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A arte tem princípio, meio e fim, mesmo sem ser completa

Por Clodoaldo Turcato

20133741_1350559268375502_972602066_oAlgumas percepções em artes plásticas ocorrem depois de muito tempo. Mesmo em mãos calejadas, algumas compreensões escapam, condicionando nossa empatia. Em princípio se diz que arte concreta e arte renascentista, por exemplo, são diferentes. Uma obra de Bordone ou Rafael é diferente de Boccioni.  A imagem perfeita contra pinceladas à toa. Julgamento precipitado. Ambas têm os mesmo princípios, a mesma pretensão e atingem sem dúvida o nível de grande obra.

Quem vê a obra Apresentação do Anel ao Doge de Veneza, de Bordone, um óleo sobre tela medindo 370 x 300 cm que está Galleria dell’Accademia, em Veneza, Itália, construída em detalhes impressionantes, composta com genialidade própria do pintor italiano e a arte renascentista, dirá que Cabeça + Luz + Entorno de Umberto Boccioni, um óleo sobre tela medindo 60 x 60 cm, um peça futurista que está em Nova Yorque, é menor, menos bela ou uma tolice de um jovem efervescente. Engano. As duas obras são grandiosas e tem os mesmos princípios e devem ser lidas da mesma forma. O gosto pessoal, repetindo, não deve influenciar para uma crítica séria.

Uma obra de arte se difere de um objeto comum. O objeto comum possui apenas uma função prática e útil na sociedade e, geralmente, é produzido em série por indústrias. Porém, existem obras de arte que também podem apresentar uma utilidade prática. Se Bordone expunha em suas obras as grandes catedrais, os elementos sociais de então e principalmente a vida cotidiana das cortês europeias, tendo um pé dentro da Igreja Católicas, Boccioni expressava a força da relatividade, o movimento do tempo e o surgimento das ideais de um futuro dominado pela máquina, máquina esta que fazia as imagens do dia-a-dia, dispensando o talento do pincel. Então, era necessário ir mais fundo, nas formas, na construção de conceitos que lentamente foram alternando, porém impactando na efervescência de uma sociedade que olhava para frente. Os dois captaram, ao seu modo, estes momentos

Se Bordone fosse vivo, possivelmente pintaria diferente. Não que a arte clássica tenha acabado. Veja o caso de Marciano Schimidt. Ele segue acadêmico e com sucesso. Os temas divergem e seu misticismo domina as belas criações que faz. No entanto, hoje não há mais por que pintar somete clássicos. Perdeu força essa demanda e a obra precisa expor a relação do homem e seu tempo. O mesmo eu diria de Boccioni. Se estive noutro tempo se expressaria de maneira totalmente diferente.

Então a arte mudou?

Não. Arte continua a mesma. No campo da arte, chamamos de obra de arte à produção realizada por um artista plástico, que é o resultado de sua criatividade e imaginação e que expressa um conceito ou uma manifestação sentimental ou emocional. Isto é, a obra de arte é uma criação que fica totalmente estampada e evidencia a intenção do artista. O que muda é o conceito, a escola, o modo de se criar. Porém a expressão segue sempre igual. Uma ideia pode ser expressa de diversas formas, mais conceitual ou mais complexa. O que vale é o quadro catalisar o movimento da vida, suas sequencia através do tempo e espaço.

Analisando friamente obras como a que expomos, teremos que arte – qualquer manifestação – precisa ter alguns aspectos como movimento, por exemplo. Escrevemos sobre isso a um tempo. Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente.

A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo material ou imaterial que o inspira. Na história da filosofia tentou se definir a arte como intuição, expressão, projeção, sublimação, evasão, etc. Aristóteles definiu a arte como uma imitação da realidade, mas Bergson ou Proust a veem como a exacerbação da condição atípica inerente à realidade. Kant considera que a arte é uma manifestação que produz uma “satisfação desinteressada”.

De acordo com o Romantismo, Vitalismo, Fenomenologia, Marxismo surgem também outras e novas interpretações de “arte”. A dificuldade de definir arte está na sua direta relação e dependência com a conjuntura histórica e cultural que a fazem surgir. Isso acontece porque quando um estilo é criado e estabilizado, ele quebra com os sistemas e códigos estabelecidos.

A arte é um reflexo do ser humano muitas vezes representa a sua condição social e essência de ser pensante. Este padrão encontraremos em Pollock ou Van Gogh. Nossos olhos precisam aprender a distinguir o movimento, a coerência, a luz, a sombra, a composição e harmonia. Isso precisa estar presente em qualquer obra de arte. Então não é a imagem bonitinha ou feinha que definirá uma obra.

O pai do Cubismo

Por Clodoaldo Turcato

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Falar em músicas, em mencionar Tommasini, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Bach, Haendel, Haydn, Beethoven, Wagner, Brahms, Debussy e Stravinsky, seria um crime. Escrever sobre futebol sem Pelé, Garrincha, Maradona, Eusébio, Cruyff, Beckenbauer, Di Stéfano, Puskás, Platini, Charlton e Ronaldo é imperdoável. Concordam!
A mesma sensação ocorre quando falamos de artes plásticas e não mencionamos Gerges Braque. Talvez para muitos ele é um mero desconhecido, mas Georges Braque teve grande influência na arte moderna mundial, pois ele juntamente com Pablo Picasso fundou um dos movimentos artísticos mais importantes de todos que foi o Cubismo. Um dos defeitos dos historiadores é tentar diminuir Braque por causa de Picasso. Eu mesmo fiz isso tantas vezes, até perceber que não se trata de maior ou menor, mas de condições e situações que fizeram de Picasso mais cultuado. Ao me aprofundar no estudo do Cubismo, compreendi que muito do que Picasso foi se deve a Braque.

Nasceu no ano de 1882 numa cidade da França chamada Argenteuil que hoje faz parte da Grande ParisO ponto de partida para esta obra foi o tema de uma figura única tocando um instrumento de cordas, como Pablo Picasso havia feito no ano anterior em uma obra intitulada Garota com Bandolin, considerada relativamente realista.A estreita amizade entre Georges Braque e Pablo Picasso começa, na sua cooperação artística e, especialmente, ao examinar de perto a arte de Paul Cézanne, eles desenvolvem o estilo cubista de pintura. Estreita cooperação entre os dois dura até 1914, algumas obras deste período de “cubismo analítico” (1909-1912) são difíceis de atribuir claramente a um ou outro artista, sua pintura se torna mais e mais abstrata.

Um exemplo disso é o quadro Homem com Violão, onde Braque demonstrou como uma figura pode ser reduzida a uma forma de abstração nunca antes imaginada. A tradicional perspectiva única do pintor foi substituída por perspectivas múltiplas em uma superfície em grande parte plana, com formas bi ou tridimensionais coexistindo de diversas maneiras.Inicialmente a composição pode parecer desnorteada, mas o pintor oferece algumas pistas capazes de orientar o espectador. Elementos do violão, como as cordas e o corpo, emergem, e uma forma diagonal, que vai do centro até a esquerda, indica o braço da figura. O resultado é uma tela densa, mas sugestiva, que instiga a investigação.Na superfície do quadro Braque pinta uma borla e uma tachinha, com o objetivo de destruir qualquer ilusão de profundidade. Com isso o pintor enfatiza que aquela, como todas as outras pinturas cubistas, é uma experiência e um projeto em constante evolução.Braque usa pinceladas visíveis, feitas sobre tinta ainda fresca, para brincar com o observador. Quando o olho viaja pela tela, o fundo salta para o primeiro plano, em vez de recuar em profundidade. Isso permite que o pintor crie visões múltiplas do objeto retratado.

Nas pinturas de Georges Braque se reflete o seu temperamento. Avesso ao patético, silencioso, quieto, avesso à violência e a qualquer coisa exagerada. Não imprimia audácia na tela, nada de mostrar os seus sentimentos com as tintas, sempre esteve mais para uma pintura meditativa, cujas relações eram sutis, e cores e formas colocadas quase que de forma misteriosa. A obra de Georges Braque foi definida como aquela sem que a norma corrija a emoção, em que não é preciso fazer descrição do que é óbvio, que os sentidos podem captar facilmente de forma imediata. Praticamente como se a emoção que é sentida logo quando se depara com a sua pintura fosse dada de volta pela obra com uma nova cara. É justamente esse “ir e vir” que fazem com que a emoção seja mais forte e ao mesmo tempo equilibrada.

Muitas vezes escrevi neste espaço sobre superficialidade em arte. Na coluna anterior frisamos a armadilha da passada rápida de nossos olhos sobre uma obra de arte. Neste ressoar da ignorância criam-se mitos falsos e grandes injustiças. Braque foi condensado e muito.É a velha história do segundo lugar eternamente injustiçado. Ofuscado pela personalidade expansiva, mediática e sedutora de Pablo Picasso, o rigoroso e pudico francês Georges Braque ficou erroneamente conhecido como o mais brilhante discípulo dele no cubismo, movimento que fundou as bases da arte moderna ao representar a natureza por formas geométricas, sem se importar com a aparência real dos objetos. Embora a obra considerada fundadora do cubismo seja As senhoritas de Avignon, de Picasso, o verdadeiro pai do movimento é Braque. Foi contemplando seus quadros no Salão de Outono de 1908 que Henri Matisse, membro do júri, se disse chocado com as paisagens compostas de “pequenos cubos”. O diálogo artístico entre Braque e Picasso, um dos mais profícuos da história da arte, só foi interrompido quando Picasso levou o amigo à estação de trem para servir na Primeira Guerra Mundial. A partir dali, eles se tornaram rivais quanto à paternidade do cubismo.

Outras obras do artista são Garrafa e peixes, Fruteira e copos, Violino e Cântaro, Mandola, Costa Amarela e Clarinete e Garrafa de Rum num Console de lareira.
A pintura de Braque soa como música clássica. Não é necessária a letra para que se compreenda. Ele elevou o nível da pintura a um patamar sensorial,relegando ao olho o papel de transmissor de imagens. Isso não é pouco, nem fácil e muito menos degenerado. Com Braque a arte chegou ao possível e mais perto do comum. O uso de materiais nunca antes utilizados como cartão, papelão, fios e tintas menos custosas, aproximou ao que Duchamp considerava a verdadeira arte.

Ler um quadro é tão igual a um livro

Por Clodoaldo Turcato

19688578_1335648886533207_1992889101_oOntem alguém me disse (deixarei a pessoa sem nome, por questões de ética) que prefere quadros a livros já que o quadro é só olhar e pronto, já um livro é necessário tempo, atenção e consumiria parte de sua vida. Sim, escreveu “parte de sua vida”.

Este, aliás, é um conceito mais comum do que se imagina. Acreditarque uma obra de arte basta um olhar para compreendê-la, sem maiores “esforços”.  Ledo engano.

Ler um livro requer atenção, compreensão, ajustes e releituras muitas vezes. Um bom livro não se lê correndo. Um bom livro nos faz navegar por águas mais profundas ou espaços inconvenientes tantas oportunidades. Os livros “difíceis” são os que mais nos elevam. Um livro qualquer, sem profundidade, infantilizado pode ser lido de chofer. Já um grande livro requer mais paixão, gana e boa vontade. Ouço bobagens sobre Ulisses de James Joyce, por exemplo, ou Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Tive reservas com o Jornalista Reinaldo Azevedo antes mesmo de se colocar a serviço da mídia golpista quando numa entrevista ao Jornalista Ediney Silvestre disse que Guimarães Rosa é uma bobagem. A linguagem não lhe dizia nada. Ouvi isso de Joyce, de Victor Hugo e até de Machado de Assis. Oras!

O mesmo olhar desinteressado ocorre com a arte plástica. Tanto para bem, como para mal, a maioria olha um quadro de maneira tão ligeira que perde as nuances ou não entende patavinas. Se for bem pintandinho coloca na parede, senão atira suas pedras todas.  E assim, um monte de artesanatos e arte decorativa cobre as salas ricas e pobres. Uma obra de arte plástica precisa ser vista, revista, descontruída e sentida. Não se pode apenas passar o olho e supor que aquilo seja bom ou ruim, bem feito ou mal feito. Desta maneira legiões de pseudos-admiradores de arte vão ter Caravaggio, Rubens, Da Vinci,Rafael e toda a arte renascentista em seu conceito de arte, de resto nada serve. Os artistas concretistas, abstratos, póveros, minimalistas, etc, são relegados ao ostracismo e incompreendidos por que não cabem na ótica preliminar e superficial do perfeitinho.

Em Resumo, ler uma obra de arte custa tanto quanto um livro. Algumas peças depois de uma leitura mais séria não vão representar grande coisa, no entanto não se pode ver sem paixão ou ganas de enveredar pelas curvas que guardam seus segredos.

Faço essepreâmbulo para falar de Marcel Broodthaers. Até os seus 40 anos, foi poeta e escritor. Em 1963, decidiu ser também artista visual. Engessou 44 exemplares de seu livro Pense-Bête e, com esse gesto inaugural, começou a criar objetos. Na apresentação de sua primeira exposição, na Galerie Saint Laurent em Bruxelas, em 1964, já estava presente a crítica institucional, um certo humor e a manipulação das palavras. “Eu também imagino se não poderia vender algo e ter sucesso na vida”, escreveu no texto de apresentação. Em uma breve carreira como artista, sempre tendo a escrita entre suas fontes principais, fez esculturas, instalações, filmes e fotografias. Conhecido pelo uso de materiais cotidianos, como conchas de mexilhões e cascas de ovos, e pela criação do Musée d’ArtModerne, DépartementdesAigles, museu ficcional que não tinha localização ou acervo próprios, Broodthaers procurou ampliar as possibilidades da arte, da linguagem e do sentido com seus textos e objetos.

As LettresOuvertes (cartas abertas) foram escritas a partir de junho de 1968. Reproduzidas em grandes tiragens com um mimeógrafo, eram enviadas pelo correio a amigos artistas e outros profissionais da cena artística. A primeira carta foi escrita após a ocupação do PalaisdesBeaux-Arts, em Bruxelas, quando artistas, intelectuais e estudantes se manifestaram contra a mercantilização da cultura e da arte, num movimento inserido no contexto dos protestos anti-establishment que aconteciam em diferentes países. Essa assim como outras eram cartas pessoais, na primeira pessoa, mas ele também escrevia como representante do Musée d’ArtModerne, DépartementdesAigles, usando o papel timbrado da instituição. Contudo, seu conteúdo em nada lembra a correspondência de uma instituição oficial. Tanto nas cartas do artista como nas do museu, Broodthaers faz referência a fatos concretos e pessoas conhecidas, rebate suas próprias opiniões, desestabiliza certezas e cria, intencionalmente, contradições que questionam posições estabelecidas.

Um exemplo desse trabalho e sempre incomoda aos espectadores é Caçarola de Mexilhões Fechados. Uma pilha de conchas de mexilhão foi fixada com resina tingida de verde, evocando ao mar. As conchas parecem estar se movendo para cima, numa explosão de vitalidade. A imagem usa um trocadilho com as palavras “lamoule”  e “lemoule”. A obrafoi concebida como uma metáfora para o país natal do artista, a Bélgica, onde os mexilhões são um prato nacional: ao mesmo tempo , é uma sátira  à burguesia belga. É provavelmente a imagem mais famosa de Broodthaers. A escultura pode ser classificada como Arte Conceitual, já que as ideia subjacentes são mais importantes que as próprias obras. A obra de Broodthaers foi muito influenciado pelo pintor René Magritte. Como Magritte, ele muitas vezes de deleita com justaposições incongruentes e a criação de paradoxos visuais por meio da combinação de palavras , objetos do cotidiano e materiais impressos.  A obra esta na Tate Gallery de Londres.

A obra incomoda e muito.  Uma passadela rápida não implica em dar a dimensão da obra. Não se trata de uma caçarola com mexilhões, mesmo que nossos olhos insistam em nos mostrar isso. Existe todo um conceito por trás de uma escultura ou intervenção, como queira. Na obra de Marcel Brodthaers, o que é, pode não ser e vice-versa. Aliás, essa herança de seu conterrâneo René Magritte é, não só assumida sem nenhum problema por Broodthaers, como transformada em homenagem em trabalhos como A maldição de Magritte, de 1966, ou na adoção do cachimbo como um dos elementos de sua iconografia pessoal, exemplificado no trabalho “Modelo: a vírgula” , onde a vírgula se transforma na fumaça do cachimbo.

Outras obras do autor são Le sous-sol, temos uma paisagem simplificada, duas árvores à esquerda, algumas nuvens no céu, uma linha representando o chão, como num desenho de criança. Abaixo do chão, temos escrito “E SOUS-SOL”, para completar o título da placa, falta a letra “L” que está acima do chão. Pelo modo como está desenhada (somente com as linhas de contorno), por sua verticalidade, tamanho e espessura a letra “L”, aqui, tem referência clara com as árvores. Seguindo com o olhar indo das árvores até o “L”, podemos perceber que o chão é interrompido, temos algumas formas orgânicas e entre elas canais que ligam o céu ao subsolo, é como se o céu vazasse o chão. Se repararmos bem, no primeiro ponto onde o chão é interrompido está uma vírgula. Toda escrita desenha uma linha, que por vezes é padronizada pelos cadernos pautados. A vírgula rompe essa linha e vai residir no subsolo da escrita. Será que o ritmo proposto pela pontuação (vírgula, reticências etc) é que liga o mundo concreto ao subentendido?;Academia I e II temos de novo uma irônica brincadeira com a linguagem. Em Academia I, temos a placa e o texto em preto, apenas o título do trabalho e as palavras com os nomes das figuras geométricas estão em branco. Na Academia II, a placa e o texto estão em branco e os acentos, vírgulas e outros sinais de pontuação estão em destaque, em preto. Ou seja nas duas placas, numa primeira vista, quase não há nada para se ver – a característica da leitura rápida de placas de sinalização comuns foi neutralizada pelo artifício de se dar destaque a elementos não-funcionais. Por outro lado, o texto das placas é extremamente imagético. De sua leitura emergem diversas imagens literárias: associações desconcertantes entre elementos concretos e figuras geométricas em cores primárias, um universo fantasioso vai se configurando. As imagens nessa obra surgem do texto literário se contrapondo com o preto-e-branco-material das placas.;Escultura, 1974 Do lado de fora de uma maleta cheia de tijolos está escrito “escultura”. Será que a palavra diz sobre o que há dentro da maleta? A escultura em questão seria os tijolos? Ou os tijolos serviriam para se construir uma futura escultura? O que é a escultura? A própria maleta?

A obra de Brodthaers nos condiciona a questões importantes na vida e na arte que passarão despercebidas se você não prestar atenção ou preferir encher-se de preconceitos artísticos.Marcel Broodthaers morreu em Colônia, em 1976, aos 52 anos de idade, no auge dos movimentos da arte conceitual e de contracultura.Em apenas 12 anos de percurso nas artes plásticas, realizou exposições individuais em Bruxelas, Paris, Berlim, Düsseldorf, Milão, Amsterdã, Londres, Nova Iorque, Zurique e Los Angeles. Participou da 4a (1968), 5a (1972) e 7a (1982) edições da Documenta de Kassel e das edições de 1976 e 1986 da Bienal de Veneza. No Brasil participou da 22a Bienal Internacional de São Paulocom uma Sala Especial, em 1994, e da exposição coletiva ALÉM DOS PRECONCEITOS: A experiência dos anos sessenta, que reuniu 125 artistas do mundo todo no Paço Imperial – Rio de Janeiro, 2001, e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2002.

O simples pode não ser tão simples assim

Por Clodoaldo Turcato

Quando vamos prepara algo simples, parece simples fazê-lo. Redundância necessária para que o leitor compreenda o que propomos hoje. Tornando ao início, ao se determinar algum quadro, a maioria dos pintores elaboram esquemas, desenhos, projeções, composições e materiais para que sua ideia seja transportada para um suporte. Neste processo se busca um tema, uma concepção que faça o expectador compreender o quadro.  Todo o processo parece complicado e trabalhoso. É o mesmo que compor uma canção. Primeiro a ideia de letra ou melodia, depois cortes, adaptações, ajustes, ensaios, provas para gravar. Essa caminhada é penosa, ás vezes chata, porém necessária.

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De tudo, ao compor algo imagina-se que quanto mais simples melhor de se fazer. Em arte não é bem assim, principalmente em artes plásticas. O objeto simples precisa encantar e encantar de maneira simplificada é uma das especialidades de Pierre Bonnard.

Pierre Bonnard foi um personagem de peso para o nascimento da Arte Moderna e, ao mesmo tempo, um artista cuja obra é profundamente pessoal e difícil de ser classificada. Membro fundador do grupo simbolista dos “nabis“, sua contribuição é fundamental para poder compreender a passagem entre o pós-impressionismo e o simbolismo em um momento no qual a pintura passava por uma revolução radical através da cor. Sob a influência da pintura de Gauguin e da estampa japonesa, Bonnard desenvolveu um estilo próprio, vivaz e realmente original, onde o decorativo convive com um lirismo carregado de melancolia.

Bonnard preferiu ficar à margem das correntes vanguardistas que imperavam na época para dedicar-se ao seu mundo cotidiano. Focou-se em temas da sua vida familiar, nos quais a pintura dominava pouco a pouco a realidade, e em paisagens que mostram uma natureza arcádica, vibrante e luminosa, onde o poder de expressão da cor assume um protagonismo cada vez maior. Bonnard, descrito frequentemente como o pintor da felicidade, afirmou no fim da sua vida, que “Aquele que canta, nem sempre é feliz”. De modo similar, sob a aparência de simplicidade tranquila e de uma alegre harmonia, sua pintura se mostra complexa e cheia de matizes.

Em 1888, quando tinha apenas vinte anos, Pierre Bonnard fundo o grupo dos “nabis”, juntamente com seus colegas da Academia, Julian Denis, Vuillard, Ranson e Sérusier, inspirados pela tábua O talismã pintado pelo último seguindo as orientações de Paul Gauguin. Os integrantes do grupo se autodenominaram profetas (significado da palavra “nabi”, em hebraico). com a intenção de apresentar em suas pinturas uma verdade que ultrapassasse o mundo visível através da exaltação da cor, da simplificação das formas e da transcendência mística e enigmática das suas composições. Em sua aspiração de simplificar as manifestações artísticas até atingir suas formas mais essenciais, os nabis, e principalmente Bonnard, encontraram inspiração na arte japonesa em questões como o abandono da modelagem ilusória do corpo, a renúncia à perspectiva central tradicional e a modificação das leis ocidentais da proporção e do movimento.

Umas das obras que mais se destacam do pintor é A janela aberta um óleo sobre tela medindo 118×96 cm que está no Phillips Collection, em Washington, Estados Unidos. A janela aberta por dentro, a menina adormecida e o gatinho mas se distinguem no tumultuo de cores vividas. O observador é estimulado a entrar e juntar-se a cena, olhando para as árvores mais além, do lado de fora, Bonnard consegue transmitir a atmosfera de calo e tranquilidade do sul da França usando tons vivos e quentes.

Bonnard era conhecido pelos seus interiores, a vida cotidiana e as pinturas “sem tema” específico.O jogo de cores e as formas desengonçadas, nos carregam com um momento único, cordões que nos levam a mesclar olhares num gigantesco enredo em duas dimensões. Em comparação com seus colegas do grupo nabi, Bonnard mostrou ser inimigo das teorias artísticas dominantes e dos assuntos pomposos, preferindo representar em seus quadros sua vida cotidiana. Seus interiores, com ou sem personagens, não descrevem nenhum acontecimento notável, mas fazem referência a grandes temas e sentimentos, como a ternura, a solidão, a falta de comunicação ou o erotismo. Bonnard consegue provocar essas sensações de modo magistral empregando planos muito próximos e, na maioria dos casos, com cortes bruscos, para focar a atenção em um lugar, pessoa ou grupo específico. Apesar da sensação de familiaridade transmitida por esses interiores, as mudanças frequentes de perspectiva e a iluminação artificial reforçam a impressão de que os personagens estão fechados, criando uma atmosfera carregada de mistério.

Um dos temas preferidos de Bonnardfoi a representação do corpo nu no ambiente doméstico, principalmente as cenas na intimidade do asseio da mulher, que podem ser visualizados através de portas e janelas em seus quadros. A maioria desses nus representam Marthe de Méligny -amante de Bonnard desde 1893 e com a qual acabou se casando em 1925, embora também tenha usado como modelos outras mulheres que representam seu ideal feminino: corpo miúdo, pele clara, seios altos e rosto indefinido.

Os nus de Bonnard permitem contemplar a evolução do artista, desde seus trabalhos mais escuros e eróticos na mudança do século {L’lndolente ou L’hommeetlafemme) até a explosão de luz e cor produzida em sua obra posterior (Nu dansunintérieur), passando por outras que transmitem um erotismo extinguido, entre as quais estão as cenas no banheiro, nas quais o corpo lânguido de Marthe é diluído pelas cores e a que atravessam a água (Le Bain).

Bonnard considerou sempre que era um pintor decorativo, dedicando, portanto, parte da sua produto a criar painéis para decorar o mural de casas. Nessas obras, Bonnard representou um mundo arcádico e feliz, harmonioso e pacífico, onde personagens contemporâneos e seres mitológicos aparecem em total sintonia com a natureza. Para isso, usou a luz e a paisagem de Vernon e de Le Cannet como inspiração. Assim sendo, a pintura monumental da Arcádia de Bonnard expressa uma alegria de viver e a exaltação de gozo que, às vezes, são atenuadas por certa angústia existencial. Nessas obras, o poder de expressão da cor assumiu um papel relevante em especial, onde Bonnard inquietações formais também em grande formato, parecido aos seus quadros de tamanho médio.Embora seus modelos e cenários sempre estivessem à mão, Bonnard raramente pintava diretamente do natural. Ao contrário, costumava fazer desenhos e pinturas aquarelas nas páginas de pequenos diários e contava com eles, bem como com sua memória, para fazer as pinturas no estúdio. Portanto, para Bonnard, o desenho representava um meio de pensamento e uma parte essencial da sua criação. A seleção de desenhos mostrada na exposição abrange diferentes fases e facetas da criação Bonnard, desde desenhos para projetos de decoração até rápidos esboços da vida moderna, passando por paisagens mortas feitas em guache e aquarela que representam verdadeiros estudos de cores as cenas de interior.

Do mesmo modo que muitos dos seus contemporâneos, Bonnard sentiu-se atraído pelas possibilidades que a fotografia, então em pleno auge, lhe oferecia. No começo da década de 1890, adquiriu uma das primeiras câmeras portáteis fáceis de usar. Suas primeiras fotografias documentam momentos comuns da vida em família, principalmente os períodos de férias na chácara da família em Grand-Lemps, que não tinham nenhuma intenção a mais do que formar um álbum de lembranças.Entretanto, descobriu logo o papel que as fotografias poderia desempenhar para sua pintura, porque ofereciam modelos com poses escolhidas ou espontâneas, e sua imediatez e imaginação de composição aparecem representadas em muitos dos seus quadros. Suas séries de fotografias de Marthe nua sobas plantas do jardim de Montval e dentro da casa são especialmente impactantes.

Estar com um quadro de Bonnard traz uma sensação de que a beleza pode ser simples, no entanto necessita de um conjunto de elementos para que o resultado final seja ideal. O simples, pode não ser tão simples assim.

Um pintor apenas

Por Clodoaldo Turcato

Ao que se aprofunda em arte, como em tudo na vida, vai esmiuçando cada vez mais e aumentando as classificações. Então, se no início você entende as grandes escolas de arte, depois de algum tempo vai descobrir intervalos não menos interessantes e artistas que não se encaixariam em nenhuma escola ou em várias. Eu, particularmente, não gosto muito destas classificações. Afinal, qualquer artista pode transitar em vários estilos e fazer uma construção ampla de experimentos que não fixam, moldam e muito menos prendem. Não se pode encher o peito e falar que é modernista, romântico, barroco, renascentista, etc. Depois do advento da fotografia e a revolução impressionista, o conceito de arte se ampliou a tal por que temos dificuldades em nos situar. É importante estar aberto para o novo, visualizar sem preconceitos e formular estudos para que a comparação seja apenas acadêmica, sem amarras. Um dos grandes artistas mundiais que é inclassificável chama-se David Bomberg.

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David Bomberg nasceu em Birmingham, Inglaterra, em 1890 e era filho de imigrantes poloneses. Em suas obras utilizava formas angulares e semi-abstratas. Com esses trabalhos o artista demonstrava toda a vitalidade que dominava o povo no início do século XX e a agitação que as máquinas estavam trazendo para a sociedade o que passou a modificar muito os costumes da população. Foi um dos mais audaciosos da geração excepcional de artistas que estudaram na Slade School of Art sob Henry Tonks e que incluiu Mark Gertler , Stanley Spencer , CRW Nevinson e Dora Carrington . Bomberg pintou uma série de composições geométricas complexas combinando as influências do cubismo e futurismo nos anos imediatamente anteriores a Primeira Guerra Mundial ; Tipicamente usando um número limitado de cores impressionantes, transformando os seres humanos em formas simples e angulares, e às vezes superpondo a pintura inteira, um forte esquema de coloração de trabalho em grade. Ele foi expulso da Escola Slade de Arte em 1913, com acordo entre os professores seniores Tonks, Frederick Brown e Philip Wilson Steer , por causa da audácia de sua violação da abordagem convencional da época.

Seja por sua fé na era da máquina ter sido quebrada por suas experiências como soldado particular nas trincheiras ou por causa da atitude retrógrada generalizada em relação ao modernismo na Grã-Bretanha Bomberg mudou-se para um estilo mais figurativo na década de 1920 e seu trabalho tornou-se cada vez mais dominado por retratos E paisagens tiradas da natureza. Desenvolvendo gradualmente uma técnica mais expressiva,ele percorreu muito o Oriente Médio e a Europa.De 1945 a 1953, trabalhou como professor na Universidade Politécnica de Borough (agora London South Bank University ) em Londres, onde seus alunos incluíram Frank Auerbach , Leon Kossoff , Philip Holmes, Cliff Holden , Dorothy Mead, Gustav Metzger , Dennis Creffield Cecil Bailey e Miles Richmond . David Bomberg House , um dos salões de estudantes das residências da London South Bank University, é nomeado em sua homenagem.

Uma de suas obras que sintetizam boa parte de seu trabalho é O Banho de Lama, um Óleo sobre tela medindo 152,5 x 224 cm, que está na Tate Gallery de Londres, Inglaterra. De início o quadro pode parecer totalmente abstrato. Na verdade, ele mostra uma sauna usada pela comunidade judaica de Whitechapel, em Londres.Figuras azuis e brancas se acotovelam e pelam no retângulo vermelho da sauna, se atirando em volta do pilar escuro. A peça é brilhante pela composição e distribuição de formar num espaço e saltitam aos nossos olhos nos atirando as formar sensuais das formadoras do quadro. A forma como Bomberg reduz a figura humana a uma série de formas geométricas pode refletir seu fascínio pela era da máquina, que ele compartilhou com os Futuristas e Vorticistas. Esta pintura também pode representar a forma humana, despojada de seu núcleo essencial.

O excelente desenho de Bombergfoi expressado também em uma série de retratos aolongo da vida, desde o início de seu “Cabeça de Poeta” de Botticelli (1913)z, um retrato de lápis de seu amigo, o poeta Isaac Rosenberg, pelo qual ganhou o Prêmio Henry Tonks No Slade , ao seu “Último Auto-Retrato” (1956), pintado em Ronda, uma meditação também sobre Rembrandt . Incapaz de obter uma posição docente após a Segunda Guerra Mundial em qualquer das mais prestigiadas escolas de arte de Londres, Bomberg tornou-se o professor mais exemplar do período imediato de pós-guerra na Grã-Bretanha, trabalhando a tempo parcial em uma escola de padaria no Borough Polytechnic (agora London South Bank University ) no distrito da classe trabalhadora da Southwark. Embora seus alunos não tenham recebido nenhum diploma e não tenham recebido nenhum diploma, ele atraiu alunos dedicados e altamente enérgicos, com quem exibiu em igualdade em Londres, Oxford e Cambridge em dois importantes grupos de artistas em que ele era a luz principal, o BoroughGroup e BoroughBottega . Desenvolveu uma filosofia de arte profundamente considerada,

Após um colapso em Ronda ,Bomberg morreu em Londres em 1957, seu estoque crítico aumentando bruscamente depois disso. Um dos admiradores de Bomberg, o pintor Patrick Swift , desenterrado e editado pensées de Bomberg, e mais tarde foi para publicá-los, juntamente com imagens do trabalho de Bomberg, como ‘The Bomberg Papers’ em seu ‘ X revista (Junho de 1960). Após o seu sucesso inicial antes da Primeira Guerra Mundial, ele foi na sua vida o artista mais brutalmente excluído na Grã-Bretanha. Tendo vivido há anos sobre os ganhos de sua segunda esposa, companheira Lilian Holt e remessas de sua irmã Kitty, ele morreu na pobreza absoluta. Seguindo a sina de muitos grandes artistas, Bomberg foi reconhecido postumamente e hoje seus quadros são leiloados por milhões de dólares.

O reconhecimento póstuma de Bomberg se justifica dado a grandiosidade de seus quadros. É uma arte diferente, desencontrada que se encontra em traços e cores. Um pirilampo que nos leva a passear nossos olhos por todos os cantos da tela e nos tira da mesmice, enaltecendo a beleza e a candura. Não importuna e não incomoda ver um quadro de Bomberg. Ao contrário, nossa alma é talhada, agraciada e refeita. O artista não era abstrato somente, não era modernista, cubista ou qualquer outra classificação. Bombergera um pintor e fim.
Outras obras do artista são A igreja do Santo Sepulcro, Lilian, Ju-Jitsu, Flores e Racerhorses.

Uma interpretação da vida em linhas cheias

Por Clodoaldo Turcato

Quando iniciamos o estudo de arte tudo nos parece muito parecido. Vamos iniciar por aqueles quadros mais figurativos, renascentistas e “difíceis” de pintar. Nossa concepção se aproxima da fotografia e por isso é comum que se diga “este é um grande artista, ele sabe mesmo desenhar”. O desenho é, para iniciantes, o fundamental, o crucial em qualquer obra de arte. Quando vi pela primeira vez O Retrato de Sylvete David 1 , pintado por Pablo Picasso, e o Auto Retrato de Piet Mondrian, não contive o riso. “Isso é o retrato?!”, foi minha primeira reação. Sim, eramdois grandes quadros. Esta concepção de grande só tenho hoje depois de compreender mais a arte, ver os conceitos e perscrutar a beleza das pinturas.

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Este afinamento artístico me oportunizou conhecer o traço de muitos artistas. Isto significa que depois de certo tempo, o estudante vai olhar para uma tela e definir sem medo o autor. Com tempo e dedicação se entenderá um Pollock ou um Da Vinci, um retrato de Kandinsky ou de Vermeer.De tudo, alguns artistas facilitam este reconhecimento imediato, pelo traço, uso de cores, temas ou modos. É muito mais fácil reconhecer um pintor da escola cubista do que da renascença italiana, por exemplo. Um dos traços reconhecíveis de imediato é do Colombiano Fernando Botero.

Botero se consagrou mundialmente com seus personagens volumosos, tanto em suas pinturas como em suas esculturas. Nasceu em Medellin, Colômbia, no dia 19 de abril de 1932. Com 15 anos de idade começou a vender seus primeiros desenhos. Em 1948 trabalhou como ilustrador para o jornal O Colombiano. Em 1950 graduou-se no Liceu San José de Marinilla. Em 1951 mudou-se para Bogotá onde realizou sua primeira exposição.movimento, assumindo a característica de vida humana estática. De natureza humorística à primeira vista, as pinturas de Botero são geralmente um comentário social com toques políticos.O artista Fernando Botero é um dos observadores mais agudos da conjuntura colombiana e é interessante notar os dois traços mais salientes de quase toda a sua obra: suas figuras são gordas e têm a boca fechada. Parecem pessoas bem enredadas em sistemas de clientelismo, no qual recebem comida em troca de seu silêncio.Para este artista a cor é fundamental nos seus quadros porque ilumina a pintura. Nos seus quadros somente existe a forma e a cor interior também procura sempre uma certa monumentalidade.

Uma das obras mais impressionista é Nossa Senhora de Cajica, um óleo sobre tela medindo 234,4 X 181,8. A imagem universal da Madona retratada aqui como uma figura rotunda, inflada, em seu estilo característico. Ele deu monumentalidade à mãe de Cristo contrastando-a com as minúsculas personagens que espreitam das nuvens. Além disso, a serpente na parte de baixo do quadro é invisivelmente longa, de modo a enfatizar a amplidão da figura. A obra parece satirizar as Madonas criadas até então, porém com extrema beleza e particularidades.

A obra de Botero pode ser dividida em diversos temas e modelos, porém tem componentes perceptíveis como As naturezas mortas e retratos de frutas de Botero são curiosos por trazer o volume clássico de seu estilo em formas não-humanas. Peras rechonchudas, melancias gigantescas, até as facas são mais arredondadas que de costume; Sensualidade  as formas das mulheres de Botero em todo seu esplendor. Elas mostram suas formas e opulência com certo recato, ocultando um seio ou o sexo, mas ainda assim oferecendo ao espectador a firmeza de sua carne, o olhar lânguido e ausente, a textura suave da tela ou a lisura arredondada do bronze.O fato do artista não usar muito contraste e evitar a marca do pincel nas pinturas ajuda a construir uma aura esfumaçada, quase entorpecida para o observador, com o circo um lado mais lúdico de Botero, que retrata figuras do cotidiano circense. As cores vibrantes usualmente empregadas ajudam a traduzir a alegria e festividade desse ambiente, mas, em contraste, podemos reparar em expressões plácidas, quase tristes das figuras pintadas. Isto enfatiza o lado humano e individual dos personagens: um palhaço em repouso, sem um sorriso no rosto; uma trapezista concentrada em sua acrobacia aérea; Costumes latino-americanos, Botero gosta de traduzir sua influência renascentista nos costumes do povo latino-americano. Cores fortes, toureiros, siestas e o dia-a-dia colombiano são muito importantes na composição de sua obra, apesar de dividir seu tempo principalmente entre três ateliês em cidades diferentes: Paris, Nova York e Toscana.Críticas sociais muitas vezes entram em seus trabalhos, às vezes de forma discreta e outras vezes abertamente, como a série de desenhos de 2004 retratando a violência dos cartéis de droga colombianos; as releituras como sua versão para a Monalisa, de Leonardo da Vinci, mas o pintor também já fez algumas versões de outros quatros famosos como a releitura de Jan van Eyck, O Casal Arnolfini, como também do quadro Card Players, de Cézanne, em que acrescenta uma mulher nua e até de um Papa (papa Leo X), depois da pintura de Raphael em uma versão rechonchuda e apática, entre outros; e por fim, as esculturas que mantendo seu estilo de utilizar volumes, neste caso ele usa das formas em 3d, no espaço, para retratar sua visão das pessoas e dos costumes. Sua crítica a arte atual, sempre mordaz, também se reflete em suas obras.

Botero é um tipo de artista que nos envolve em suas formas rechonchudas, sem que deixe de modelar nosso conceito, diferindo da caricatura. Não pinta pessoas gordas, as pessoas gordas refletem apenas uma preocupação estética e possui uma função estilística. O artista é atuante, mantém vários ateliês pelo mundo e obras espalhadas por todos os continentes, além de ser um dos poucos artistas latino-americanos a constar em livros e estudos de arte.