O simples pode não ser tão simples assim

Por Clodoaldo Turcato

Quando vamos prepara algo simples, parece simples fazê-lo. Redundância necessária para que o leitor compreenda o que propomos hoje. Tornando ao início, ao se determinar algum quadro, a maioria dos pintores elaboram esquemas, desenhos, projeções, composições e materiais para que sua ideia seja transportada para um suporte. Neste processo se busca um tema, uma concepção que faça o expectador compreender o quadro.  Todo o processo parece complicado e trabalhoso. É o mesmo que compor uma canção. Primeiro a ideia de letra ou melodia, depois cortes, adaptações, ajustes, ensaios, provas para gravar. Essa caminhada é penosa, ás vezes chata, porém necessária.

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De tudo, ao compor algo imagina-se que quanto mais simples melhor de se fazer. Em arte não é bem assim, principalmente em artes plásticas. O objeto simples precisa encantar e encantar de maneira simplificada é uma das especialidades de Pierre Bonnard.

Pierre Bonnard foi um personagem de peso para o nascimento da Arte Moderna e, ao mesmo tempo, um artista cuja obra é profundamente pessoal e difícil de ser classificada. Membro fundador do grupo simbolista dos “nabis“, sua contribuição é fundamental para poder compreender a passagem entre o pós-impressionismo e o simbolismo em um momento no qual a pintura passava por uma revolução radical através da cor. Sob a influência da pintura de Gauguin e da estampa japonesa, Bonnard desenvolveu um estilo próprio, vivaz e realmente original, onde o decorativo convive com um lirismo carregado de melancolia.

Bonnard preferiu ficar à margem das correntes vanguardistas que imperavam na época para dedicar-se ao seu mundo cotidiano. Focou-se em temas da sua vida familiar, nos quais a pintura dominava pouco a pouco a realidade, e em paisagens que mostram uma natureza arcádica, vibrante e luminosa, onde o poder de expressão da cor assume um protagonismo cada vez maior. Bonnard, descrito frequentemente como o pintor da felicidade, afirmou no fim da sua vida, que “Aquele que canta, nem sempre é feliz”. De modo similar, sob a aparência de simplicidade tranquila e de uma alegre harmonia, sua pintura se mostra complexa e cheia de matizes.

Em 1888, quando tinha apenas vinte anos, Pierre Bonnard fundo o grupo dos “nabis”, juntamente com seus colegas da Academia, Julian Denis, Vuillard, Ranson e Sérusier, inspirados pela tábua O talismã pintado pelo último seguindo as orientações de Paul Gauguin. Os integrantes do grupo se autodenominaram profetas (significado da palavra “nabi”, em hebraico). com a intenção de apresentar em suas pinturas uma verdade que ultrapassasse o mundo visível através da exaltação da cor, da simplificação das formas e da transcendência mística e enigmática das suas composições. Em sua aspiração de simplificar as manifestações artísticas até atingir suas formas mais essenciais, os nabis, e principalmente Bonnard, encontraram inspiração na arte japonesa em questões como o abandono da modelagem ilusória do corpo, a renúncia à perspectiva central tradicional e a modificação das leis ocidentais da proporção e do movimento.

Umas das obras que mais se destacam do pintor é A janela aberta um óleo sobre tela medindo 118×96 cm que está no Phillips Collection, em Washington, Estados Unidos. A janela aberta por dentro, a menina adormecida e o gatinho mas se distinguem no tumultuo de cores vividas. O observador é estimulado a entrar e juntar-se a cena, olhando para as árvores mais além, do lado de fora, Bonnard consegue transmitir a atmosfera de calo e tranquilidade do sul da França usando tons vivos e quentes.

Bonnard era conhecido pelos seus interiores, a vida cotidiana e as pinturas “sem tema” específico.O jogo de cores e as formas desengonçadas, nos carregam com um momento único, cordões que nos levam a mesclar olhares num gigantesco enredo em duas dimensões. Em comparação com seus colegas do grupo nabi, Bonnard mostrou ser inimigo das teorias artísticas dominantes e dos assuntos pomposos, preferindo representar em seus quadros sua vida cotidiana. Seus interiores, com ou sem personagens, não descrevem nenhum acontecimento notável, mas fazem referência a grandes temas e sentimentos, como a ternura, a solidão, a falta de comunicação ou o erotismo. Bonnard consegue provocar essas sensações de modo magistral empregando planos muito próximos e, na maioria dos casos, com cortes bruscos, para focar a atenção em um lugar, pessoa ou grupo específico. Apesar da sensação de familiaridade transmitida por esses interiores, as mudanças frequentes de perspectiva e a iluminação artificial reforçam a impressão de que os personagens estão fechados, criando uma atmosfera carregada de mistério.

Um dos temas preferidos de Bonnardfoi a representação do corpo nu no ambiente doméstico, principalmente as cenas na intimidade do asseio da mulher, que podem ser visualizados através de portas e janelas em seus quadros. A maioria desses nus representam Marthe de Méligny -amante de Bonnard desde 1893 e com a qual acabou se casando em 1925, embora também tenha usado como modelos outras mulheres que representam seu ideal feminino: corpo miúdo, pele clara, seios altos e rosto indefinido.

Os nus de Bonnard permitem contemplar a evolução do artista, desde seus trabalhos mais escuros e eróticos na mudança do século {L’lndolente ou L’hommeetlafemme) até a explosão de luz e cor produzida em sua obra posterior (Nu dansunintérieur), passando por outras que transmitem um erotismo extinguido, entre as quais estão as cenas no banheiro, nas quais o corpo lânguido de Marthe é diluído pelas cores e a que atravessam a água (Le Bain).

Bonnard considerou sempre que era um pintor decorativo, dedicando, portanto, parte da sua produto a criar painéis para decorar o mural de casas. Nessas obras, Bonnard representou um mundo arcádico e feliz, harmonioso e pacífico, onde personagens contemporâneos e seres mitológicos aparecem em total sintonia com a natureza. Para isso, usou a luz e a paisagem de Vernon e de Le Cannet como inspiração. Assim sendo, a pintura monumental da Arcádia de Bonnard expressa uma alegria de viver e a exaltação de gozo que, às vezes, são atenuadas por certa angústia existencial. Nessas obras, o poder de expressão da cor assumiu um papel relevante em especial, onde Bonnard inquietações formais também em grande formato, parecido aos seus quadros de tamanho médio.Embora seus modelos e cenários sempre estivessem à mão, Bonnard raramente pintava diretamente do natural. Ao contrário, costumava fazer desenhos e pinturas aquarelas nas páginas de pequenos diários e contava com eles, bem como com sua memória, para fazer as pinturas no estúdio. Portanto, para Bonnard, o desenho representava um meio de pensamento e uma parte essencial da sua criação. A seleção de desenhos mostrada na exposição abrange diferentes fases e facetas da criação Bonnard, desde desenhos para projetos de decoração até rápidos esboços da vida moderna, passando por paisagens mortas feitas em guache e aquarela que representam verdadeiros estudos de cores as cenas de interior.

Do mesmo modo que muitos dos seus contemporâneos, Bonnard sentiu-se atraído pelas possibilidades que a fotografia, então em pleno auge, lhe oferecia. No começo da década de 1890, adquiriu uma das primeiras câmeras portáteis fáceis de usar. Suas primeiras fotografias documentam momentos comuns da vida em família, principalmente os períodos de férias na chácara da família em Grand-Lemps, que não tinham nenhuma intenção a mais do que formar um álbum de lembranças.Entretanto, descobriu logo o papel que as fotografias poderia desempenhar para sua pintura, porque ofereciam modelos com poses escolhidas ou espontâneas, e sua imediatez e imaginação de composição aparecem representadas em muitos dos seus quadros. Suas séries de fotografias de Marthe nua sobas plantas do jardim de Montval e dentro da casa são especialmente impactantes.

Estar com um quadro de Bonnard traz uma sensação de que a beleza pode ser simples, no entanto necessita de um conjunto de elementos para que o resultado final seja ideal. O simples, pode não ser tão simples assim.

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