo Turcato

E chegamos a mais um final de ano. Todos nossos esforços foram para que no dia D não nos falte o peru, os amigos e tenhamos alguns momentos para refletir a respeito dos acertos e erros da jornada.. Em nossa coluna foi assim. Depois de dezoito meses tentando, e falhando quase sempre, levar os conceitos de arte para que uma obra não fosse o famoso desconhecido, é hora de alguns apontamentos, tentativas de justificar-nos em nossas fraquezas.

A ideia da coluna era simplificar a arte. Tentei fazê-lo. No entanto, simplificar arte não é tarefa fácil, e dada minhas armas fracas, o sucesso era temeroso. Para que um leigo compreenda Paul Klee é necessário algum estudo, tempo, vivência e paciência. Fazer um leitor ter tudo isso numa coluna é algo estratosférico, hercúleo. Diante deste argumento, o amigo leitor pode me perdoar pelos textos dependentes que escrevi.

Para o próximo ano (já que esta é a última coluna que escrevo), estarei dissecando quadro a quadro, com textos mais curtos, dinâmicos e tentarei fazer a arte se aproximar e tornar-se menos indiferente. O faço por que compreendo que a arte é como livro, abre a mente, faz pensar e transforma o apreciador um ser pensante. Se tudo isso for engano, estou enganando-me como no primeiro beijo de amor. Paciência.

Sendo assim, e para não me alongar, além de não pedir permissão ao editor, tiro férias desta coluna até dia 08 de janeiro, quando retornaremos para o prazer de suas leituras. E para finalizar o ano, deixo este perturbador quadro de Willem de Kooning, chamado Woman III, criado em 1953, óleo sobre tela, medindo 170×120 cm. No ano que vem começaremos estudar Kooning e iremos compreender esta beleza toda, de uma obra que ao primeiro olhar assusta, porém depois encanta.

Que 2017 consigamos encontrar encantamento em tudo, menos dor e menos mal.
Grande Natal e Sucesso em 2017.

A sorte é simples

capPor Lorena Moura

A Editora Sextante relançou o livro “A boa sorte”, que contabiliza em sua ficha o número de mais de 3 milhões de livros vendidos. A obra já foi publicada em mais de sessenta países e explica a diferença entre a sorte e a boa sorte. O livro desmistifica essa ideia que as pessoas acreditam que a sorte vem fácil e que até mesmo poderia ser uma questão de acaso. Mas a obra do autor Fernando Trías de Bes mostra que essa ideia está totalmente equivocada.

Segundo o autor, a sorte vem a partir das condições que criamos para que ela possa vir a acontecer nas nossas vidas. É dedicação, força de vontade, disciplina e muito trabalho para que a danada possa simplesmente nos alcançar. O livro começa com um reencontro de dois amigos de infância que não se viam há cerca de 50 anos. Enquanto um se tornou um homem de sucesso, o outro não soube aproveitar as oportunidades que a vida o apresentou. E de acordo com o amigo sortudo, o principal segredo para que ele viesse a se tornar uma pessoa de sorte foi se inspirar em uma fábula que seu avô lhe contava quando era criança e que  foi seu guia ao longo dos anos. Ela fala de dois cavaleiros que partem em busca de um trevo de 4 folhas, que só pode ser encontrado em um lugar específico onde todos acreditam não é possível florescer nada por lá. Mas eles partem em busca do trevo e enquanto um vai fazendo de tudo para assegurar o seu sucesso, o outro acredita apenas no que está à sua frente. São as ações, decisões e pensamentos positivos que mudam a vida.

Eu mesma já pensei em muitos momentos que a sorte vem fácil para algumas pessoas, mas se você der uma chance ao livro e a toda a sua filosofia vai entender assim como eu, que não é bem assim que funciona. Achei muito interessante ele dar dicas  e regras para perceber e saber desenvolver a sua própria sorte. Não existem muitas dificuldades para se criar a sorte, mas é preciso entendimento, foco, disciplina  e muita vontade para conquistá-la. Porque ela está por  aí, esperando o próximo homem ou mulher ir em sua busca. O livro é bem curtinho e tem uma leitura muito fácil. Uma coisa é certa, é preciso acreditar nela e em todos os seus pontos positivos, e o mais importante de tudo, ter esperança. A sorte é uma mistura de muitas coisas. Vale a pena conferir. Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com  

O Brasil além de Policarpo Quaresma

12650446_902378283193605_1306175734_nPor Clodoaldo Turcato

“Dar volta ao mundo pelas principais escolas de arte sempre me frustra um pouco. Apensar de termos tantas manifestações, ao final de nossa leitura fica a sensação de que nada é nosso, mas é influência ou foi trazido de fora. A arte genuinamente brasileira ainda esta por surgir”. Será? Esta opinião, ou este pensamento, li a algum tempo de um dos grandes pensadores brasileiros. Prefiro não citá-lo, afinal não tenho sua autorização e prefiro preservá-lo. Não importa quem escreveu, o que importa é que esta sensação não é apenas dele, existe uma corrente que ainda busca em artes plásticas algo que seja nosso, típico e que se possa levar aos nossos leitores e apreciadores como sendo a arte brasileira. Se expormos nossa fauna, alguns irão dizer que Paulo Gauguin já o fez quando levou as Ilhas Dominicanas para as telas. O nosso sol nunca foi tão bem descrito como Van Gogh, e o concretismo, bem, nisso os russos são os maiorais.

Discordo e hoje trago aos nossos olhos um pintor que conseguiu uma arte tão genuína que se pode claramente dispor como arte brasileira. Vamos conhecer mais de Di Cavalcanti, um dos primeiros artistas a pintar elementos da realidade brasileira, como festas populares, favelas, operários, o samba etc. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de setembro de 1897e com 17 anos, já fazia ilustrações para a revista Fon-Fon. Em 1917, mudou-se para São Paulo, onde iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Neste mesmo ano, fez sua primeira individual para a revista “A Cigarra”. Em 1919, ilustrou o livro “Carnaval” de Manuel Bandeira. Em 1922, idealizou junto com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, onde elaborou a capa do catálogo e expôs 11 telas. Mudou-se para Paris, em 1923, como correspondente do jornal Correio da Manhã. De volta ao Brasil, em 1925, foi morar no Rio de Janeiro. Em 1926, ilustrou o livro Losango Cáqui, de Mário de Andrade. Nesse mesmo ano entrou para o Diário da Noite, como ilustrador e jornalista. Em 1932, fundou o Clube dos Artistas Modernos, junto com Flávio de Carvalho, Antônio Gomide e Carlos Prado. Em 1934, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Nesse mesmo ano mudou-se para a cidade do Recife. Simpatizante das ideias comunistas, foi perseguido pelo governo de Getúlio Vargas. Voltou para a Europa, onde permaneceu entre 1936 e 1940. O pintor adquiriu experiência expondo seus trabalhos em galerias de Bruxelas, Amsterdã, Paris, Londres, onde conheceu artistas como Picasso, Satie, Léger e Matisse. Di Cavalcanti ilustrou livros de Vinícius de Moraes e Jorge Amado. Em 1951, participou da Bienal de São Paulo e doou seus desenhos ao MAM- Museu de Arte Moderna. Em 1953, recebeu o prêmio de melhor pintor nacional, na II Bienal de São Paulo. Em 1954, O MAM do Rio de Janeiro fez uma retrospectiva de sua obra. Em 1955, publicou o livro “Memórias de Minha Vida”. Em 1956, recebeu o prêmio da mostra Internacional de Arte Sacra de Trieste, na Itália. Em 1958, elaborou a tapeçaria para o Palácio da Alvorada e pintou a Via Sacra da catedral de Brasília. Em 1971, expôs uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Morreu no Rio de Janeiro, no dia 26 de outubro de 1976.

Di Cavalcanti esteve no centro da arte moderna mundial, cercado pelos melhores artistas vivos da época, porém manteve seu estilo e sua brasilidade. Em seu quadro Duas mulatas, um óleo sobre tela de 64×65 cm, ele expõe alguns traços que poderiam ser confundidos com o cubismo. Duas mulatas estão sentadas bebendo, uma delas com o olhar distante, desinteressado do que ocorre, no entanto com o braço no ombro da amiga que está a sua frente olhando para o lado, como se tivesse sido interrompida e

desdenha de um terceiro personagem que não aparece a sua frente. A amiga olha para o lado como se tivesse sido chamada por alguém. As roupas são simples, denotando tratar-se de mulheres de rua, da favela que estão num dia de folga e não tem medo de expor seu corpo. Esta belíssima obra nos leva para os bares da periferia de Recife ou Salvador, onde as mulheres são únicas. Esta unicidade diverge a obra do pintor. Já em Cinco moças de Guaratinguetá, um óleo sobre tela de 70×65 cm, o pintor apresenta cinco mulheres luxuosamente vestidas num hall que poderia ser de teatro a aguardar. Ao fundo uma delas está enfadada, enquanto duas ficam a conversar alegremente, cercada por uma terceira que parece escutar a fofoca em frente de outra que olha para a rua. As duas moças em primeiro plano se conhecem e trocam confidências e parecem falar da que está imediatamente atrás usando um chapéu verde. A quarta moça arma sua sombrinha e deixa o ambiente, nos levando a acreditar que todas estão se protegendo da chuva ou deixando algum evento em dia ruim. Aqui um terceiro elemento, não apresentado na tela, interfere na cena.

Esta característica de expor as nuance do cotidiano das ruas e utilizar um elemento oculto está presente em toda a obra de Di Cavalcanti, dando-lhe singularidade. Se formos para Nu e figuras, um óleo de 42×64 cm, temos um estilo diferente, uma mulher nua está em primeiro plano, ela é observada por um Senhor bem vestido que trás em sua mão um pássaro amarelo. Ao fundo outro homem está de passagem e apenas olha depressa. A mulher demonstra contrariedade com o toque do cavaleiro, um colecionador de pássaros e mulheres. Aqui temos uma tela totalmente diferente das duas anteriores, demonstrando toda a versatilidade de Di Cavalcanti, se aproximando do Impressionismo, mas um impressionismo que preserva os traços abrasileirados de seus rostos.

Ao analisarmos com cuidado a arte nacional pós semana da arte moderna, encontraremos uma busca incessante para refazer o caminho próprio do Brasil. São os Policarpos que lutam para provar que temos características artísticas fortes e nossa, correndo dos que pregam o contrário. Estudar, rever e reconsiderar é preciso para entender que caminhamos e muito bem.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem