O que é arte? Essa pergunta precisa realmente ser respondida?

Por Cldoaldo Turcato

22359497_1428919090539519_1564207174_nA nobre arte da escultura tem representatividade em todos os tempos. Não se pode esquecer que cada artista expressa, geralmente, o presente ou o passado. O futuro não aconteceu e assim, salvo os futuristas de plantão ou economistas medianos, o artista vai trabalhar naquilo que viu e vê.

Parece-nos lógico. A escultura é um processo tão trabalhoso quanto qualquer atividade artística. Exige acima de tudo empenho, esforço, persistência e treino. E o talento? Talento sem esforço leva a lugar nenhum. Não acredite no folclore de que a arte surge do nada, de coisa nenhuma. Todos os artistas praticam e muito. No final da vida, qualquer artista terá milhares de desenhos, esboços, estudos e tentativas para ser reconhecido por uma dezena de trabalhos. O jogador de futebol joga vinte anos, porém quantos grandes títulos ele conseguirá durante a carreira? Depende de talento, empenho, sorte e dedicação – treino.

Ao cruzar dados para compor este texto, me deparei com o escultor Emile-Antoine Bourdelle, um trabalhador insano que durante sua longa vida, nos presenteou com grandes obras, monumentos e evocação ao estilo próprio, elevando a escultura ao patamar de obra prima.

Emile-Antoine Bourdelle nasceu em Montauban em 30 de outubro de 1861. Ele era o único filho de Emilie Reille, filha de um tecelão, e Antoine Bourdelle, carpinteiro e armário que esculpiam os móveis que ele projetou. Na escola, a criança mostrou um tal presente para o desenho de que seu professor, o Sr. Rousset, permitiu-lhe expressar-se livremente, “sentado em uma espécie de salão, longe do resto da aula”. Aos 13 anos, Bourdelle juntou-se ao estúdio de seu pai como aprendiz. À noite, ele tomou aulas de desenho em Montauban, onde aprendeu técnicas de modelagem com base no estudo de cópias de moldes de gesso antigos. A habilidade do jovem construtor de gabinete logo lhe valeu o reconhecimento dos amantes da arte em Montauban. Em 1876, recebeu bolsa de estudos e passou no exame de admissão para a Escola de Belas Artes de Toulouse.Bourdelle experimentou oito anos de solidão e trabalho febril durante seus estudos em Toulouse, temperada pela disciplina da instituição acadêmica.Em 1885, ele se mudou para o estúdio em 16, impasse du Maine – que agora é o museu. Nesse mesmo ano, seu elenco paster da La Première victoire d’Hannibal  ganhou uma medalha no Salão de Artistas Franceses. Isso trouxe reconhecimento, mas Bourdelle ainda teve que ganhar a vida. Em 1893, Rodin contratou-o como um assistente do escultor. Os dois homens se respeitaram e a colaboração provou ser decisiva.  

Este período foi fundamental para sua ascensão. Trabalhar, aprender, ousar e manter disciplina e até mesmo se dignar a servir, calcificaram Bourdelle, dando-lhe lastro para ter sua personalidade, desassociada da produção de Rodin. Em 1909, Bourdelle começou a ensinar na Academia Grande Chaumière, onde seus alunos incluíram Alberto Giacometti, Germaine Richier, Vieira da Silva e Otto Gutfreund. Exposto em 1910 no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes, O arqueiro Héraklès de Bourdelle foi aclamado pelo público e pelos críticos. Muitos museus pediram para exibir a obra-prima e foi reproduzido em todos os lugares, mesmo em livros escolares infantis. Gabriel Thomas deu a Bourdelle outra comissão, desta vez para o Théâtre des Champs-Elysées , por turnos arquitetos, escultor e pintor, Bourdelle mais uma vez provou sua capacidade de “conceber tudo como um monumento”. A década de 1919-1929 provou uma época de grandes comissões oficiais:La Vierge à l’offrande  erguido em Alsácia e La France em frente ao Grand Palais para a Exposição de Artes Decorativas. O Monumento ao Geral Alvéar foi inaugurado em Buenos Aires em 1926, e o Monumento a Adam Mickiewic em Paris, em 28 de abril de 1929.

Mas escultura não é tudo igual? Como saber se a diferença de um para outro? A resposta virá com estudo, muito estudo. Não se aprende olhando nos museus apenas. Diferenciar Rodin de Michelangelo depende de muita percepção e compreensão de uma obra de arte. O Pensador ou Davi, bem como Hércules são monumentos da arte. Cada qual tem características próprias, uma pegada, um gesto, um movimento que diferencia. Ao olhar a obra de Bourdelle nota-se o esforço, a gana, o empenho para chegar a perfeição absoluta. O talhar de Bourdelle nos angústia, enche nossos olhos de cacos e cada movimento harmoniza com traços sujos, incompletos às vezes e factuais.  O escultor nos revela o feio, o comum, o mundano sem querer a grandeza dos céus de Davi. Não reflexiona sobre a vida como Rodin, apenas atira as pedras a nossa frente e nos revela que arte é feita para refletir, além de embelezar.

Em grosso modo, se formos analisar uma obra de Michelangelo, por exemplo, encontraremos a superfície primorosamente lisa, enquanto as produções de Bourdelle são marcadas. Isso é raso demais, apenas escrevo para fazer o leigo perceber que há diferenças. Nada disso teria valor pictórico se essas diferenças fossem apenas de suporte e técnica. E não se deve apenas quantificar ou qualificar por diferenças, mas por força de expressão, conjunto de causa e efeito e o que para mim é fundamental: a arte precisa incomodar você.

Mas como devo me incomodar? Bom, não tem fórmula. Arte mexe com cada um de uma maneira. O que vejo muito é fingimentos diante de obras que não se compreende, principalmente arte moderna. Uma escultura como Monument aux morts de Capoulet-Lunac certamente causará impressão no expectador. Ninguém fica ileso. Além da dificuldade técnica da peça, que mede 220×320 cm, as curvas do entalhe e a agonia dos corpos nos obrigam a respirar fundo, olhar várias vezes e de novo, de novo… Parece fácil, no entanto somente um trabalhado com afinco faria isso. Quando comemos uma saborosa maçã, poucas vezes perguntamos como ela chegou até nossa mesa. Existe o plantio, a colheita, a embalagem, o transporte, etc. Tudo com esmero e cuidado para que chegue diferenciada. Vamos perceber isso. O mesmo se diga de uma escultura. Eu me pergunto sempre como fora a concepção das obras-primas. Como uma fruta me surpreende, uma obra muito mais. E cá pra nós, é preciso ter muita dedicação para aprender a plantar maças. O mesmo se diga para uma obra de arte, como uma escultura.

Em resumo, vamos ter a eterna discussão sobre o que é arte. Já escrevi aqui a diferença  entre expressão artística e arte. Porém a pergunta segue: o que é arte? Quando reflito sobre isso caiu numa devassidão tremenda de argumentos  e questiono se isso tem resposta ou se existe necessidade de se responder isso. Temo que não! Porém de uma coisa fique certo, caro leitor, arte de primeira não é algo atirado ao vento. Arte exige muito trabalho mesmo.

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