O Ser-se estrangeiro

indexPor Danuza Lima

Carinho e amor são prisões, algemas, barco ancorado. A ideia de permanência desata o nó entre o jovem e a menina, que possui o simbólico nome de Helena, a nos lembrar a Helena de Tróia, que enfeitiça Príamo com o seu olhar. Mas o rapaz não se seduz com olhares e dedicações infantis, seu desejo é romper. Não há uma força que venha de dentro de si e seja controlada pelo afeto e pelo amor; essa força que o ronda vem de fora e de dentro, energias coercitivas que pulsam nas veias do ser estrangeiro. Aquele que, segundo Julia Kristeva, tem por natureza humana “não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor” (1994, p 15). Essa força maior o faz dizer “Não posso ter amarras”, e ela salta de dentro de si, ela o domina.

O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em pleno ar, a própria transição que exclui a parada. Pontos de referência, nada mais. O seu tempo? O de uma ressurreição que se lembra da morte e do antes, mas perde a glória do estar além: somente a impressão de um sursis, de ter escapado (KRISTEVA; 1994. p 15).

O estrangeiro é aquele que está alheio ao sentimento do outro, seu olhar reflete a calma de uma mãe ao ninar o filho, mas a violência e o ímpeto de quem vive sob o peso de si próprio. Na emergência de si, ele rompe violentamente com o mundo que o cerca. Ele foge a Helena de forma crua, mas suas palavras trazem a organização de um discurso sedutor, terno, como a água a correr solta no cais, contudo violento, como as ondas a baterem vorazes sobre os cascos do barco no porto, seu“ rosto queima a felicidade” (KRISTEVA; 1994, p 11). E diante desta prisão emocional vigente, mais uma vez, ele foge:

– Eu não seria um bom pai. Teria pena de você. Amaria muito meus filhos. Seria um amor excessivo, que os incomodaria. Eu não suportaria olhar para eles, à noite, enquanto dormissem. A expectativa com os seus destinos me faria louco. Não se pode viver com demasiada piedade. E, além do mais… (…) tenho uma certa aversão à vida conjugal. À união (LINS; 1994, p 73).

Esse desejo de fuga do estrangeiro se concretiza com o mergulho. Novamente as águas, o mar para molhar a cabeça aflita, fugir da estabilidade de uma vida a dois. O estrangeiro não se une a nada, possui a “felicidade do desenraizamento, do nomadismo, o espaço de um infinito prometido” (KRISTEVA; 1994, p 12). Esse infinito prometido é a imensidão do oceano:

Era preciso, porém, aliviar aquela aflição. Se não, teria um sono inquieto, agoniado. Talvez um grande mergulho no mar…(…) uma onda veio rugindo. Desfez-se, envolveu os pés. Pelo rumor, ele percebeu que outra se levantara, além. Sem mais reflexão, correu de encontro a ela e mergulhou. (…) “Mas…,” pensava… “quando voltar… não estarei no mesmo? Não estarei no mesmo?… (LINS; 1994, p 76).

Ele precisava do “conhecido estranho” que o rondava, precisa romper, necessidade do estrangeiro, e o mar o chamava. Ele personifica-se em navio, pois “para atravessar o mar é necessário um navio; o casamento é um navio frágil” (CHEVALIER, GHEERBRANT; 2003, p 593). Ele não poderia se casar, não poderia se ancorar em um único porto, porque ele se faz múltiplo. Entregava-se ao mar fugindo de algo que não sabia, sabia apenas que o desejo de explorar rasava os céus de seus pensamentos. A entrega é uma fuga da vida humana para a liberdade salgada, pois a para ele “a vida não é mais que a separação das entranhas da terra, a morte reduz-se a um retorno à casa” (ELIADE in DURAND; 2002, p 236).

E nadava. (…) Ele sentia uma alegria confusa. (…) Seria então a paz.  (…) O mistério revelado não seria mais que uma tranquilidade esponjosa e incolor. Não, nem esponjosa nem incolor; nem tranquilidade sequer. O nada (LINS; 1994, p 77).

E o navio rompe o mar, rasa a salinidade com toda sua liberdade, “vê-se nitidamente a morte inverter-se, tornar-se o agradável acordar do mau sonho que a vida aqui embaixo seria” (DURAND; 2002, p 239). O sal tem gosto travado, como a liberdade que para ser conquistada precisa quebrar-se aos poucos, secando ao sol, como nas salinas. Ele desejava atravessar a si mesmo, sendo ele navio. “O fundo do mar é povoado e (…) não havia mais destino a escolher” (LINS; 1994, p 78), “o gosto pelo navio é sempre alegria em fechar-se perfeitamente…” (BARTHES in DURAND; 2002, p 251). Tinha de perder-se na imensidão do azul para afastar de si, pelo menos por um instante, o desejo do nomadismo. “Tornava-se vasto como o mar” (LINS; 1994, p 79), e quando as águas fundem-se em seu casco de navio, a areia o recolhe. Ele se encontra preso ao mar, mas livra-se com o receio de não mais sair, volta ao seu estado de estrangeiro de si mesmo, ancorado ao seu próprio ser.

 

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