Retalhos

RetalhosVi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado no meu olhar fatigado, foram terras que inventei.
É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. O município é pobre, arrecada 72 contos por ano. Houve praga na lavoura; deu peste no gado; o empréstimo para instalação de luz elétrica vence juros penosos. Para atender ao serviço de estradas, à instrução, às eleições, ao funcionalismo, a tanto compromisso, torna-se imperioso lançar novos impostos, criar taxas inéditas, como essa de afinador.
Vão demolir esta casa. Mas meu quarto vai ficar, não como forma imperfeita neste mundo de aparências: vai ficar na eternidade, com seus livros, com seus quadros, intacto, suspenso no ar.

O texto acima são retalhos. Pedaços de alguns dos meus autores prediletos. Ele é iniciado com um trecho do poema Testamento, de Manuel Bandeira, em seguida vem Clarice Lispector com uma crônica saudando a capital do Brasil, Brasília: esplendor, depois é revelado uma parte do conto Câmara e Cadeia, de Carlos Drummond de Andrade. Finalizado pelo mestre Bandeira, em Última canção do beco.

Aí você me pergunta, “pra que isso”? Poderia te responder, simplesmente, “porque deu vontade”; mas não, não farei isso. Escrevi para mostrar que esses maravilhosos autores reverenciam uma única coisa, a literatura. Poderíamos aqui juntar, juntar e juntar… sair encaixando trechos e mais trechos e veríamos o resultado numa bela história, num belo quebra cabeça de palavras, enfim, na nossa literatura.

Precisamos ler mais, agregar mais. Como é bom ir à estante e poder escolher, “hoje vou de Clarice ou Drummond?; ah.. vou com os dois”. Deixar a palavra tomar forma nos nossos pensamentos. Como dizia a querida Cecília Meireles: “Ai, palavras! Ai, palavras! Que estranha potência a vossa!”.

Estou satisfeito. Mas quero mais! Desejo mais textos, mais reflexões, mais arte e um dia poder parar e dizer, “poderia ter me esforçado mais, ter lido mais”.

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem. Mário Quintana.

Jornalista Adriano Portela

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