Raiva, dor, angústia, estranhamento: Jackson Pollock

FigureJacksonPollockPor Clodoaldo Turcato

Em 15 de abril de 1912 , 1517 pessoas pereceram no maior desastre fluvial em tempos de paz da humanidade. O “inafundável” navio Titanic partiu de Southampton, Inglaterra, com Destinado à Nova Iorque, Estados Unidos e chocou-se com um iceberg no Oceano Atlântico. Dentre os mortos estava o magnata Benjamin Guggenheim, um afortunado que deixou sua herança para sua filha Marguerite, conhecida no meio cultural como Peggy. A menina rica abandonou sua cidade Natal e instalou-se  no centro boêmio de Paris, com apenas 22 anos. Na França, livre e sozinha, externou suas três paixões: dinheiro, homens e arte. Dinheiro ela tinha de sobra; homens às centenas, segundo ela própria e arte… Bem, arte é o que vamos tratar aqui.

Alguns anos depois, Peggy mudou-se para Londres e começou a investir sua fortuna em obras de arte. Sua intenção era criar um Museu de Arte Moderna para rivalizar com o MoMA de Nova Iorque. Para isso contratou os serviços de Marcel Duchamp e do historiador Herbert Read. Mas, exatamente quando começou a colocar seu projeto em prática Hitler chegou a Europa  e liquidou seus planos. A ideia de uma invasão alemã e as práticas nazistas fizeram com que grandes artistas se desfizessem de suas obras e fugissem para outros países. Foi então que Peggy abriu seu talão de cheques e passou a comprar  obras de arte, seguindo a lista feita por Duchamp e Read. Exceto Picasso, que a rechaçou, Peggy adquiriu obras como Os homens na cidade de Fernand Léger, Pássaro no espaço, escultura de Brancusi, além de obras de Braque, Mondrian e Dali. No final de suas compras tinha gasto apenas 40 mil dólares. Então voltou para os Estados Unidos.

Em Nova Iorque ela abriu uma galeria especializada em arte moderna que chamou de Art of Centurye passou a ser um efervescente ponto de encontro de jovens artistas americanos e emigrados da Europa.  Com Duchamp  como seu conselheiro, ela organizou a primeira exposição que denominou Exposição 31 mulheres, onde apenas mulheres expuseram, batendo de frente com o conceito machista vigente na época. Para sua segunda exposição, que reuniu artistas jovens,  Peggy adicionou ao corpo curador o holandês Piet Mondrian. Certo dia ao chegar na Galeria para ver o andamento dos trabalhos, dentre centenas de obras que passaram pelo crivo curador, Peggy encontrou Mondrian de joelhos diante de um quadro de um jovem artista estadunidense totalmente desconhecido. A tela era Figura estenográfica de Jack  Pollock. Horrível, né? Como pode este quadro ser escolhido para a exposição? Indagou Peggy. Mondrian olhou para sua amiga e disse:  É a obra mais interessante de um norte-americano que vi até agora.

A arte se divide por escolas e períodos. Desde Picasso que não se via nada tão revolucionário quanto a arte de Pollock. A partir do surgimento de Pollock a arte abstrata  tornou-se aceita nos museus e elevou o pintor a patamar de Deus. Quando mostrei  Figura estenográfica para meu filho a primeira coisa que ele disse foi “isso eu faço também, pai. Que porcaria!” Provavelmente noventa por cento dos que viram a obra a primeira vez, inclusive Peggy, pensem assim. O quadro não utiliza o recurso drip painting ou pintura por gotejamento, caracteriza de Pollock, traz´duas figuras com aspecto de espaguete sentadas a uma mesinha, uma de frente para outra, tem uma discussão acalorada, gesticulando freneticamente com seus braços vermelhos e marrons que cortam as bordas vermelhas da mesa. O quadro está em movimento e nossos olhos não se fixam num determinado ponto, somos forçados a passear e cada vez mais rápidos. A sensação de desconforte faz com que temos a ilusão de estarmos correndo cada e sentimos o coração bater mais forte, tamanho aflição.

A partir desta exposição, Peggy passou a bancar Pollock, fato que o fez ter maior liberdade e iniciar o processo de pinturas por gotejamento, que consiste em pintar gotejando na tela, sempre no chão, sem uso corriqueiro de pincéis. Se Figura estenográfica choca ao apreciador, o que veio a seguir foi ainda mais revolucionário.  Número 19  é uma tela de 12,8×17,51 metros cravados de tintas no melhor estilo drip painting. Num primeiro olhar, o desavisado dirá que alguém deixou cair uma montanha de tintas sobre um enorme pedaço de lona. Em tese é isso mesmo. Um bêbado teria tomado latas de tinta comum e brincado. Mais uma vez o espectador tem razão, pois Pollock tornou-se alcoólatra e suas melhores obras ele pintou bêbado. Sua arte é feita com uma força vulcânica com batidas fortes na tela de um ser que explode num acesso de desejos rodopiantes e em nenhum ponto do quadro nosso olhar permanece  parado. A cada volta aumenta a sensação de que estamos entrando num labirinto extremo, uma caminho mais e mais veloz. Com Pollock, as tintas estouram na tela como uma manada de búfalos . Ao que acha aquilo muito fácil e até negligente, um aviso: muitos tentaram copiar, no entanto o resultado são obras sem velocidade, força e que não estranham ou incomodam. Portanto, você vai ficar decepcionado e até poderá compreender o que estou dizendo se for a loja de tintas, comprar algumas latas e partir para pintura por gotejamento. Provavelmente seu trabalho causará risos e não passará de uma grande piada, pois falta o artista, falta Pollock.

Em 1943 o crítico Clement Greemberg classificou Jackson Pollock como maior pintor norte-americano já nascido. E no mesmo ano o MoMA, maior museu de arte moderna do mundo, comprou por 650 dólares The She-Wolf. Esta foi a primeira obra de Pollock a ir para um museu. Hoje a obra está avaliada em 6 milhões de dólares.  Olhar para uma obra de arte abstrata não é confortável, muito pelo contrário é angustiante. Como o primeiro gole de uísque, parece amargo e o sujeito jura que nunca mais coloca aqui na boca. Na segunda olhada para a arte de  Pollock você ficará tão intrigado que passará de um espectador para um estudioso. A arte de Jackson Pollock é bem mais profunda que  o naufrágio do Titanic.

Na próxima coluna irei falar do Renascimento italiano, uma época das mais espetaculares da arte.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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