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Sou artista, logo escandalizo

22193009_1422671614497600_1556969610_n (1)Qualquer sujeito que for visitar museus, em qualquer parte do mundo vai se defrontar com o que se chama barbárie artística. Nem sempre é − quase sempre existe exagero −, e vale muito da nossa percepção e gosto pessoal.

O escândalo em si permeia a arte. Ao se por para dançar, por exemplo, um sujeito comum escandaliza. Rodar pelo salão ou se balançar feito macacos pode ser motivo de chacota. A dança, a priori, é destinada para seres belos, em espaços especializados, rodando com elegância como sobre patins numa pista de gelo. Esta é a ideia geral. O que aparece em nosso imaginário quando a palavra dança é pronunciada. Em cinema o espanto é muito fácil de se encontrar. Vários filmes foram execrados dos cinemas por tocar nas feridas do ser humano, bem como o teatro.

Não iria ser diferente em artes plásticas. O quadro ou escultura idealizada não cabe mais neste mundinho. A arte precisa transgredir para avançar. Não tem como fazer um omelete sem quebrar ovos. Ditado comum, muito próprio. Nesta quebra de ovos, certamente alguns podem estar podres e causar asco. No entanto, expressões artísticas usando ovos podres já foram realizadas, como estrume humano e de animais. Cada obra tem seu valor, de acordo com tempo e espaço. Imagine se os impressionistas não tivessem escandalizado em seu tempo. Ou então se Picasso ficasse pintando retratos e quadros realistas! Caso Pollock não ousasse respingar nas telas suas tintas criando suas telas maravilhosas. Mesmo o mictório de Duchamp foi necessário para que o modo de pensar arte evoluísse. Há quem diga que tudo piorou depois de Duchamp. Eu não concordo. Porém…

Das obras primas que encontram-se no museu Louvre, em Paris estão A “Vênus de Milo”, atribuída a Alexandros de Antióquia, é outro símbolo do Louvre. A estátua de 2,02 metros de altura tem cerca de 2.300 anos e foi encontrada em 1820 na Ilha de Milo, na Grécia. A obra está no museu francês desde 1821; A Liberdade Guiando o Povo foi pintada por Eugéne Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, que derrubou o rei francês Carlos 10º. A pintura, exposta no Louvre desde 1874, serviu de inspiração para a Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos; “A Balsa da Medusa”, pintura a óleo de Théodore Géricault, foi pintada entre 1818 e 1819, baseada numa história de naufrágio e canibalismo; “Psique Revivida Pelo Beijo de Eros”, estátua em mármore de Antonio Canova, esculpida em 1793, A Morte de Sardanapalo”, de Delacroix, foi inspirada no conto de um rei assírio que mandou destruir todos os seus bens e matar suas concubinas depois de uma derrota militar. O quadro é de 1827; “Hermafrodita Dormindo”, ou o “Hermafrodita de Borghese”, é uma escultura de data e autor desconhecidos. O colchão realista foi produzido em 1620 por Gian Lorenzo Bernini; A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres, foi encomendada pela rainha Carolina de Nápoles, irmã de Napoleão Bonaparte, para formar par com outro nu a ser pintado por Ingres, mas Napoleão foi deposto em 1814, e o segundo quadro não chegou a ser produzido; “Gabrielle d’ Estrées e Uma de Suas Irmãs” é um possível retrato da duquesa que era amante do rei Henrique IV da França. O toque no mamilo representaria a gravidez de Gabrielle de um filho do rei. A obra é de cerca de 1594, de autor desconhecido.


O que estas obras têm em comum? O escândalo. Qualquer visitante que for ao Louvre vai se defrontar com estes trabalhos e outros como a Galeria Táctil, onde corpo são expostos e o visitante é convidado a tocá-los e não tem restrição de idade. Crianças abaixo de doze anos só entram com os pais. Sim, a maioria dos corpos são nus. A exposição do MAM não é 
novidade nenhuma. Estamos tratando aqui do Museu mais famoso do mundo, num dos países mais civilizados do mundo. Logo, resta a lógica e o bom senso. Os genitores que vão definir se as crianças devem ver e tocar. A televisão e a internet estão cheia de porcarias. Cabe aos pais desligar os botões. Cabe aos pais dizer se a criança deve ou não ir a um filme, peça de teatro, ler um livro, etc. Os artistas não têm que se preocupar com o falso pudor quando criam suas obras. Se fosse assim não se criaria nada.

Outro quadro que está no Louvre é Odalisca, de François Boucher, um óleo sobre tela medindo 53×64 cm. Uma jovem está deitada nua na cama, envolta por uma profusão de tecidos drapejados. Ostensivamente provocante, ela flerta como o observador, olhando para fora de seu quarto intimo. Este quadro é belo justamente pelo nu. Se Boucher tivesse pintado ela vestida perderia toda a graça. Os lençóis amarotados podem significar várias coisas, como uma noitada de sexo ou que a menina dormiu mal, também pode ser que ela esteja desajustada e não goste de arrumar a cama. É, mas tem aquele olhar. Ainda assim pode significar mais que apenas sexo. Qualquer pai poderia dizer ao seu filhinho de dez anos que Odalisca pode ser vista de várias maneiras.

Em resumo, a maiorias das polêmicas que se cria em torno de arte geralmente carece de melhor informação e principalmente de bom senso. O fanatismo e a forma rasa como se tratam estes assuntos é que enoja. Com texto genéricos e mal fadados, pessoas mais interessadas em se expor do que avaliar a obra, vomitam palavras sem senso. São tempestades que maculam, mas não destroem a força expressiva. É claro que muitas exposições pelo mundo afora são feitas todos os dias, intervenções de cunho erótico, etc. Também é evidente que uma obra de arte não vai mudar a cabeça de uma criança, tão acostumada com a banalização da violência. São exageros que precisamos pontuar e corrigir.

 

Quando a força se transforma em poesia

Por Clodoaldo Turcato

16706869_1195798923851538_405892167_nSe tiver um artista que admiro por demais, este é Christiaan Karel Appel, conhecido como Karel Appel. Pintor, designer, artista gráfico, escultor e co-fundador do grupo CoBra. Não são apenas estas credenciais que me fascinam em Appel, mas a força de seu trabalho. Pode parecer estranho uma obra ter força, mas a obra de Appel tem muita.

Appel não pintava, ele atirava sua ira para a tela. Geralmente se utilizando de espátulas, brochas e as mãos, despejava quilos de tinta a seu bel prazer, resultando no final um primor. De um amontoado de tons o resultado era pura poesia. A obra de Appel é romântica? Sim. Appel é um maestro diante de uma tela regendo cores.

Um dos quadros mais significativos é Fantasma com Máscara, um óleo sobre tela medindo 116 x 89 cm. Appel dispara na tela sofisticadas pinceladas, criando uma imagem brutal e harmoniosa, que ao final apresenta um grande senso de humor e até leveza infantil. Depois que você acaricia o monstro com seus olhos, percebe que ele não é tão ruim assim e você acaba se apaixonando.

Appel considerava que aplicar a tinta era uma experiência libertadora. O uso de pinceladas vigorosas, às vezes aplicando diretamente do tubo a tinta, causa um efeito fascinante e visionário, formando imagens selvagens ou infantis. Este tipo de trabalho é característico do grupo CoBra, que rejeitava a forma abstrata do pós-guerra, considerando sem vida e passiva.

Ao cruzar com o quadro o expectador não fica passivo e o seu desconforto é inerente. Um tipo de trabalho feio e belo, sujo e limpo – desafiador. Appel consegue retirar emoções de quem o acompanha, relegando a segundo plano conceitos tradicionais de arte e cultura.

Appel viveu em Paris, a partir do início da década de 1950; em Nova Iorque, na década seguinte, na Itália e na Suíça, onde faleceu.

Appel pintou também retratos de músicos de jazz e executou vários trabalhos públicos, incluindo um mural na sede da UNESCO em Paris.

Seus primeiros trabalhos lembram a pintura do realista neerlandês George Hendrik Breitner , porém, já à época da Segunda Guerra Mundial, volta-se para o Expressionismo Alemão e principalmente para o trabalho de Van Gogh.

Há um ponto de inflexão no estilo de Appel, por volta de 1945, quando encontra inspiração na Escola de Paris, particularmente em Matisse, Jean Buffet e Picasso; essa influência, que deverá persistir até 1948, pode ser observada, por exemplo, em uma série de esculturas de gesso dessa época.

A partir de 1947, seu colorido universo pessoal será constituído de seres simples, infantis e animais amistosos, que povoam suas pinturas, desenhos, esculturas de madeira pintada. Seu senso de humor chega ao ápice em grotescas montagens, relevos em madeira e pinturas como Hip, Hip, Hooray que encontra-se na Tate Galeria, em Nova Iorque.

outras obras famosas do pintor são Vrijheidsschreeuw, Questioning Children,  Women, Children, Animals,  Farmer with blue cap e The Discovery .

Um artista que não pintava, fazia modelos em carne e osso

14572470_1072723956159036_417729200_oPor: Clodoaldo Turcato (artista plástico, jornalista, escritor).

Quando perguntaram para Salvador Dalí se ele se considerava um grande artista, um grande pintor, ele prontamente respondeu ao repórter “Eu não sei pintar nem sou um grande artista. Artista mesmo é Velázquez.”

Guardando as proporções e os exageros de retórica de um admirador, Dalí tinha razão. Velázquez foi um artista diferenciado e por várias razões. Dominou o retrato como poucos, talvez Rubens, Rembrandt e Jan Sten, que me ocorrem agora. Longe de comparações e salientando apenas aos seus atributos, Diogo Velàzquez de Silva dominou a pintura em toda sua dimensão,não que não conhecesse o método para demais estilos, no entanto foi no retrato que chegou ao máximo. Velàzquez não fazia retratos, mas cópias.

Quando se fala em no pintor, o primeiro  quadro que nos vem em mente é Autorretrato com A Família de Felipe IV ou As meninas, um óleo sobre tela medindo 318×176 cm. A obra é uma das poucas telas em que o espectador olha e tem certeza absoluta que o autor ou é um anjo ou está muito próximo da perfeição. Para muitos é incomparável. Não existem palavras para descrever o seu grande encanto, vivacidade e beleza, mas o próprio retrato é seu melhor elogio. Aos seus pés, curvada, está Maria Augustina, criada da rainha e filha de Dom Diego Sarmiento, entregando-lhe um frasco de água. Do outro lado, há outra empregada, que mais tarde se tornou dama de honra, Senhora Isabel Velasco, filha de Bernardino Lopes Ayala y Velasco. Pelos movimentos e gestos se entende que ele está falando. Em primeiro plano aparece um cão deitado, e ao seu lado NicolasitoPertusato, um anão, que o pisoteia , a mostrar que, apesar de parecer feroz, é um bicho domesticado e dócil. Atrás está Maria-Barbola, uma anã de aparência aterrorizante. Mais pra trás, e um pouco esfumada, se vê dona Marcela Ulloa, dama de honra, com uma guarda-damas. Da outra parte surge Dom Diego Velázquez, que pinta. Ele segura a paleta com a mão esquerda e um pincel com a direita, os símbolos de seu cargo no palácio. No peito leva as insígnias da Ordem de Santiago.  A tela que Velázques está pintando é grande e nada do que está sendo pintado pode ser visto. Mas Velásquez mostrou seu talento inegável revelando, em uma ideia engenhosa, o que estava pintando: ele usou a luz brilhante  de um espelho, que pintou na parede do fundo do quadro e,  portanto na frente da tela, que reflete a imagem do rei católico Felipe e da rainha Maria Ana.

Esta obra resume a magnificência e o domínio absoluto de todos os conceitos. A leitura desta obra pode ser mais extensa e existem livros inteiros que discorrem as minúcias de uma única obra. Não se trata de falar da obra completa de Velázques, mas de um quadro, que levantou inúmeras teorias. Para mim, a obra não é um retrato, mas um quadro dentro de outro quadro. Sublime, intelectualmente complexa e ainda tão inerente à realidade, Velázquez conclui uma longa meditação sobre os meios  e os limites do retrato e da pintura: o que realmente importa é a capacidade de enlaçar com formas e cores, a beleza a realidade um fragmento de vida real. Velázques era um pintor de estúdio e modelos. No entanto, ele conseguia expor a realidade em mágicos retratos, sugerindo uma ideia impressionista.

De tudo, a obra que consegue transcender sua capacidade com retratos foi Retrato de Juan Pereja, um óleo sobre tela medindo 82×70 cm. Juan Pereja era seu escravo e também um pintor. A obra ficou tão fiel ao retrato que, assim que terminou, Velázquez chamou alguns amigos para ouvir a opinião. E eles surpresos não sabiam se falavam com o retrato ou como o modelo em carne e osso.  Certa feita, a tela foi exibida com outras pinturas conhecidas, antigas e modernas, no claustro de Pantheon (onde Rafael está enterrado), na Festa de São José, e fez tamanho sucesso que, na opinião de artistas de diferentes nações, todas as obras pareciam pinturas, apenas O retrato de Juan de Pereja era verdadeira.  Poucos meses depois da execução do quadro, Velázquez libertou Juam de Pareja.

A impressão de que as outras obras são “apenas pinturas” ocorre quando nos deparamos com grandes pintores. No entanto é incomum encontrar tantos quadros que se elevam a condição de obras-primas como os de Velàsquez. Sempre que o amigo ou amiga leitora ler a biografia de grandes mestres, perceberá que estes tiveram períodos de exuberância, ou seja, estiveram no auge, contrastando com períodos menos férteis. Isso não ocorre com Velàsquez. Uma passagem por sua obra nos revela a grandiosidade de um homem que era capaz de materializar os homens (fossem reis ou anões), igualando-os aos cães, às cadeiras , às próprias roupas, de maneira a exaltar a sua individualidade e negando-lhes, ao mesmo tempo, qualquer supremacia visual.Seus temas são variados como retratos religiosos, de personalidades, como de anões, gente comum e animais.  Seus retratos podem ser divididos em quatro grupos: os retratos oficiais dos membros da família real; os retratos  “privados” dos mesmo membros; os retratos de anões e os bobos da corte; e alguns retratos ideais.

É evidente que Velàzquez não chegou ao seu melhor sem grande esforço. Mesmo com tamanho talento, ele estudou os grandes mestres da Renascença Italiana como Rubens e Ticiano, além de frequentar escolas de arte, viajar muito para ver de perto a produção antiga e contemporânea. Toda sua obra tem influências claras da arte Italiana, e ele não negava. Foi a arte Romana que o moldou e o fez atingir seu estilo, fazendo-o transpor paras as telas características psicológicas. Em alguns casos, a obra de Velázquez nos ilude a ponto de nos imaginarmos diante de um ser vivo que nos apresenta expressões e olhamos duas vezes se de dentro da moldura não salta um sorriso, uma lágrima, um gesto de medo. Não é exagero, lhes asseguro.

Velázquez consegue colocar em suas telas  a ambígua suspensão com a qual retratou homens e mulheres que parecem pertencer ao nosso mundo e, ao mesmo tempo, parecem longe dele. Depois de nos fazer sentir tantas vezes a sombra da vida e da morte. Representa a espera silenciosa  de um fim inevitável, causando um arrepio de que ele pode estar a um passo.

O artista das luzes

939197_925589067539193_654135313_o (1)Por Clodoaldo Turcato

Quando falamos em artes plásticas, mesmo nós com veia modernista, temos um artista em comum. Um pintor que superou a maioria de seu tempo e conseguiu levar para as telas um estilo único, inconfundível e inclassificável. Alguns dirão que se trata de um realista, outros que é simbolista. Não sei! O que sei que suas telas e gravuras me fascinam e o encantamento vai além de mero espectador, mas um apaixonado, que por vezes precisa ser crítico. E nessa estrada espinhosa da crítica, tentarei ser isento e escrever sobre Rembrandt.

Rembrandt Hermanszoon van Rijn! nasceu em Leiden, Holanda, em 15 de julho de 1606. Filho do rico proprietário de um moinho, aos 14 anos entrou para a universidade. No entanto, devido à sua grande vocação para as artes plásticas, ele abandonou os estudos para se tornar um dos maiores nomes da história da arte. Ao contrário de outros mestres da pintura, como seu conterrâneo Van Gogh, que viveu dois séculos depois, Rembrandt teve seu talento reconhecido ainda em vida.Nos três primeiros anos de sua carreira, Rembrandt foi aprendiz de Jacob Swanenburgh, um pintor de Leiden. Aos 18 anos, mudou-se para Amsterdã, capital do país, para estudar com o mestre PieterLastman, um influente artista holandês da época. Lastman havia estudado na Itália e foi ele que apresentou o jovem Rembrandt ao chiaroscuro (claro-escuro em italiano). Essa técnica, inventada pelo pintor italiano Caravaggio e usada por Rembrandt em toda a sua obra, usa a luz e a sombra para criar um efeito dramático.

Após uma breve volta à terra natal, onde trabalhou em pinturas com temas bíblicos e mitológicos, em 1632 o pintor mudou-se em definitivo para Amsterdã e passou a receber muitas encomendas. Naquela época, era comum que nobres e ricos comerciantes mandassem pintar seus retratos. Rembrandt era diferente de outros pintores porque conseguia perceber a emoção das pessoas. É só olhar para um quadro dele para notar a alegria ou a tristeza no olhar do personagem!

A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, um óleo sobre tela medindo 169,5×217,5 cm, é uma das mais conhecidas obras-primas do pintor Rembrandt. Foi-lhe encomendada pela corporação dos cirurgiões de Amsterdã. Em sua composição, o artista representa oito personagens e um cadáver. Existem suposições de que duas das figuras, a da esquerda e a que se situa num plano mais alto, foram acrescidas depois da obra pronta, assim como a lista, onde se encontram os nomes dos participantes, vista na mão de uma das figuras.Durante uma aula de anatomia, o doutor NicolaesTulp, principal professor de anatomia da guilda, responsável por convidar Rembrandt para pintar sua aula anual de anatomia, mostra a dissecação anatômica de um antebraço, mostrando os tendões da mão. O médico, enquanto pinça o músculo e os tendões com a mão direita, usa a esquerda para demonstrar a seus observadores a flexão e a pressão dos dedos.

A história revela que o cadáver era de um homem de nome Adriaan que, após agredir gravemente um guarda da penitenciária de Utrecht, fugiu para Amsterdã, onde golpeou um transeunte para roubá-lo. Uma vez preso, foi morto por enforcamento, sendo seu corpo cedido para autópsia pública, oportunidade em que serviu de modelo para o pintor, que parece também convidar o observador para assistir à aula.Antes de pintar os modelos presentes na composição, Rembrandt convidou-os, individualmente, para serem retratados em seu ateliê, mas o braço dissecado do corpo foi pintado durante a autópsia, sendo, portanto, a obra uma montagem, já que foi feita em duas partes isoladas. Talvez, por isso, alguns olhares se mostrem desfocados do corpo em estudo.A composição está centrada na ação, de modo que o ambiente em derredor não tem a menor importância, desaparecendo quase que totalmente. Rembrandt eliminou qualquer tipo de excesso, para deixar somente aquilo que era essencial à cena. As figuras estão de perfil e meio perfil, excetuando o médico, que se encontra de frente para o observador.Os sete espectadores vestem roupas escuras, com volumosas golas brancas e possuem barba.  O doutor Tulp é o único a usar chapéu, pois o uso de tal apetrecho no interior de um estabelecimento, naquela época, era privilégio apenas das pessoas mais importantes. Suas vestes também diferem das demais. A posição mais afastada do médico, enquanto os demais personagens encontram-se amontoados, formando uma pirâmide, reforça a importância de sua presença.O modo como o pintor representa o corpo morto, que ocupa grande parte da tela, quase numa diagonal, chama a atenção do observador. A sua nudez e posição rígida contrastam com o corpo dos demais. Os olhos estão parcialmente encobertos por uma sombra. Ele tem apenas a parte do baixo ventre coberta com um tecido branco, e jaz sobre uma mesa de madeira. Próximo a seus pés está aberto o tratado de anatomia, cuja presença denota o caráter científico da aula. A maior parte da luz recai sobre o corpo, figura central da cena.

Embora no gênero dos retratos de grupo normalmente fosse usado o alinhamento dos retratados, ou seja, todos alinhados no mesmo plano, os personagens de Rembrandt estão aglomerados em torno da cabeça do morto, numa composição piramidal. Os olhares de alguns não acompanham o doutor Tulp, enquanto dois deles, inclinados sobre o corpo, parecem acompanhar as explicações com interesse extremado. Como o pintor tivesse especial pendor para com as expressões fisionômicas, os olhos dos participantes foram trabalhados com perfeição.

Além de pintor, Rembrandt foi um genial gravurista. Estudou os efeitos da gravação feita com diferentes objetos, como a ponta seca (agulha de ponta afiada que faz traços de textura áspera) e o buril, (instrumento de aço em forma de V que entalha traços finos). Além disso, o mestre fez experiências com diferentes tipos de papel, vindos até do Japão! Além de papéis como o europeu, o chinês e o japonês, Rembrandt também usou o pergaminho (feito de pele de animais, coitadinhos!). As cores e texturas dos materiais criam efeitos diferentes na impressão das gravuras.

Quando a esposa de Rembrandt morreu, ela lhe deixou uma herança polpuda que, juntamente ao seu sucesso como pintor, fez dele um homem rico. Além de artista, Rembrandt foi um grande colecionador de obras de arte e antiguidades. Mas a má administração de seus bens levou Rembrandt à falência. Um de seus últimos quadros mostra um quarto miserável com uma cama e uma cadeira quebrada. O maior pintor holandês do século 17 morreu na pobreza em 4 de outubro de 1669. Em seu testamento deixou apenas algumas roupas, instrumentos de trabalho e dois quadros. Ao contrário de tantos, Rembrandt viveu intensamente a arte e tudo que ela lhe ofereceu, e no final entregou-se para a vida. Mas seu final não ofusca sua genialidade, apenas enaltece.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

A experiência de um(a) artista da fome

FOTO COLUNAPor: Patricia Gonçalves Tenório

O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. [...] Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria. [...] O ponto de partida da verdadeira literatura é o homem que fecha a porta e se recolhe com seus livros. Clique e Confira!