Quando o resto da vida começa na infância

criancas01Por Tiago Eloy Zaidan 

Maria do Carmo Santana, 37, e Sula Neide de Lira, 26, possuem vários pontos em comum. São moradoras do subúrbio e trabalham como auxiliares de limpeza em uma faculdade, em um bairro central do Recife. Ingressaram juntas na instituição, em 2012; conheceram-se na entrevista de emprego e são amigas desde então.

Além de compartilharem uma vida de muito trabalho e dificuldades, Maria e Sula dividem histórias traumáticas ocorridas na infância, que as marcaram profundamente, e que são arquétipos de uma sociedade que oprime seus jovens em situação de risco ou se omite diante da opressão.

 Ciúme e orfandade

Maria do Carmo, casada e mãe de dois filhos, Abraão, 4, e José, 8, não deixa transparecer, a primeira vista, o passado de agruras. Sua jornada profissional começou antes do permitido por Lei. Aos 15 anos, já era empregada doméstica. E não se queixa da experiência, pois diz ter aprendido bastante com as patroas. Aos 18 anos, tornou-se auxiliar de serviços gerais. Foi quando obteve carteira assinada. Também trabalhou por três meses em uma rede de varejo, como captadora de cartão.

Ao longo de praticamente toda a juventude, Maria do Carmo não pôde contar com os conselhos ou mesmo com a simples companhia da mãe. A ausência materna, aliás, está ligada ao episódio que marcou sua vida. Há cerca de 35 anos, com apenas um ano e oito meses, testemunhou a morte de sua mãe pelo padrasto, “ciumento e possessivo”, nas palavras da auxiliar de limpeza. E o pivô da crise conjugal fora justamente o pai biológico de Maria. Após o incidente, os avós paternos criaram a jovem, que diz sentir falta da mãe ainda hoje, especialmente após o nascimento dos filhos.

 Retaliação e desabrigo

Se para Maria o padrasto foi vilão, para a amiga Sula Neide a figura do pai adotivo representa o herói injustiçado. Sula trabalha desde os 18 anos, e também já teve experiências profissionais diversas, de vendedora em quiosque de lanches a faxineira. Com uma expressão que transparece cansaço, admite estar se  divorciando do marido, com quem tem uma filha de sete anos, Rebeca Beatriz. A criança tem a sorte de, diferentemente da mãe, estudar desde cedo, e viver em uma casa relativamente segura, na Zona Oeste de Recife.

Aos sete anos, Sula entrou na escola pela primeira vez. O atraso se deu em decorrência de um acesso de fúria de seu pai biológico, o qual, em litígio com a esposa, rasgou o registro de nascimento da filha. A falta do documento tornou-se um entrave burocrático.

Mas o episódio que marcou a vida da jovem multiprofissional se deu em 1992, quando ela ainda era uma menina de cinco anos. Na época, morava em um barraco com a mãe, a irmã e o padrasto, na comunidade do Iraque, periferia da capital pernambucana. Tratava-se de uma região perigosa, dominadas pelo tráfico de drogas, segundo faz saber Sula. Seu padrasto, “preocupado com a segurança das mulheres da casa”, teria deixado um recado em alto e bom som, entre cervejas em uma mesa de bar. “Disse que ninguém entrava na casa dele para mexer com sua esposa e filhas”. A mensagem não foi recebida de bom grado por todos que a ouviram.

Bastou uma noite para que traficantes fortemente armados invadissem o barraco e expulsassem a família da comunidade. A auxiliar de limpeza ainda lembra de uma arma sendo apontada para sua cabeça. Restou conformar-se com a mudança abrupta de vida. A família Lira teve que recomeçar em um anexo do terreno do avô de Sula, em outro bairro. Para Sula, a Guerra do Iraque – importante acontecimento geopolítico – aconteceu nos confins do Recife, e fez de sua família refugiada, mesmo que não conhecesse o significado da palavra.

 O presente

Desde 2012, não é difícil encontrar as duas auxiliares de limpeza por entre os corredores da faculdade onde trabalham – em meio a uma miríade de jovens de classe média. Ao longo da vida, deixaram para trás infâncias sofridas, onde repousam uma mãe assassinada e um lar tomado à força. O presente, ao menos, abriga o maior tesouro de suas vidas: seus filhos.

Mais do que discretas, as amigas desempenham os seus trabalhos diários anonimamente. Maria do Carmo diz, orgulhosa, que gosta do atual ofício. E o desempenha “como se fosse no primeiro dia”. Ambas mantêm limpas as salas de aula e os banheiros. Foi à porta de um lavabo, inclusive, que as duas conversaram comigo. Talvez José, Abraão e Rebeca precisem, muito em breve, dispor de um desses banheiros.

Tiago Eloy Zaidan – jornalista e professor da ESM/FAMA

eloyzaidan@gmail.com

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