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Eu nunca fui feminista

Por Clodoaldo Turcato

20938658_1381500245281404_785749661_nQuando fui convidado pelo querido Adriano Portela para escrever esta coluna de arte, aceitei de pronto, pois entendia que faltava alguém que escrevesse de maneira simples e até coloquial sobre artes plásticas. Todos os escritos que se vê sobre arte às vezes mais embrulham do que destrincham. Os críticos partem para o lado teórico e a pessoa que busca compreender uma obra de arte, principalmente abstrata, fica perdido em palavras e conceitos.

A proposta era escrever para que quem lesse compreendesse obras de Jackson Pollock e desmistificasse a ideia de que aquilo era apenas tinta jogada na tela, ou que O quadro negro de Kazimir Malevichnão passe duma aberração artística, uma galhofa de dois quadrados que qualquer pessoa com um mínimo de coordenação motora faria. Enfim, o objetivo desta coluna, que irá completar três anos, sendo publicada todas as segundas-feiras (com raras exceções de esquivo) é desenrolar este bicho feio chamado arte plástica e expor os reais motivos da eterna pergunta “por que aquele quadro de Pablo Picasso é tão estimado?”

Não sei se respondemos isso ainda.

De qualquer maneira, neste caminho intensificamos os estudos, buscamos referências, artistas, museus, galerias e sites e muitos livros para reforçar os argumentos. Simplificar arte não é fácil. Para isso é fundamental se aprofundar, digladiarmos com conceitos, argumentos, teses e depois transformar tudo em compreensível para o leigo ou leiga.  Neste percurso intelectual, comprovei um processo enfadonho, cruel e mesquinho que sempre excluiu a mulher artista.

No passado, existia ainda mais dificuldade para as mulheres que desejavam seguir o caminho da criação, pois, além de a sociedade ser completamente machista, com a mulher tendo seu papel enclausurado no lar, sem trabalhar, havia outras complicações. Em algumas épocas, escolas de arte que aceitavam garotas eram poucas, e as que aceitavam cobravam mais delas do que deles. Também, seria mal visto uma artista desenhar a partir de um modelo nu masculino, importante para o aprendizado da anatomia do homem, além de ser também um problema ficarem horas sozinhas com um homem que deveria ser retratado, por exemplo. Se esmiuçarmos os livros de arte deste período iremos encontrar Sofosniba Anguissola e duzentos anos depois Artemisia Gentileschi, artistas que tiveram reconhecimento, no entanto vidas privadas tumultuadas, já que pintar era ofício de homem. No entanto, é abundante o nome de artistas homens que se descrevem nestes manuais, como maravilhosos, exuberantes, gênios e tal. Para as mulheres sobram as migalhas de “mesmo sendo mulher ela conseguiu ser artista” .

Ao chegarmos ao impressionismo e expressionismo, oriundos de países ditos libertários e libertinos como a França, a mulher artista sempre esteve abaixo do homem pintor. Grandes são Claude Monet, Paul Cézanne, Edgar Degas, Pierre-August-Renoir, Camille Pissaro e Henri Matisse.  Berthe Morisot, Mary Cassatt, Eva Gonzalès e Lila Cabot Perry, dentre outras, são citadas mais como namoradas, amigas, amantes e conhecidas ou alunas de homens que pela própria obra em si.

No Brasil, o movimento da Semana de Arte Moderna de 1922, tida como revolucionária, uma proposta nova de ver arte e principalmente quebrar os conceitos da tradicional família brasileira, expôs poucas mulheres, como Pagu, Anita Malfati, Tarcila do Amaral e Elsie Houston, sempre com a entonação de quase piedade, como algo raro e espetacular, uma sensação de que por trás de grandes obras como Tropical e O Àbaporú, estaria um macaco adestrado.

Na noite de 17 de agosto, estive no Instituto de Arte Contemporânea, no Bairro do Benfica, participando do lançamento do livro De Sinhá prendada a artista visual, um projeto coordenado pela Doutora Madalena Zacarra, com as pesquisadoras Bárbara Collier, Marluce Carvalho e XavanaCelesnahe produzida pelo artista Itamar Morgado, com apoio do Funcultura. O livro reúne 87 perfis – que compreendem dados biográficos, cronologia, acervo de crítica sobre a obra e comentário – de artistas que viveram no Estado entre 1900 e 2016. Além disso, 118 outras criadoras tiveram seus dados registrados, pois não foram encontrados dados suficientes para um perfil completo. O que me impressionou neste trabalho, além da qualidade inquestionável do trabalho em sim, foi o grande número de trabalhos “esquecidos” ou maquiados por uma sociedade paternalista, parcial e apoiada em conceitos machistas.

Eu, no início citei que precisei estudar para escrever, ou simplificar. De tudo, e todos meus apanhados, pouco ou nada ouvira de Fedora Rego Monteiro, aceita em grandes salões da Europa e pouco valorizada no Brasil e Recife onde nasceu e morreu.  Menos vi de Maria Francelina que ousou pintar temas fora da mitologia ou religião e com seu belo Modelo em Repouso escancara sua técnica maravilhosa. Tantas vezes me maravilhei com o belo Vitral da Biblioteca Central da UFPE, sem saber, ou querer saber, que se tratava de uma criação de Aurora de Lima.

Sem um trabalho como este, como sabería de Marianne Peretti, Lenira Regueira ou Teresa Costa Rêgo?  Temos o privilégio de compreender mais de Isa do Amparo, Janete Costa e Ana Ivo. Como é bom ver as cores de Margot Monteiro e a singeleza de Suzana Azevedo, além da expressividade de Ana Santiago. Somente uma pesquisa refinada como essa tem condições de revolver o passado e expor o presente da criação artística da mulher pernambucana. Expor a mulher sem medos, como faz Bárbara Collier e Barbabra Rodrigues e que isso fique registrado para posteridade, é necessário, fundamental para a memória, o futuro dos estudiosos e apreciadores de arte e principalmente para compreender o processo de evolução da sociedade, com todas as mazelas sofridas pela mulher artista ou não.

Convido as leitoras e leitores a terem este livro em suas mãos. É um passeio itinerante pela história da arte, com conceito, profissionalismo, e mesmo sendo um livro criado por mulheres feministas, não levanta esta bandeira, apenas expõe a dura realidade destas mulheres nascidas para cama e mesa, que resolveram buscar seu lugar e o fazem sem meias verdades ou sombras. Elas são artistas e fim. O trabalho de ontem e de hoje cá está, o gosto pessoal e a extensão deles não cabe discutir hoje. O livro é o nosso objeto. As produções e suas artistas precisam ser registradas e ovacionadas. O passado e o presente refletem o quanto fomos e ainda precisamos evoluir na busca urgente de soluções que não escondam estas memórias.

Confesso que esta coluna não me tornará mais ou menos feminista. Não sou! Este livro me faz rever métodos e procurar melhor neste palheiro que o preconceito insiste em esconder. Talvez ao final da leitura deste trabalho eu me torne um estudante melhor, mais capacitado e encontre na Sereia de Cláudia Santos o verdadeiro conceito do ser homem, sem ser machista. 

O incrédulo Tomé, um quadro pintado por anjos e Caravaggio

Por Clodoaldo Turcato

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Algumas obras de arte são míticas. Já se falou demais em Monalisa e teorias surgem todos os anos, sem que se saiba exatamente o que o pintor Italiano pensava naquele momento em que tinha Gioconda diante de seus olhos. Eu, mais um “teorista”, imagino que ele estaria apenas testando um novo experimento e o fato de ter criado Monalisa foi um acaso, que poderia ter sido repassado a obras como um gato, um cão, um pássaro… enfim, um contexto de claro e escuro, composição e temática tão comum a Da Vinci.

De qualquer maneira, Monalisa impressiona pela técnica, mesmo que a maioria dos que sabem do quadro não compreenda o porquê de tanta fama se é “apenas uma mulher sorrindo.” Não é isso, e comentamos sobre isso noutros textos – Não irei me repetir. Algumas outras obras são tão impressionantes quanto, e vou escrever sobre uma delas hoje, que ao meu primeiro olhar me deixou estupefato.

Aos que me classificam como modernista ou “um cara que gosta apenas dos quadros fáceis de pintar”, este texto vai demostrar que sigo com coerência minhas observações: eu não gosto de arte fácil de pintar. Eu gosto de arte. Eu tento entender a arte e não sou modernista, sou um crítico que procura o mérito sempre em detrimento do demérito. Portanto, um quadro sendo bom vai me encantar sempre. Um dos maiores mestre de todos os tempos foi Michelangelo Merisi ou Amerighi, conhecido como Caravaggio. Sua morte desgraçada ou sua suposta homossexualidade (isso em nossos tempos) são temas recorrentes. Vejam os senhores. Que pena que seja a desgraça o primordial em alguns críticos. E sua obra? E os quadros? Caravagio foi escolhido o maior pintor de Roma, isso em tempos de Rubens. Ele foi o mestre maior do Barroco e dono de uma técnica inconfundível, superior, divina.

Esta impressionante técnica foi demostrada em sua obra O incrédulo Tomé, um Óleo sobre tela medindo 107×146 cm, que está em Potsdam, Berlim, Alemanha. Depois da crucificação, São Tomé toca as feridas de Cristo para ver se são reais. As cabeças de Jesus e dos três Apóstolos são o foco da composição. O momento é intenso – os apóstolos olham por cima de São Tomé, que, com a testa muito franzida, mergulha o dedo no flanco de Jesus. O impacto deste detalhe chocantemente realista e ampliado pela luze sombras intensas.

A tela pintada por Caravaggio volta de 1601, por encomenda do Marchese Vincenzo Giustiniani, para a galeria de pinturas de seu palácio, conforme consta em: “A vida dos escultores pintores e arquitetos” de Giovan Pietro Bellori, publicado em 1672, em Roma, e também por muitos documentos que se relacionam com o inventário. Caravaggio constrói a pintura através de uma estrutura simples que, a essencialidade da cena aponta direto para o coração da narrativa evangélica. Cristo é cercado por três apóstolos, incluindo Pedro, por trás, e os outros dois na posição mais alta, e Tomé, que assustou, ao se deixar levar pelo próprio Cristo e colocá-lo na ferida em seu lado. Jesus é representado com uma tez mais clara do que o grupo de apóstolos, criando, assim, um forte contraste cromático que resultaria na narrativa; para levar os fiéis a um envolvimento direto na ação, fazendo presente do que está acontecendo debaixo de seus olhos, e para enfatizar a fisicalidade do Cristo ressuscitado como o texto do Evangelho descreve.

Os três apóstolos de sobrancelhas franzidas espontaneamente (curvas salientes) perante o mistério da Ressurreição, seus olhos e bocas estão de alerta e abertos sem uma palavra, como que petrificados; ‘um retrato do momento em que são pegos de surpresa’; diferencia a atitude psicológica de Tomé, que tem os olhos arregalados e perdeu com o olhar atônito para o abismo do que ocorre na sua frente. Jesus, inclinando a cabeça, com a mão direita desvia suavemente capa, mostrando a ferida no lado ainda em aberto e com a mão direita do apóstolo, introduzindo o dedo trêmulo de Tomé na ferida em seu lado; seu rosto parece sugerir uma expressão de dor imperceptível enquanto acompanhava o gesto que realiza com a mão de Tomé. O dedo de Tomé mergulha na carne de Jesus; a mão áspera com unhas sujas de seu trabalho diário, é a mão de todos os que são chamados por fé para crer em Cristo. O ceticismo derrete na maravilha; olhos estão bem abertos na frente dessas feridas e a boca tremendo gagueja em uma voz fraca: “Meu Senhor e meu Deus!”.

A pintura de Carravaggio apresenta uma das questões centrais do Barrico – o questionamento do pensamento religioso e, por consequência, o questionamento da existência de Deus. Tomé precisa ver para crer, assim como o homem barroco, que não aceitava mais silenciosamente os preceitos católicos, como o homem medieval. A dúvida de Tomé, metaforicamente, representa a dúvida do homem renascentista dia da perspectiva do pensamento vigente: na arte barroca, há uma tensão que nasce da tentativa de fundir visões opostas – perspectiva de antropocêntrica, herdada do Renascimento, e a teocêntrica, resgatada pela Contrarreforma, como fica evidente na dúvida demostrada por São Tomé. Tomé precisa primeiro se certificar, colocar o dedo na ferida e depois acreditar.

Caravaggio foi um criador de um movimento sozinho. Ao contrário do que se poderia imaginar, aproveita seu papel como artista “sacro” para desacreditar a própria religião. Poucos percebem que em obras como Judite e a decapitaçãoHolofernes, Salomé com a Cabeça de São João Batista, Medusa, Cristo na coluna, Flagelização de Cristo, Narciso, Cristo coroado com espinhos, David com a cabeça de Golias, A decapitação de São João Batista, A negação de Pedro, O sacrifício de Isac, Baco doente e O descanso em viagem ao Egito (onde usou prostitutas como modelo), o artista se utiliza de duetos,  formas metafóricas para demostrar sua descrença em religiões e tudo aquilo que não pode constatar.

Depois de parar para refletir em tudo isso, o leitor ou leitora, irá perceber que não tinha visto isso. Então percebam que tantas vezes não vemos o que está diante de nosso nariz por pura preguiça ou preconceito. Mesmo desatento, uma obra de Caravaggio deixará sua marca em qualquer espectador. Não se trata apenas de crer ou não em Deus. Isso é irrelevante. Se tratar de olhar a obra, entrar no quadro e sentir as emoções de seus componentes. Isso poucos quadros conseguem. O quadro O Incrédulo Tomé é um caso.

A arte do sonho aflito

Por Clodoaldo Turcato

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Um sentimento incomoda. Um estado de visagem. Pequenos fragmentos do sono. Sonho. Irreal, extrema sensação de aflição. Isso pode acontecer num quadro? Pode, claro que pode. Alguns pintores conseguem nos fazer sentir sensações extremas, calos na alma ou simplesmente nos forçam a olhar para o lado. Um dos pintores que mais me arrepia e me condiciona a sentimentos estranhos é Mar Chagall.

Seu nome era Moïshe Zakharovich Shagalov nasceu em 7 de julho de 1887 em uma família pobre, de dez filhos, na cidade Vitebsk, Rússia. Sua iniciação no universo das artes plásticas ocorreu em sua própria terra natal, no ateliê de um célebre pintor de retratos local. Dele Marc herdou tanto o ofício da pintura, quanto o prazer estético e a inclinação para expressar sua vocação artística.

Em 1908 ele entrou na Academia de Arte de São Petersburgo, daí partindo para Paris, o centro da cultura e da arte. Antes disso, porém, em uma passagem por sua aldeia, conheceu Bella, com quem mais tarde se casaria, retratando sua musa em 1909.Um ano depois já se encontrava na capital francesa, ao lado de Blaise Cendrars, que batizaria grande parte de suas obras, de Max Jacob e Apollinaire, bem como dos pintores Delaunay, Modigliani e La Fresnay.Na cidade-luz ele conheceu todas as nuances da arte moderna e das vanguardas, lutando para encontrar um espaço para suas miragens oníricas no universo de fauvistas e de cubistas.

Neste contexto em que imperava um sistema filosófico que valorizava apenas a forma, marcado também pela abstração, sua obra se distinguia pela presença do conteúdo temático surreal, o qual revela suas origens nas esferas emocionais e culturais do pintor.

Guilhaume Apollinaire escolheu as telas de Chagall para a exposição que realizou em 1914, em Berlim, na galeria Der Sturm. Essa exposição teve grande influência sobre o expressionismo de pós-guerra.

De volta à Rússia, quando explode a Primeira Guerra Mundial, Chagall é mobilizado, contrariando estas diretrizes, ele permanece em São Petersburgo, casando-se com Bella, seu grande amor, em 1915.Após o desabrochar da Revolução Socialista de 1917 o artista alcança o posto de comissário de belas-artes, no governo de Vitebsk, sua aldeia natal. Ele institui então sua própria escola artística, livre para incluir qualquer inclinação modernista; ao mesmo tempo ele cria murais para o teatro judaico de uma escola local.

Voltando para Paris, em 1922, reconhecido e recebido como grande pintor, ele atende a uma encomenda empreendida pelo editor Ambroise Vollard, ilustrando o Livro Sagrado e realizando 96 gravuras para um exemplar do livro Almas Mortas, do escritor Gogol, o qual só seria lançado em 1949. Uma versão das Fábulas de La Fontaine foi também ilustrada por Chagall, em 1927. Sua etapa paisagística, marcada pela temática das flores, pertence a este período.

A partir de 1935, o clima de perseguição e de guerra repercute em sua pintura, nas quais surgem elementos dramáticos, sociais e religiosos.Em 1941, parte para os EUA, onde sua esposa falece em 1944. Chagall mergulha, então, em um mundo de evocações, quando conclui o quadro “Em torno dela”, que se tornou uma síntese de todos os seus temas.

Uma das obras que resume o conceito de Chagall é Sobre a cidade, um óleo sobre tela medindo 400×200 cm. Acima de uma cidade construída por simples casas de madeira e celeiros, duas figurasfantásticas coam pelo céu. A mão do homem gentilmente aconchega o peito da mulher. Eles parecem amantes e talvez estejam fugindo. A cidade exótica e ingenuamente composta, pintada em blocos de cor, com bonitas cercas de madeira e tons quentes, mostra o interesse de Chagall por contos de fadas. Muito da imagística do artista russo tem raízes no folclore judaico de sua infância. O quadro nos dá a sensação de fuga e ao mesmo tempo de superioridade sobre a pequena cidadela, que aparentemente dorme enquanto o casal passa sem destino, olhando para trás, temendo a perseguição – angústia.

No âmbito da arte contemporânea, marcada pelo formalismo e a abstração, a pintura de Chagall se destaca pela importância que tem nela o elemento temático, de fundo onírico, que, por sua vez, reflete as profundas raízes afetivas e culturais do artista. Sua obra, moderna, assimilou todas as conquistas formais da arte contemporânea.Com o final da guerra, ele volta de vez para a França, e neste país ele elabora as famosas pinturas dos vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.Nos anos 50 Chagall viaja várias vezes para Israel, atendendo a diversas encomendas. Seus vitrais e mosaicos também se tornaram célebres, e pode-se dizer que ele demonstrou igual cuidado com a cerâmica.Em 1957, a 4ª Bienal de São Paulo dedicou uma sala especial às obras de Chagall.

Em 1973, como uma homenagem ao artista, foi aberto o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, em Nice, cidade francesa. Quatro anos depois o Estado francês entregou-lhe a Grã-cruz da Legião de Honra.Ele morreu em Saint-Paul-de-Vence, cidade do sul da França, no dia 28 de março de 1985, como um dos maiores e mais famosos pintores do século XX.

Chagall desperta de maneira zombeteira os nossos mais profundos medos, repassando em nosso cotidiano o sonho do mundo onde a sensação predomina. Não é belo nem feio, e nem pretende ser um dos dois. Chagall é cirúrgico quando nos afeta.

Outras obras do pintor são Eu e a princesa, O prometido, A chuva, Maternidade, Maria cortando o pão e O violinista verde.

A desconstrução de uma obra de arte faz bem

Por Clodoaldo Turcato

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Ao se iniciar em pintura, o aluno sempre busca a perfeição. Obras como de Leonardo Da Vinci, Canaletto, Caravaggio e Rubens são referências. O desenho é concebido para que depois se dê a forma e a expressão, tentando a conclusão sem defeitos. Isso passa e na vida cotidiana, aquela em que não se obtém mais do que experimentações, desvios e entornos, o artista busca originalidade, fugir de conceitos que dissecou numa escola de artes, por exemplo. Está tentativa de desamarrar-se é tão forte que muito se atiram em devaneios e loucuras artísticas que geram grandes obras, escolas diferentes e principalmente um retorno a originalidade inicial, desconstruindo tudo que estudou, se opondo ao pensamento vigente trilhando seu próprio caminho. Assim surgiu o expressionismo, o abstrato e o futurismo, dentre outros movimentos interessantes por ser contrário, sem nunca deixar de ser arte. Um destes representantes é o Italiano Carlo Carrà. Carrà foi um pintor italiano e uma das principais figuras do movimento futurista que floresceu na Itália durante o início do século XX.  Além pintar, ele escreveu uma série de livros sobre arte e lecionou por muitos anos em Milão. Participou em diversas edições da Bienal de Arte de São Paulo, Brasil.Aos 12 anos, Carrà saiu de casa, para trabalhar como um pintor de murais. Em 1899-1900, Carrà esteve em Paris decorando pavilhões na Exposição Universelle, onde se familiarizou com a arte francesa contemporânea. Passou alguns meses em Londres em contato com anarquistas italianos exilados e voltou para Milão em 1901. Em 1906, matriculou-se na Accademia di Brera.Em 1910 assinou, junto com Umberto Boccioni, Luigi Russolo, Giacomo Balla e Gino Severini, o Manifesto de Pintores Futuristas, e iniciou uma fase de pintura que se tornou sua mais popular e influente. Os futuristas queriam que suas pinturas expressassem a energia e velocidade da vida moderna. A fase Futurista de Carrà terminou em torno da Primeira Guerra Mundial. Sua obra, enquanto ainda estava usando alguns conceitos futuristas, começou a lidar de forma mais clara com forma e quietude, ao invés de movimento e sentimento. Inspirado na pintura de Trecento, na arte infantil e no trabalho de Henri Rousseau, Carrà logo começou a criar naturezas mortas num estilo simplificado que enfatizava a realidade dos objetos comuns. m 1917 ele conheceu Giorgio de Chirico em Ferrara, e trabalhou com ele lá por várias semanas. Influenciado por de Chirico, Carrà começou a incluir imagens de manequim em suas pinturas. Os dois artistas foram os inovadores de um estilo que eles chamaram de “pintura metafísica”, considerada uma precursora do Surrealismo. Um estilo que, um pouco como o de René Magritte, é rica em mistério evocativo apesar do caráter simples da representação. Enquanto o futurismo rejeitava firmemente o passado, a pintura metafísica tinha uma nostalgia pela agora esquecida grandeza clássica da Itália como uma influência importante em sua arte.Em 1919, a fase metafísica de Carrà deu lugar a um arcaísmo inspirado nas obras de Giotto, a quem ele admirava como “o artista cujas formas estão mais próximas de nossa maneira de conceber a construção de corpos no espaço”. Ao longo dos anos 1920 e 1930, ele se concentrou principalmente na pintura de paisagens e desenvolveu um estilo mais atmosférico. O que se percebe em Carrà é sua dinâmico no trânsito de vários estilos e a capacidade de adaptar-se rapidamente, o que para muitos pode parecer uma constante mudança de ideias. Uma de suas obras mais celebres é A musa metafísica, um óleo sobre tela medindo 89×658 cm que está na Pinacoteca di Brera, em Milão, Itália. Num aposento de teto baixo, a personagem principal é a figura de gesso de uma jogadora de tênis com a cabeça de manequim. Ela está de pé perto de um mapa de Trieste e da Ístria; ao fundo, um cone geométrico de cores vivas está com o lado de uma tela pintada com fábricas. Essas imagens oníricas, reunidas sem lógica aparente são curiosamente perturbadoras e vinculam o quadro à escola de pintura metafísica, fundada por Carrà e Giorgio de Chirico. A pintura permeia todo o conceito do movimento, usando imagens desconexas, aparentemente, sem sentido, que incomodam o expectador, como se chegasse a um depósito desorganizado e sem sentido. A obra de Carrà não perde o sentindo em nenhum momento. É evidente que para um leigo é difícil perceber as pegadas deixadas pelo pintor, as influencias e seu constante movimento por estilos e novas experimentações. No entanto, quando se estuda a trajetória do artista as marcas aparecem e encantam.  Os elementos não são necessariamente belos e a composição é relegada a segundo plano, numa mística precoce e rápida que transforma o improvável em grande obra. Em sua obra Pescatori, Carrà prova que pode ser um clássico, dando formas e tons muito apreciáveis, com a sensação de inacabado e frugal. O mesmo se pode afirmar do quadro Le metamorfose, onde ele se aproxima do que Gaguim fazia com maestria. Carrà nos dá impressão que todas as vezes que atinge o ápice ele troca, para não acostumar-se ao cotidiano: constrói para depois desconstruir. Há, sim, você vai encontrar quadros que “até uma criança de cinco anos faria”, como Il Bersaglio, uma obra simplória, inocente externando uma quase ironia. Carrà nos proporciona uma viagem pelas escolas de arte, clareando um caminho belo e impressionante, nos ensinando que a arte quando estanca morre.

Rock and roll na moldura

Por Clodoaldo Turcato

Arte plástica é música! Movimento, som, dança… música. Kandinski comparava sua obra à Mozart, Bethoven e Wagner.  A plástica de um ritmo que faz o expectador penetrar na obra e elevar-se mentalmente, pensar o quadro como algo místico e profundo. Logo, convencionou-se associar artes plásticas com música clássica. Isso até surgir Edward Burra.

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Ao cruzar com qualquer obra de Burra o sujeito vai pensar apenas em Rock and roll. Os movimentos são frenéticos, os temas jocosos e pesados, a estética forte, muitas vezes crua de um interlocutor das ruas. As cores não são suficientes, é necessário a dor, o sofrimento e o desalento. Ingredientes misturados formam a obra de Burra como um solo de guitarra que atinge tons altos e no final, depois de esquartejar-nos, atira poesia aos olhos. As ruas de Londres estouram com seus personagens caricatos, que nada mais são do que a realidade local.

Burra nasceu em 29 de março de 1905 na casa de sua avó em Elvaston Place, Londres. Seu pai, de uma família Westmorland, era advogado e depois presidente do Conselho do Condado East Sussex. Edward frequentou a escola preparatória no Northaw Place no Potters Bar, mas em 1917 sofria de pneumonia e teve que ser retirado da escola e educado em casa.  Burra levou aulas de arte com uma Miss Bradley em Rye em 1921 e depois estudou na Escola de Arte de Chelsea até 1923, E de 1923 a 1935 no Royal CollegeofArt sob os tutores do desenho Randolph Schwabe e Raymond Coxon . 

 

A obra de Burra é diferente (alguns dirão feia), sensual sem tirar a roupagem e bela sem florear. O volume de seus trabalhos, lotados de tons escuros, nos condicionam a observar, reviver e cadenciar nosso próprio tom, enquanto ele esbraveja, dilacera e vomita suas pinceladas.

Uma das obras que mais gosto é Paisagem da Cornualha com Figuras e Minas de Estanho, uma aquarela sobre papel medindo 78,10 x 135,9 cm. O artista captou o espirito das figuras deprimidas nesta paisagem da Cornualha com as ruínas de suas minas de estanho ao fundo. Sabe-se que o homem de casaco listrado (pintado duas vezes), foi visto por Burra num pub, e que as duas figuras tatuadas são cópias diretas de um livro. A estranha e fantasmagórica cabeça, mal perceptível no canto superior esquerdo, por refletir o interesse do artista pelo surrealismo.  Mesmo tendo vivido com muitos surrealistas, a obra dele nunca se classificaria como tal, se aproximando muito do expressionismo alemão e referências como George Grosz, sem o traço seco do alemão, aqui com uma obra mais volumosa e expansiva.

Em qualquer exposição do artista, de tantas que se fez, faz e farão, o espectador poderá dizer: este cabe um Led Zepelin. Aqui Joe Cocker. Acolá Nirvana. Noutro Beatles. Cada quadro seria uma canção, uma canção de rock, bom rock, evidentemente. A temática se insere em letras que tomas a rua e a vida comum como holofotes. Não se vê grandiosidade nem o charme burguês na obra de Burra. Se o burguês compõe o trabalho, surgem como contraponto da miséria humana, do trabalhador explorado, da meretriz esquecida, do aleijão sem rumo.

Este é Burra. Este é o Rock na droll na moldura.

Outras obras de Burra são The Straw Man, An English Country Scene II, Zoot suits, Landscape near Rye, Snack Bar e  Harlem Scene.

A arte tem princípio, meio e fim, mesmo sem ser completa

Por Clodoaldo Turcato

20133741_1350559268375502_972602066_oAlgumas percepções em artes plásticas ocorrem depois de muito tempo. Mesmo em mãos calejadas, algumas compreensões escapam, condicionando nossa empatia. Em princípio se diz que arte concreta e arte renascentista, por exemplo, são diferentes. Uma obra de Bordone ou Rafael é diferente de Boccioni.  A imagem perfeita contra pinceladas à toa. Julgamento precipitado. Ambas têm os mesmo princípios, a mesma pretensão e atingem sem dúvida o nível de grande obra.

Quem vê a obra Apresentação do Anel ao Doge de Veneza, de Bordone, um óleo sobre tela medindo 370 x 300 cm que está Galleria dell’Accademia, em Veneza, Itália, construída em detalhes impressionantes, composta com genialidade própria do pintor italiano e a arte renascentista, dirá que Cabeça + Luz + Entorno de Umberto Boccioni, um óleo sobre tela medindo 60 x 60 cm, um peça futurista que está em Nova Yorque, é menor, menos bela ou uma tolice de um jovem efervescente. Engano. As duas obras são grandiosas e tem os mesmos princípios e devem ser lidas da mesma forma. O gosto pessoal, repetindo, não deve influenciar para uma crítica séria.

Uma obra de arte se difere de um objeto comum. O objeto comum possui apenas uma função prática e útil na sociedade e, geralmente, é produzido em série por indústrias. Porém, existem obras de arte que também podem apresentar uma utilidade prática. Se Bordone expunha em suas obras as grandes catedrais, os elementos sociais de então e principalmente a vida cotidiana das cortês europeias, tendo um pé dentro da Igreja Católicas, Boccioni expressava a força da relatividade, o movimento do tempo e o surgimento das ideais de um futuro dominado pela máquina, máquina esta que fazia as imagens do dia-a-dia, dispensando o talento do pincel. Então, era necessário ir mais fundo, nas formas, na construção de conceitos que lentamente foram alternando, porém impactando na efervescência de uma sociedade que olhava para frente. Os dois captaram, ao seu modo, estes momentos

Se Bordone fosse vivo, possivelmente pintaria diferente. Não que a arte clássica tenha acabado. Veja o caso de Marciano Schimidt. Ele segue acadêmico e com sucesso. Os temas divergem e seu misticismo domina as belas criações que faz. No entanto, hoje não há mais por que pintar somete clássicos. Perdeu força essa demanda e a obra precisa expor a relação do homem e seu tempo. O mesmo eu diria de Boccioni. Se estive noutro tempo se expressaria de maneira totalmente diferente.

Então a arte mudou?

Não. Arte continua a mesma. No campo da arte, chamamos de obra de arte à produção realizada por um artista plástico, que é o resultado de sua criatividade e imaginação e que expressa um conceito ou uma manifestação sentimental ou emocional. Isto é, a obra de arte é uma criação que fica totalmente estampada e evidencia a intenção do artista. O que muda é o conceito, a escola, o modo de se criar. Porém a expressão segue sempre igual. Uma ideia pode ser expressa de diversas formas, mais conceitual ou mais complexa. O que vale é o quadro catalisar o movimento da vida, suas sequencia através do tempo e espaço.

Analisando friamente obras como a que expomos, teremos que arte – qualquer manifestação – precisa ter alguns aspectos como movimento, por exemplo. Escrevemos sobre isso a um tempo. Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente.

A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo material ou imaterial que o inspira. Na história da filosofia tentou se definir a arte como intuição, expressão, projeção, sublimação, evasão, etc. Aristóteles definiu a arte como uma imitação da realidade, mas Bergson ou Proust a veem como a exacerbação da condição atípica inerente à realidade. Kant considera que a arte é uma manifestação que produz uma “satisfação desinteressada”.

De acordo com o Romantismo, Vitalismo, Fenomenologia, Marxismo surgem também outras e novas interpretações de “arte”. A dificuldade de definir arte está na sua direta relação e dependência com a conjuntura histórica e cultural que a fazem surgir. Isso acontece porque quando um estilo é criado e estabilizado, ele quebra com os sistemas e códigos estabelecidos.

A arte é um reflexo do ser humano muitas vezes representa a sua condição social e essência de ser pensante. Este padrão encontraremos em Pollock ou Van Gogh. Nossos olhos precisam aprender a distinguir o movimento, a coerência, a luz, a sombra, a composição e harmonia. Isso precisa estar presente em qualquer obra de arte. Então não é a imagem bonitinha ou feinha que definirá uma obra.