Realismo: O retrato das desigualdades sociais do século XIX e outros séculos

13292850_976712012426898_1218754792_nPor: Clodoaldo Turcato

Quando iniciamos o estudo de artes plásticas, uma confusão acontece em nossa cabeça. A academia tem mania de dividir a arte por escolas, o que não é de todo mau, no entanto dá impressão que em determinado tempo o movimento anterior se encerrou e iniciou um novo movimento, onde o passado é esquecido. Não é assim.  Os movimentos artísticos não morrem de repente, apenas surgem outros que às vezes permanecem harmonicamente, convivendo e criando seus seguidores. A ruptura é mais no campo ideológico que real. Hoje temos grandes pintores do barroco, renascentista, etc. A pintura abstrata não é de hoje,  existe desde os tempos mais remotos, no entanto ganhou espaço com os russos, como vimos aqui.

O mais importante em arte é entender as condições e a profundidade em que o artista da sua guinada em busca desse novo. O novo por novo não convence, mas quando o novo nos revela, então ele atinge seu objetivo. Um dos movimentos que mais gosto e que trouxe a arte mais perto dos mortais se chama Realismo.

O realismo marca um afastamento formal e estilístico das cenas idealizadas e naturais e da pintura histórica da arte acadêmica do começo do século XIX. Ele fez parte de um movimento mais amplo das artes que começou na França com a eclosão da Revolução de fevereiro de 1848. O crescimento rápido da população, sucessivas quebras de safra e a industrialização acelerada causaram privação e misérias aos pobres das áreas urbanas e rurais. Isso gerou  uma instabilidade considerável que culminou com a Revolução, depois da qual o governo provisório garantiu o voto universal aos homens e garantiu o direito ao trabalho. Os pobres tinha agora voz politica. Os  pintores realistaz se rebelaram diante das transformações contra as autoridades  artísticas e desprezaram o romantismo.

Vejam que o realismo surgiu diante de um movimento de transformação social. E a ebulição daquele momento, aderiu a novos ares e os retrataram, pessoas e fatos num estilo realístico, quase fotográfico, baseado na observação cuidadosa, em grandes telas para lhes conferir a importância maior dos grandes eventos históricos. Se formos comparar estilo, a técnica,  os detalhes enfim, iremos nos defrontar com semelhanças. O que difere no realismo é o tema.

Gustave Coubert é considerado o líder do movimento realista, e sua obra O ateliê, um óleo sobre tela, medindo 3,61mX5,98m, é uma declaração de seus princípios políticos e artísticos. Na obra, ele combina o estilo grandioso das pinturas históricas com a abordagem temática realista do seu estúdio, ridicularizando, assim, a postura idealizada da arte acadêmica. À esquerda da pintura estão representantes de todos os tipos de vida – ricos e pobres – entre eles um padre, um comerciante, um caçador e um mendigo. À direita, Coubert retrata seus amigos, entre eles seu patrono, Alfred Bruyas e o filosofo Pierre-Joseph Proudhon, o romancista e crítico Champfleury e o poeta Charles Baudelaire. O artista é mostrado no centro com uma musa nua, um gato e uma criança.  Coubert também foi responsável pelo polêmico quadro A origem do mundo, um óleo sobre tela medindo 46×55 cm, um estudo franco da genitália feminina, cuja a exibição ainda hoje é proibida em muitos países do mundo.

O exame minucioso das mazelas sociais e urbanas encontrou sua melhor expressão nas caricaturas políticas e cartuns de Honoré Daumier, cujas litografias  foram publicadas em jornais políticos satíricos. Daumier produziu cerca de 300 pinturas , entre elas A lavadeira, um óleo sobre madeira, medindo 49X33cm. A obra se baseia nas observações feitas pelo artista de seu ateliê com vistas para o rio Sena. Ele mostra uma lavadeira com sua filha voltando à terra firme depois de saírem de um dos barcos-lavadeiras ancorados no rio; Daumier as retrata com uma nobreza escultural e uma elegância que rivaliza com qualquer imagem da Vênus. A pintura exemplifica a solidariedade expressada pelos artistas realistas por aquelas pessoas  cujas vidas consistem apenas de trabalho incansável.  As duas personagens estão visivelmente exaustas, e a filha, segurando um batedor, parece ter o mesmo destino da mãe.

O cotidiano da vida rural se tornou objeto de muitas pinturas realistas.  Inspirados pelas obras do artista inglês John Constable,  a Escola Barbizon de artistas liderou a guinada rumo às pinturas rurais. A escola foi formada por um grupo de pintores liderados por Jean-Baptiste CarnilleCorot, Théodore Rousseau, Jean-François Millet e Charles-François Duabigny. Eles se fixaram no vilarejo de Barbizon, próximos da floresta de Fontainebleau, e pintaram a natureza por si só, e não como pano de fundo, como faziam  os artistas até então.

Uma das obras que mais me impressiona (olha o dedo) deste período e que enfatiza o ideal artístico de então, é  Pobres recolhendo carvão de uma mina exaurida, um óleo sobre tela, medindo 80x107cm, pintada pelo russo Nikolai Kasatkin. O movimento realista ganhou força na Russia, principalmente com os ideais de Karl Marx e  Friedrich Engels, e um grupo de pintores passaram a retratar a vida cotidiana das pessoas, criando o grupo Sociedade pela Exposição Itinerante na Rússia. A obra mostra uma série de mulheres  e crianças catando carvão numa mina abandonada, com outra mina sendo explorada ao fundo, numa cena desoladora de mendicância. No meio do grupo destaca-se uma mulher em pé olhando o espectador, num olhar vazio e cheio de desesperança. O quadro é magistral e reflete bem a condição da Rússia naquele momento.

A transformação do século XIX, o avanço tecnológico alardeado aumentou a divisão de riquezas e a exploração das classes menos favorecidas. O Realismo expressou isso em diversas partes do mundo, principalmente na Europa e parte da Ásia. O realismo não teve a propagação do impressionismo, porém foi muito mais fundo na representação da sociedade desigual do século XIX e meados do século XX. O movimento não ignorou as técnicas anteriores, nem cores e muito menos desprezou o modelo de pintura ou o conhecimento. No entanto, sua abordagem é diferente, não questionando os processos de pintura, mas sim a temática. De qualquer maneira, sabemos que muita pouca coisa mudou, e as distâncias econômicas de classes ainda são profundas, mesmo que as condições de trabalho tenham melhorado. Hoje, teríamos espaço e temas de sobra para um modelo realista de pintura. Olhe pela sua janela e comprovará isso.

 

Você também vai gostar:

Alguns tijolos e um mictório mudaram o conceito de arte
E temos cá nossos artistas, evidentemente

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>