Ler um quadro é tão igual a um livro

Por Clodoaldo Turcato

19688578_1335648886533207_1992889101_oOntem alguém me disse (deixarei a pessoa sem nome, por questões de ética) que prefere quadros a livros já que o quadro é só olhar e pronto, já um livro é necessário tempo, atenção e consumiria parte de sua vida. Sim, escreveu “parte de sua vida”.

Este, aliás, é um conceito mais comum do que se imagina. Acreditarque uma obra de arte basta um olhar para compreendê-la, sem maiores “esforços”.  Ledo engano.

Ler um livro requer atenção, compreensão, ajustes e releituras muitas vezes. Um bom livro não se lê correndo. Um bom livro nos faz navegar por águas mais profundas ou espaços inconvenientes tantas oportunidades. Os livros “difíceis” são os que mais nos elevam. Um livro qualquer, sem profundidade, infantilizado pode ser lido de chofer. Já um grande livro requer mais paixão, gana e boa vontade. Ouço bobagens sobre Ulisses de James Joyce, por exemplo, ou Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Tive reservas com o Jornalista Reinaldo Azevedo antes mesmo de se colocar a serviço da mídia golpista quando numa entrevista ao Jornalista Ediney Silvestre disse que Guimarães Rosa é uma bobagem. A linguagem não lhe dizia nada. Ouvi isso de Joyce, de Victor Hugo e até de Machado de Assis. Oras!

O mesmo olhar desinteressado ocorre com a arte plástica. Tanto para bem, como para mal, a maioria olha um quadro de maneira tão ligeira que perde as nuances ou não entende patavinas. Se for bem pintandinho coloca na parede, senão atira suas pedras todas.  E assim, um monte de artesanatos e arte decorativa cobre as salas ricas e pobres. Uma obra de arte plástica precisa ser vista, revista, descontruída e sentida. Não se pode apenas passar o olho e supor que aquilo seja bom ou ruim, bem feito ou mal feito. Desta maneira legiões de pseudos-admiradores de arte vão ter Caravaggio, Rubens, Da Vinci,Rafael e toda a arte renascentista em seu conceito de arte, de resto nada serve. Os artistas concretistas, abstratos, póveros, minimalistas, etc, são relegados ao ostracismo e incompreendidos por que não cabem na ótica preliminar e superficial do perfeitinho.

Em Resumo, ler uma obra de arte custa tanto quanto um livro. Algumas peças depois de uma leitura mais séria não vão representar grande coisa, no entanto não se pode ver sem paixão ou ganas de enveredar pelas curvas que guardam seus segredos.

Faço essepreâmbulo para falar de Marcel Broodthaers. Até os seus 40 anos, foi poeta e escritor. Em 1963, decidiu ser também artista visual. Engessou 44 exemplares de seu livro Pense-Bête e, com esse gesto inaugural, começou a criar objetos. Na apresentação de sua primeira exposição, na Galerie Saint Laurent em Bruxelas, em 1964, já estava presente a crítica institucional, um certo humor e a manipulação das palavras. “Eu também imagino se não poderia vender algo e ter sucesso na vida”, escreveu no texto de apresentação. Em uma breve carreira como artista, sempre tendo a escrita entre suas fontes principais, fez esculturas, instalações, filmes e fotografias. Conhecido pelo uso de materiais cotidianos, como conchas de mexilhões e cascas de ovos, e pela criação do Musée d’ArtModerne, DépartementdesAigles, museu ficcional que não tinha localização ou acervo próprios, Broodthaers procurou ampliar as possibilidades da arte, da linguagem e do sentido com seus textos e objetos.

As LettresOuvertes (cartas abertas) foram escritas a partir de junho de 1968. Reproduzidas em grandes tiragens com um mimeógrafo, eram enviadas pelo correio a amigos artistas e outros profissionais da cena artística. A primeira carta foi escrita após a ocupação do PalaisdesBeaux-Arts, em Bruxelas, quando artistas, intelectuais e estudantes se manifestaram contra a mercantilização da cultura e da arte, num movimento inserido no contexto dos protestos anti-establishment que aconteciam em diferentes países. Essa assim como outras eram cartas pessoais, na primeira pessoa, mas ele também escrevia como representante do Musée d’ArtModerne, DépartementdesAigles, usando o papel timbrado da instituição. Contudo, seu conteúdo em nada lembra a correspondência de uma instituição oficial. Tanto nas cartas do artista como nas do museu, Broodthaers faz referência a fatos concretos e pessoas conhecidas, rebate suas próprias opiniões, desestabiliza certezas e cria, intencionalmente, contradições que questionam posições estabelecidas.

Um exemplo desse trabalho e sempre incomoda aos espectadores é Caçarola de Mexilhões Fechados. Uma pilha de conchas de mexilhão foi fixada com resina tingida de verde, evocando ao mar. As conchas parecem estar se movendo para cima, numa explosão de vitalidade. A imagem usa um trocadilho com as palavras “lamoule”  e “lemoule”. A obrafoi concebida como uma metáfora para o país natal do artista, a Bélgica, onde os mexilhões são um prato nacional: ao mesmo tempo , é uma sátira  à burguesia belga. É provavelmente a imagem mais famosa de Broodthaers. A escultura pode ser classificada como Arte Conceitual, já que as ideia subjacentes são mais importantes que as próprias obras. A obra de Broodthaers foi muito influenciado pelo pintor René Magritte. Como Magritte, ele muitas vezes de deleita com justaposições incongruentes e a criação de paradoxos visuais por meio da combinação de palavras , objetos do cotidiano e materiais impressos.  A obra esta na Tate Gallery de Londres.

A obra incomoda e muito.  Uma passadela rápida não implica em dar a dimensão da obra. Não se trata de uma caçarola com mexilhões, mesmo que nossos olhos insistam em nos mostrar isso. Existe todo um conceito por trás de uma escultura ou intervenção, como queira. Na obra de Marcel Brodthaers, o que é, pode não ser e vice-versa. Aliás, essa herança de seu conterrâneo René Magritte é, não só assumida sem nenhum problema por Broodthaers, como transformada em homenagem em trabalhos como A maldição de Magritte, de 1966, ou na adoção do cachimbo como um dos elementos de sua iconografia pessoal, exemplificado no trabalho “Modelo: a vírgula” , onde a vírgula se transforma na fumaça do cachimbo.

Outras obras do autor são Le sous-sol, temos uma paisagem simplificada, duas árvores à esquerda, algumas nuvens no céu, uma linha representando o chão, como num desenho de criança. Abaixo do chão, temos escrito “E SOUS-SOL”, para completar o título da placa, falta a letra “L” que está acima do chão. Pelo modo como está desenhada (somente com as linhas de contorno), por sua verticalidade, tamanho e espessura a letra “L”, aqui, tem referência clara com as árvores. Seguindo com o olhar indo das árvores até o “L”, podemos perceber que o chão é interrompido, temos algumas formas orgânicas e entre elas canais que ligam o céu ao subsolo, é como se o céu vazasse o chão. Se repararmos bem, no primeiro ponto onde o chão é interrompido está uma vírgula. Toda escrita desenha uma linha, que por vezes é padronizada pelos cadernos pautados. A vírgula rompe essa linha e vai residir no subsolo da escrita. Será que o ritmo proposto pela pontuação (vírgula, reticências etc) é que liga o mundo concreto ao subentendido?;Academia I e II temos de novo uma irônica brincadeira com a linguagem. Em Academia I, temos a placa e o texto em preto, apenas o título do trabalho e as palavras com os nomes das figuras geométricas estão em branco. Na Academia II, a placa e o texto estão em branco e os acentos, vírgulas e outros sinais de pontuação estão em destaque, em preto. Ou seja nas duas placas, numa primeira vista, quase não há nada para se ver – a característica da leitura rápida de placas de sinalização comuns foi neutralizada pelo artifício de se dar destaque a elementos não-funcionais. Por outro lado, o texto das placas é extremamente imagético. De sua leitura emergem diversas imagens literárias: associações desconcertantes entre elementos concretos e figuras geométricas em cores primárias, um universo fantasioso vai se configurando. As imagens nessa obra surgem do texto literário se contrapondo com o preto-e-branco-material das placas.;Escultura, 1974 Do lado de fora de uma maleta cheia de tijolos está escrito “escultura”. Será que a palavra diz sobre o que há dentro da maleta? A escultura em questão seria os tijolos? Ou os tijolos serviriam para se construir uma futura escultura? O que é a escultura? A própria maleta?

A obra de Brodthaers nos condiciona a questões importantes na vida e na arte que passarão despercebidas se você não prestar atenção ou preferir encher-se de preconceitos artísticos.Marcel Broodthaers morreu em Colônia, em 1976, aos 52 anos de idade, no auge dos movimentos da arte conceitual e de contracultura.Em apenas 12 anos de percurso nas artes plásticas, realizou exposições individuais em Bruxelas, Paris, Berlim, Düsseldorf, Milão, Amsterdã, Londres, Nova Iorque, Zurique e Los Angeles. Participou da 4a (1968), 5a (1972) e 7a (1982) edições da Documenta de Kassel e das edições de 1976 e 1986 da Bienal de Veneza. No Brasil participou da 22a Bienal Internacional de São Paulocom uma Sala Especial, em 1994, e da exposição coletiva ALÉM DOS PRECONCEITOS: A experiência dos anos sessenta, que reuniu 125 artistas do mundo todo no Paço Imperial – Rio de Janeiro, 2001, e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2002.

Branco como a neve

branco como a neve Simukka, Salla.jpg okPor Lorena Moura

Lumikki está de volta! Para quem não sabe, ela é a personagem principal da trilogia criada pela autora  Salla Simukka. Depois de ter passado por muitas  situações de tensão na mão da máfia, (no primeiro livro da série), a personagem agora tenta se recuperar do pesadelo que viveu.

A recuperação tem início na charmosa cidade de Praga, capital da República Tcheca. Por lá, ela irá conhecer Zelenka, que afirma ser sua irmã. Mas se tem uma coisa que o leitor vai aprender nos livros de Salla Simukka é que não se deve confiar em ninguém. Mas Zelenka conta uma história tão envolvente, que Lumikki resolve ir conhecer parte da família de sua irmã. 

No lugar, não parece existir nenhum indício de que uma família resida lá… Não existem fotos e nem pertences comuns a uma casa que deveria abrigar lembranças de quem more nela… E para deixar a situação ainda mais tensa, um dos moradores da casa morre de forma misteriosa. Lumikki ainda terá que lidar com uma seita secreta aterrorizante.

O livro resenhado hoje, “Branco como a Neve”, é o segundo da série criada por Salla Simukka. O terceiro e último será “ Negro como  o Ébano”. Eu gostei bastante da obra. Tem todo aquele ar sombrio e tenso, misturado com terror e suspense. A capa linda já mostra um pouco do que espera o leitor, uma espécie de conto de fadas misturado com terror.

Adorei também conhecer Praga através da narrativa de Salla Simukka, ela nos faz passear por diversos lugares da cidade. Eu nunca estive lá, mas posso garantir que agora já sei de algumas particularidades desse lugar. Boa leitura!

 

Lorena Moura- Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

O simples pode não ser tão simples assim

Por Clodoaldo Turcato

Quando vamos prepara algo simples, parece simples fazê-lo. Redundância necessária para que o leitor compreenda o que propomos hoje. Tornando ao início, ao se determinar algum quadro, a maioria dos pintores elaboram esquemas, desenhos, projeções, composições e materiais para que sua ideia seja transportada para um suporte. Neste processo se busca um tema, uma concepção que faça o expectador compreender o quadro.  Todo o processo parece complicado e trabalhoso. É o mesmo que compor uma canção. Primeiro a ideia de letra ou melodia, depois cortes, adaptações, ajustes, ensaios, provas para gravar. Essa caminhada é penosa, ás vezes chata, porém necessária.

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De tudo, ao compor algo imagina-se que quanto mais simples melhor de se fazer. Em arte não é bem assim, principalmente em artes plásticas. O objeto simples precisa encantar e encantar de maneira simplificada é uma das especialidades de Pierre Bonnard.

Pierre Bonnard foi um personagem de peso para o nascimento da Arte Moderna e, ao mesmo tempo, um artista cuja obra é profundamente pessoal e difícil de ser classificada. Membro fundador do grupo simbolista dos “nabis“, sua contribuição é fundamental para poder compreender a passagem entre o pós-impressionismo e o simbolismo em um momento no qual a pintura passava por uma revolução radical através da cor. Sob a influência da pintura de Gauguin e da estampa japonesa, Bonnard desenvolveu um estilo próprio, vivaz e realmente original, onde o decorativo convive com um lirismo carregado de melancolia.

Bonnard preferiu ficar à margem das correntes vanguardistas que imperavam na época para dedicar-se ao seu mundo cotidiano. Focou-se em temas da sua vida familiar, nos quais a pintura dominava pouco a pouco a realidade, e em paisagens que mostram uma natureza arcádica, vibrante e luminosa, onde o poder de expressão da cor assume um protagonismo cada vez maior. Bonnard, descrito frequentemente como o pintor da felicidade, afirmou no fim da sua vida, que “Aquele que canta, nem sempre é feliz”. De modo similar, sob a aparência de simplicidade tranquila e de uma alegre harmonia, sua pintura se mostra complexa e cheia de matizes.

Em 1888, quando tinha apenas vinte anos, Pierre Bonnard fundo o grupo dos “nabis”, juntamente com seus colegas da Academia, Julian Denis, Vuillard, Ranson e Sérusier, inspirados pela tábua O talismã pintado pelo último seguindo as orientações de Paul Gauguin. Os integrantes do grupo se autodenominaram profetas (significado da palavra “nabi”, em hebraico). com a intenção de apresentar em suas pinturas uma verdade que ultrapassasse o mundo visível através da exaltação da cor, da simplificação das formas e da transcendência mística e enigmática das suas composições. Em sua aspiração de simplificar as manifestações artísticas até atingir suas formas mais essenciais, os nabis, e principalmente Bonnard, encontraram inspiração na arte japonesa em questões como o abandono da modelagem ilusória do corpo, a renúncia à perspectiva central tradicional e a modificação das leis ocidentais da proporção e do movimento.

Umas das obras que mais se destacam do pintor é A janela aberta um óleo sobre tela medindo 118×96 cm que está no Phillips Collection, em Washington, Estados Unidos. A janela aberta por dentro, a menina adormecida e o gatinho mas se distinguem no tumultuo de cores vividas. O observador é estimulado a entrar e juntar-se a cena, olhando para as árvores mais além, do lado de fora, Bonnard consegue transmitir a atmosfera de calo e tranquilidade do sul da França usando tons vivos e quentes.

Bonnard era conhecido pelos seus interiores, a vida cotidiana e as pinturas “sem tema” específico.O jogo de cores e as formas desengonçadas, nos carregam com um momento único, cordões que nos levam a mesclar olhares num gigantesco enredo em duas dimensões. Em comparação com seus colegas do grupo nabi, Bonnard mostrou ser inimigo das teorias artísticas dominantes e dos assuntos pomposos, preferindo representar em seus quadros sua vida cotidiana. Seus interiores, com ou sem personagens, não descrevem nenhum acontecimento notável, mas fazem referência a grandes temas e sentimentos, como a ternura, a solidão, a falta de comunicação ou o erotismo. Bonnard consegue provocar essas sensações de modo magistral empregando planos muito próximos e, na maioria dos casos, com cortes bruscos, para focar a atenção em um lugar, pessoa ou grupo específico. Apesar da sensação de familiaridade transmitida por esses interiores, as mudanças frequentes de perspectiva e a iluminação artificial reforçam a impressão de que os personagens estão fechados, criando uma atmosfera carregada de mistério.

Um dos temas preferidos de Bonnardfoi a representação do corpo nu no ambiente doméstico, principalmente as cenas na intimidade do asseio da mulher, que podem ser visualizados através de portas e janelas em seus quadros. A maioria desses nus representam Marthe de Méligny -amante de Bonnard desde 1893 e com a qual acabou se casando em 1925, embora também tenha usado como modelos outras mulheres que representam seu ideal feminino: corpo miúdo, pele clara, seios altos e rosto indefinido.

Os nus de Bonnard permitem contemplar a evolução do artista, desde seus trabalhos mais escuros e eróticos na mudança do século {L’lndolente ou L’hommeetlafemme) até a explosão de luz e cor produzida em sua obra posterior (Nu dansunintérieur), passando por outras que transmitem um erotismo extinguido, entre as quais estão as cenas no banheiro, nas quais o corpo lânguido de Marthe é diluído pelas cores e a que atravessam a água (Le Bain).

Bonnard considerou sempre que era um pintor decorativo, dedicando, portanto, parte da sua produto a criar painéis para decorar o mural de casas. Nessas obras, Bonnard representou um mundo arcádico e feliz, harmonioso e pacífico, onde personagens contemporâneos e seres mitológicos aparecem em total sintonia com a natureza. Para isso, usou a luz e a paisagem de Vernon e de Le Cannet como inspiração. Assim sendo, a pintura monumental da Arcádia de Bonnard expressa uma alegria de viver e a exaltação de gozo que, às vezes, são atenuadas por certa angústia existencial. Nessas obras, o poder de expressão da cor assumiu um papel relevante em especial, onde Bonnard inquietações formais também em grande formato, parecido aos seus quadros de tamanho médio.Embora seus modelos e cenários sempre estivessem à mão, Bonnard raramente pintava diretamente do natural. Ao contrário, costumava fazer desenhos e pinturas aquarelas nas páginas de pequenos diários e contava com eles, bem como com sua memória, para fazer as pinturas no estúdio. Portanto, para Bonnard, o desenho representava um meio de pensamento e uma parte essencial da sua criação. A seleção de desenhos mostrada na exposição abrange diferentes fases e facetas da criação Bonnard, desde desenhos para projetos de decoração até rápidos esboços da vida moderna, passando por paisagens mortas feitas em guache e aquarela que representam verdadeiros estudos de cores as cenas de interior.

Do mesmo modo que muitos dos seus contemporâneos, Bonnard sentiu-se atraído pelas possibilidades que a fotografia, então em pleno auge, lhe oferecia. No começo da década de 1890, adquiriu uma das primeiras câmeras portáteis fáceis de usar. Suas primeiras fotografias documentam momentos comuns da vida em família, principalmente os períodos de férias na chácara da família em Grand-Lemps, que não tinham nenhuma intenção a mais do que formar um álbum de lembranças.Entretanto, descobriu logo o papel que as fotografias poderia desempenhar para sua pintura, porque ofereciam modelos com poses escolhidas ou espontâneas, e sua imediatez e imaginação de composição aparecem representadas em muitos dos seus quadros. Suas séries de fotografias de Marthe nua sobas plantas do jardim de Montval e dentro da casa são especialmente impactantes.

Estar com um quadro de Bonnard traz uma sensação de que a beleza pode ser simples, no entanto necessita de um conjunto de elementos para que o resultado final seja ideal. O simples, pode não ser tão simples assim.

Um pintor apenas

Por Clodoaldo Turcato

Ao que se aprofunda em arte, como em tudo na vida, vai esmiuçando cada vez mais e aumentando as classificações. Então, se no início você entende as grandes escolas de arte, depois de algum tempo vai descobrir intervalos não menos interessantes e artistas que não se encaixariam em nenhuma escola ou em várias. Eu, particularmente, não gosto muito destas classificações. Afinal, qualquer artista pode transitar em vários estilos e fazer uma construção ampla de experimentos que não fixam, moldam e muito menos prendem. Não se pode encher o peito e falar que é modernista, romântico, barroco, renascentista, etc. Depois do advento da fotografia e a revolução impressionista, o conceito de arte se ampliou a tal por que temos dificuldades em nos situar. É importante estar aberto para o novo, visualizar sem preconceitos e formular estudos para que a comparação seja apenas acadêmica, sem amarras. Um dos grandes artistas mundiais que é inclassificável chama-se David Bomberg.

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David Bomberg nasceu em Birmingham, Inglaterra, em 1890 e era filho de imigrantes poloneses. Em suas obras utilizava formas angulares e semi-abstratas. Com esses trabalhos o artista demonstrava toda a vitalidade que dominava o povo no início do século XX e a agitação que as máquinas estavam trazendo para a sociedade o que passou a modificar muito os costumes da população. Foi um dos mais audaciosos da geração excepcional de artistas que estudaram na Slade School of Art sob Henry Tonks e que incluiu Mark Gertler , Stanley Spencer , CRW Nevinson e Dora Carrington . Bomberg pintou uma série de composições geométricas complexas combinando as influências do cubismo e futurismo nos anos imediatamente anteriores a Primeira Guerra Mundial ; Tipicamente usando um número limitado de cores impressionantes, transformando os seres humanos em formas simples e angulares, e às vezes superpondo a pintura inteira, um forte esquema de coloração de trabalho em grade. Ele foi expulso da Escola Slade de Arte em 1913, com acordo entre os professores seniores Tonks, Frederick Brown e Philip Wilson Steer , por causa da audácia de sua violação da abordagem convencional da época.

Seja por sua fé na era da máquina ter sido quebrada por suas experiências como soldado particular nas trincheiras ou por causa da atitude retrógrada generalizada em relação ao modernismo na Grã-Bretanha Bomberg mudou-se para um estilo mais figurativo na década de 1920 e seu trabalho tornou-se cada vez mais dominado por retratos E paisagens tiradas da natureza. Desenvolvendo gradualmente uma técnica mais expressiva,ele percorreu muito o Oriente Médio e a Europa.De 1945 a 1953, trabalhou como professor na Universidade Politécnica de Borough (agora London South Bank University ) em Londres, onde seus alunos incluíram Frank Auerbach , Leon Kossoff , Philip Holmes, Cliff Holden , Dorothy Mead, Gustav Metzger , Dennis Creffield Cecil Bailey e Miles Richmond . David Bomberg House , um dos salões de estudantes das residências da London South Bank University, é nomeado em sua homenagem.

Uma de suas obras que sintetizam boa parte de seu trabalho é O Banho de Lama, um Óleo sobre tela medindo 152,5 x 224 cm, que está na Tate Gallery de Londres, Inglaterra. De início o quadro pode parecer totalmente abstrato. Na verdade, ele mostra uma sauna usada pela comunidade judaica de Whitechapel, em Londres.Figuras azuis e brancas se acotovelam e pelam no retângulo vermelho da sauna, se atirando em volta do pilar escuro. A peça é brilhante pela composição e distribuição de formar num espaço e saltitam aos nossos olhos nos atirando as formar sensuais das formadoras do quadro. A forma como Bomberg reduz a figura humana a uma série de formas geométricas pode refletir seu fascínio pela era da máquina, que ele compartilhou com os Futuristas e Vorticistas. Esta pintura também pode representar a forma humana, despojada de seu núcleo essencial.

O excelente desenho de Bombergfoi expressado também em uma série de retratos aolongo da vida, desde o início de seu “Cabeça de Poeta” de Botticelli (1913)z, um retrato de lápis de seu amigo, o poeta Isaac Rosenberg, pelo qual ganhou o Prêmio Henry Tonks No Slade , ao seu “Último Auto-Retrato” (1956), pintado em Ronda, uma meditação também sobre Rembrandt . Incapaz de obter uma posição docente após a Segunda Guerra Mundial em qualquer das mais prestigiadas escolas de arte de Londres, Bomberg tornou-se o professor mais exemplar do período imediato de pós-guerra na Grã-Bretanha, trabalhando a tempo parcial em uma escola de padaria no Borough Polytechnic (agora London South Bank University ) no distrito da classe trabalhadora da Southwark. Embora seus alunos não tenham recebido nenhum diploma e não tenham recebido nenhum diploma, ele atraiu alunos dedicados e altamente enérgicos, com quem exibiu em igualdade em Londres, Oxford e Cambridge em dois importantes grupos de artistas em que ele era a luz principal, o BoroughGroup e BoroughBottega . Desenvolveu uma filosofia de arte profundamente considerada,

Após um colapso em Ronda ,Bomberg morreu em Londres em 1957, seu estoque crítico aumentando bruscamente depois disso. Um dos admiradores de Bomberg, o pintor Patrick Swift , desenterrado e editado pensées de Bomberg, e mais tarde foi para publicá-los, juntamente com imagens do trabalho de Bomberg, como ‘The Bomberg Papers’ em seu ‘ X revista (Junho de 1960). Após o seu sucesso inicial antes da Primeira Guerra Mundial, ele foi na sua vida o artista mais brutalmente excluído na Grã-Bretanha. Tendo vivido há anos sobre os ganhos de sua segunda esposa, companheira Lilian Holt e remessas de sua irmã Kitty, ele morreu na pobreza absoluta. Seguindo a sina de muitos grandes artistas, Bomberg foi reconhecido postumamente e hoje seus quadros são leiloados por milhões de dólares.

O reconhecimento póstuma de Bomberg se justifica dado a grandiosidade de seus quadros. É uma arte diferente, desencontrada que se encontra em traços e cores. Um pirilampo que nos leva a passear nossos olhos por todos os cantos da tela e nos tira da mesmice, enaltecendo a beleza e a candura. Não importuna e não incomoda ver um quadro de Bomberg. Ao contrário, nossa alma é talhada, agraciada e refeita. O artista não era abstrato somente, não era modernista, cubista ou qualquer outra classificação. Bombergera um pintor e fim.
Outras obras do artista são A igreja do Santo Sepulcro, Lilian, Ju-Jitsu, Flores e Racerhorses.

Angus- O primeiro Guerreiro

Sem título.png okPor Lorena Moura

Eu gosto bastante de filmes e livros que tenham como pano de fundo a idade média, com todos os seus guerreiros, batalhas, reis, rainhas, magia e muita, mas muita trama. E o livro resenhado de hoje segue essa temática e conta a história de ” Angus- O primeiro guerreiro”.

Para começar, devo situar vocês no espaço de tempo em que a obra é desenrolada. O livro se passa na Bretanha, no ano de 863, quando em uma invasão, homens do norte devastam a Ilha da Bretanha, deixando o lugar um verdadeiro cenário de guerra e é quando surge Angus, que vai participar da sua primeira expedição à Terra dos Anglos do Leste e junto com o seu pai, Seawulf Sangue de Gelo são convocados por  Ivar Sem-Ossos para se juntarem ao exército viking para vingar a morte do pai de Ivar, o Ragnar. Será nessa batalha que o jovem Angus irá matar o seu primeiro homem e também sofrer um baque terrível, ele irá perder o seu melhor amigo durante a batalha.

No meio dessa confusão toda, os vikings protegidos de Ivar acabam matando um dos amigos do pai de Angus, que jura vingança, mas é claro que a traição não vai parar por aí… Ivar vai trair Seawulf, e Angus terá que fugir sozinho para o meio da floresta em busca da sobrevivência. Vale lembrar que ele ficou ferido durante a batalha.

No meio da perigosa floresta ele será ajudado por Nennius, um monge que irá ensinar ao jovem guerreiro, as sete virtudes e a fé. Depois de passar um longo período recebendo esses ensinamentos, Angus sairá em busca de vingança pela morte do seu pai. Além disso, sua meta também é deter Ivar e por fim a sua onda de destruição.

Eu particularmente gostei da leitura, que tem uma linha muito bem construída, com sequências bem amarradas e cenas muito bem descritas. Cenas essas que levam o leitor a gostar de todo o universo construído por lá. É claro que alguns eventos são bem longos, mas nada que atrapalhe o leitor apaixonado por este universo. Queria destacar também a linda edição e diagramação feita pela Editora Novo Conceito. O livro é composto por ilustrações incríveis que só contribuem para o desenvolvimento da leitura. Elas dão uma certa realidade a história desenvolvida pelo autor brasileiro, Orlando Paes Filho. Indicado! Boa leitura!

 

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

O policial de Daniel Cole

Bonecodepano_CapaWEB.jpg para sitePor Lorena Moura

A cena é a seguinte, os policiais chegam ao lugar do crime e encontram um boneco de pano, mas o trágico aqui é que o boneco é composto por partes do corpo de seis pessoas. É esse o enredo do livro resenhado desta semana ” Boneco de Pano”, do autor Daniel Cole.

Na obra o polêmico detetive William Fawkes, também conhecido como Wolf, por causa das iniciais do seu nome está de volta à ativa depois de ter passado um bom tempo em tratamento psicológico por conta de uma tentativa de agressão. Logo ele é chamado ao caso juntamente com a sua colega de profissão Emily Baxter para tentar elucidar o caso, procurando identificar as vítimas, o assassino e o que o motivou a realizar esses crimes.

No meio disso tudo, Wolf ainda terá que lidar com a curiosidade e ganância da sua ex-mulher, a jornalista Andrea Hall, que recebe de forma anônima fotografias da cena do crime e uma lista com o nome de seis pessoas que o assassino pretende matar. E claro, divulga na mídia. Na lista também constam as datas que os crimes serão executados. O que ninguém esperava era que o nome do próprio Wolf estivesse presente. E claro, como em todo bom romance policial, a contagem regressiva já teve início e a corrida atrás do assassino será recheada de confusões, mentiras, traições, amizades e muita tensão.

Eu particularmente gostei do livro, achei que o autor foi muito feliz no desenvolvimento da obra, mas também senti que em alguns momentos que ele desperdiçou muitas linhas com um alongamento de cenas desnecessárias. Sabe aquela impressão de que ele poderia ter avançado logo na história…Fiquei pensando dessa forma, até porque na minha opinião ele poderia ter aumentado um pouco o final. Mas nada que diminua a qualidade da obra. Indico demais essa leitura para todos que assim como eu, adoram um bom romance policial. Boa leitura!

Lorena Moura-Jornalista

lorenamoura87@gmail.com