Pobre futebol brasileiro

unnamedO número de gols sofridos contra a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, parece estar aumentando em proporções geométricas até essa parte.

Senão, vejamos: W.O. do Barueri – atletas do Operário deitados no gramado simbolizando a morte do futebol, salários atrasados nos clubes que formam a elite do futebol, clubes tecnicamente quebrados e CBF endinheirada, lateral-direito Maicon cortado da seleção por indisciplina, Lei de Responsabilidade Fiscal andando de lado, baixa qualidade técnica dos espetáculos, péssimas arbitragens, dirigentes de clubes e “Bom Senso” em rota de colisão, criação de uma entidade fiscalizadora – um discurso sem ação – e, finalmente, uma inédita conduta do atleta do Botafogo, Emerson Sheik, que protesta em frente às câmeras após ser expulso durante partida contra o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro com a seguinte crítica – “CBF, você é uma vergonha! vergonha! vergonha! vergonha!”.

Esses fatos dissonantes com o fair play desportivo, entre outros, são sinais evidentes que a indústria do futebol brasileiro está à deriva.

Tenho para mim que esse comportamento inadequado do Sheik possa ser percebido, apenas, como um sinal de rebeldia, intransigência, falta de educação, desrespeito pelas autoridades e agitação, capaz de atrapalhar as atividades do jogo e do espetáculo. Esta noção está atrelada ao entendimento de indisciplina ou de uma expressão emocional, em um determinado contexto, atuando como um instrumento para romper com a autoridade instalada e não reconhecida.

Entretanto, essa atitude indisciplinar deveria ser compreendida de maneira mais ampla, como uma oportunidade de revisão, de repensar as relações dos atores envolvidos sobre seus papéis no futebol, sobre as responsabilidades e sobre o processo educativo em que estão envolvidos, superando, assim, a visão de que a indisciplina é um problema inerente ao futebol.

Essa indisciplina poderia ainda, indicar a necessidade de crescimento, de mudança de atitude dos atletas sobre eles mesmos, sobre a autoridade das instituições e sobre a própria reorganização das entidades desportivas e do futebol como um todo.

Todavia, nos temas relevantes do futebol, muitos atletas, preferem “passar despercebidos”. Passar despercebido é sobreviver, usar a própria normalidade como máscara e ansiar pela indiferença das autoridades. Isso leva a prática de não se envolver com o momento que exige mudanças, com a forma de fazer as coisas ou com a autoridade instituída. Parecem precisar da autoridade para que sejam guiados numa estrutura anacrônica, que precisa ser repensada e reformulada. Seguramente não conhecem a força da sua categoria.

É preciso rever conceitos. Apropriar-se de autoridade sem o conhecimento e o respeito dos atletas, não adianta nada. Quando se tenta impor disciplina, a submissão e a revolta aparecem. Hoje, isso não se sustenta mais. O mundo é outro.

Logo, é impossível falar de indisciplina sem pensar em autoridade. E é impossível falar de autoridade sem fazer uma ressalva: ela não é dada de mão beijada, mas é algo que se constrói. Ou seja, ter autoridade é muito diferente de ser autoritário. Ameaçar e punir são atitudes inúteis. O atleta precisa aprender a noção de limite e isso só ocorre quando ele percebe que há seriedade com direitos e deveres para todos, sem exceção.

O futebol brasileiro vive uma crise de autoridade técnica e moral e, portanto, esse ato do atleta do Botafogo, se insurgindo contra a CBF, é uma maneira de comunicar ao mundo que algo não vai bem no futebol brasileiro. Quem sabe essa indisciplina se torne uma aliada para romper a inércia do encaminhamento de soluções estruturantes e moralizadoras.
Artigo elaborado pelo diretor-presidente da DFS Gol Business, Dagoberto Fernando dos Santos, após a reclamação do jogador Emerson Sheik contra a CBF.

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