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Arte boa e ruim não significa asfalto e favela: está em todo lugar

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Por Clodoaldo Turcato

Falar de arte sem sair de casa e ficar em livros é como ver jogos na televisão, ler em tela, ver obras em livro e ver filme em casa – sem calor, frio e uma atividade solitária.

Nos últimos dias eu estive em encontros culturais vendo arte e pessoas – calor. Participei da Feira Literária da Periferia em São Lourenço da Mata, Pernambuco e visitei a Galeria Garrido, em Casa Forte, Recife. Dois extremos. Num lado a periferia se expressando, com improvisos, som mal equilibrado, performances circenses e sangue na veia. De outro, o formal, o pródigo, a fama, o glamour e sangue na veia.

Claro que alguns irão perguntar e o que isso tem a ver?

Por acaso, este gajo que vos escreve foi convidado para os dois eventos: a favela e os asfaltos – não me perguntem como isso aconteceu. Convidaram-me, fui. THE END!

Por acaso eu pinto, ou penso que pinto. Por acaso eu me atiro feito louco e às vezes dá certo. Tomem este texto como exemplo. Não será formal, nem terá a pesquisa devida. É algo menos sublime ou todo sublime. São linhas sem rumo, bêbadas, que irão expor um sentimento ou apenas um relato que me levou a transacionar nestes dois mundos. O faço a muito tempo. No começo foi à rua, depois foi o museu, voltei para rua e tornei ao museu. Isso não me diminuiu bem aumentou apenas me oportunizou ser imparcial.

Após ter a honra de conhecer José Claudio, fui para a internet em busca de dados e imagens do grande mestre. Encontrei um vídeo onde ele expõe seu modo de pensar em arte. Não me parecia à vontade, temia, por certo, se expor. Porém relatou algo que para mim foi crucial sempre: é besteira discutir figurativo ou abstrato. É imprudente eleger arte por critério pessoal e não tentar compreender o que não se gosta. Estou me repetindo, enfim.

Isso não é um argumento para justificar a arte de má qualidade. Eu vi, nestes dias, arte de boa e má qualidade na favela e no asfalto. Tentei ser imparcial, justo e não colocar meu gosto acima de conceitos. Vi a obra pura. Mesmo assim, encontrei várias obras com grande apuro e outras apenas uma mistificação.

Como avaliar se uma obra é boa ou ruim. Difícil? Talvez. Nem tanto. Imagine que você vai viajar para a Europa e vai visitar diversos museus. Você não vai querer chegar a essas galerias e querer ir embora meia hora depois porque não entendeu nada. Arte é algo para se mergulhar, e que faz muito bem não somente ao cérebro, mas à alma. Mas como entender arte?

É difícil de catalogar arte, assim como dizer isso ou aquilo é arte, ou até que aquela arte é boa e aquela é ruim. Mas, pelo menos, você pode usar alguns truques. Quando estiver diante de algo, olhe bem para a obra e, depois da observação, feche os olhos e tente descrevê-la para si próprio.

 

Uma boa obra de arte é difícil de esquecer. No caso de você ter ido a um museu ou galeria, ponha-se a pensar em todas as obras e veja de quais se lembra e quais não. Se você conseguiu se recordar de algumas, é porque, de alguma maneira, elas chamaram sua atenção.  Como escrevi acima, é um truque e não basta isso, apenas.

 

As boas obras de arte despertam sentimentos e sensações. Quando o artista trabalha em uma ideia, ele normalmente quer expressar emoções como alegria, angústia, tristeza, euforia, amor, serenidade, etc. Se você está na frente de uma pintura que não desperta nada em você, siga adiante.As obras de arte também podem ser analisadas de acordo com sua complexidade de realização. Quase sempre uma peça tem um valor em razão da técnica utilizada e do conceito que apresentam.Você pode gostar mais de Rococó e seu amigo preferir o  Renascimento. O importante é apreciar a arte e, a partir da observação delas, aprender sobre os variados estilos artísticos e os pintores.Leve em consideração, ainda, que muitos artistas reconhecidos atualmente passaram a vida sem escutar que sua arte era boa, tamanha é a dificuldade de avaliar uma obra de arte.

 

A arte boa é uma ação boa: com potencial eu daimônico, de inspirar, propiciar, convidar para vidas melhores, mais amplas, inclusivas, saudáveis, criativas, compassivas. Seja lá qual forma isso ganhe na prática. A arte pela arte, conceitualmente arbitrária, feita-porque-sim, pelo mero comércio, entretenimento ou distração, essa eu proponho botar em cheque — não censurar ou negar, mas perguntar claramente a que veio: por que lhe devo dar atenção, tempo e vida?​Destrinchar os infinitos meandros teóricos e práticos desse problema ainda é responsabilidade inevitável de cada um, em cada caso. Nenhuma atividade humana escapa, nem a arte.

Curioso notar que quando pensamos “bom” ou “compassivo” o que vem à mente é alguma coisa meio carola, moralista, certinha, higienizada, apolínea. E não é o caso, a cara da compaixão não é boazinha, é a cara provisória que precisar e funcionar.Para a saúde da própria arte, é necessária a proliferação dos movimentos que contestam as tendências e estilos correntes. Para a saúde das pessoas, são necessários artistas capazes de ler a cultura e a sociedade, de ter compaixão e habilidades técnicas, estéticas e de linguagem para pacificar, enriquecer, magnetizar, destruir, contestar — intervir e oferecer o que for necessário.

Nenhuma obra, não importa seu preço, originalidade ou provenance, nenhum movimento, estilo, refinamento técnico ou estético é critério suficiente, porque nada disso é absolutamente bom em si, sempre, para todos. O que é remédio agora, vira veneno depois; o que ajuda uns, atrapalha outros.Mas um critério não muda: há ou não há potencial eudaimônico. Esse referencial é necessário para todos, sem exceção, mas é especialmente necessário para quem for capaz de estimular as pessoas emocionalmente e de mobilizar a cultura. E não é porque alguém está dizendo, é porque cada umviu que há um sofrimento imenso no mundo e que a felicidade genuína é possível.

Há duas ideias realmente ruins que pairam sobre o mundo moderno e que inibem a nossa capacidade de extrair força da arte.A primeira é que a arte deveria ser feita pela arte. Uma ideia ridícula. A ideia de que a arte deveria viver em uma bolha hermética e não deveria fazer nada a respeito deste mundo problemático. Eu não poderia discordar mais. A outra coisa em que acreditamos é que a arte não deveria explicar a si mesma, que artistas não deveriam dizer a que vieram, porque dizer isso seria destruir a magia – acharíamos tudo muito fácil. É por causa disso que um sentimento muito comum que temos quando visitamos museus ou galerias – vamos admitir – é “eu não estou entendendo isso”. Mas se somos pessoas sérias, não vamos admitir. Essa sensação de que há um enigma é fundamental à arte contemporânea.

Religiões tem uma atitude bem mais sã em relação à arte. Eles não tem problemas em nos dizer para que ela serve. Arte serve para duas coisas em todas as fés maiores: primeiro, ela tenta lembrar você do que há para ser amado, segundo, ela tenta lembrar você do que há para ser temido e detestado. E é isso que é a arte, um encontro visceral com as ideias mais importantes da sua fé.

Então, quando você caminha por uma igreja ou mesquita, o que você está sorvendo com seus sentidos são verdades que de outra forma chegariam a você pela mente. Essencialmente isso é propaganda. Rembrandt é um propagandista do ponto de vista cristão. Agora, a palavra propaganda soa alarmes – pensamos em Hitler, Stalin –, mas, não é necessário. Propaganda é uma maneira de ser didático a respeito de alguma coisa. Se essa cosia é boa, não há problema algum. Todas as obras de arte estão nos falando sobre coisas, e se fôssemos capazes de arrumar espaços para passar pelas obras, poderíamos usar essas obras de arte para fortalecer essas ideias na mente, e a arte nos seria muito mais útil. A arte tomaria para si o dever que costumava ter e que negligenciamos por causa de ideias mal fundadas. Arte deveria ser uma das ferramentas com as quais melhoramos a nossa sociedade, arte deveria ser didática.

Não compreendeu muito?

Bom, para compreender tudo é necessário que você saia de sua zona de conforto, tome a rua e conheça os trabalhos bons e ruins que existem por aí. Com essa bagagem e vontade sincera de se transformar você compreenderá finalmente que arte existe tanto no asfalto como na favela e a experiência desse contato é insubstituível.

Este meu escrito é ilustrado pela obra É frevo, de José Claudio.

A última ceia é uma quadro espetacular e fim

Por Cldoaldo Turcato

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Durante o domínio de Napoleão em Milão, no século XIX, o refeitório foi usado como estábulo e como se não bastasse, em agosto de 1943, durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o complexo de Santa Maria Delle Grazie foi quase que completamente destruído. As paredes laterais e o telhado do refeitório não resistiram; a Santa Ceia, protegida por poucos sacos de areia, ficou em pé. Coberta posteriormente por um telão, ainda passará alguns anos a céu aberto, exposta ao sol, chuva e poluição, antes que a cidade e seus monumentos sejam reconstruídos.
Depois de toda essa história, se pode dizer que visitar essa maravilha do Renascimento Italiano é uma das melhores coisas que você pode fazer em Milão e requer uma boa dose de organização na reserva dos bilhetes com pelo menos três meses de antecedência.
A obra não foi a única que Leonardo deixou na cidade. Durante a sua estadia em Milão, que durou cerca de 20 anos, o gênio projetou as comportas e eclusas para o sistema de canais de Milão (realizadas posteriormente a partir de seus desenhos), afrescou uma sala no Castelo Sforzesco, ainda existente (Sala delle Assis), pintou o quadro Retrato de Músico, exposto na Pinacoteca Ambrosiana e escreveu muitos dos famosos Códigos Vincianos. Milão hospeda hoje dois deles: o Código Trivulziano, hospedado no Castelo Sforzesco e o Código Atlântico, exposto por partes na Biblioteca Ambrosiana.
Um livro lançado recentemente no Brasil, best-seller em 43 países, levanta novas controvérsias em relação às supostas intenções de Da Vinci. Para o jornalista e pesquisador espanhol Javier Sierra, autor de “A ceia secreta”, o quadro é uma agressão explícita à Igreja Católica, comandada à época pelo Papa Alexandre VI.
O artista faz eco à visão do Duque de Milão, Ludovico Sforza, que encomendou a obra para ser a peça central do mausoléu de sua família. Sforza estava prestes a entrar em guerra com o Papa, que pretendia expandir seus domínios até a cidade. Para o nobre, a obra-prima de Da Vinci deveria atacar o líder da Igreja, que subornou os cardeais para conquistar o Pontificado. Tradicionalmente, a ceia é retratada como um momento em que Jesus consagra a Eucaristia. Da Vinci, no entanto, esquivou-se de qualquer visão doutrinal. O cálice do Santo Graal, um símbolo da aliança entre Deus e os homens, não está sobre a mesa. Não existem auréolas, que representavam os apóstolos como santos.
A inspiração do artista foi um versículo do livro de João, na Bíblia Sagrada, quando Cristo anuncia: “um de vós me trairá”. Judas seria a resposta óbvia. Mas não para Da Vinci. No contexto religioso, Judas é realmente o traidor. No entanto, como esta é uma obra política, a resposta é diferente. A única arma que aparece na cena, uma adaga, está na mão de Pedro. Ele, como fundador da Igreja, na época, simboliza o Papa. Então, para Da Vinci, o Pontífice é o verdadeiro traidor de Cristo.
O afresco de Da Vinci foi o primeiro a dispor todos os personagens lado a lado. Até então, configurações diferentes da mesa deixavam alguns discípulos de costas para o espectador. A visão de todos os personagens contribuiu para que o artista imprimisse suas convicções particulares, além dos simbolismos que agradavam Sforza. Algumas destas explicações estariam entre as mais de oito mil páginas de relatos escritos pelo artista e ainda preservados.
Ao contrário dos outros discípulos, três apóstolos à esquerda de Jesus estão de costas para Ele, como se estivessem confabulando. O trio é, originalmente, formado por Mateus, Judas Tadeu e Simão. Da Vinci, no entanto, muda os personagens. Ele põe seu próprio rosto no lugar de Judas Tadeu, o segundo a partir do fim da mesa. Da Vinci aparece quase identicamente em seu autorretrato, pintado cerca de três anos depois.
A razão para Da Vinci dar seu rosto a São Judas Tadeu é um mistério não explicado em seus esboços e notas . Uma hipótese é de que Judas Tadeu sempre foi o santo das causas perdidas ou difíceis, aquele a quem recorremos quanto tudo já falhou. Da Vinci tinha esta sensação sobre o seu trabalho. Todos o procuravam para resolver problemas. Sua fama de inventor capaz de resolver qualquer questão o acompanhou até a morte. Então, quem sabe?
À direita de Da Vinci, em vez de Mateus, estaria Marsílio Ficino, amigo íntimo do artista e tradutor dos textos do filósofo grego Platão para o latim. O artista e Ficino olham atentamente para o homem na extremidade da mesa, que parece conversar com a dupla. Na interpretação bíblica, seria o apóstolo Simão. Da Vinci, no entanto, retratou-o como Platão. O rosto do filósofo, no afresco, é semelhante ao visto em seu busto, exibido em Florença.
Antes dele, em 2003, Dan Brown irritou a Igreja com o livro “O Código da Vinci”, em que conta que, ao lado direito de Jesus, está Maria Madalena. Segundo o escritor, eles teriam se casado e tido filhos. O Vaticano chegou a encarregar um arcebispo italiano para desmascarar as teorias levantadas pelo best-seller, que a Igreja definiu como “um saco cheio de mentiras” e pediu para que os cristãos não o comprassem ou lessem. Sierra também acredita que a figura à direita de Jesus é feminina. Trata-se, porém, de João, o apóstolo puro. Ele teria sido retratado desta forma porque, segundo os renascentistas, a pureza está ligada à forma de uma mulher.

É muito pouco provável que Da Vinci se curve ao Duque de Milão para fazer alusões críticas ao Papa. Parece um pouco inverossímil, vendo o conjunto da obra. Naquele momento, ele estava desinteressado por pintura, chegou a dizer que tinha nojo de pincéis. Se a intenção de Sforza fosse difundir críticas no afresco, ele seria exposto em um local mais acessível ao público e não no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie.
Discussões à parte, o que se sabe é que tudo que temos até então são teorias, e são tanta que alguns até duvidam da existência de Da Vinci. De qualquer maneira, A última ceia é uma obra monumental e sobreviveu ao tempo e espaço para nos encantar.

O que é arte? Essa pergunta precisa realmente ser respondida?

Por Cldoaldo Turcato

22359497_1428919090539519_1564207174_nA nobre arte da escultura tem representatividade em todos os tempos. Não se pode esquecer que cada artista expressa, geralmente, o presente ou o passado. O futuro não aconteceu e assim, salvo os futuristas de plantão ou economistas medianos, o artista vai trabalhar naquilo que viu e vê.

Parece-nos lógico. A escultura é um processo tão trabalhoso quanto qualquer atividade artística. Exige acima de tudo empenho, esforço, persistência e treino. E o talento? Talento sem esforço leva a lugar nenhum. Não acredite no folclore de que a arte surge do nada, de coisa nenhuma. Todos os artistas praticam e muito. No final da vida, qualquer artista terá milhares de desenhos, esboços, estudos e tentativas para ser reconhecido por uma dezena de trabalhos. O jogador de futebol joga vinte anos, porém quantos grandes títulos ele conseguirá durante a carreira? Depende de talento, empenho, sorte e dedicação – treino.

Ao cruzar dados para compor este texto, me deparei com o escultor Emile-Antoine Bourdelle, um trabalhador insano que durante sua longa vida, nos presenteou com grandes obras, monumentos e evocação ao estilo próprio, elevando a escultura ao patamar de obra prima.

Emile-Antoine Bourdelle nasceu em Montauban em 30 de outubro de 1861. Ele era o único filho de Emilie Reille, filha de um tecelão, e Antoine Bourdelle, carpinteiro e armário que esculpiam os móveis que ele projetou. Na escola, a criança mostrou um tal presente para o desenho de que seu professor, o Sr. Rousset, permitiu-lhe expressar-se livremente, “sentado em uma espécie de salão, longe do resto da aula”. Aos 13 anos, Bourdelle juntou-se ao estúdio de seu pai como aprendiz. À noite, ele tomou aulas de desenho em Montauban, onde aprendeu técnicas de modelagem com base no estudo de cópias de moldes de gesso antigos. A habilidade do jovem construtor de gabinete logo lhe valeu o reconhecimento dos amantes da arte em Montauban. Em 1876, recebeu bolsa de estudos e passou no exame de admissão para a Escola de Belas Artes de Toulouse.Bourdelle experimentou oito anos de solidão e trabalho febril durante seus estudos em Toulouse, temperada pela disciplina da instituição acadêmica.Em 1885, ele se mudou para o estúdio em 16, impasse du Maine – que agora é o museu. Nesse mesmo ano, seu elenco paster da La Première victoire d’Hannibal  ganhou uma medalha no Salão de Artistas Franceses. Isso trouxe reconhecimento, mas Bourdelle ainda teve que ganhar a vida. Em 1893, Rodin contratou-o como um assistente do escultor. Os dois homens se respeitaram e a colaboração provou ser decisiva.  

Este período foi fundamental para sua ascensão. Trabalhar, aprender, ousar e manter disciplina e até mesmo se dignar a servir, calcificaram Bourdelle, dando-lhe lastro para ter sua personalidade, desassociada da produção de Rodin. Em 1909, Bourdelle começou a ensinar na Academia Grande Chaumière, onde seus alunos incluíram Alberto Giacometti, Germaine Richier, Vieira da Silva e Otto Gutfreund. Exposto em 1910 no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes, O arqueiro Héraklès de Bourdelle foi aclamado pelo público e pelos críticos. Muitos museus pediram para exibir a obra-prima e foi reproduzido em todos os lugares, mesmo em livros escolares infantis. Gabriel Thomas deu a Bourdelle outra comissão, desta vez para o Théâtre des Champs-Elysées , por turnos arquitetos, escultor e pintor, Bourdelle mais uma vez provou sua capacidade de “conceber tudo como um monumento”. A década de 1919-1929 provou uma época de grandes comissões oficiais:La Vierge à l’offrande  erguido em Alsácia e La France em frente ao Grand Palais para a Exposição de Artes Decorativas. O Monumento ao Geral Alvéar foi inaugurado em Buenos Aires em 1926, e o Monumento a Adam Mickiewic em Paris, em 28 de abril de 1929.

Mas escultura não é tudo igual? Como saber se a diferença de um para outro? A resposta virá com estudo, muito estudo. Não se aprende olhando nos museus apenas. Diferenciar Rodin de Michelangelo depende de muita percepção e compreensão de uma obra de arte. O Pensador ou Davi, bem como Hércules são monumentos da arte. Cada qual tem características próprias, uma pegada, um gesto, um movimento que diferencia. Ao olhar a obra de Bourdelle nota-se o esforço, a gana, o empenho para chegar a perfeição absoluta. O talhar de Bourdelle nos angústia, enche nossos olhos de cacos e cada movimento harmoniza com traços sujos, incompletos às vezes e factuais.  O escultor nos revela o feio, o comum, o mundano sem querer a grandeza dos céus de Davi. Não reflexiona sobre a vida como Rodin, apenas atira as pedras a nossa frente e nos revela que arte é feita para refletir, além de embelezar.

Em grosso modo, se formos analisar uma obra de Michelangelo, por exemplo, encontraremos a superfície primorosamente lisa, enquanto as produções de Bourdelle são marcadas. Isso é raso demais, apenas escrevo para fazer o leigo perceber que há diferenças. Nada disso teria valor pictórico se essas diferenças fossem apenas de suporte e técnica. E não se deve apenas quantificar ou qualificar por diferenças, mas por força de expressão, conjunto de causa e efeito e o que para mim é fundamental: a arte precisa incomodar você.

Mas como devo me incomodar? Bom, não tem fórmula. Arte mexe com cada um de uma maneira. O que vejo muito é fingimentos diante de obras que não se compreende, principalmente arte moderna. Uma escultura como Monument aux morts de Capoulet-Lunac certamente causará impressão no expectador. Ninguém fica ileso. Além da dificuldade técnica da peça, que mede 220×320 cm, as curvas do entalhe e a agonia dos corpos nos obrigam a respirar fundo, olhar várias vezes e de novo, de novo… Parece fácil, no entanto somente um trabalhado com afinco faria isso. Quando comemos uma saborosa maçã, poucas vezes perguntamos como ela chegou até nossa mesa. Existe o plantio, a colheita, a embalagem, o transporte, etc. Tudo com esmero e cuidado para que chegue diferenciada. Vamos perceber isso. O mesmo se diga de uma escultura. Eu me pergunto sempre como fora a concepção das obras-primas. Como uma fruta me surpreende, uma obra muito mais. E cá pra nós, é preciso ter muita dedicação para aprender a plantar maças. O mesmo se diga para uma obra de arte, como uma escultura.

Em resumo, vamos ter a eterna discussão sobre o que é arte. Já escrevi aqui a diferença  entre expressão artística e arte. Porém a pergunta segue: o que é arte? Quando reflito sobre isso caiu numa devassidão tremenda de argumentos  e questiono se isso tem resposta ou se existe necessidade de se responder isso. Temo que não! Porém de uma coisa fique certo, caro leitor, arte de primeira não é algo atirado ao vento. Arte exige muito trabalho mesmo.

Sou artista, logo escandalizo

22193009_1422671614497600_1556969610_n (1)Qualquer sujeito que for visitar museus, em qualquer parte do mundo vai se defrontar com o que se chama barbárie artística. Nem sempre é − quase sempre existe exagero −, e vale muito da nossa percepção e gosto pessoal.

O escândalo em si permeia a arte. Ao se por para dançar, por exemplo, um sujeito comum escandaliza. Rodar pelo salão ou se balançar feito macacos pode ser motivo de chacota. A dança, a priori, é destinada para seres belos, em espaços especializados, rodando com elegância como sobre patins numa pista de gelo. Esta é a ideia geral. O que aparece em nosso imaginário quando a palavra dança é pronunciada. Em cinema o espanto é muito fácil de se encontrar. Vários filmes foram execrados dos cinemas por tocar nas feridas do ser humano, bem como o teatro.

Não iria ser diferente em artes plásticas. O quadro ou escultura idealizada não cabe mais neste mundinho. A arte precisa transgredir para avançar. Não tem como fazer um omelete sem quebrar ovos. Ditado comum, muito próprio. Nesta quebra de ovos, certamente alguns podem estar podres e causar asco. No entanto, expressões artísticas usando ovos podres já foram realizadas, como estrume humano e de animais. Cada obra tem seu valor, de acordo com tempo e espaço. Imagine se os impressionistas não tivessem escandalizado em seu tempo. Ou então se Picasso ficasse pintando retratos e quadros realistas! Caso Pollock não ousasse respingar nas telas suas tintas criando suas telas maravilhosas. Mesmo o mictório de Duchamp foi necessário para que o modo de pensar arte evoluísse. Há quem diga que tudo piorou depois de Duchamp. Eu não concordo. Porém…

Das obras primas que encontram-se no museu Louvre, em Paris estão A “Vênus de Milo”, atribuída a Alexandros de Antióquia, é outro símbolo do Louvre. A estátua de 2,02 metros de altura tem cerca de 2.300 anos e foi encontrada em 1820 na Ilha de Milo, na Grécia. A obra está no museu francês desde 1821; A Liberdade Guiando o Povo foi pintada por Eugéne Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, que derrubou o rei francês Carlos 10º. A pintura, exposta no Louvre desde 1874, serviu de inspiração para a Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos; “A Balsa da Medusa”, pintura a óleo de Théodore Géricault, foi pintada entre 1818 e 1819, baseada numa história de naufrágio e canibalismo; “Psique Revivida Pelo Beijo de Eros”, estátua em mármore de Antonio Canova, esculpida em 1793, A Morte de Sardanapalo”, de Delacroix, foi inspirada no conto de um rei assírio que mandou destruir todos os seus bens e matar suas concubinas depois de uma derrota militar. O quadro é de 1827; “Hermafrodita Dormindo”, ou o “Hermafrodita de Borghese”, é uma escultura de data e autor desconhecidos. O colchão realista foi produzido em 1620 por Gian Lorenzo Bernini; A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres, foi encomendada pela rainha Carolina de Nápoles, irmã de Napoleão Bonaparte, para formar par com outro nu a ser pintado por Ingres, mas Napoleão foi deposto em 1814, e o segundo quadro não chegou a ser produzido; “Gabrielle d’ Estrées e Uma de Suas Irmãs” é um possível retrato da duquesa que era amante do rei Henrique IV da França. O toque no mamilo representaria a gravidez de Gabrielle de um filho do rei. A obra é de cerca de 1594, de autor desconhecido.


O que estas obras têm em comum? O escândalo. Qualquer visitante que for ao Louvre vai se defrontar com estes trabalhos e outros como a Galeria Táctil, onde corpo são expostos e o visitante é convidado a tocá-los e não tem restrição de idade. Crianças abaixo de doze anos só entram com os pais. Sim, a maioria dos corpos são nus. A exposição do MAM não é 
novidade nenhuma. Estamos tratando aqui do Museu mais famoso do mundo, num dos países mais civilizados do mundo. Logo, resta a lógica e o bom senso. Os genitores que vão definir se as crianças devem ver e tocar. A televisão e a internet estão cheia de porcarias. Cabe aos pais desligar os botões. Cabe aos pais dizer se a criança deve ou não ir a um filme, peça de teatro, ler um livro, etc. Os artistas não têm que se preocupar com o falso pudor quando criam suas obras. Se fosse assim não se criaria nada.

Outro quadro que está no Louvre é Odalisca, de François Boucher, um óleo sobre tela medindo 53×64 cm. Uma jovem está deitada nua na cama, envolta por uma profusão de tecidos drapejados. Ostensivamente provocante, ela flerta como o observador, olhando para fora de seu quarto intimo. Este quadro é belo justamente pelo nu. Se Boucher tivesse pintado ela vestida perderia toda a graça. Os lençóis amarotados podem significar várias coisas, como uma noitada de sexo ou que a menina dormiu mal, também pode ser que ela esteja desajustada e não goste de arrumar a cama. É, mas tem aquele olhar. Ainda assim pode significar mais que apenas sexo. Qualquer pai poderia dizer ao seu filhinho de dez anos que Odalisca pode ser vista de várias maneiras.

Em resumo, a maiorias das polêmicas que se cria em torno de arte geralmente carece de melhor informação e principalmente de bom senso. O fanatismo e a forma rasa como se tratam estes assuntos é que enoja. Com texto genéricos e mal fadados, pessoas mais interessadas em se expor do que avaliar a obra, vomitam palavras sem senso. São tempestades que maculam, mas não destroem a força expressiva. É claro que muitas exposições pelo mundo afora são feitas todos os dias, intervenções de cunho erótico, etc. Também é evidente que uma obra de arte não vai mudar a cabeça de uma criança, tão acostumada com a banalização da violência. São exageros que precisamos pontuar e corrigir.

 

Arte e polêmica são um casal que amam e brigam o tempo todo

Por Clodoaldo Turcato

 

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De todas as polêmicas envolvendo arte, eu particularmente prefiro ficar longe, por padecer de entendimento, por não estar com todos os recursos para opinar ou simplesmente por que o fato não vale nenhuma linha, como discutir se pichar é arte ou não, se arte digital é arte, se arte abstrata é arte, etc. Isso é um grande mar de argumentos que vai cair na vala comum e ficaremos olhando com nossos mais escusos instintos em nome de orgulho pessoal. Estes temas são discutidos e rediscutidos sem que prejudique o todo.
No entanto, quando uma exposição de arte é fechada por pressão extremista, daí estamos atuando no campo das liberdades individuais. Não vamos analisar as obras expostas. Algumas poderiam ser de mau gosto, dependendo de uma série de fatores que mencionamos tantas vezes aqui neste espaço. Gostar ou não de um trabalho é questão pessoal. Ponto final. O que nos preocupa é o Santander Cultural ter aberto a exposição, justificado sua execução e com uma semana, pressionado por grupos que não demonstraram ainda qual a finalidade, encerrar contradizendo o que justificara anteriormente. Então o que se imagina em total bom senso é que o Grupo de Curadores do Santander Cultural não tem posição firme, não acredita em seus valores (ou não os tem) a ponto de recuar. Seria o que se diz na mesa de bar “Uma Maria vai com as outras”.
O grupo Santander perdeu uma grande oportunidade de discutir arte e expressão artística. Perdeu a chance de levar à sociedade conversar sobre temas que são escondidos sob tapetes e esclarecer as crianças que aquelas demonstrações existem, são comuns e como evitá-las, caso queiram. Contudo, preferiram se esconder, correr, fugir do debate e corta bruscamente o processo.
A arte sempre foi campo de exposições extremas. A vida comum é extrema e se a arte plástica representa esta vida, logo teremos pedofilia, zoofilia, nus, sexo homossexual, sexo hetero, corpos nus e demais situações que ocorrem desde os primórdios – a vida não é somente flores. A pintura vive seu tempo. A exposição e exploração da mulher condicionando-a ao homem também está refletida nas artes plásticas. A nudez feminina funcionou como uma maneira de controlar e determinar a sexualidade e os comportamentos das mulheres. Os quadros que circulavam nas grandes galerias retratavam mulheres idealizadas, que denotavam padrões vigentes naquela sociedade e cujo comportamento deveria ser seguido. Em meados do século XIX, esse gênero se converteu na forma dominante da arte figurativa europeia, e era considerada a forma artística ideal. Mas o nu feminino estava vinculado às ideias de sensualidade, fluidez e passividade, e talvez nunca tenha sido tão cultivado como naquele período. Enquanto isso, na vida cotidiana, o corpo era zelosamente estudado e perscrutado, sobretudo o feminino. Esse organismo humano sofria diversas pressões e controles por parte de um conjunto de instituições tuteladas pela ciência, que detinham a hegemonia dos discursos sobre a sexualidade, a doença e a saúde. Não por acaso, a mulher constituiu o motivo principal do nu como gênero na pintura a óleo europeia, mesmo quando o tema ilustrado fosse uma alegoria ou uma história mítica. 
Assim, as figurações do nu feminino reforçavam o status dominador do homem na ordem social vigente, enquanto a mulher permanecia inerte, devendo ser dominada, subjugada ou idealizada pelo poder físico, social e econômico da potência masculina. Como exemplo dessa fêmea subjugada, vale observar a obra Susana e os velhos, da artista Artemisia Gentilesch, Nascimento de Vênus de Sandor Boticelli e Maja Desnuda de Goya.
Como criticar, baseando-se na retórica feminina atual ou conceitos conservadores, Vênus Adormecida de Giorgione, Vênus de Urbido de Ticiano ou Nú de Mondigliani? Estas obras teriam que ser queimadas, jogadas no lixo, esquecidas por retratarem a mulher nua? Seria esse o caminho que elevaria o ser humano? O interesse pelo nu não é um fenômeno exclusivo da contemporaneidade. Ao contrário, a representação do corpo nu surgiu como um gênero da História da Arte Ocidental na Grécia Clássica. Era tido como natural, sagrado, uma aproximação com os deuses, a ilusão do corpóreo aparece como a idealização do corpo perfeito. Os corpos que representavam os deuses gregos eram perfeitamente proporcionais e sem nenhum dos defeitos do corpo “real” – muito parecidos com os corpos que se apresentam hoje para nós. Com o passar dos anos, o nu nas artes plásticas teve inúmeras representações, retratando o masculino e o feminino. Mais adiante ainda na história a religiosidade se volta contra o homem natural e o que era a semelhança e imagem de Deus teve a necessidade de ser coberto.
A divisão entre o corpo e a alma foi radicalizada e a nudez corporal passou a ser entendida como um símbolo de vergonha e humilhação. Como consequência, a figura humana nua quase não existe na arte medieval cristã, exceto como representação do pecado, nas cenas de Adão e Eva e do Juízo final. O sexo se torna tabu e o corpo passa a ser recipiente do pecado criado pela moral vigente. Quando o nu masculino é sensualizado ele desaparece nas artes, pois coincide com a necessidade de reproduzir a prole, lá pelos idos de XVII. No final da Renascença a beleza clássica vai perdendo o valor. No neoclassicismo o corpo feminino prevalece no nu. Se analisarmos a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e prestarmos atenção nas ilustrações de Gustav Dore, se percebe o ressurgimento do nu masculino já com cânones diferentes para valorizar os músculos, originando a silhueta dos super-heróis, o que vem de encontro e retoma a perfeição criada na Grécia nas esculturas. Na representação do nu na arte contemporânea é possível visualizar as releituras e reflexões que artistas atuais fazem da nudez de períodos diversos da história da arte. Se, historicamente, o nu esteve ligado à técnica e um ideal de beleza e harmonia, a arte contemporânea se apropria dessas características com uma boa dose de crítica e ironia.
Estamos profundamente condicionados à ilusão de que somos este corpo, bem como condicionados a forma de como ele deva ou não deva ser. Do mesmo modo que, quando na fase infantil, o eu, se identifica de forma ilusória como sendo este corpo, em sua fase adulta, pela experiência do testemunhar, precisa se “desidentificar” para o alcance da consciência de sua real natureza. Independente da imagem de um corpo nu ser idealizado ou “real”, ela jamais será um corpo neutro, visto que sempre será lida a partir de um código e incorporará discursos diversos. O corpo na arte é sempre um corpo-representação, um corpo imaginário que revela narrativas e cria (ou reforça) sentidos. Dessa forma, a percepção humana não ocorre de maneira neutra, já que ela se dá por meio de uma interpretação e a interpretação depende dos hábitos perceptuais das pessoas: o que vemos quando olhamos para alguma coisa depende do que vimos antes.

 

Quando expressamos através de um quadro, nele está contido muito mais do que simplesmente o visual. Em 1863, Honoré-Victorien Daumier pintou A lavadeira. O quadro foi proibido em diversas galerias europeias por representar gente comum. Olímpia de Manet foi outra obra esculachada em seu tempo. O escândalo não é apenas com o nu, a homossexualidade, o sexo, etc. O escândalo ocorre principalmente quando nossos defeitos são escancarados. Os segredos que tememos escancarados preocupam em qualquer lugar do mundo. A escultura Tumbling Woman (Mulher Caindo) foi a resposta do americano Eric Fischl aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao ser exibida pela primeira vez, em 2002, a obra foi alvo de protestos tão violentos que uma semana depois acabou sendo recolhida. Trata-se da figura de uma mulher que, tendo se atirado de uma das Torres Gêmeas, tem seu corpo esmagado ao chocar-se com o chão. Alguns acharam a obra apelativa. Outros a consideraram um tributo à coragem de uma mulher que decide escolher como morrer; para esses, a escultura de Fischl era uma alegoria da dignidade humana.

 

Ao avaliar com cuidado o que ocorreu em Porto Alegre à luz da história, em todos os tempos, verificaremos que sempre ocorreram retaliações em arte e o conteúdo ofensivo ou sujo, não é necessariamente a motivação. A exposição do Santander foi fechada pelo momento político em que o Brasil está vivendo. Noutra época seria mais uma exposição. Estamos vivendo um momento extremado, dividido e o reflexo disso está na sociedade em geral, não apenas nas artes. Artistas consagrados e admirados, com grandes trabalhos, estão sendo rechaçados por tomarem posições contrárias aos seus admiradores. Caso fático é de Chico Buarque, que sempre foi de esquerda, mas amado por todos, passa momentos de enfrentamento por sua posição.

 

Sugiro ao leitor que analise a obra de Lucas Cranasch, o velho, pintor germânico que passou boa parte de sua vida pintando Príncipes Alemães e líderes da Reforma Protestante, como Martinho Lutero. Sua obra teve dois tópicos: a arte aceitável, já que foi mestre em retratos e seus nus, que incomodavam demais aos religiosos de plantão, como o quadro Vênus, um óleo sobre madeira medindo 37×25 cm, exposto no museu Stadelsche Kunstinstitut, em Frankfurt, Alemanha. Vênus usa apenas uma rede de cabelo adornada de joias e dois colares. Ela segura com falso pudor um véu de áfano e olha sedutoramente para observador. Seu corpo é idealizado, talvez por que os artistas da época pouco usassem modelos vivos femininos. A representação de mulheres nuas não era comum, a menos que figurassem numa cena narrativa ou como Deusas míticas. Cranasch parece ter ignorado o espirito clássico da época, e seus nus tem uma aparência quase primitiva. A escolha de um tema mitológico e não religioso para este quadro, talvez se devesse ao fato de seu mecenas ser protestante. Pouco se sabe sobre Cranasch, além da grande influência que teve na Alemanha protestante. Ele parece ter surgido subitamente, produzindo as melhores obras no início de sua longa carreira e depois ter levado a vida fácil de pintor da corte. É conhecido como Lucas, o velho, por que iniciou uma dinastia de artistas que deram continuidade ao seu estilo.

A Vênus de Cranasch é um belo exemplo de como arte e polêmica são um casal amam e brigam o tempo todo.

 

Arte Postal, a primeira rede social efetiva da humanidade

Quando se fala em rede social nos dias atuais, com toda a sua magnitude de possibilidades e efeitos sociais, é comum o leitor imaginar que se trata de um termo atrelado a expansão da internet e a maneira como ela hoje invade nossos caminhos. Ledo engano. As redes sociais são bem mais antigas do que se imagina. Basta retomarmos aos tempos dos Renascentistas quando Rafael, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Tintoretto se reuniam, o que a cara leitora imagina que conversavam? Provavelmente dos reis, dos modos e modinhas de então e arte. O mesmo, imagino, ocorreria quando Cèzzane, Monet, Manet, Renoir, Surreat estivessem numa mesa dos belos cafés parisienses: arte.

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A rede social é um local onde pessoas tratam de temas comuns. Hoje temos difundido páginas, grupos e círculos onde cada qual trata daquilo que lhe interessam e gostam. A diferença é que para isso se utilizam de um equipamento eletrônico.

De tudo, uma das redes sociais ou redes de arte mais impressionantes que existe é a Arte Postal. Na década de 1960, correspondências trocadas entre artistas plásticos deram origem a mais uma forma de expressão da arte contemporânea: a arte postal (mail art). Nessa mesma época, Ray Johnson cria, em Nova York, nos Estados Unidos, a Correspondance Art School (Escola de Arte por Correspondência). Em 1963, Ray Johnson escreve uma carta num envelope, usando a frente e o verso. Ele rompe, assim, com o conceito de privado e reproduz, de maneira pública, dialogando com outra pessoa, a sua aparente intimidade.

A mail art consistia em trocar mensagens criativas utilizando o sistema de correios. Ela surgiu como uma alternativa aos meios convencionais das exposições de arte (Bienais, Salões, etc.) e tem características próprias do período em que apareceu (dialoga, portanto, com a Guerra Fria, no contexto mundial, ou com a ditadura militar, no contexto brasileiro). Ou seja, seu objetivo era veicular informação, protesto e denúncia. A arte postal se caracteriza por ser um meio de expressão livre, no qual envelopes, telegramas, selos ou carimbos postais são alguns dos suportes em que é possível a expressão da sensibilidade. Os artistas utilizam, principalmente, técnicas como colagens, fotografia, escrita ou pintura. A única limitação real à utilização de diferentes técnicas e suportes é a possibilidade de envio dos trabalhos pelo correio.

Nos anos 60, a arte postal foi uma forma de expressão entre artistas que se conheciam. Porém, na década de 70, todos os interessados em fazer arte já podiam participar – e, a partir de 1980, museus e universidades começaram a valorizar a arte postal. No Brasil, a Arte Postal chegou num momento de censura, quando muitos artistas, para poderem se expressar, acabam aderindo à Arte Conceitual – e, portanto, a uma de suas formas, a Arte Postal. As primeiras manifestações na América do Sul aconteceram em meados dos anos 60. Na Argentina, Eduardo Antônio Vigo editava a revista “Diagonal Cero”, a “Hexágono 70” e posteriormente “Nuestro Libro Internacional de Estampillas y Matasellos”, o Uruguaio Clemente Padín a “Los Huevos de Plata” e “Ovum”, o chileno GuilhermoDeisler a “EdicionesMinbre” e o poeta chileno DámasoOgaz dirigia na Venezuela a revista “La Pata de Palo”. Estes grandes nomes iniciavam intenso intercâmbio postal através de suas publicações. E em 1970 no Brasil, Pedro Lyra publica um manifesto de Arte Postal. Em 1974, em Montevidéu, acontece a primeira exposição documentada de Arte Postal da América Latina – “Festival de La Postal Creativa”. A partir daí o movimento se dinamiza acontecendo mostras como “Última Exposición Internacional de Arte Postal” realizada por Eduardo Antonio Vigo e HoracioZabala, em La Plata, 1975, e, no mesmo ano, no Brasil, a “Primeira Exposição Internacional de Arte Postal” organizado por Daniel Santiago,Paulo Brucksy e Ypiranga Filho,cá em Recife, Pernambuco.

Os artistas postais ao apropriarem-se do sistema epistolar criaram um novo modo de circulação de arte, que rompeu com o circuito de galerias e museus e ampliou as possibilidades tanto de consumo como de produção de arte a nível internacional, em uma época na qual ainda não havia internet e o acesso a informação era muito mais restrito.Além disso, muitas propostas são colaborativas e/ou anônimas, dissolvendo-se nessa atitude conceitos como autoria e originalidade da obra de arte.O principal resultado produzido pela arte postal é a criação de uma rede de comunicação e intercâmbio em que os artistas podem expressar suas tendências e concepções e também receber informações que lhes permitam abordar novos campos sem a necessidade de projetar algo concreto ou que está ligado a um padrão. É uma rede de comunicação que, se já conseguiu alcançar uma extensão notável desde o início, graças aos novos canais de comunicação, para os quais praticamente não há fronteiras, continua a desenvolver-se constantemente.

O caráter aberto do fluxo de trabalho não apenas aponta para a multiplicidade de significados, a liberdade de seleção do suporte, para a desconstrução linguística, mas éfrequentemente direcionado para a investigação dos possíveis efeitos que o fato pode sofrer artística se modificarmos os elementos do sistema de comunicação em que é contextualizado; por exemplo, o canal. E foi precisamente isso que chamou a atenção do grande protagonista da arte do cartão postal, de Ray Johnson, que em 1962 criou a Escola de Arte de Correspondência de Nova York, considerada a primeira escola de arte de correspondência. Com isso foi nomeada a preocupação da escola Fluxus e atividades que já começaram, entre outros, Marcel Duchamp, que viajou de Paris para Nova York com sua “garrafa de ar” ou os futuristas italianos Giacomo Balla ou Pannaqqui , que através do correio enviou peças, cartões com desenhos, etc.

Há 60 anos, desde o seu nascimento oficial, o espírito defendido pelo fluxus e levado à máxima expressão por Johnson ainda está em vigor. Prova disso é que ainda há chamadas para reuniões de artistas de correio de diferentes países que compartilhem sua maneira de entender a arte, graças a que, segundo eles, estão crescendo constantemente.

Aqui em Recife temos um dos representantes da Arte Postal no mundo: Daniel Lima Santiago. Artista exuberante e produtivo desenvolve e expõe pelas novas redes sociais seus trabalhos com a mesma garra do início de sua carreira grandiosa.

Portanto, caro leitor e leitora, quando estiver envolvido com seus equipamentos ultramodernos, nunca esqueça que as redes sociais que você se utiliza hoje teve grande influência da arte postal. E cá pra nós, era muito mais belo.