Se a vida começa a partir dos quarenta, a arte muito mais

Por Clodoaldo Turcato

22709986_1440728759358552_153921761_n

Qualquer artista vive na dúvida e no limite do desconhecido. Um iniciante sente dúvidas sobre si mesmo. É um motorista no meio de um caminho desconhecido dando apalpadelas para rumar corretamente. Quando se posiciona, precisa decidir entre um trabalho “normal” ou ser artista, afinal, o estômago não costuma esperar muito.

Na juventude temos o tempo e oportunidade de quebrar regras, arriscar e plantar nossa identidade pessoal e artística. Ser artista depois dos quarenta anos é sinal claro de insanidade mental, embora não seja tão incomum assim. Não trato aqui de quem trabalha a vida toda para reconhecimento póstumo ou tardio.  A obra que é encontrada e elevada. Tantos foram assim. Trato de quem resolve se entregar para arte depois de adulto, o homem ou mulher que larga sua vida cotidiana para dedicar-se a arte. Além da dificuldade natural dada a falta de técnica, o pintor vai sofrer a consequência do tempo, da estrada que não percorreu e da falta de experiência. Terá que aprender, trabalhar mais, experimentar mais e errar mais. Errar na fase adulta não é como errar quando se é jovem: Sabemos que estamos errando. Não é um ato inconsequente. É uma demonstração de nossa dificuldade.

Coragem!

Pessoas conhecidas dirão que escrevo de mim. Não exatamente. Escrevo de um outro grande artista que tem uma história bem mais original.

Um pintor extremamente incomum, Henri Rousseau , nasceu em Laval, 21 de maio de 1844 e faleceu em  Paris, em 2 de setembro de 1910. É uma figura única na história da arte europeia. Suas pinturas, como sua carreira artística, são altamente individuais. Nascido em uma família modesta, Rousseau era um artista autodidata, descrito como um “pintor amador” por seus primeiros biógrafos. Ele trabalhou por muitos anos no pedágio da cidade de Paris e foi, portanto, imprecisamente apelidado Le Douanier. Começou a pintar com cerca de quarenta anos de idade. Ele dizia que seu único professor era a natureza, embora tenha admitido que houvesse recebido “alguns conselhos” de dois pintores acadêmicos estabelecidos, Félix Auguste Clément e Jean-Léon Gérôme. Essencialmente, ele era autodidata e é considerado um pintor naif ou primitivo.

Em 1884, ele obteve uma licença de copista do Louvre. Ele também visitou o Musée du Luxembourg e Versailles. No entanto, Rousseau não seguia regras, além de suas próprias, transformando a pintura refinada de artistas acadêmicos em uma linguagem única, impregnada de elementos oníricos. Suas pinturas mais conhecidas retratam cenas da selva, embora ele nunca tenha saído da França ou visto uma selva. Sua inspiração vinha de ilustrações em livros infantis e dos jardins botânicos em Paris, bem como de quadros de taxidermia de animais selvagens. Além de suas cenas exóticas houve também imagens menores topográficas da cidade e seus subúrbios. Ele dizia ter inventado um novo gênero de retrato de paisagem, iniciando uma pintura com uma visão específica, como uma parte favorita da cidade, e depois retratando uma pessoa em primeiro plano.

 O Estilo simples, aparentemente infantil de Rousseau foi desacreditado por muitos críticos. As pessoas ficavam chocadas com o seu trabalho ou o ridicularizavam. Sua ingenuidade era extrema, mas seu trabalho mostra sofisticação com a sua técnica particular. A partir de 1886, ele exibiu regularmente no Salon des Indépendants, e, embora seu trabalho não fosse colocado de forma destacada, ele foi sendo valorizado ao longo dos anos. A pintura “Tigre em uma Tempestade Tropical (Surpreendido!) ”, foi exibido em 1891, e Rousseau recebeu sua primeira avaliação séria.

Quando Pablo Picasso viu uma pintura de Rousseau sendo vendida na rua como uma tela de segunda mão para ser pintada, o artista mais jovem instantaneamente reconheceu o gênio de Rousseau e foi ao seu encontro. Em 1908, Picasso realizou um banquete meio sério, meio burlesco em seu estúdio em Le Bateau-Lavoir em honra de Rousseau. Os convidados do banquete Rousseau incluíam: Guillaume Apollinaire, Jean Metzinger, Juan Gris, Max Jacob, Leo Stein, e Gertrude Stein, entre outros. Picasso, Delaunay, Léger e artistas italianos e alemães avant-garde, inclusive Kandinsky, não só admiravam a obra de Rousseau, que inspirou os seus próprios trabalhos, mas também a colecionavam. 

Considerado o pai da arte naïf, Rousseau goza desse prestígio não apenas por ser autodidata, não seguir as normas acadêmicas e se utilizar da desproporção e de cores vivas muitas vezes irreais; mas também pela forma ingênua com que encarou a própria vida.

Mesmo tendo tido um bom reconhecimento artístico entre vários pintores e admiradores, os que criticavam a obra de Henri Rousseau estavam em maior quantidade, fazendo assim com que suas pinturas nunca fossem expostas no salão oficial de Paris.

Henri Rousseau teve suas obras expostas em alguns salões de pintores amadores e obras rejeitadas, e foi dessa forma que alcançou a sua fama na sua carreira artística. Este genial autodidata, foi o único pintor de estilo naïf que conseguiu exercer influência sobre estilos posteriores, como o surrealismo e o simbolismo.

Rousseau morreu em 2 de setembro de 1910, sendo enterrado numa vala comum do cemitério de Bagneaux, em Paris. Somente um mês depois, os obituários dos jornais noticiaram a morte, comparando sua obra com a de Uccello, um dos mestres da Renascença. Em 1947, seus restos mortais foram removidos para Laval.

O que mais me chamou atenção logo que conheci a obra de Rousseau foi sua despreocupação. Talvez ele não tivesse interesse em ser reconhecido e sua pintura não passasse de terapia para esperar a morte. Ignorou as convenções, tomou os materiais de pinturas e começou a criar, sem nenhum objetivo claro. Certamente não estaria imaginando a proporção que seu trabalho tomaria, sem medo, ingênuo como uma criança que brinca à beira do precipício.

Li muitas críticas a respeito do trabalho de Rousseau. A estória repetida inúmeras vezes com Picasso é uma meia verdade. Não acredito piamente que Picasso, Matisse e Kandinsky fossem levar a sério um pintor sem talento. E olhando as obras dele, percebe-se que talento é o que não faltava a Rousseau.  Basta olhar obras como Os macacos, um óleo sobre tela medindo 145,5 X 113 cm que se encontra no Philadelphia Museum or Art. Nele, três macacos espiam por de trás de uma densa folhagem na selva, enquanto um pássaro incomum se empoleira num ramo delicado, carregado de folhas pesadas. A criatividade sem entraves desta cena é típica da visão de mundo de Rousseau. As cores intensas, as formas nitidamente pintadas, e a meticulosa atenção aos detalhes , demonstram seu estilo ingênuo, porém magnífico. Estas qualificações, para mim, é mais uma busca em colocar o pintor dentro de um estilo ou escola – classificar – do que uma verdade. Quem falha são os experts. Rousseau só queria pintar, paciência.

Ontem estive com uma pintora pernambucana e quando vi seu estilo disse “ Você é clássica.” Ela me respondeu quase em surdina que sim, como se ser clássica fosse algo horroroso. Refleti sobre isso depois e conclui que os artistas estão se preocupando demais em se classificar e de menos em ousar. A crítica é importante, porém não pode engessar. Releiam quando escrevi que começar a pintar com quarenta era uma insanidade? Ironia, meu caro. A vida artística pode começar a qualquer hora, apenas as condições às vezes não proporcionam um começo imediato. Chutemos o baldo da hipocrisia e sigamos. A vida e a arte começam quando quisermos, muito melhor depois dos quarenta.

Você também vai gostar:

Eu, comigo e Deus
Contradições

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>