Sobre silêncio e claustrofobia

Henri Cartier-Bresson

Henri Cartier-Bresson

Por Danuza Lima.

Eis que quase um ano após a aquisição, um livro me assalta da prateleira: “na escuridão, amanhã” de Rogério Pereira. E sob a aparente descoberta da leitura, novamente o silêncio, insígnia viva de um veneno pulsante que é a palavra, advém na abertura de suas páginas. Eu poderia enumerar a recorrência das figuras do silêncio neste romance que é prisão particular, uma escuridão peculiar. Contudo, nada vai retirar de mim, esta sensação de leitura claustrofóbica, sendo esta, o ato democrático, o cartão de alteridade que me permite sentir esta prisão na qual tornou-se o silêncio. Um grito abafado, um enfado, o inchaço de um corpo morto rodam a obra, e este silêncio, o princípio da sabedoria segundo Pitágoras, transforma-se tão somente num câncer comunicativo, impossível o ato da fala mediante o trauma, eis o cartão de visita da obra.

A narrativa é ambientada em dois espaços físicos delimitados pelo peso da ausência; primeiro, o interior de um estado, provavelmente no Sul do Brasil; depois, a cidade inominável, a aberração territorial que funciona como a grande bolha de sangue do romance, a cidade. Ao que parece, esta mudança territorial, cujos personagens, uma família puída pelo peso austero do pai,  metaforiza-se no constante resgate imagético-sensorial do binômio campo/cidade. Os personagens, sobreviventes do adeus à linguagem, reagem à transfusão de ambientes por meio da ausência comunicacional. O narrador, um dos filhos, cujos aspectos quase esquizofrênicos, lembram o André do “Lavoura Arcaica”, utiliza-se de um discurso memorialístico para, por meio de um realismo afetivo, transfundir, pelo cartão ético da leitura, esta fenda sensorial claustrofóbica que é a obra.

“Nossa casa é um útero seco”, diz o narrador num dado momento inicial da obra, e como um nascimento às avessas, cujo retorno ao útero não representa o abrigo miticamente esperado, mas o naufrágio mísero do “si-mesmo”, somos estranhamente levados, regidos pelo signo de Thánatos, representado no “grito de um porco morrendo [que] é a certeza de que o inferno é possível”.  Na escuridão está a claridade máxima de uma tentativa hodierna de viver, porque se morte é passagem de estágio, morrer é viver nesta memória violenta de um pai, que renasce a cada palavra dita, reforçada no silêncio de um homem morto de amor, vivo de lembranças, a única herança familiar que lhe resta: viver morto e fazer morrer o leitor, na escuridão, amanhã. 

Danuza Lima é escritora, educadora e mestra em Teoria da Literatura pela UFPE.

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