Quando arte e vida comum se interligam

MáscarasPor: Clodoaldo Turcato

Poucos povos tiveram tanta interatividade artística e influência sobre a arte moderna como os africanos. Esta frase parece carecer de consistência ou estar longe de ser verosímil por dois motivos: a arte moderna teve seu nascimento na Europa do século XIX e desenvolvimento em solo norte-americano no século XX; os povos africanos eram “selvagens” e como tais não teriam condições de produzir ou compreender a arte, já que, segundo os manuais aplicados nas academias, a arte para ser entendida precisa de conhecimento prévio, estudos profundos e etc, nada do que os povos africanos tinham. Ledo engano.

No entanto, a arte africana rebate a estas expectativas menores e nos abre um leque impressionante que até hoje  determina movimentos completos das maiores escolas de arte moderna do mundo.

No início do século XVI, o comércio entre Portugal e os povos do litoral da África Ocidental já estava bem consolidado. Eles se encantaram com os trabalhos dos artistas locais e passaram a fazer encomendas, principalmente das esculturas produzidas no Congo e Serra Leoa. Juntamente com o comércio escravo, os portugueses começaram a espalhar para a Europa o que era produzido de maneira corriqueira nas tribos. E o envolvimento da Europa civilizada com os nativos, levou a descoberta de tapeçarias em Gana feitas com seda desfiada que encantaram a o Velho Continente.

Certa tarde, Henri Matisse e Pablo Picasso estavam debatendo-se na casa de Gertrude Stein. Os dois eram os maiores expoentes artísticos do meio do século XIX e cada qual tentava apresentar trabalhos mais revolucionários. Na ocasião Matisse observava uma máscara africana, o que chamou atenção de Picasso. Perguntado, Matisse desdenhou e escondeu a máscara. Picasso levantou-se e partiu para o bairro negro de Paris com firme propósito de encontrar uma daquelas máscaras. Por sorte o Museu do Homem de Paris estava com uma exposição de Arte Africana. O trabalho exposto causou uma forte impressão no artista, especialmente as máscaras, o que fez com que ele procurasse retratá-las em suas pinturas. As máscaras, carregadas de significados sagrados, mas também pela simplificação das formas, tornaram-se referência para alguns artistas do Modernismo, em especial para Picasso, que, influenciado por elas, inaugurou uma nova fase da sua obra, o que alguns estudiosos denominam como protocubismo, um antecedente do cubismo, como podemos perceber nas imagens a seguir.

A arte faz parte do dia-a-dia dos povos africanos desde os primórdios. O cotidiano, a vida social, os rituais de passagem, os tratados de comércio, de paz, de guerra, nascimentos, morte, além das passagens de idade são todos registrados em cerimoniais ornados por máscaras, totens ou tapeçarias.  Representa os usos e costumes das tribos africanas. O objeto de arte é funcional e expressam muita sensibilidade. Nas pinturas, assim como nas esculturas, a presença da figura humana identifica a preocupação com os valores étnicos, morais e religiosos. A escultura foi uma forma de arte muito utilizada pelos artistas africanos usando-se o ouro, bronze e marfim como matéria prima. Representando um disfarce para a incorporação dos espíritos e a possibilidade de adquirir forças mágicas, as máscaras têm um significado místico e importante na arte africana sendo usadas nos rituais e funerais. As máscaras são confeccionadas em barro, marfim, metais, mas o material mais utilizado é a madeira. Para estabelecer a purificação e a ligação com a entidade sagrada, são modeladas em segredo na selva. Visitando os museus da Europa Ocidental é possível conhecer o maior acervo da arte antiga africana no mundo. Desde criança o africano está envolvido com manifestações artistas, o que o tornou um povo muito evoluído e de com marcas próprias facilmente identificáveis.

A pintura é empregada na decoração das paredes dos palácios reais, celeiros, das choupas sagradas. Seus motivos, muito variados, vão desde formas essencialmente geométricas até a reprodução de cenas de caça e guerra. Serve também para o acabamento das máscaras e para os adornos corporais. A mais importante manifestação da arte africana é, porém, a escultura. A madeira é um dos materiais preferidos. Ao trabalhá-la, o escultor associa outras técnicas (cestaria, pintura, colagem de tecidos).As “máscaras” são as formas mais conhecidas da plástica africana. Constituem síntese de elementos simbólicos mais variados se convertendo em expressões da vontade criadora do africano.Foram os objetos que mais impressionaram os povos europeus desde as primeiras exposições em museus do Velho Mundo, através de milhares de peças saqueadas do patrimônio cultural da África, embora sem reconhecimento de seu significado simbólico.A máscara transforma o corpo do bailarino que conserva sua individualidade e, servindo-se dele como se fosse um suporte vivo e animado, encarna a outro ser; gênio, animal mítico que é representando assim momentaneamente. Uma máscara é um ser que protege quem a carrega. Está destinada a captar a força vital que escapa de um ser humano ou de um animal, no momento de sua morte. A energia captada na máscara é controlada e posteriormente redistribuída em benefício da coletividade.A escultura em madeira é a fabricação de múltiplas figuras que servem de atributo às divindades, podendo ser cabeças de animais, figuras alusivas a acontecimentos, fatos circunstanciais pessoais que o homem coloca frente às forças. Existem também objetos que denotam poder, como insígnias, espadas e lanças com ricas esculturas em madeira recoberta por lâminas de ouro sempre denotando um motivo alusivo à figura dos dignitários. Os utensílios de uso cotidiano, portas e portais para suas casas, cadeiras e utensílios diversos sempre repetindo os mesmo desenhos estilísticos.

Aos leitores e leitoras que queiram conhecer mais de arte africana, sugiro uma visita ao Museu da Abolição no Bairro da Madalena, Recife, Pernambuco ou que ande pelas ruas da Avenida Conde da Boa Vista, ondem vendedores ambulantes vindos de países africanos vendem seu artesanato. O programa é impagável e gratuito.

Semana que vem vamos entender as particularidades que fazem uma obra de arte valorar.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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