O texto que é o mundo

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Por: Danuza Lima

O texto que é o mundo não é um texto único: cada página é tradução e metamorfose da outra, e assim sucessivamente. O mundo é a metáfora de uma metáfora. O mundo perde sua realidade e se transforma numa figura de linguagem.

[Octavio Paz, Os filhos do barro]

Juncos, linhas, agulhas e o desespero da caneta parada, eis as categorias de uma escrita. Os juncos que nos ligam à terra, ao barro do qual mitologicamente viemos, as linhas das palavras que nos distanciam do animal que lutamos para erradicar em nós, as agulhas para costurar as linhas no tecido enigmático do texto, o desespero de burlar nossas inquietações. Tal metaforicamente [permita-me dizer que isto é um devaneio] se resume a composição lírica. Por toda a vida é a briga para moldar o barro da vida, transpô-lo em matéria sensível, audível, inscritível – para não nos distanciarmos das fórmulas matemáticas –, eis o poema. O mundo é vasto, mas tão íntimo quanto nossas mais efêmeras dores e inquietações, o texto é tão plural, mas tão nosso quanto qualquer palavra que no ambiente da mente ainda não foi professada.

“O texto que é mundo” me empresta a metáfora.

O mundo que somos nós me empresta a certeza.   

Se o texto se funda em um oco – espaço entre o silêncio, a experiência do mundo em nós e as palavras – os poetas são decifradores de enigmas do mundo. Encarceram-se nesse oco embrionário da linguagem e retornam a superfície munidos do princípio ativo da vida, sua essência. A tarefa de cifrar a realidade tangível, a essência da vida e novamente torná-la cifrada somente se efetiva na perspectiva de um texto que é o mundo, de um texto que responda as inquietações, ao desespero e apresente novamente os juncos ao qual nos ligamos. O que quero dizer é que mesmo absurdamente solipsista, mergulhado no Daisen, o texto é o mundo e sua presença em nós, avisa-se na sua decifração constante. É o tecido da vida costurado sob uma malha fina, composta por outros textos – cuja definição permanece a mesma – um palimpsesto para ler a vida. A experiência da vida, sua cifra na escrita e a constante interpolação de baús míticos reconcilia o texto com a história, o torna único, “metáfora da metáfora” da vida. Não há quem duvide ao abrir um poema para o seu mundo particular ver saltar sua própria vida e sentir um cheiro úmido de um junco milenar, não se assuste, é somente você, vertido em metáfora do mundo em texto.

Danuza Lima é escritora, professora e mestran

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