Os braços apodrecidos

2125f91b9f8b9749dcb8e7fcec8f7e9fPor Jacqueline Souza

Educadora e colaboradora do Portal Parlatório

Havia uma pequena cidade bem distante que nem sequer aparecia no mapa. As pessoas deste lugar eram muito supersticiosas, tinham medo de qualquer coisa que lhes contassem e fosse fora do normal, todavia se conheciam e sabiam tudo a respeito da vida de cada habitante. As casas eram muito juntinhas umas das outras, o que acontecia entre as paredes, comentava-se no dia seguinte. Os assuntos por menores que parecessem, espalhavam-se em bares, igrejas e principalmente no coreto da praça, onde os jovens gostavam de ficar.

De repente, ocorreu um assassinato terrível, uma bela jovem ruiva de quinze anos, fora encontrada morta, sem os olhos e com os braços levantados, como se estivesse segurando os braços de seu algoz, que a estrangulara. O mais intrigante é que embaixo de suas unhas, continha sangue enegrecido, o que denunciava não ter sido a ação feita naquele dia. Ela estava com suas roupas rasgadas, mas de acordo com a perícia local, não sofrera abuso sexual. Provavelmente quem fizera aquilo, certamente por maldade ou queria esconder algo que ela teria visto e deveria ficar na obscuridade.

Sua mãe, ao ver aquela cena, chorou copiosamente e quase enlouqueceu,  pois havia bebido muito na noite anterior e nem se dera conta do sumiço da filha. Estava com um amante, vindo da cidade grande, o qual não era bem visto pela pobre Joana, agora morta.

Os moradores permaneceram em choque com tal visão horripilante. Não teriam mais a imagem da linda garota, cheia de alegria e que encantava a todos. Estar ao seu lado significava ter momentos de felicidade. Quem teria feito tal atrocidade com alguém tão especial? O pavor tomou conta dos arredores. Ninguém podia confiar em ninguém.

O velório da menina se deu após a missa, depois da comovente celebração do padre. Enterraram-na de branco com um véu branco no rosto e por mais que tentassem arrumar suas mãos para segurar uma vela, não conseguiam, porém repararam que um de seus dedos apontava para alguém, como a delatar o bárbaro cruel de sua infelicidade. Seu rosto assustado, sem olhos estarrecia de pânico os que ali estiveram para dar o último adeus. Seu pescoço muito machucado fora coberto por um tecido leve e branco.

Terminado o enterro, retornaram para seus lares. O delegado Martim Severo percebeu que alguém não havia comparecido à missa, o sacristão Belarmino e estranhou muito. Decidiu ir à casa do homem que auxiliava o padre e obviamente, uma pessoa de bem, conhecido da comunidade e não um forasteiro. Desceu a ladeira e o encontrou muito doente, escondendo os braços com uma camisa de mangas compridas, talvez estivesse febril. Martim fez algumas perguntas para saber se ele havia visto alguma coisa a respeito da moça, ao que o homem respondeu ao seu interlocutor, não saber de coisa alguma e nem da tragédia.

Seu Belarmino, sempre decente, sem resquícios de maldade, com certeza não desconfiaria dele, pois apresentava uma postura moral ilibada. Na verdade, as desconfianças pairavam sobre o amante da mãe da garota, que ficou preso, mesmo dizendo não ser o culpado.

Passaram-se anos e o homem continuava na cadeia e dizia-se inocente. A doença do sacristão evoluiu e seus braços ficaram em carne viva, fedia e ninguém queria ficar perto dele. Os amigos tentaram visitá-lo, porque não saia mais de casa, e o encontraram muito mal, notaram que seus braços estavam em estado de putrefação, saíram dali  com medo de que fosse algo contagioso.

Num belo dia de domingo, a genitora da desventurada, entrou gritando na igreja, dizendo que sonhara com a filha pedindo para abrirem o caixão dela, que deveriam ver algo que não viram no dia de seu velório.

Decidiram abrir  e o corpo dela já decomposto, com exceção dos braços e do dedo em riste, acusador, em perfeito estado. O sacristão desta vez presente  parou diante do corpo exumado que parecia apontar para ele e começou a chorar muito. Confessou seu crime hediondo e que cometera aquele ato, porque ela não o queria para namorado, então não ficaria com ninguém. Arrancou seus lindos olhos verdes e os guardou. Agora desolado pedia perdão a todos e principalmente àquela criatura que maltratou tão impiedosamente, causando-lhe a morte. Os braços dela desmancharam-se como magia e os do assassino voltaram ao normal.

O delegado liberou o amante da mãe da Joana, com mil pedidos de desculpas e a cidade toda se mobilizou para angariar dinheiro para recompensar o tempo que ficou encarcerado injustamente.

Seu Belarmino foi preso aos gritos de revolta das pessoas. Permaneceu alguns anos na cadeia e morreu depois com câncer na garganta. Seu corpo não teve um funeral digno. Anos mais tarde, quando se deu o tempo da exumação do corpo, algo surpreendeu a cidade, seus braços intactos, ainda confessavam seu crime sem perdão.

 

Dizem que até hoje seus braços malignos de horror estão intactos no cemitério em cima de sua lápide.

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One comment on “Os braços apodrecidos

  1. Roger disse:

    Excelente narrativa e enredo que prende a atenção até a última linha. Gostei muito!

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