Os quatorze anos que mudaram o estilo da arte e arquitetura

412242-como-usar-saia-lapis-0Por: Clodoaldo Turcato

Cara Leitora. Caro leitor. Muito provavelmente você não sabe, porém você se utiliza de arte muito mais do que imagina. Não! Até mesmo o mais reticente dos avessos utilizam produtos e serviços baseados em arte, sem saber. Vou lhes contar uma historieta:

No fim do século XIX, a Alemanha temia o fracasso industrial em decorrência de uma falta de habilidades técnicas  e atividade industrial. Tendo a Grã-Bretanha como exemplo de pais industrializado, os alemães identificaram como uma das molas propulsoras o movimento de designer Arts&Crafts, criado por William Moris. A seu ver a industrialização era um mal que degradava o artesão, transformando-o numa ferramenta. Acreditava que as lições do passado tinham muito a oferecer e que um artesão poderia se tornar mestre se tivesse talento suficiente, retirando o artista de seu pedestal de semideus e que a arte era do povo para o povo. Então um estudioso alemão chamado HerrMuthesiusimaginou que poderia adotar os princípios de Moris em escala industrial. Logo, oficinas de artesanato brotaram por toda Alemanha e em 1907 foi estabelecida a Werkbund alemã, que tinha como objetivo aumentar a demanda dos consumidores e educar o público em matéria de gosto. Criou-se para isto um conselho formado por representantes de artes e de negócios. O grupo se especializou em arquitetura e começou a desenvolver grandes arranha-céus e chamar atenção do mundo. Logo os ideais da Werkbund alemã se espalharam pela arquitetura do país, elevando o estilo e estima daquele povo. A escola foi chamada para fazer parte do establishment responsável para renovar a imagem do país. Mas veio Primeira Guerra Mundial e…

Um dos integrantes e entusiastas dos novos ares arquitetônicos se chamava Walter Gropius, influente designer berlinense. Ele lutou na guerra e viu a destruição de seu país  e queria fazer alguma coisa para ajudar o reerguimento. Alimentado pela democracia alemã, após a queda da monarquia, se integrou a República de Weimar  e fundou a Bauhaus, uma escola de arte e arquitetura que adotou os princípios da Werkbund alemã. A ideia era fazer os estudantes encontrarem o artista que estava dentro de si mesmos, exacerbando as habilidades intelectuais e práticas necessárias a construção de uma nova Alemanha civilizada e menos egoísta. Os alunos da Bauhaus começariam como aprendizes, seguindo para artífices e, se fossem bons, acabariam mestres.  Gropius sustentava que a arte suprema era a arquitetura “o fim de toda a arte suprema é a construção.

E, em certa medida, teve sucesso. O século XX veio com um consumismo voraz, impelido por uma tecnologia, que na maioria das vezes, era vestida pela ousada escola de designers da Bauhaus: O fusca; as lâmpadas Anglepoise; as antigas capas dos livros da Penguim; as saias lápis dos anos 60; os vastos espaços brancos do MoMA, a beleza aerodinâmica da era espacial, tudo isso foram projetos da Bauhaus. A marca do modernismo inspirado pela Bauhaus é evidente nas estruturas geométricas gigantescas, simples e revestidas de concreto que passaram a dominar o ambiente do século XX. Do Lincoln Center em Nova Iorque aos Dez grandes edifícios que emolduram a Praça da Paz Celestial em Pequim, nota-se a impressão digital do modernismo da Bauhaus.

As ideias artistas da Bauhaus tinham sofrido grande influência do expressionismo alemão surgido em 1905  com o grupo Die Brucke e seguido alguns anos depois pela turma do Cavaleiro Azul, de Kandinsky. Ambos os grupos haviam sido inspirados pelos expressionistas Van Gogh, Munch, e o primitivismo de Gauguin. O mestre desta conjunção era Ernst Ludwing Kirchner, um artista que depois da guerra passou  a pintar quadros em tom sombrio, como Autorretrato de um soldado, de 1915. Kirchner se retrata como um amputado de olhos vazios vestindo uniforme militar, mantendo o coto do braço direito ensanguentado para cima como evidência da inutilização de uma artista pela carnificina da guerra. Atrás está uma mulher nua, pintada como o esquematismo de um desenho rupestre. Ela está presente, mas parece ocupar outro mundo. A mensagem é clara: a guerra castrou o soldado, ele nunca mais amará de novo.

Este ambiente perturbador que a Bauhaus estava envolvida, ideias libertárias, imagens deformadas, espiritualidade mística e crueza gótica, atraíram dois mestres: Wassily Kandinsky e Paul Klee no auge de suas carreiras. Kandinsky assumiu a oficina de pinturas naturais e Klee a oficina de vitrais. Imagine o quatro de atenção a escola atraiu com a entrada destes gênios?  A Bauhaus estava melhorando enquanto a vida política ia de mal a pior. A Alemanha lutava para cumprir o Tratado de Versalhes para à Tríplice Entente. Era uma tarefa árdua que consumia a matéria-prima existente (principalmente madeira) e a nova república sofria divisões com ascensão da direita que passaram a ver a Bauhaus com um núcleo socialista que nada produziam de valor ou mérito. Gropius foi obrigado a realizar mudanças internas para atender aos novos ares. Para isso contratou o húngaro László Moholy-Nagy, um mestre rigoroso que assumiu o cargo de mestre de formas e a oficina de metais e junto com Josef Albers (aluno que se tornou mestre) e o holandês  Theo van Doesburg (oriundo do grupo De Stijl),  conseguiu dar linha moderna pela qual a Bauhaus é lendária. A escola aos poucos foi se afastando do expressionismo e adotando o princípio do movimento De Stijl: se estilo era antítese  da escola da criatividade para o modelo de disciplina e precisão – instrumentos mínimos; máximo impacto; pode-se fazer mais com menos.

A mudança causou impacto imediato. Os alunos foram estimulados a usarem novos materiais, mais modernos e remeter suas composições a Malevich, Rodchenko, Popova e Lissitzky, artistas abstratos. O uso de materiais modernos e novos estilos foram imediatamente incorporados pela indústria alemã, que conseguiu assim produzir produtos em série, diminuindo os custos de produção. Em 1923 a Alemanha parou de pagar suas reparações pela Primeira Guerra Mundial e tropas francesas e belgas entraram no país, seguiu-se a hiperinflação e desemprego em massa e a verba para a Bauhaus foi drasticamente cortada.  Anos depois, porém, os Estados Unidos socorreu a Alemanha emprestando dinheiro e a confiança voltou, o desemprego caiu e a atividade industrial retomou.  As cidades queriam estimular novas empresas, mas precisavam de tecnologias e pessoal treinado, coisas que a Bauhaus tinha.

Gropius teve muitos inimigos, mas nenhum tão mau e poderoso como Adolf Hitler. O outrora artista odiava o modernismo e os intelectuais. Em 1933, com sua posição política segura, ele impôs o fechamento da melhor escola de artes e designers do mundo. E para demonstrar o quanto tinha de ódio pela instituição, promoveu uma exposição de EntarteteKunst (arte degenerada) e mandou seus capangas  pilharem museus do país e removessem todas as obras da arte moderna. Obras de Wassily Kandinsky, Paul Klee, LyoneFeininger, Ernst Ludwig Kirchner, dentre outros, foram confiscadas e expostas de maneira caótica, acompanhadas por textos escarnecedores, estimulando o público a rir da “arte degenerada”.

A Bauhaus tinha reunido em Wiemar representantes de todas as escolas de arte abstrata: Kandinsky, Klee e Feininger, do grupo O Cavaleiro Azul; Van Doesburg representando a De Stjil; e Nagy e Albers defendendo a arte não objetiva russa. Aquela instituição pequena, com poucos recursos, atraiu uma soma de talento artístico semelhante à de Florença durante o Renascimento e à Paris fin-de-siécle.

Com o fechamento da Bauhaus, artistas que na Primeira Guerra Mundial lutaram por seus países, reagiram de forma diferente: foram para os Estados Unidos, onde puderam contribuir para que se tornasse a Nação mais poderosa do mundo, enquanto Hitler esfacelava a Europa. Nesta viagem estiveram WlaterGropius, Ludwig Mies van der Rohe, Wassily Kandinsky,  László Moholy-Nagy, Josef Albers, Marcel Breuer, LyonelFeininger, PietMondrian e muitos outros. Além de cientistas como Albert Stein que auxiliava a Bauhaus financeiramente.

Então meu caro, quando você estiver usando um aparelho de barbear, trocando uma lâmpada, dirigindo um automóvel, assistindo desenhos animados ou cortando a grama de sua casa, acredite: isso tem principio da Bauhaus, uma escola que em apenas quatorze anos conseguiu o inimaginável.

Na próxima semana falaremos do movimento impressionista, um momento transformador das artes plásticas.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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