Passos Miúdos: Uma Crônica Recifense

1925Por Zadoque Alves da Fonseca Filho

 

            A habitual necessidade de responder demoradamente às próprias perguntas conferia àquelas ruas, avenidas, pontes, uma espécie de rima subjetiva confortável. Caminhando, desobedecia a Visconde de Suassuna e entrava naDom Manoel Pereira porque os passos, ali enobrecidos, podiam ser mais suaves ou mais grosseiros sem a crítica alheia, dependendo do rumo seguido pelas reflexões incipientes. Afonso Pena, Rua do Príncipe, Bispo Cardoso Ayres, Corredor do Bispo, Gervásio Pires. Avenida Conde da Boa Vista, Rua do Hospício, Rua Imperatriz Tereza Cristina – a Rua da Imperatriz –, Ponte da Boa Vista. Os títulos da nobreza e o clero, aprisionados na estrutura férrica da ponte, libertavam os comuns em sua marcha particular contra o sol. Arredios, os transeuntes não se olhavam. Talvez também procurassem respostas no interior de seus corpos esquentados, talvez seu monólogo silencioso fosse mais fervoroso, talvez apenas temessem não tropeçar nos obstáculos que emergiam do chão.

            Desembocar na Floriano Peixoto, margeando o rio até a Guararapes, sempre podia trazer em mente as palavras da escritora Fátima Quintas, quando uma vez disse que “as pontes abraçavam o Capibaribe”. Havia de fato certa intimidade unindo aquele anonimato. Intimidade desajeitada. O rio era abraçado, mas as pessoas se esbarravam, acotovelavam-se, sem pedirem desculpas. Era desnecessário, uma vez que eram íntimos e compartilhavam mais do que percursos semelhantes. A intimidade era quase sexual. Tal como jovens amantes, as carícias por vezes machucavam física e emocionalmente. Libido anônima, inconfessável – noite de núpcias fingida –, tão receosa quanto curiosa, guiando os passos na estreiteza das ruas que cortavam a avenida principal. Nessa altura da travessia as perguntas se acumulavam, as respostas mais imediatas figuravam como as mais corretas, o ponto de partida esquecido, a boa expectativa residia apenas no encontro com ela: a Ponte Maurício de Nassau.

            Imperial, sim. Contudo seria falso dizer que suas estátuas transportavam para outro século. Se algo faziam… testemunhavam, imparciais, a posição de coadjuvante do recém-chegado. Seguir esse mesmo caminho, como reler um mesmo texto, era uma métrica estabelecida por pés ao invés de canetas. Mais ritualístico do que metódico, mais solene do que compulsivamente transtornado. Porque levava na pele, e não podia se desculpar por isso, os bons tratos de sua mãe. Porque jamais fizera com ela esse percurso, nele todo pensamento era solene. Respostas, então, jamais poderiam advir de um rompante emotivo passageiro. Ódios permanentes ou amores efêmeros não dispensavam a ponderação materna: “é que você leva tudo a sério demais”. A mãe o protegera, observações não eram nunca julgamentos, dispunha do perdão antes da consumação de quaisquer crimes. A mãe,que não nascera em Recife, mas o escolhera pelo cheiro de afeto existente numa época em que os homens ainda usavam terno e as mulheres escolhiam o melhor vestido para ir ao cinema, encarregou-se de mostrar a justa importância dos lugares, dos poetas, dos heróis, dos cantores, dos programas de rádio, dos sons do frevo, das tradições. Com outra intimidade, a maternal, ilustrava sua oralidade mostrando livros antigos.

            A pergunta inicial, pensada logo cedo, era dolorosa. Os passosexigiammiudeza. A antiga Ponte Giratória, lá do outro lado, continuara se chamando assim enquanto a mãe pudera descrevê-la com poética memória. Sozinho não sabia se era capaz de vê-la girar ou, mais especificamente, de sempre enxergar os melhores fragmentos da história da sua cidade e da sua vida.As versões da mãe realçavam a exuberância de uma cidade-referência no teatro, na poesia, nos habitantes, na elegância que se põe – humilde – ao lado das questões mais corriqueiras do dia. Isso, não outra coisa, tornava ruas, avenidas, casarios e pontes tão familiares. Isso tornava amniótico o concreto da Maurício de Nassau. Na esfera íntima de mais um transeunte comum, Recife consumava seuideal de cidade materna, embora a possibilidade de resposta começasse a desvanecer na atualidade da Ponte 12 de Setembro.

            Era necessário retardar a chegada na Avenida Marquês de Olinda, o sol não esgotara de todo a capacidade de reflexão. O texto produzido por seus pés dispensava a obrigação de uma métrica gramaticalmente correta,afinal era seu, quase como um diário adolescente, assim como era sua aquela ponte e todo o conjunto de memórias passado pela mãe. Não cabia pudores, a solenidade não era forçada, os perigos de uma sociedade cheia dedisparidadesainda não eram iminentes. Acompanhando o sentido da água, atravessou para o outro lado da ponte para observar o que traria a rede que um pescador acabara de puxar, espargindo seu conteúdo na calçada. Eis que o característico cheiro, intensificado naquele instante, parecia trazer mais do que peixes. Parecia o indício de uma resposta. Até então jamais havia precisado cozinhar, nunca tivera preparado qualquer comida que necessitasse de um mínimo de elaboração – mesmo do forno fora poupado. Ela sabia, todo o tempo, que um dia não poderia mais evitar a pior versão. Ela sabia que um dia não poderia mais fazê-lo se sentir um herói.

            Distante dos insights com inclinações eclesiásticas, apenas soube então, através da água que já escorrera até a pista, que o laço afetivo com as cidades é passado de geração em geração desde o ato de amamentar. A mãe decodificara o mundodele por meio de ícones recifenses. O marco inicial de sua vida, erigido cotidianamente no colo dela com tamanha delicadeza, garantira a perenidade de ambas. Se não fosse mais possível ver pontes girando, optar pelos melhores aspectos da existência, receber os mimos cuja eficiência só ela sabia, escolher a paz e resistir aos impulsos irascíveis, ser herói numa rotina apenas mediana e real…era certo que ela, a mãe – sua primeira pátria –, com desprendimento inequívoco, fora responsável por apresentar o melhor Recife. O seu Recife, mas sem a velhaca nostalgia de que no passado tudo sempre é melhor do que no presente. O seu Recife, uma cidade entregue para ser melhor quando ele, seu filho, precisasse estar sozinho. Para que um dia, quando chegasse a hora de voltar para casa e o conforto de seus olhos condescendentes não fosse mais possível, ele se reconhecesse na paisagem da cidade como nela se reconhecia.

Zadoque Alves da Fonseca Filho é professor da Escola Superior de Marketing e o novo colunista colaborador do Parlatório.

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