Rock and roll na moldura

Por Clodoaldo Turcato

Arte plástica é música! Movimento, som, dança… música. Kandinski comparava sua obra à Mozart, Bethoven e Wagner.  A plástica de um ritmo que faz o expectador penetrar na obra e elevar-se mentalmente, pensar o quadro como algo místico e profundo. Logo, convencionou-se associar artes plásticas com música clássica. Isso até surgir Edward Burra.

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Ao cruzar com qualquer obra de Burra o sujeito vai pensar apenas em Rock and roll. Os movimentos são frenéticos, os temas jocosos e pesados, a estética forte, muitas vezes crua de um interlocutor das ruas. As cores não são suficientes, é necessário a dor, o sofrimento e o desalento. Ingredientes misturados formam a obra de Burra como um solo de guitarra que atinge tons altos e no final, depois de esquartejar-nos, atira poesia aos olhos. As ruas de Londres estouram com seus personagens caricatos, que nada mais são do que a realidade local.

Burra nasceu em 29 de março de 1905 na casa de sua avó em Elvaston Place, Londres. Seu pai, de uma família Westmorland, era advogado e depois presidente do Conselho do Condado East Sussex. Edward frequentou a escola preparatória no Northaw Place no Potters Bar, mas em 1917 sofria de pneumonia e teve que ser retirado da escola e educado em casa.  Burra levou aulas de arte com uma Miss Bradley em Rye em 1921 e depois estudou na Escola de Arte de Chelsea até 1923, E de 1923 a 1935 no Royal CollegeofArt sob os tutores do desenho Randolph Schwabe e Raymond Coxon . 

 

A obra de Burra é diferente (alguns dirão feia), sensual sem tirar a roupagem e bela sem florear. O volume de seus trabalhos, lotados de tons escuros, nos condicionam a observar, reviver e cadenciar nosso próprio tom, enquanto ele esbraveja, dilacera e vomita suas pinceladas.

Uma das obras que mais gosto é Paisagem da Cornualha com Figuras e Minas de Estanho, uma aquarela sobre papel medindo 78,10 x 135,9 cm. O artista captou o espirito das figuras deprimidas nesta paisagem da Cornualha com as ruínas de suas minas de estanho ao fundo. Sabe-se que o homem de casaco listrado (pintado duas vezes), foi visto por Burra num pub, e que as duas figuras tatuadas são cópias diretas de um livro. A estranha e fantasmagórica cabeça, mal perceptível no canto superior esquerdo, por refletir o interesse do artista pelo surrealismo.  Mesmo tendo vivido com muitos surrealistas, a obra dele nunca se classificaria como tal, se aproximando muito do expressionismo alemão e referências como George Grosz, sem o traço seco do alemão, aqui com uma obra mais volumosa e expansiva.

Em qualquer exposição do artista, de tantas que se fez, faz e farão, o espectador poderá dizer: este cabe um Led Zepelin. Aqui Joe Cocker. Acolá Nirvana. Noutro Beatles. Cada quadro seria uma canção, uma canção de rock, bom rock, evidentemente. A temática se insere em letras que tomas a rua e a vida comum como holofotes. Não se vê grandiosidade nem o charme burguês na obra de Burra. Se o burguês compõe o trabalho, surgem como contraponto da miséria humana, do trabalhador explorado, da meretriz esquecida, do aleijão sem rumo.

Este é Burra. Este é o Rock na droll na moldura.

Outras obras de Burra são The Straw Man, An English Country Scene II, Zoot suits, Landscape near Rye, Snack Bar e  Harlem Scene.

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