O retorno de “O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção)”*

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A solidão nos faz imaginar as pessoas que não conhecemos feito velhos amigos nossos, onde as qualidades são as nossas, os defeitos, os esquecemos, os escondemos, para não nos vermos por inteiro, para não nos vermos em um espelho.

Meu novo amigo era mais do que um amigo imaginário, porque era feito de carne e osso, e habitava a cela ao lado. Ele não fazia barulho durante a noite, não falava comigo durante o dia. Mas quando cruzávamos o olhar, as poucas vezes em que cruzávamos o olhar, era feito a eternidade existisse por um segundo, ou mesmo o tempo não houvesse mais.

(…)

Uma amizade recomeçada é o vaso trincado em mil pedaços, e mesmo assim inteiro e pode-se ver através de cada rachadura. É preciso um bocado de humildade para reconhecer as fissuras, e que a culpa não é de um só, é de cada um em movimento com o outro, o que se quebrou foi a dança do amor infinito, que é a mesma dança do ódio que se acabou.

Quando se perde tudo, quando não se tem mais nada, sentimos o vazio apaziguar a alma, preencher fissuras, e o peso de nossos corpos sobre a esteira fina de palha aquece os nossos corações.

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Há duas semanas não escrevo. É sempre mais difícil recomeçar do que insistir no treino diário. É preciso lapidar o tempo inteiro o diamante, é preciso polir todos os dias a pedra de mármore, para que se faça nascer a escritura.

Muitas vezes o que se encontra não é válido para mostrar nem aos amigos, não vale o esforço que se gastou. Mas o movimento da mão que escreve sobre o papel grosso manipula uma parte escondida do cérebro que somente a experiência constante promove, somente o exercício diário traz à tona. Uma parte que costumo chamar de coração.

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Um diálogo é feito do inesperado, é feito do imprevisível, ao mesmo tempo em que usamos toda a nossa bagagem na teia que está sendo tecida. Não sabemos o que diremos no instante seguinte, porque precisamos da palavra do outro a ser enlaçada com a nossa palavra, e promover significado, e conceder explicação.

Feito em um circo, em um número de acrobacias, quando não sabemos como os artistas farão para manter o equilíbrio e não cair, ou mesmo os malabares com bolas-palavras trocadas pelo ar, soltas pelo ar correndo o risco de tropeçarem umas nas outras e provocarem um encontro mortal.

Cuidávamos de nossas palavras, eu e o meu companheiro de diálogo, como se fôssemos esses malabares que, com os pés no chão, olhavam para o alto, olhavam para as suas bolas-palavras navegando pelo ar, flutuando pelo ar em busca de sentido.

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Será possível o futuro se comunicar com o passado? O tempo ocupar dois lugares ao mesmo tempo? Se nesta frase que acabei de escrever ele ocupa o princípio e o final, porque não poderia ocupar lugares bem distantes do planeta, momentos diferentes que se fazem simultâneos, apenas pela sensibilidade do ser que o percebe? O artista seria esse grande captador de momentos diversos, afastados entre si anos, séculos, vidas, mas sempre pronto para toma-los para si feito pequenas conchas e tecer todo um oceano de sentidos apenas com o manusear da palavra escrita.

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Quando se entra em um livro de maneira tão intensa, de maneira tão inteira se mergulha nas palavras, se permanece imerso nas palavras como se não houvesse tempo, como se não houvesse espaço, e se deixa transformar em outro ser humano. A escrita e a leitura se confundem, feito duas setas contrárias da mesma flecha: do sentido para quem escreve, do sentido para quem lê.

E neste balé imaginário, nesta troca de fluidos entre corpos nasce a inspiração, que não é a das musas, não provém dos deuses, mas das partículas aceleradas desses corpos em movimento.

Quando se fecha um livro, tudo se desfaz, tudo desaprende para se aprender de novo, tudo se libera do passado original, para ser original com uma nova cor, um novo rosto, um novo roçar dos meus olhos nesta frase que se encerra.

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A morte é a desaprendiz da vida, e tudo o que vivemos se reverte em seu contrário. Tudo o que pensamos garantir com o trabalho, com o dinheiro, com o poder, está sendo gasto para sempre, está sendo posto para sempre no mundo de Hades, e coberto para sempre com o esquecimento.

Desaprendemos para poder viver. Não nos lembramos, pois já não suportamos mais o peso das mortes cristalizadas dos atos que eu fiz, de quem eu magoei, dos erros que cometi. Só existe um porém para a morte, só existe uma saída para todo esquecimento. Uma saída que é água para o fogo, paz para a guerra, bálsamo para a ferida. Uma saída que se chama amor.

(…)

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Trechos de O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), Patricia Tenório.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

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