Por uma nova literatura pernambucana

LITERATURA

Ontem à noite (25), logo ao término do jogo do Brasil, me sentei em frente ao notebook para escrever a coluna de hoje – até iria comentar sobre a atual situação da nossa seleção e os tormentos envolvendo a Copa do Mundo -, quando fui marcado no facebook pelo amigo Ney Anderson. Ele postou uma matéria no seu blog, “Angústia Criadora”, sobre os novos escritores. Achei um crime não publicá-la aqui. Falei com o companheiro e abaixo está a obra. Deleitem-se!

Por uma nova literatura pernambucana

Ney Anderson

No atual panorama da literatura pernambucana, cada vez mais novos escritores estão produzindo. Talvez por uma busca por outras formas de narrar ou até mesmo para tentar manter a tradição ficcional que sempre foi uma marca do Estado. Em 2008, o Diário Oficial lançou uma antologia inédita no país com o título “Os novos escritores pernambucanos do século XXI”. A ideia era tentar dar voz aos autores que não tinham tanto espaço na mídia. Na ocasião, mais de trinta nomes foram revelados. Eram todos autores jovens, não necessariamente na idade, mas por estarem escrevendo há pouco tempo.

Com a ajuda da Internet, muita gente tem saído do ineditismo para mostrar seus escritos em blogs e sites, cada um da sua maneira, com estilos dos mais variados. As editoras independentes, que fazem publicações em pequenas tiragens, têm contribuído para uma maior proliferação de títulos lançados no mercado local.

Muitos desses novos autores criaram coletivos para apresentarem seus trabalhos ao público, entraram nas oficinas ministradas na cidade, lançaram livros bancados com o próprio dinheiro. Os concursos literários também são uma saída para quem pretende divulgar sua produção. Que o diga a escritora Gerusa Leal, 58 anos, que em 2007 foi vencedora do prêmio Edmir Domingues de Poesia da Academia Pernambucana de Letras, com o livro Versilêncios, mas só no ano seguinte seria publicado, pois também foi selecionada pelo Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) da Fundação de Cultura da Prefeitura do RecifeGerusa também recebeu o Prêmio Elita Ferreira de Literatura Infantil de 2012, promovido pela mesma APL, dessa vez com o livro Carolina. Para ela, hoje está mais fácil publicar, mesmo com a grande quantidade de pessoas escrevendo. “Hoje em dia é facílimo publicar na internet e razoavelmente fácil publicar um livro em edição de autor, em tiragem reduzida. Mas para escrever na Internet os jovens se sobressaem, os mais velhos costumam, em geral, ser meio avessos a publicar virtualmente. Preferem edições tradicionais, às vezes apenas para distribuir entre parentes e amigos”, acredita.

Mesmo com resistência para lançar textos na rede, contos e poesias da autoria dela estão espalhados em diversos portais pelo Brasil, sem contar nas edições impressas. Gerusa acredita que “é bom que tanta gente nova (de qualquer idade) esteja escrevendo, o leque se abre, a gente descobre estilos inovadores de qualidade, a escrita ficcional se transforma”.

Para o escritor Bernardo Souto, 32 anos, a internet também é uma das maiores responsáveis por esse crescimento, não apenas ela. Souto analisa a quase total falta de críticos de literatura para o boom de textos ficcionais que, segundo o escritor, são em sua maioria de qualidade duvidosa. Ele teve o primeiro livro lançado em 2010, Elogio do silêncio, e tem outros textos guardados e em fase embrionária de produção.

Souto acredita que os escritores não precisam estar juntos para se fazerem presentes. “Existem grupinhos relativamente unidos. De resto, acho a união entre escritores uma coisa rara e, frequentemente, prejudicial, visto que acabam surgindo rebanhos que, quase sempre, prejudicam a criatividade dos seus membros e sectários”, ironiza.

Para muitas pessoas a literatura não possui o glamour de uma banda de rock, ou de uma carreira no mundo das artes cênicas. Por outro lado, é muito difícil que um leitor de ficção não se sinta instigado a escrever, não importa o gênero que seja. Assim, quem sabe haja mais leitores/escritores por aí do que se imagina. Foi dessa forma, por ser um leitor ávido por novidades, que Marcos Henrique Martins, 34 anos, resolveu criar suas próprias histórias. Este ano (2012) o livro, O Lado Avesso – Nornes, o Mago, livro que estava trabalhando há algum tempo, saiu da gaveta e ganhou as estantes das livrarias. Como o título já indica, O Lado Avesso é um livro de literatura fantástica, em que seres do folclore brasileiro como Curupiras, Caiporas, Comadre Florzinha, se misturam com Elfos, Dragões e Magos.

Adriano Portela começou a escrever ainda na escola. Literatura, redação e português eram suas matérias preferidas. Aos 17 anos escreveu o primeiro conto e não parou mais. Depois de escrever vários textos curtos e se sentir preparado para desenvolver o primeiro romance, eis que no ano passado (2011), A última volta do ponteiro, resolveu sair dos arquivos do computador e ver a luz do dia.

O livro é uma narrativa que se passa no Brasil e na Itália, onde o crime e a traição são apenas pano de fundo para a reintegração de um passado cheio de surpresas. Portela acredita que “Hoje existe uma demanda maior de encontros, de debates com novos autores, e isso acaba proporcionando a troca de informação e interação”.

Muitas coisas unem os novos autores, talvez a principal seja a dificuldade em ser publicado por grandes editoras e o reconhecimento do público. Mas o mais importante pode ser a tentativa de se reconhecer em meio a uma sociedade cada vez mais sufocada pelos prazos, louca por resultados imediatos e que não para um momento sequer para refletir sobre o local que está inserida. Dessa forma, sempre irão surgir novos autores, com maneiras ímpares de mostrar por meio da escrita, que a arte faz pensar sobre a condição humana onde mais importa: na linguagem verbal.

Não existe idade para tentar realizar o sonho de publicar um livro, que o diga a escritora Inah Lins de Albuquerque. Aos 76 anos, em 2010, lançou o primeiro de contos e crônicas: A solidão e espaçosa.  Quando ainda era estudante teve alguns contos publicados numa revista literária do Rio de Janeiro, pois desde cedo foi estimulada pelo avô, Ulysses Lins de Albuquerque, que era poeta e escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Durante muito tempo ela ficou escrevendo para si mesma e guardando em gavetas.

Inah, Advogada de formação e aposentada desde o ano 2000, sofreu um pouco para retomar aos textos ficcionais porque o “juridiquês dificultava voltar ao coloquial dos textos literários”, analisa. Foi então que resolveu entrar na oficina literária de Raimundo Carrero e recomeçou a escrever, participando de coletâneas publicadas anualmente pela Editora Bagaço e coordenadas por Carrero.

“Desde adolescente lia os livros da biblioteca do meu avô e na Faculdade Federal de Direito do Recife, onde estudei, trocava livros com colegas, entre os quais o poeta Carlos Pena Filho e outros que apreciavam a literatura”, diz. Sempre atenta à leitura e sabendo que sem ela não poderia ter uma boa base para escrever, teve a grande chance de cedo reunir uma bagagem razoável de conhecimento, lendo clássicos com voracidade, como Virgínia Woolf, sua escritora preferida. Mas também outros fizeram e fazem parte da sua estante, como James Joyce, Marguerite Duras e Machado de Assis.

Depois de dois anos sem lançar outro livro, Inah diz que já está produzindo uma novela com o título provisório de O Outro. “Após a publicação do meu único livro até agora, a sensação de vazio me tomou de assalto, o que entendo por não ter seguido o conselho de Flaubert que, após a publicação de um livro, o autor não o deve reler. Senti uma espécie de depressão pós-parto, acredito que faça parte do processo criativo” analisa.

Histórias não faltam para ela, que exerceu por alguns anos o cargo de chefe de Cerimonial no Governo Arraes. “Convivi com figuras internacionais muito interessantes, o que veio me acrescentar um valor cultural incalculável”, relembra.

A solidão pode-se tornar espaçosa para pessoas que deixam que isso aconteça. Para essa senhora, no auge dos seus 78 anos, a possibilidade de viver sem literatura poderia propiciar uma vida solitária, mas para ela, muito mais do que um simples rascunho no papel, a ficção é um estímulo de vida. “Foi a minha salvação. Ai de mim se não escrevesse”, finaliza.

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