SOB A VIA CRUCIS DO CORPO

foto para dentro da páginaPor: Danuza Lima

Tomo-me de assalto quando em frente a tela fria deste computador, um corpo me açoita: Francesca Woodman. performática, anarquista e efusiva, nasceu em Denver, EUA e desde cedo, demonstrava de forma madura e inquietante o que seria um dos surtos da fotografia do século XX. Na fazenda da família, onde passava as férias, na Itália,  Woodman chegou a produzir grande parte de sua obra, ainda como aluna da Rhode Island School of Design. Sem respostas críticas para o seu trabalho, Woodman caiu em profunda depressão, suicidando-se aos 22 anos, em Nova Iorque. Seus trabalhos são divididos conforme o lugar no qual as fotos foram tiradas, Itália, Colorado, Roma, Nova Iorque e revelam uma inquietude e excentricidade pautadas basicamente sobre a imagem do corpo feminino, seja como objeto violado ou como espectro, nunca associado ao desejo. É a “vida líquida” que encontramos resignificada em suas imagens “e o mundo do simulacro e do espetáculo, da imagem que se debruça sonre si mesma numa inestancável mise-em-abysme” (HELENA apud DALCASTAGNÈ, 2008, p. 13). Woodman brinca com a ideia de niilismo e do próprio nascisismo. Embora a recorrência de autorretratos possa entregar aos desavisados um trabalho dessubstancializado, ela configura a dissolução do eu a partir da reflexão do espectador sobre a imagem do corpo. Em suma, suas fotografias encerram a definição de Susan Sontag, de que a imagem fotográfia seja “talvez o mais misterioso de todos os objetos que constituem e dão consistência ao ambiente que consideramos moderno (…) são experiências capturadas, e a câmara, o instrumento ideial da consciência na sua atitude aquisitiva” (SONTAG, 1986, p. 14).

O universo em preto e branco das fotografias de Woodman aceleram os olhos do espectador para o corpo que não mutilado (pelo menos fisicamante) expõe sem vergonha a violação que o define. Apesar de apresentar uma leveza que não as distancia da estranheza, as fotografias abaixo representam um universo atípico. Os ramos secos de uma flor mesclam-se ao ambiente absorto e no canto direito, a padecer impassível ao derredor, o corpo estendido veladamente no chão, denota a fluidez do corpo feminino, mas também revela certa impessoalidade. Na segunda fotografia, o vulto desfocado – fruto de um click fotográfico prososital do corpo em movimento – parece fugir, o espaço vazio, bem maior que a ocupação do corpo, denota o vazio do qual se foge. 

Nas emulações em cinza de suas fotografias, vi oscilar uma fantasmagoria tão inquietante a ponto de nocautear qualquer vesquício de sensualidade. Ocasionalmente, vê-se mulheres em cenários violentos e perturbadores  – o que coincide com a recorrência nos textos poéticos – sendo assim, o corpo feminino é (re)significado a partir da desconstrução de sua própria imagem.

Era – posto que já o encontro tornou-se passado – inevitável encontrar vestígios da poesia em sua obra, escolhi por hora, o Eduardo Sterzi:

Sobre o corpo e

mais que o corpo,

além do corpo: lançam-se

mil e muitas cimitarras.

Sobre teu corpo

imaterial, plantando

túmulos eréteis: primeiro

sintoma da devastação dos corpos

(não há nada além dos corpos, não há

nada além do corpo: uno, fragmentário, náufrago).

Tráfego dos afetos; êxtase – estase – dos pretéritos:

fragância que promana de outros corpos.

(Sterzi: 2000)

 A mesma cimitarra que lança ao chão o corpo do inimigo é a mesma que guarda os segredos do corpo;  parece que também a chave para o puctum na obra de Francesca Woodman. Seus nus revelam uma situação-limite, ou do “êxtase ao estase”, que flui na direção  da fragilidade,  mas também do narcicismo, A fluidez, presente nas obras de Woodman são reforçadas pela poética, que como pássaro bebe o outro em pequenos goles de inquietude e desejo. Enquanto em Sterzi, o corpo torna-se patrimônio nas mãos do outro, em Francesca, somente a violação a resume, se é possível resumi-la (sem medo dos extremismos).

o sentimento latente de ausência do outro, representado pelos espaços vazios, preenchidos pelo próprio corpo da modelo ou pelas marcas deixadas, tanto no chão quanto no próprio olhar que não se denuncia. A auto-referenciação , o uso violento de objetos como espelhos, telas, metais reforçam a ideia fixa  do “olhar para dentro de si”, e nele, o espectador parece encontrar mais vazio. Se o chamado Studium da fotográfa foi realmente  provocar estranheza e incômodo, os espectros de seu corpo retratado não a deixam ilesa a isto.

Para quem ainda resiste a reconhecer-se espectro, entrego o que sobrou: sede, insônia e a certeza: Corpos são restos, partes dissociáveis de um todo, a serem decifradas pelas mãos do outro, que faminto, procurará palavras, mas o vazio da era o rompe: “poeta/ o que não tem palavras”

Danuza Lima é contista, poetisa, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE.

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