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O porão da mansão abandonada

Por: Jacqueline Souza

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Na pequena cidade do interior de Minas Gerais, existia uma família muito unida. O casal contraíra núpcias muito cedo. Dona Ciça e seu José tiveram quatro filhos: Juquinha, Lara, Caio e Erik. Viviam felizes, embora sem grandes posses. Moravam numa casa um pouco velha que precisava de reparos, mas aconchegante e repleta de alegria.

            À noite quando o pai chegava a casa, as crianças tratavam de rodeá-lo para que contasse suas histórias de terror. Obviamente a mãe interferia para que jantassem primeiro e cuidassem da higiene, o que faziam prontamente.

            Seu José sentava-se no chão batido e iniciava seus contos. Aprendera com seu pai num pequenino sítio que tiveram na infância, antes dele partir para o outro mundo. Ele e seus irmãos ficaram sem ter onde morar e de favor perambularam em casas de parentes, porque a mãe entrara numa tristeza tão profunda que permaneceu internada num sanatório até o dia da sua morte.

            Não sabia ler muito menos escrever, apenas desenhava seu nome no papel quando tinha necessidade de assinar, todavia possuía uma imaginação muito fértil. Era requisitado pelos colegas de trabalho e até por seu chefe a contar tais histórias.

            Essa noite seria especial, resolvera falar do casarão do final da rua. Todos sabiam que a última moradora fora uma senhora que praticava magia, era muito feia, nariguda, com cabelos compridos e magra demais. Temiam falar seu nome, pois achavam que tinha vendido sua alma para o ser das trevas em troca de favores. Os filhos dela morreram de uma febre misteriosa que assolou a região e logo depois ela sucumbiu também dentro do casarão, desde então, ninguém quis entrar lá. Acreditam que ela trouxe a doença.

            O pai começou a dizer que uma vez um grupo de pessoas adentrou a casa para ver se a velha deixara algo de valor. Na verdade, foram bisbilhotar. Ao descerem até o porão viram um ser imenso, sem formas, com olhos vermelhos como labaredas de fogo e correram assustados.Após o episódio ninguém ousou voltar àquele lugar amaldiçoado, poderia ser o “coisa ruim”.

            A esposa atenta àquela conversa mandou todos para a cama e disse ao marido que ele havia amedrontado as crianças.

            Aquela noite ouviam-se os trovões e raios que caiam próximos à casa. Os dois filhos mais velhos não conseguiam dormir e conversavam sobre o que o pai contara a eles. Estavam petrificados. Depois de um bom tempo…

            —Ei, acorde, Juquinha!

            —O que foi Lara?

            —Observe ao nosso redor, não estamos em casa…

            —Não?

            Levantaram-se, pois acordaram no chão frio de um porão escuro. O irmão segurou a mão de sua irmã. Olharam no canto da parede e viram algo que se expandia e vinha na direção deles. Ele entrou na frente para proteger Lara, ao mesmo tempo, que rezava um pai nosso. A criatura sem forma se aproximou e segurou o queixo do menino para que ele parasse.

            Com o pensamento Juquinha disse:

            —Você pode me impedir de falar com a boca, mas não pode controlar o meu pensamento.

            A criatura partiu para cima dele com extrema violência.

            A mãe veio ao socorro das crianças que gritavam e pareciam não querer acordar. Foram sacudidas e enfim começaram a chorar abraçadas aos pais. Caio e Erik permaneceram paralisados ao ver tal cena.

            Contaram o que sonharam e dona Ciça repreendeu seu José, por ter contado tantas bobagens.

            O mais estranho que ambos tiveram o mesmo sonho. Os pais silenciaram-se tentando entender. Ficaram ainda com os filhos no quarto até adormecerem novamente.

            No outro dia, na escola as crianças comentaram com os colegas que não acreditaram e deram muitas risadas.

—Adolescência é um período complicado demais, os hormônios efervescendo, muita confusão mental… –um amigo gaiato comentou…

            A aula prosseguiu tranquila e após o sinal da saída, os dois irmãos teriam de voltar a casa para levar os pequenos na escola, no entanto tomaram uma decisão de passar na frente do casarão. Fascinados por aquele local, algo despertara dentro deles. Quiseram entrar e ver se o que sonharam fazia algum sentido.

            Pensaram por instantes, então abriram o portão. As folhagens tomaram conta da frente e da lateral. Ao pisarem nas folhas secas, sentiram-se atraídos cada vez mais para dentro, como ímãs. Havia na minúscula trilha de folhas muitas estátuas quebradas, que davam muito medo. Pararam diante do casarão e viram após subirem os degraus dois gárgulas um do lado oposto do outro, talvez, protegendo a entrada da casa. Eram figuras medonhas.

            Juquinha inebriado pela sensação de curiosidade já punha sua mão para abrir a porta, quando sua irmã o impediu. Ele parecia enfeitiçado por alguma coisa, mas voltou a si ao chamado de Lara. Retornaram para seu lar.

            Tudo seguia tranquilamente durante a semana toda. O pai fazia hora extra e não chegava cedo para contar suas histórias.

            Dona Ciça, uma mãe zelosa, sempre preocupada com os filhos, tomava conta de tudo e dava muito carinho a todos. Ela não teve uma vida muito boa, perdera seus irmãos e mãe por conta de uma febre que havia tomado conta de toda a cidade. Era a única coisa que sabia sobre sua família. Fora criada no orfanato da igreja, desconhecia o nome de seus familiares, poucas lembranças surgiam à mente.Ao se recordar disso, deixou que as lágrimas lhe caíssem sem medo. Sentia saudades da sua família…

            O marido retornou. Jantaram e dormiram. A mãe começou a sonhar que estava descendo o porão do casarão. Viu uma mulher que afagava a cabeça das crianças com muito amor, todavia demonstrava muita severidade. De repente, seu olhar doce se virou para dona Ciça que se assustou. A mulher começou a bater nas crianças impiedosamente, com ódio expresso nos olhos. Levou-as para o porão e lá deixou os filhos muito machucados. Acendeu umas velas e invocou o ser das trevas que apareceu na parede, sem forma humana e nem de animal, não dava para descrever o que era, apenas aqueles olhos vermelhos. Eles conversaram. Ao ver dona Ciça, passou-lhe muito terror, quando sua energia se aproximou dela que não conseguia raciocinar. E com tamanho medo, começou a gritar: “ Mãe, não deixe que ele me machuque! Mãe!”

            Seu José tentava acordar a esposa. As crianças adentraram o quarto e ficaram impressionadas com suas palavras: “Mãe, não deixe que ele me machuque! Mãe, mãe, mãe!”

            ─ Calma, amor! Está tudo bem!

            Ela chorava copiosamente abraçando seus rebentos, apertando-os contra o peito.

─ Eu prometo que nunca permitirei que o mal tome conta de nossa família de novo!

Ninguém compreendeu, todavia nada comentaram. Cada um foi para sua cama e a mãe adormeceu.

Seu José levantou mais cedo que o habitual e saiu sem tomar seu café. A mulher abriu a porta para ir à padaria comprar pães e leite. Tomou um susto ao encontrar no tapete um gatinho preto desamparado, que começou a miar, chamando aatenção da criançada que desceu alvoroçada para ver o que estava acontecendo. Ficaram encantadas, pedindo para a mãe se podiam cuidar dele. Ela aceitou o novo amiguinho.

Os dias se passaram com tranquilidade. A família estava feliz com o animalzinho de estimação.

Certa noite, alguns fenômenos começaram a aparecer.Ouviam-se barulhos de panelas caindo por toda a cozinha. Em pânico, desceram e não encontraram nada caído ao chão. Estranharam a situação, porém resolveram voltar às camas. Novamente no meio da madrugada, ocorreu a mesma coisa. Daí não quiseram mais dormir.

O dia amanheceu, as crianças foram à escola. A mãe continuou seus afazeres. Uma vizinha bateu à porta aos berros. Ao abri-la, a mulher ofegante implorava para que ela a seguisse. Correram para o casarão. Para sua surpresa, seu marido estava amparado pelos vizinhos. Sem entender, perguntou o que havia se sucedidoa ele. Explicaram-lhe que pendurou uma corda na árvore e tentou se enforcar. Dona Ciçao abraçou muito chorosa. De nada adiantava falar com seu José, não respondia, seu olhar perdido no espaço, contemplando o nada. Ajudaram-na levando-o para casa.

Ele parou de trabalhar, pois toda vez que saía ia direto para o casarão na intenção de concretizar seu desatino. Precisaram interná-lo. O médico dissera que poderia ser estresse, embora ele tivesse o histórico da mãe, como herança.

A vida da família começou a ficar arruinada. A mãe não sabia mais o que fazer. As férias escolares chegaram e as crianças passaram a ficar mais tempo em casa, dando muito trabalho a pobre Ciça.

Depois da internação do marido, as noites ficaram cada vez mais terríveis, porque os fenômenos iniciaram-se novamente e ninguém conseguia dormir.

Os meninos deitaram mais cedo, porque aprontaram o dia todo. Mais uma vez os irmãos se viram dentro do casarão.

─ Juquinha, olhe! Estamos no porão.

─ Eu te protejo e se ele for mexer com você, tomarei seu lugar e você foge.

Nesse instante, uma mulher surgiu no meio dos dois, eles correram pela escada. O irmão sempre cuidando da pequena, colocou-a na frente. De repente, a porta de cima se fechou com Lara. Quando olhou para baixo, viu a menina ressurgir como uma criança de três anos de idade. Tudo estava muito confuso. Ele no ímpeto de proteção, tornou a descer os degraus e a criança passou por outra porta, enquanto à sua frente a mulher permaneceu de costas rindo dele. Começou a gritar pela irmã e acordou a família.

Dona Ciça veio ao encontro deles e sentiu-se culpada por não conseguir protegê-los. Aquilo não poderia continuar assim.

No dia seguinte, de tão esgotada resolveu chamar o pároco da igreja para visitar a casa dela e tirar o mal que se instalara lá. Agora não bastava somente o barulho, as coisas quebravam e eram atiradas nas pessoas da casa. A casa parecia mal assombrada.

O pároco, seu Antonio, decidiu conferir o que se sucedia. Fez sua sessão de exorcismo e para surpresa geral, o gato preto subiu na pia, olhou para todos e deu uma gargalhada tenebrosa que arrepiou a alma. Pulou a janela e foi para o casarão.

Seguiram-no e o homem de Deus jogou água benta na escada e os degraus “cuspiram” de volta nele, mesmo assim adentrou o casarão, orou fervorosamente, jogando aquela água por toda parte. Começaram a sair das paredes sombras que iam para o porão. Dona Ciça quase desmaiou de tanto medo. Aquelas sombras se transformaram no ser das trevas, só se viam os olhos vermelhos. O homem rapidamente proferiu seu ritual de exorcismo, desmanchando aquela monstruosidade e uma luz imensa apareceu no local.

Ao saírem do casarão, a mulher olhou para trás e viu na janela a figura de sua mãe, com lágrimas escorrendo pelo rosto, acenando uma despedida para dona Ciça e sumindo numa fumaça.

Ela agradeceu imensamente pela ajuda do sacerdote e contou o que vira na janela. O pároco disse que conhecia sua história e sentaram-se nos degraus. Ele informou que aquela mulher era a senhora que morava lá, que fazia rituais de bruxaria e num desses momentos, envolvida por uma entidade do mal, matara seus filhos e morrera enforcada.

─ Como assim, sempre falaram que a febre os matou.

─ Sim, filha. A verdade é que estive aqui e não permiti que soubessem que matara seus próprios filhos e depois cometera suicídio. Uma das crianças, uma menina, fora salva, havia batido a cabeça e ficou hospitalizada durante muitos meses em coma. Quando acordou, não sabia quem era. Resolvemos que ela viveria no orfanato da igreja tendo preceitos religiosos para não se tornar igual a mãe.

─ Sou eu?! Sempre tive lembranças. Agora passo a compreender…

─ Não fique triste. Você hoje é uma mulher de fé e ajuda seus filhos e todos ao seu redor.

─ O que acha que aconteceu com minha família nos últimos tempos?

─ Você é a herdeira de tudo, certamente ela cobrava por ter sobrevivido e queria interferir na sua família, destruindo a todos.

─ É tão difícil conceber isso…

─ Quer que saibam a verdade sobre o que lhe disse? Se quiser guardo segredo como fiz até o momento.

─ Sim, não quero que me liguem ao casarão. Deixemos do jeito que está. Obrigada mais uma vez.

Eles se abraçaram e cada um seguiu sua vida.

O marido de dona Ciça saiu do sanatório e tudo se normalizou. Nunca mais se falou sobre o casarão e as noites passaram a ter histórias fabulosas, todavia sem terror.

A CASA DA FLOR

14249021_1043691425728956_1042388706_nPor Clodoaldo Turcato (artista plástico, escritor e jornalista)

Em nosso último texto, antes de meu declínio com a saúde que me obrigou a deixar de escrever por duas semanas, tratei da diferença entre arte e expressão artística. Tentamos, em nossa pequena experiência, diferenciar o que é uma obra de arte duradoura, que se  propõe a levar um tema, debater, gerar conflito, incomodar, de uma expressão efêmera, momentânea e levada pela mídia. Em resumo, chegamos ao conclusão que nem toda expressão artística é arte, porém existem exceções. É disso que vamos tratar hoje.

Na comunidade de  Vinhateiro, município de São Pedro da Aldeia, próximo à divisa do município de Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro, existe uma obra arquitetônica construída pelo lavrador Gabriel Joaquim dos Santos, um homem sem qualquer conhecimento de arte, escola de qualquer ramo artístico e principalmente noções de arquitetura. Mesmo assim, sua obra foi considerada comparada com as de AntoniGaudí i Cornet, famoso arquiteto catalão que dispensa apresentações.

Então dirá a amiga leitora “Epa! Sua tese caiu por terra, não foi grande analista de arte?” Não, minha Senhora, não caiu. Procure apenas lembrar que tantos foram os grandes mestres que nunca tiveram um dia de escola e criaram obras imortais. Dezenas, ncaão é? Gabriel Joaquim dos Santos foi um deles. Vamos conhecê-lo.

Ele não fez pintura, não fez gravura, não fez escultura. Fez uma casa. E tudo – ou só aquilo – que constitui uma casa: paredes, colunas, telhados, beirais, escadarias, muros, lustres, urnas, etc. Essa foi sua obra. Obra de arte? Sim, muito embora nunca falasse em arte. Gabriel Joaquim dos Santos,nascido em 1892 e falecido em 1985, era um artista em estado puro. E por isso mesmo, sua obra, a Casa da Flor, é um exemplo raro de manifestação estética anterior ao conceito de arte. Gabriel não era um arquiteto. Não se dispôs, quando iniciou a casa, ainda bem jovem, em 1912, a fazer uma obra arquitetônica. Fez uma casa para morar separado da família e poder entregar-se, livre da perturbação dos parentes, a seus sonhos e devaneios. Lavrador e trabalhador da salina ali mesmo em São Pedro da Aldeia, construiu a casa como pôde, no curso de quase dez anos. Quando ficou pronta, uma voz lhe disse que devia enfeitá-la. Sem dinheiro para comprar material, passou a aproveitar tudo o que encontrava: cacos de louça, pedaços de azulejos, telhas, pedras, faróis de carro, manilhas de esgoto, conchas de mariscos, garrafas, lâmpadas queimadas. Ao longo de quarenta anos, deslumbrado com sua própria obra, foi compondo caprichosamente esse conjunto delirante, extravagante, de formas, cores, matérias, texturas, que é a Casa da Flor : uma casa que parece de brinquedo, sem cozinha e sem banheiro, mas onde há painéis de surpreendente composição, lustres inusitados feitos de lâmpadas usadas, um altar para os livros sagrados, molduras para retratos, tudo composto com cacos e restos de coisas inservíveis. Uma beleza nascida do lixo.

Há na Casa da Flor uma coisa a mais que nos surpreende: a rudeza das formas usadas para criar a beleza. Gabriel constrói flores com pedaços de telhas e cacos de louça, encravados no barro. Não há ali qualquer preocupação com a finura, o acabamento: são lascas de louça ou de telhas que, juntas, se transfiguram, viram flor. E é a transfiguração que importa: esse desleixo com o acabamento revela, em seu autor, a consciência do essencial. É como se nos dissesse: não é a forma material que importa, mas seu significado. E esse significado, no entanto, compreende a rudeza das formas e dos materiais em que se expressa: é uma flor, mas uma flor de cacos, de lascas, de barro, tosca, improvisada, filha dos poucos recursos e da imaginação de Gabriel. Nada tão terrestre, tão contingente, tão precário, e, ao mesmo tempo, sonho. É comovente pensar naquele homem a construir sozinho, anos a fio, essa casa interminável, e sem buscar outra gratificação além do prazer de fazê-la.

Então, Gabriel Joaquim dos Santos é o exemplo vivo de que não é preciso saber nada de arte para ser artista. Teriam razão, portanto, os que defendem a tese de que a pura e simples liberação da criatividade é a própria arte, a arte em estado essencial. Logo, todas as pessoas são artistas em potencial e dariam prova disso, desde que tivessem a possibilidade de se expressar livremente. Esta é uma tese antielitista – contrária à concepção do artista como um ser superior – e antiacadêmica, porque nega a necessidade do ensino da arte. Mas, se é correto dizer que o artista é um homem como qualquer outro e se é certo combater as normas acadêmicas que sufocam a criatividade artística, nem por isso tem cabimento afirmar que todo homem pode tornar-se um artista ou que toda e qualquer manifestação espontânea seja arte. De fato – e o exemplo de Gabriel comprova isso -, a arte é produto de determinadas personalidades com características específicas, inatas, sem as quais a criação artística é impossível.

Examinemos o fenômeno Gabriel. Se é verdade que ele não possuía formação artística, é verdade também que era extraordinariamente sensível à expressividade das formas, das cores, das matérias, e foi essa sensibilidade que lhe possibilitou abstrair-se da visão imediata dos cacos de louça, das lâmpadas queimadas, das manilhas de esgoto, das telhas e lascas de pedra, para aprender-lhes as qualidades formais e cromáticas. Mas tampouco essa sensibilidade teria sido suficiente para levá-lo a construir a Casa da Flor, não fosse ele impelido pela necessidade profunda, insondável mesmo, de realizá-la, como se obedecesse a um ditame sobrenatural. Essa vontade de construir-se fora de si, de objetivar suas fantasias ou intuições, tornando-as palpáveis para si e para os outros, é condição essencial à criação artística. Foi, portanto a junção desses fatores – a sensibilidade plástico-cromática, somada à invenção de um mundo fictício e à vontade de torná-lo realidade – que supriu, em Gabriel, a ausência de qualquer aprendizado artístico. Mas não se deve concluir daí que a falta de aprendizado é que o tornou artista, já que a maioria dos artistas conhecidos teve algum tipo de aprendizado. A dedução correta é que o verdadeiro artista realiza a sua obra independentemente de ter ou não aprendido arte: se não aprendeu, sua linguagem terá determinadas características; se aprendeu, terá outras, decorrentes da elaboração e superação do que foi aprendido. É certo, porém, que a criação artística é por si um aprendizado e que todo artista só se realiza plenamente na medida em que se torna mestre de si mesmo. A suposição de que a pura e simples criatividade, excluindo conhecimento, limites e exigências, é condição suficiente para a criação artística não passa de preconceito e ilusão.

Outra lição a tirar da obra de Gabriel Joaquim dos Santos – que fez arte sem saber que o fazia – reside na relação de sua atividade criadora com a linguagem dentro da qual atuou: a linguagem arquitetônica. É curioso observar que, na primeira etapa, ele pretende apenas fazer uma casa para se isolar da família; a preocupação com a beleza surge depois, e é a partir de então que ele começa a violentar a linguagem arquitetônica primária de que se valeu inicialmente para torná-la veículo de sua fantasia e de sua inventividade. E pouco a pouco, a casa modesta ganha as características de mansão suntuosa, rodeada de muros adornados, de altas erudes colunas suportando urnas e vasos de flores fantásticas, feitas de cacos. As paredes internastambém se cobrem de painéis coloridos, de molduras e adornos, enquanto do teto pendem lustres (que não acendem) compostos com lâmpadas usadas. Ele disse que ia às casas ricas, observava tudo e fazia igualzinho na sua. Como o douanier Rousseau, que pintava paisagens fantásticas, mas se julgava um realista, Gabriel acreditava que sua casa era imitação perfeita das mansões dos ricos. A diferença, segundo ele, estava em que, na sua, o que falava era “a força da pobreza”. Na verdade, sua casa é a transfiguração poética da casa real – uma metáfora, já que lhe faltam a comodidade, as proporções e a funcionalidade das casas de verdade. Uma casa de sonho para que o seu sonhador pudesse morar no sonho. Como um pintor que lograsse habitar o seu próprio quadro, ou o poeta, o seu próprio poema.

Cada Um Na Sua Casa

bbbnaloPor Lorena Moura

A Editora Gutenberg está lançando o livro “Cada Um Na Sua Casa”, que conta a história de uma garotinha chamada Tip que junto com o seu gatinho e porquinho vai viver uma aventura cheia de confusão e muita diversão. Afinal, não é todo dia que uma nave espacial pousa na Terra e pequenos alienígenas chamados Booves surgem dela alegando que o planeta em que vivemos agora é deles, e que nós deveríamos arrumar nossa mala e ir para outro lugar. Mas eles já escolheram o lugar para onde devemos ir: para a Flórida.  Diferente, né? O detalhe é que a mãe de Tip foi abduzida por extraterrestres, na véspera do Natal. Clique e Confira!