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Sou artista, logo escandalizo

22193009_1422671614497600_1556969610_n (1)Qualquer sujeito que for visitar museus, em qualquer parte do mundo vai se defrontar com o que se chama barbárie artística. Nem sempre é − quase sempre existe exagero −, e vale muito da nossa percepção e gosto pessoal.

O escândalo em si permeia a arte. Ao se por para dançar, por exemplo, um sujeito comum escandaliza. Rodar pelo salão ou se balançar feito macacos pode ser motivo de chacota. A dança, a priori, é destinada para seres belos, em espaços especializados, rodando com elegância como sobre patins numa pista de gelo. Esta é a ideia geral. O que aparece em nosso imaginário quando a palavra dança é pronunciada. Em cinema o espanto é muito fácil de se encontrar. Vários filmes foram execrados dos cinemas por tocar nas feridas do ser humano, bem como o teatro.

Não iria ser diferente em artes plásticas. O quadro ou escultura idealizada não cabe mais neste mundinho. A arte precisa transgredir para avançar. Não tem como fazer um omelete sem quebrar ovos. Ditado comum, muito próprio. Nesta quebra de ovos, certamente alguns podem estar podres e causar asco. No entanto, expressões artísticas usando ovos podres já foram realizadas, como estrume humano e de animais. Cada obra tem seu valor, de acordo com tempo e espaço. Imagine se os impressionistas não tivessem escandalizado em seu tempo. Ou então se Picasso ficasse pintando retratos e quadros realistas! Caso Pollock não ousasse respingar nas telas suas tintas criando suas telas maravilhosas. Mesmo o mictório de Duchamp foi necessário para que o modo de pensar arte evoluísse. Há quem diga que tudo piorou depois de Duchamp. Eu não concordo. Porém…

Das obras primas que encontram-se no museu Louvre, em Paris estão A “Vênus de Milo”, atribuída a Alexandros de Antióquia, é outro símbolo do Louvre. A estátua de 2,02 metros de altura tem cerca de 2.300 anos e foi encontrada em 1820 na Ilha de Milo, na Grécia. A obra está no museu francês desde 1821; A Liberdade Guiando o Povo foi pintada por Eugéne Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, que derrubou o rei francês Carlos 10º. A pintura, exposta no Louvre desde 1874, serviu de inspiração para a Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos; “A Balsa da Medusa”, pintura a óleo de Théodore Géricault, foi pintada entre 1818 e 1819, baseada numa história de naufrágio e canibalismo; “Psique Revivida Pelo Beijo de Eros”, estátua em mármore de Antonio Canova, esculpida em 1793, A Morte de Sardanapalo”, de Delacroix, foi inspirada no conto de um rei assírio que mandou destruir todos os seus bens e matar suas concubinas depois de uma derrota militar. O quadro é de 1827; “Hermafrodita Dormindo”, ou o “Hermafrodita de Borghese”, é uma escultura de data e autor desconhecidos. O colchão realista foi produzido em 1620 por Gian Lorenzo Bernini; A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres, foi encomendada pela rainha Carolina de Nápoles, irmã de Napoleão Bonaparte, para formar par com outro nu a ser pintado por Ingres, mas Napoleão foi deposto em 1814, e o segundo quadro não chegou a ser produzido; “Gabrielle d’ Estrées e Uma de Suas Irmãs” é um possível retrato da duquesa que era amante do rei Henrique IV da França. O toque no mamilo representaria a gravidez de Gabrielle de um filho do rei. A obra é de cerca de 1594, de autor desconhecido.


O que estas obras têm em comum? O escândalo. Qualquer visitante que for ao Louvre vai se defrontar com estes trabalhos e outros como a Galeria Táctil, onde corpo são expostos e o visitante é convidado a tocá-los e não tem restrição de idade. Crianças abaixo de doze anos só entram com os pais. Sim, a maioria dos corpos são nus. A exposição do MAM não é 
novidade nenhuma. Estamos tratando aqui do Museu mais famoso do mundo, num dos países mais civilizados do mundo. Logo, resta a lógica e o bom senso. Os genitores que vão definir se as crianças devem ver e tocar. A televisão e a internet estão cheia de porcarias. Cabe aos pais desligar os botões. Cabe aos pais dizer se a criança deve ou não ir a um filme, peça de teatro, ler um livro, etc. Os artistas não têm que se preocupar com o falso pudor quando criam suas obras. Se fosse assim não se criaria nada.

Outro quadro que está no Louvre é Odalisca, de François Boucher, um óleo sobre tela medindo 53×64 cm. Uma jovem está deitada nua na cama, envolta por uma profusão de tecidos drapejados. Ostensivamente provocante, ela flerta como o observador, olhando para fora de seu quarto intimo. Este quadro é belo justamente pelo nu. Se Boucher tivesse pintado ela vestida perderia toda a graça. Os lençóis amarotados podem significar várias coisas, como uma noitada de sexo ou que a menina dormiu mal, também pode ser que ela esteja desajustada e não goste de arrumar a cama. É, mas tem aquele olhar. Ainda assim pode significar mais que apenas sexo. Qualquer pai poderia dizer ao seu filhinho de dez anos que Odalisca pode ser vista de várias maneiras.

Em resumo, a maiorias das polêmicas que se cria em torno de arte geralmente carece de melhor informação e principalmente de bom senso. O fanatismo e a forma rasa como se tratam estes assuntos é que enoja. Com texto genéricos e mal fadados, pessoas mais interessadas em se expor do que avaliar a obra, vomitam palavras sem senso. São tempestades que maculam, mas não destroem a força expressiva. É claro que muitas exposições pelo mundo afora são feitas todos os dias, intervenções de cunho erótico, etc. Também é evidente que uma obra de arte não vai mudar a cabeça de uma criança, tão acostumada com a banalização da violência. São exageros que precisamos pontuar e corrigir.

 

Arte e polêmica são um casal que amam e brigam o tempo todo

Por Clodoaldo Turcato

 

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De todas as polêmicas envolvendo arte, eu particularmente prefiro ficar longe, por padecer de entendimento, por não estar com todos os recursos para opinar ou simplesmente por que o fato não vale nenhuma linha, como discutir se pichar é arte ou não, se arte digital é arte, se arte abstrata é arte, etc. Isso é um grande mar de argumentos que vai cair na vala comum e ficaremos olhando com nossos mais escusos instintos em nome de orgulho pessoal. Estes temas são discutidos e rediscutidos sem que prejudique o todo.
No entanto, quando uma exposição de arte é fechada por pressão extremista, daí estamos atuando no campo das liberdades individuais. Não vamos analisar as obras expostas. Algumas poderiam ser de mau gosto, dependendo de uma série de fatores que mencionamos tantas vezes aqui neste espaço. Gostar ou não de um trabalho é questão pessoal. Ponto final. O que nos preocupa é o Santander Cultural ter aberto a exposição, justificado sua execução e com uma semana, pressionado por grupos que não demonstraram ainda qual a finalidade, encerrar contradizendo o que justificara anteriormente. Então o que se imagina em total bom senso é que o Grupo de Curadores do Santander Cultural não tem posição firme, não acredita em seus valores (ou não os tem) a ponto de recuar. Seria o que se diz na mesa de bar “Uma Maria vai com as outras”.
O grupo Santander perdeu uma grande oportunidade de discutir arte e expressão artística. Perdeu a chance de levar à sociedade conversar sobre temas que são escondidos sob tapetes e esclarecer as crianças que aquelas demonstrações existem, são comuns e como evitá-las, caso queiram. Contudo, preferiram se esconder, correr, fugir do debate e corta bruscamente o processo.
A arte sempre foi campo de exposições extremas. A vida comum é extrema e se a arte plástica representa esta vida, logo teremos pedofilia, zoofilia, nus, sexo homossexual, sexo hetero, corpos nus e demais situações que ocorrem desde os primórdios – a vida não é somente flores. A pintura vive seu tempo. A exposição e exploração da mulher condicionando-a ao homem também está refletida nas artes plásticas. A nudez feminina funcionou como uma maneira de controlar e determinar a sexualidade e os comportamentos das mulheres. Os quadros que circulavam nas grandes galerias retratavam mulheres idealizadas, que denotavam padrões vigentes naquela sociedade e cujo comportamento deveria ser seguido. Em meados do século XIX, esse gênero se converteu na forma dominante da arte figurativa europeia, e era considerada a forma artística ideal. Mas o nu feminino estava vinculado às ideias de sensualidade, fluidez e passividade, e talvez nunca tenha sido tão cultivado como naquele período. Enquanto isso, na vida cotidiana, o corpo era zelosamente estudado e perscrutado, sobretudo o feminino. Esse organismo humano sofria diversas pressões e controles por parte de um conjunto de instituições tuteladas pela ciência, que detinham a hegemonia dos discursos sobre a sexualidade, a doença e a saúde. Não por acaso, a mulher constituiu o motivo principal do nu como gênero na pintura a óleo europeia, mesmo quando o tema ilustrado fosse uma alegoria ou uma história mítica. 
Assim, as figurações do nu feminino reforçavam o status dominador do homem na ordem social vigente, enquanto a mulher permanecia inerte, devendo ser dominada, subjugada ou idealizada pelo poder físico, social e econômico da potência masculina. Como exemplo dessa fêmea subjugada, vale observar a obra Susana e os velhos, da artista Artemisia Gentilesch, Nascimento de Vênus de Sandor Boticelli e Maja Desnuda de Goya.
Como criticar, baseando-se na retórica feminina atual ou conceitos conservadores, Vênus Adormecida de Giorgione, Vênus de Urbido de Ticiano ou Nú de Mondigliani? Estas obras teriam que ser queimadas, jogadas no lixo, esquecidas por retratarem a mulher nua? Seria esse o caminho que elevaria o ser humano? O interesse pelo nu não é um fenômeno exclusivo da contemporaneidade. Ao contrário, a representação do corpo nu surgiu como um gênero da História da Arte Ocidental na Grécia Clássica. Era tido como natural, sagrado, uma aproximação com os deuses, a ilusão do corpóreo aparece como a idealização do corpo perfeito. Os corpos que representavam os deuses gregos eram perfeitamente proporcionais e sem nenhum dos defeitos do corpo “real” – muito parecidos com os corpos que se apresentam hoje para nós. Com o passar dos anos, o nu nas artes plásticas teve inúmeras representações, retratando o masculino e o feminino. Mais adiante ainda na história a religiosidade se volta contra o homem natural e o que era a semelhança e imagem de Deus teve a necessidade de ser coberto.
A divisão entre o corpo e a alma foi radicalizada e a nudez corporal passou a ser entendida como um símbolo de vergonha e humilhação. Como consequência, a figura humana nua quase não existe na arte medieval cristã, exceto como representação do pecado, nas cenas de Adão e Eva e do Juízo final. O sexo se torna tabu e o corpo passa a ser recipiente do pecado criado pela moral vigente. Quando o nu masculino é sensualizado ele desaparece nas artes, pois coincide com a necessidade de reproduzir a prole, lá pelos idos de XVII. No final da Renascença a beleza clássica vai perdendo o valor. No neoclassicismo o corpo feminino prevalece no nu. Se analisarmos a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e prestarmos atenção nas ilustrações de Gustav Dore, se percebe o ressurgimento do nu masculino já com cânones diferentes para valorizar os músculos, originando a silhueta dos super-heróis, o que vem de encontro e retoma a perfeição criada na Grécia nas esculturas. Na representação do nu na arte contemporânea é possível visualizar as releituras e reflexões que artistas atuais fazem da nudez de períodos diversos da história da arte. Se, historicamente, o nu esteve ligado à técnica e um ideal de beleza e harmonia, a arte contemporânea se apropria dessas características com uma boa dose de crítica e ironia.
Estamos profundamente condicionados à ilusão de que somos este corpo, bem como condicionados a forma de como ele deva ou não deva ser. Do mesmo modo que, quando na fase infantil, o eu, se identifica de forma ilusória como sendo este corpo, em sua fase adulta, pela experiência do testemunhar, precisa se “desidentificar” para o alcance da consciência de sua real natureza. Independente da imagem de um corpo nu ser idealizado ou “real”, ela jamais será um corpo neutro, visto que sempre será lida a partir de um código e incorporará discursos diversos. O corpo na arte é sempre um corpo-representação, um corpo imaginário que revela narrativas e cria (ou reforça) sentidos. Dessa forma, a percepção humana não ocorre de maneira neutra, já que ela se dá por meio de uma interpretação e a interpretação depende dos hábitos perceptuais das pessoas: o que vemos quando olhamos para alguma coisa depende do que vimos antes.

 

Quando expressamos através de um quadro, nele está contido muito mais do que simplesmente o visual. Em 1863, Honoré-Victorien Daumier pintou A lavadeira. O quadro foi proibido em diversas galerias europeias por representar gente comum. Olímpia de Manet foi outra obra esculachada em seu tempo. O escândalo não é apenas com o nu, a homossexualidade, o sexo, etc. O escândalo ocorre principalmente quando nossos defeitos são escancarados. Os segredos que tememos escancarados preocupam em qualquer lugar do mundo. A escultura Tumbling Woman (Mulher Caindo) foi a resposta do americano Eric Fischl aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao ser exibida pela primeira vez, em 2002, a obra foi alvo de protestos tão violentos que uma semana depois acabou sendo recolhida. Trata-se da figura de uma mulher que, tendo se atirado de uma das Torres Gêmeas, tem seu corpo esmagado ao chocar-se com o chão. Alguns acharam a obra apelativa. Outros a consideraram um tributo à coragem de uma mulher que decide escolher como morrer; para esses, a escultura de Fischl era uma alegoria da dignidade humana.

 

Ao avaliar com cuidado o que ocorreu em Porto Alegre à luz da história, em todos os tempos, verificaremos que sempre ocorreram retaliações em arte e o conteúdo ofensivo ou sujo, não é necessariamente a motivação. A exposição do Santander foi fechada pelo momento político em que o Brasil está vivendo. Noutra época seria mais uma exposição. Estamos vivendo um momento extremado, dividido e o reflexo disso está na sociedade em geral, não apenas nas artes. Artistas consagrados e admirados, com grandes trabalhos, estão sendo rechaçados por tomarem posições contrárias aos seus admiradores. Caso fático é de Chico Buarque, que sempre foi de esquerda, mas amado por todos, passa momentos de enfrentamento por sua posição.

 

Sugiro ao leitor que analise a obra de Lucas Cranasch, o velho, pintor germânico que passou boa parte de sua vida pintando Príncipes Alemães e líderes da Reforma Protestante, como Martinho Lutero. Sua obra teve dois tópicos: a arte aceitável, já que foi mestre em retratos e seus nus, que incomodavam demais aos religiosos de plantão, como o quadro Vênus, um óleo sobre madeira medindo 37×25 cm, exposto no museu Stadelsche Kunstinstitut, em Frankfurt, Alemanha. Vênus usa apenas uma rede de cabelo adornada de joias e dois colares. Ela segura com falso pudor um véu de áfano e olha sedutoramente para observador. Seu corpo é idealizado, talvez por que os artistas da época pouco usassem modelos vivos femininos. A representação de mulheres nuas não era comum, a menos que figurassem numa cena narrativa ou como Deusas míticas. Cranasch parece ter ignorado o espirito clássico da época, e seus nus tem uma aparência quase primitiva. A escolha de um tema mitológico e não religioso para este quadro, talvez se devesse ao fato de seu mecenas ser protestante. Pouco se sabe sobre Cranasch, além da grande influência que teve na Alemanha protestante. Ele parece ter surgido subitamente, produzindo as melhores obras no início de sua longa carreira e depois ter levado a vida fácil de pintor da corte. É conhecido como Lucas, o velho, por que iniciou uma dinastia de artistas que deram continuidade ao seu estilo.

A Vênus de Cranasch é um belo exemplo de como arte e polêmica são um casal amam e brigam o tempo todo.

 

Arte Postal, a primeira rede social efetiva da humanidade

Quando se fala em rede social nos dias atuais, com toda a sua magnitude de possibilidades e efeitos sociais, é comum o leitor imaginar que se trata de um termo atrelado a expansão da internet e a maneira como ela hoje invade nossos caminhos. Ledo engano. As redes sociais são bem mais antigas do que se imagina. Basta retomarmos aos tempos dos Renascentistas quando Rafael, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Tintoretto se reuniam, o que a cara leitora imagina que conversavam? Provavelmente dos reis, dos modos e modinhas de então e arte. O mesmo, imagino, ocorreria quando Cèzzane, Monet, Manet, Renoir, Surreat estivessem numa mesa dos belos cafés parisienses: arte.

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A rede social é um local onde pessoas tratam de temas comuns. Hoje temos difundido páginas, grupos e círculos onde cada qual trata daquilo que lhe interessam e gostam. A diferença é que para isso se utilizam de um equipamento eletrônico.

De tudo, uma das redes sociais ou redes de arte mais impressionantes que existe é a Arte Postal. Na década de 1960, correspondências trocadas entre artistas plásticos deram origem a mais uma forma de expressão da arte contemporânea: a arte postal (mail art). Nessa mesma época, Ray Johnson cria, em Nova York, nos Estados Unidos, a Correspondance Art School (Escola de Arte por Correspondência). Em 1963, Ray Johnson escreve uma carta num envelope, usando a frente e o verso. Ele rompe, assim, com o conceito de privado e reproduz, de maneira pública, dialogando com outra pessoa, a sua aparente intimidade.

A mail art consistia em trocar mensagens criativas utilizando o sistema de correios. Ela surgiu como uma alternativa aos meios convencionais das exposições de arte (Bienais, Salões, etc.) e tem características próprias do período em que apareceu (dialoga, portanto, com a Guerra Fria, no contexto mundial, ou com a ditadura militar, no contexto brasileiro). Ou seja, seu objetivo era veicular informação, protesto e denúncia. A arte postal se caracteriza por ser um meio de expressão livre, no qual envelopes, telegramas, selos ou carimbos postais são alguns dos suportes em que é possível a expressão da sensibilidade. Os artistas utilizam, principalmente, técnicas como colagens, fotografia, escrita ou pintura. A única limitação real à utilização de diferentes técnicas e suportes é a possibilidade de envio dos trabalhos pelo correio.

Nos anos 60, a arte postal foi uma forma de expressão entre artistas que se conheciam. Porém, na década de 70, todos os interessados em fazer arte já podiam participar – e, a partir de 1980, museus e universidades começaram a valorizar a arte postal. No Brasil, a Arte Postal chegou num momento de censura, quando muitos artistas, para poderem se expressar, acabam aderindo à Arte Conceitual – e, portanto, a uma de suas formas, a Arte Postal. As primeiras manifestações na América do Sul aconteceram em meados dos anos 60. Na Argentina, Eduardo Antônio Vigo editava a revista “Diagonal Cero”, a “Hexágono 70” e posteriormente “Nuestro Libro Internacional de Estampillas y Matasellos”, o Uruguaio Clemente Padín a “Los Huevos de Plata” e “Ovum”, o chileno GuilhermoDeisler a “EdicionesMinbre” e o poeta chileno DámasoOgaz dirigia na Venezuela a revista “La Pata de Palo”. Estes grandes nomes iniciavam intenso intercâmbio postal através de suas publicações. E em 1970 no Brasil, Pedro Lyra publica um manifesto de Arte Postal. Em 1974, em Montevidéu, acontece a primeira exposição documentada de Arte Postal da América Latina – “Festival de La Postal Creativa”. A partir daí o movimento se dinamiza acontecendo mostras como “Última Exposición Internacional de Arte Postal” realizada por Eduardo Antonio Vigo e HoracioZabala, em La Plata, 1975, e, no mesmo ano, no Brasil, a “Primeira Exposição Internacional de Arte Postal” organizado por Daniel Santiago,Paulo Brucksy e Ypiranga Filho,cá em Recife, Pernambuco.

Os artistas postais ao apropriarem-se do sistema epistolar criaram um novo modo de circulação de arte, que rompeu com o circuito de galerias e museus e ampliou as possibilidades tanto de consumo como de produção de arte a nível internacional, em uma época na qual ainda não havia internet e o acesso a informação era muito mais restrito.Além disso, muitas propostas são colaborativas e/ou anônimas, dissolvendo-se nessa atitude conceitos como autoria e originalidade da obra de arte.O principal resultado produzido pela arte postal é a criação de uma rede de comunicação e intercâmbio em que os artistas podem expressar suas tendências e concepções e também receber informações que lhes permitam abordar novos campos sem a necessidade de projetar algo concreto ou que está ligado a um padrão. É uma rede de comunicação que, se já conseguiu alcançar uma extensão notável desde o início, graças aos novos canais de comunicação, para os quais praticamente não há fronteiras, continua a desenvolver-se constantemente.

O caráter aberto do fluxo de trabalho não apenas aponta para a multiplicidade de significados, a liberdade de seleção do suporte, para a desconstrução linguística, mas éfrequentemente direcionado para a investigação dos possíveis efeitos que o fato pode sofrer artística se modificarmos os elementos do sistema de comunicação em que é contextualizado; por exemplo, o canal. E foi precisamente isso que chamou a atenção do grande protagonista da arte do cartão postal, de Ray Johnson, que em 1962 criou a Escola de Arte de Correspondência de Nova York, considerada a primeira escola de arte de correspondência. Com isso foi nomeada a preocupação da escola Fluxus e atividades que já começaram, entre outros, Marcel Duchamp, que viajou de Paris para Nova York com sua “garrafa de ar” ou os futuristas italianos Giacomo Balla ou Pannaqqui , que através do correio enviou peças, cartões com desenhos, etc.

Há 60 anos, desde o seu nascimento oficial, o espírito defendido pelo fluxus e levado à máxima expressão por Johnson ainda está em vigor. Prova disso é que ainda há chamadas para reuniões de artistas de correio de diferentes países que compartilhem sua maneira de entender a arte, graças a que, segundo eles, estão crescendo constantemente.

Aqui em Recife temos um dos representantes da Arte Postal no mundo: Daniel Lima Santiago. Artista exuberante e produtivo desenvolve e expõe pelas novas redes sociais seus trabalhos com a mesma garra do início de sua carreira grandiosa.

Portanto, caro leitor e leitora, quando estiver envolvido com seus equipamentos ultramodernos, nunca esqueça que as redes sociais que você se utiliza hoje teve grande influência da arte postal. E cá pra nós, era muito mais belo. 

Gustave Coubert, um libertador

Por Clodoaldo Turcato

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Em toda a história da arte, tantos foram os artistas que se posicionaram contra os padrões sociais. Já escrevemos aqui várias vezes a importância que tem estas rupturas para o desenvolvimento da arte e da sociedade – o comodismo engessa. A priori, algumas obras foram tidas como aberrações para depois tornarem-se representantes de guinadas vibrantes rumo ao desenvolvimento humano. As ousadias de Duchamp, Da Vinci, Cèzzane, Picasso, etc. são celebradas constantemente. Agora estamos diante das artes participativa, da tecnologia, das performances. Tudo nos espanta, no entanto são necessárias. O que é bom ou ruim o tempo vai definir.

De todos os desbravadores, um dos mais ousados em termos de estilística foi Gustave Coubert. Estávamos em 1866 e Courbet era já um pintor conhecido em França pela sua destreza técnica, mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade e moral burguesas, que não perdia ocasião de afrontar. Courbet era um socialista convicto, arrogante e autoconfiante, é preciso dizer. No entanto talvez isso não baste para justificar a obra que realizou nesse ano e que havia de o celebrizar mais do que todas as outras. Ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, A Origem do Mundo abalou profundamente o meio artístico da época. E não só!

A tela tem um percurso atribulado. Reza a História que um diplomata turco, de nome Khalil-Bey, de passagem por Paris encomendou a Courbet para a sua coleção um quadro, que viria a ser este. Khalil-Bey era um colecionador de arte erótica e tinha já adquirido ao artista uma pintura denominada O Sono ou Adormecidas, representando duas mulheres nuas deitadas sobre a cama em poses sensuais. Possuía também o famoso O Banho Turco, de Ingres, entre outras obras.Pouco tempo depois Khalil-Bey viu-se obrigado a vender diversas peças da sua coleção para pagar dívidas de jogo. Escondida debaixo de uma outra tela de aspecto mais pacífico, A Origem do Mundo foi então comprada por um antiquário, passando de mão em mão até ao seu último dono, o célebre psicanalista francês Jacques Lacan. Após a sua morte, a família doou-o ao Museu d’Orsay, onde se encontra presentemente.

O quadro é profundamente perturbador ou mesmo chocante. O incómodo sentido pelo observador ao olhar de modo tão direto para o sexo que ali se exibe ostensivamente é enorme. Há uma espécie de pudor, de vergonha quase instintiva que se revela em nós ao observá-lo. Mais do que violentar a intimidade do objeto retratado, o artista violenta o público. De resto, Courbet adorava fazê-lo embora nunca tivesse ousado ir tão longe. Porque se atreveu desta vez?À época, na Academia, os estudantes exercitavam-se desenhando as estátuas clássicas de corpo idealizado. Essas estátuas, Apolos e Afrodites, não eram de modo algum assexuadas, mas a representação do sexo era estereotipada, camuflada ou deturpada. Os homens frequentemente tinham uma parra a tapar os órgãos genitais enquanto que nas mulheres nada se via para além da continuidade da pele lisa da barriga. Courbet detestava os académicos e as suas fórmulas – ele que dizia que só podia pintar aquilo que via.Esta tela surge assim como um manifesto contra o academismo, mas também contra a falsidade vigente na Arte e na Sociedade oitocentista. Representa a libertação definitiva do artista de todos os estereótipos! Significativo é o facto da polémica se ficar a dever ao tema e à forma como foi abordado e não às qualidades pictóricas do quadro – se estava bem pintado ou não. A Origem do Mundo foi uma obra inspirada, visionária talvez, um ato estético da maior importância e uma obra de arte de primeira grandeza. A Pintura Moderna talvez tenha começado aqui, com origem no sexo de uma mulher.

Coubert saiu da zona de conforto sem reinventar a arte ou criar uma escola. Com a origem do mundo ele expressou toda a crueza da vida e a beleza de um corpo (que poderia ter sido de um homem, enfim) ao mesmo tempo que alertava a todos que não se poderia ficar somente no expressionismo, e que este deveria ousar mais, chacoalhar o meio para não cair no conformismo comum a todos os movimentos. Courbet liderou o movimento do Realismo na pintura francesa do século XIX, comprometendo-se a pintar apenas o que via. Quando lhe pediram que pintasse anjos ele respondeu que os pintaria se os visse.Rejeitou a convenção académica e o romantismo da anterior geração de artistas plásticos e a sua independência foi um exemplo importante para artistas posteriores, como os impressionistas e os cubistas. Courbet ocupa um lugar de destaque na pintura francesa do século XIX, seja como um inovador seja como artista disposto a fazer declarações socialmente ousadas, através de seu trabalho.

Courbet sempre foi um pintor que criou alguma controvérsia à sua volta, primeiramente pela lacuna criada entre as escolas Impressionistas e Romanticistas. Nenhuma destas escolas definia a pintura de Courbet. Courbet era um pintor realista e não adereçava qualquer tipo de pintura vinda da imaginação, dos sonhos ou mesmo vinda da literatura. Ele retratava com as suas pinturas a vida que estava à sua volta.  Principalmente as questões da vida camponesa, questões relacionadas com a pobreza e com as condições de trabalho.A sua pintura é uma pintura marcada com pinceladas fortes com textura, com forma e eram baseadas no dia a dia que observava. Com o passar dos anos tornou-se cada vez mais polémico.

Para muitos o artista era demasiadamente realista e até desavergonhado. Para outros libertador. Para o público há uma espécie de libertação do olho, dos estereótipos. E esta libertação volta ao artista que se expressa com total emancipação.

 Em 1871, esteve envolvido na Comuna de Paris, chegando a participar de seu breve governo. Logo após, foi preso e recebeu várias multas pela participação no movimento revolucionário socialista. Para escapar das elevadas multas do governo, fugiu para a Suíça, onde foi morar numa velha estalagem na zona rural. Viveu ai até seus últimos dias de forma pobre e quase anônima. Gustave Courbet faleceu em La-Tour-de-Peliz,Suíça em 31 de dezembro de 1877, de cirrose.

Outras obras do artista são Bonjour, Monsier Coubert, Os quebradores de pedras , Um funeral em Ornans,  As banhistas, O ateliê do artista e o Sono.

Na arte é preciso entender o presente para compreender o passado

Por Clodoaldo Turcato

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Quando se escreve sobre arte, normalmente arte italiana, é comum imaginar que a máquina ou a imaginação culminou na Renascença. Isso tudo se deve pelos movimentos posteriores de arte que foram capitaneados por italianos (que tratamos noutras colunas) como a arte Povera, onde os seus adeptos utilizavam materiais de pintura (ou outras expressões plásticas não convencionais, como por exemplo areia, madeira, sacos, jornais, cordas, feltro, terra e trapos) com o intuito de “empobrecer” a obra de arte, reduzindo os seus artifícios e eliminando barreiras entre a Arte e o quotidiano das sociedades, dando origem as instalações, famosas em nosso tempo.

Nos anos 80, surgia na Alemanha o Neoexpressionimo, modalidade artística resgatada a partir da década de 80, ao voltar a registrar os sentimentos pela arte. Foi fortemente influenciado pelo Expressionismo, Simbolismo e Surrealismo. Trouxe de volta a pintura e a escultura, com suas representações críticas, emocionais e subjetivas, após algumas décadas. Formulando o devir da arte em sua história universal. Os artistas costumavam utilizar tintas misturadas a materiais como areia, palha e outros, colados à tela. A arte dos anos 90 e da virada do século reafirma as tendências supracitadas enveredando-se ainda mais na política e causas sociais, ambientais e econômicas. Mostra ainda a proliferação da arte performática, das instalações e suportes associados a gêneros híbridos e materiais variados.

Os Estados Unidos perdem sua hegemonia artística para partes da Europa, e esta se volta para as próprias tradições, buscando encontrar uma identidade própria. Diversos movimentos dos anos 70 se levantaram contra a estética dominante da pop art. Surgiu a arte minimalista, conceitual, tipos de ações (Happenings, Fluxus e os trabalhos de Joseph Beuys, Nam June Paik, Wolf Vostell) e outros. Mas nestas representações, aquela na forma pintura raramente aparecia, criando-se, assim, uma chamada “fome de quadros”. Os artistas dessa corrente tentam uma volta aos elementos pictóricos que tanto marcaram a arte de seus países antes da Segunda Guerra. Eles queriam revisitar a pintura atualizando seu discurso com a cena atual, voltada para as questões contemporâneas. Na Alemanha, em torno de 1980, uma jovem geração de artistas invadiu a cena artística com suas pinturas. E justamente nesta ausência de quadros, estes artistas alemães introduziram suas obras, participando assim do que é denominado Retorno à Pintura. Este movimento teve como principais centros artísticos Berlim, Düsseldorf, Hamburgo e Colônia. Os artistas são fortemente influenciados pelo romantismo e o expressionismo do início do século XX. A pintura desenvolvida por eles é uma forma de expressão em que se podem experimentar diversas concepções de arte. Os países europeus, mais associados a este movimento, trariam uma vasta tradição pictórica. O movimento teve desdobramentos em várias partes do mundo, assumindo múltiplas facetas culturais.

Um dos artistas mais importantes do movimento, que comandou a Europa foi o Francesco Clemente. Nascido na cidade de Nápoles, Itália em 1952. Estudou Latim, Grego, Literatura Moderna e Filosofia. Desde muito cedo se familiarizou com outras culturas e diferentes tradições artísticas, acompanhando os pais nas suas viagens.

A sua obra é maioritariamente autobiográfica. Consiste, na sua grande parte, em desenhos e pastéis, mas apresenta, também, pintura, escultura, mosaico, gravura e fotografia. O trabalho narrativo ou ilustrativo de Clemente não é criado de uma forma tradicional. Um motivo recorrente na sua obra é a ideia da transformação ou metamorfose. Normalmente, o próprio Clemente é o objeto dessas transformações e desenha-se num estádio intermédio entre homem e mulher, entre ser humano e animal, entre ser humano e objeto, ou como uma criatura híbrida. Para este resultado, aplica diversos estilos, variando entre livre e direto a extremamente depurado e sofisticado.

A urgência criativa atrás do seu trabalho é psicológica. Ele investiga, em geral, a condição humana, instintos básicos e experiências desde o nascimento à morte. A “depicturação” que faz do corpo humano é explicitamente sexual; dá ênfase a orifícios (como a boca) e a funções escatológicas. O ser humano físico surge como um intermediário entre o mundo psicológico interno e o universo exterior. As particularidades distorcidas dos seus retratos parecem espelhar a atitude de Clemente em relação à literatura e à filosofia. Ele confia principalmente “naqueles que pensam com o corpo”. As imagens não podem, assim, ser literalmente consideradas como autorretratos. O corpo é normalmente um meio de propor um tema filosófico dentro de uma estrutura complexa. A sua obra é uma rede de referências e relações entre a análise autobiográfica, autorretratos mutantes, fantasias eróticas e excêntricas expressões anatómicas. Tudo isto combinado com uma fascinação pelos sistemas metafísicos (cristianismo, alquimia, astrologia e mitologia) todos eles sendo reinterpretados por variadas correntes artísticas. Com todos estes elementos ele constrói um labirinto que nem sempre é fácil de decifrar.

Uma obra que resumo toda sua magistral capacidade de adaptar-se é Autorretrato: o primeiro, uma mistura de guache, aquarela montado em papel sobre tela medindo 112×147. O artista nu fixa seu olhar penetrante no observador, que se sente compelido a devolver o olhar. O quadro ilustra a propensão quase erótica do artista à auto exploração e a auto exposição. A figura é tratada de maneira expressiva, ao passo que os pássaros simbolizam a supremacia da subjetividade e da imaginação sobre a razão. O quadro é um exemplo da tendência neoexpressionista chamada Transvanguarda, que se concentra em obras figurativas expressivas feitas em grande escala. Seu trabalho é construído com o que ele chama “lugares-comuns”, isto é, fragmentos de experiências que convergem numa rede de relações. Clemente posiciona o seu trabalho entre a ideia e a imagem, uma atitude que não é determinada pela sociedade.

Repetindo-me, é muito necessário ao apreciador estudar artistas como Clemente. A partir da compressão do trabalho destes artistas que iremos verificar as diferenças e semelhanças de todos os movimentos artísticos e compreender a importância destes no decorrer da História. Assim, com toda certeza, não iremos pisar no molhado e enganoso processo de achar que os movimentos atuais não passam de bobagens.

Outras obras do artista são Maps of What is Essortless, Twins, Priapea, Moon, Name e Meditation.

Eu nunca fui feminista

Por Clodoaldo Turcato

20938658_1381500245281404_785749661_nQuando fui convidado pelo querido Adriano Portela para escrever esta coluna de arte, aceitei de pronto, pois entendia que faltava alguém que escrevesse de maneira simples e até coloquial sobre artes plásticas. Todos os escritos que se vê sobre arte às vezes mais embrulham do que destrincham. Os críticos partem para o lado teórico e a pessoa que busca compreender uma obra de arte, principalmente abstrata, fica perdido em palavras e conceitos.

A proposta era escrever para que quem lesse compreendesse obras de Jackson Pollock e desmistificasse a ideia de que aquilo era apenas tinta jogada na tela, ou que O quadro negro de Kazimir Malevichnão passe duma aberração artística, uma galhofa de dois quadrados que qualquer pessoa com um mínimo de coordenação motora faria. Enfim, o objetivo desta coluna, que irá completar três anos, sendo publicada todas as segundas-feiras (com raras exceções de esquivo) é desenrolar este bicho feio chamado arte plástica e expor os reais motivos da eterna pergunta “por que aquele quadro de Pablo Picasso é tão estimado?”

Não sei se respondemos isso ainda.

De qualquer maneira, neste caminho intensificamos os estudos, buscamos referências, artistas, museus, galerias e sites e muitos livros para reforçar os argumentos. Simplificar arte não é fácil. Para isso é fundamental se aprofundar, digladiarmos com conceitos, argumentos, teses e depois transformar tudo em compreensível para o leigo ou leiga.  Neste percurso intelectual, comprovei um processo enfadonho, cruel e mesquinho que sempre excluiu a mulher artista.

No passado, existia ainda mais dificuldade para as mulheres que desejavam seguir o caminho da criação, pois, além de a sociedade ser completamente machista, com a mulher tendo seu papel enclausurado no lar, sem trabalhar, havia outras complicações. Em algumas épocas, escolas de arte que aceitavam garotas eram poucas, e as que aceitavam cobravam mais delas do que deles. Também, seria mal visto uma artista desenhar a partir de um modelo nu masculino, importante para o aprendizado da anatomia do homem, além de ser também um problema ficarem horas sozinhas com um homem que deveria ser retratado, por exemplo. Se esmiuçarmos os livros de arte deste período iremos encontrar Sofosniba Anguissola e duzentos anos depois Artemisia Gentileschi, artistas que tiveram reconhecimento, no entanto vidas privadas tumultuadas, já que pintar era ofício de homem. No entanto, é abundante o nome de artistas homens que se descrevem nestes manuais, como maravilhosos, exuberantes, gênios e tal. Para as mulheres sobram as migalhas de “mesmo sendo mulher ela conseguiu ser artista” .

Ao chegarmos ao impressionismo e expressionismo, oriundos de países ditos libertários e libertinos como a França, a mulher artista sempre esteve abaixo do homem pintor. Grandes são Claude Monet, Paul Cézanne, Edgar Degas, Pierre-August-Renoir, Camille Pissaro e Henri Matisse.  Berthe Morisot, Mary Cassatt, Eva Gonzalès e Lila Cabot Perry, dentre outras, são citadas mais como namoradas, amigas, amantes e conhecidas ou alunas de homens que pela própria obra em si.

No Brasil, o movimento da Semana de Arte Moderna de 1922, tida como revolucionária, uma proposta nova de ver arte e principalmente quebrar os conceitos da tradicional família brasileira, expôs poucas mulheres, como Pagu, Anita Malfati, Tarcila do Amaral e Elsie Houston, sempre com a entonação de quase piedade, como algo raro e espetacular, uma sensação de que por trás de grandes obras como Tropical e O Àbaporú, estaria um macaco adestrado.

Na noite de 17 de agosto, estive no Instituto de Arte Contemporânea, no Bairro do Benfica, participando do lançamento do livro De Sinhá prendada a artista visual, um projeto coordenado pela Doutora Madalena Zacarra, com as pesquisadoras Bárbara Collier, Marluce Carvalho e XavanaCelesnahe produzida pelo artista Itamar Morgado, com apoio do Funcultura. O livro reúne 87 perfis – que compreendem dados biográficos, cronologia, acervo de crítica sobre a obra e comentário – de artistas que viveram no Estado entre 1900 e 2016. Além disso, 118 outras criadoras tiveram seus dados registrados, pois não foram encontrados dados suficientes para um perfil completo. O que me impressionou neste trabalho, além da qualidade inquestionável do trabalho em sim, foi o grande número de trabalhos “esquecidos” ou maquiados por uma sociedade paternalista, parcial e apoiada em conceitos machistas.

Eu, no início citei que precisei estudar para escrever, ou simplificar. De tudo, e todos meus apanhados, pouco ou nada ouvira de Fedora Rego Monteiro, aceita em grandes salões da Europa e pouco valorizada no Brasil e Recife onde nasceu e morreu.  Menos vi de Maria Francelina que ousou pintar temas fora da mitologia ou religião e com seu belo Modelo em Repouso escancara sua técnica maravilhosa. Tantas vezes me maravilhei com o belo Vitral da Biblioteca Central da UFPE, sem saber, ou querer saber, que se tratava de uma criação de Aurora de Lima.

Sem um trabalho como este, como sabería de Marianne Peretti, Lenira Regueira ou Teresa Costa Rêgo?  Temos o privilégio de compreender mais de Isa do Amparo, Janete Costa e Ana Ivo. Como é bom ver as cores de Margot Monteiro e a singeleza de Suzana Azevedo, além da expressividade de Ana Santiago. Somente uma pesquisa refinada como essa tem condições de revolver o passado e expor o presente da criação artística da mulher pernambucana. Expor a mulher sem medos, como faz Bárbara Collier e Barbabra Rodrigues e que isso fique registrado para posteridade, é necessário, fundamental para a memória, o futuro dos estudiosos e apreciadores de arte e principalmente para compreender o processo de evolução da sociedade, com todas as mazelas sofridas pela mulher artista ou não.

Convido as leitoras e leitores a terem este livro em suas mãos. É um passeio itinerante pela história da arte, com conceito, profissionalismo, e mesmo sendo um livro criado por mulheres feministas, não levanta esta bandeira, apenas expõe a dura realidade destas mulheres nascidas para cama e mesa, que resolveram buscar seu lugar e o fazem sem meias verdades ou sombras. Elas são artistas e fim. O trabalho de ontem e de hoje cá está, o gosto pessoal e a extensão deles não cabe discutir hoje. O livro é o nosso objeto. As produções e suas artistas precisam ser registradas e ovacionadas. O passado e o presente refletem o quanto fomos e ainda precisamos evoluir na busca urgente de soluções que não escondam estas memórias.

Confesso que esta coluna não me tornará mais ou menos feminista. Não sou! Este livro me faz rever métodos e procurar melhor neste palheiro que o preconceito insiste em esconder. Talvez ao final da leitura deste trabalho eu me torne um estudante melhor, mais capacitado e encontre na Sereia de Cláudia Santos o verdadeiro conceito do ser homem, sem ser machista.