O navio que aporta para a liberdade

Talvez Osman Lins guarde em sua obra a eterna atmosfera ritualística da descoberta do mundo ou a eterna aprendizagem do viver a linguagem. Mas entre o talvez e a certeza do agora, fica posto que sua obra parece sempre figurar entre o agente possível e o impossível tanto no campo da linguagem (a exemplo do experimental Avalovara), quanto no campo da imagem.

Há quase um mês, comemorava-se timidamente o nascimento e a morte do escritor pernambucano, nascido em Vitória de Santo Antão, a 5 de julho de 1924 e falecido a 8 de julho de 1978. Vida, morte/reinício em uma mesma semana

Os próximos dois textos de nossa coluna serão dedicados ao mestre Osman, em uma também tímida  declaração de afeto pelo fruto de um ritual eterno com a linguagem e sim, com o corte por ela e nela criado, a imagem.

O texto desta semana, resgata o conto “O navio”, publicado incialmente em Os gestos, livro de contos publicado no fim década de 50.

 Danuza Lima

Escritora. Professora. Mestra em teoria da Literatura pela UFPE

 navio-fantasma-flickr

O navio que aporta para a liberdade

 O mar é força que arrebenta, vê-se nele a liberdade do corpo, da alma.

Água, fonte, vida, o mar guarda os seus segredos. “Tudo sai do mar e tudo retorna a ele” (CHEVALIER, GHEERBRANT; p 592). Miticamente, banhar-se nas águas salgadas equivale a purificação do corpo. Reino dos encontros, é pelo ritual do mergulho nas águas salgadas que ressurgimos, como se nascêssemos novamente, sem morte aparente.

Em O navio, conto do escritor pernambucano Osman Lins, presente no livro Os gestos; o personagem mergulha nas águas para desbravar a si próprio, batizando sua alma. Em meio aos seus pensamentos, ele se refugia no mar, nas águas salgadas, o mergulho, o fazer-se outro, tornar-se livre.

Sozinho, após longa conversa, que o deixara atordoado, o rapaz vai de encontro ao mar, o refúgio para pensamentos tumultuados. O mar, a noite, propiciam reflexões e no campo imagético do conto, as imagens são construídas conforme a atmosfera noturna que permite ao personagem adentrar-se em si mesmo, a simular espécie de retorno a sua verdadeira casa, a liberdade. Este “impulso ativo” segundo a teoria do regime noturno da imagem de Gilbert Durand “implica os cumes, a descida magnifica o peso e reclama o enterramento ou o mergulho na água e na terra fêmea” (DURAND; 2002, p 236).

Ele chega sozinho, como costuma estar sempre, contempla a plenitude do mar, a altivez, a força, a liberdade das ondas. O mergulho é inevitável, é preciso acalmar-se dentro das águas salgadas, aquelas que fecundam, queimam. Para ele, há calma dentro da desordem das ondas há completude na inquietude, voltar a tornar-se o que era, antes de perder-se no contato com Helena, moça jovem que desperta no rapaz um sentimento por vezes estranho para ele, o amor.  É preciso encontrar a liberdade. Seus pensamentos transfiguram-se em vontade, mergulhar, já que contemplar o mar apenas não o faria tranquilo, era preciso fundir-se dentro das águas, como um navio a romper os mares desconhecidos. Durand esclarece que “é necessário descer-se de novo à caverna, tomar em consideração o ato da nossa condição mortal, tanto quanto pudemos, bom uso do tempo” (DURAND; 2002, p 193).

“Talvez um mergulho me fizesse bem”, refletira. Mas, como não tinha calção, ficara a olhar o movimento das vagas, que perdiam a luz e tornavam-se pardas. A contemplação não o tranquilizava e o pranto contido fazia-o sentir-se cada vez mais opresso. Entregara-se então a ele, mas não inclinara a cabeça: continuara sentado, a olhar para a frente, sem enxergar as ondas que surgiam no horizonte, cresciam, mergulhavam, reapareciam mais perto e, com áspero rumor, sucumbiam (LINS; 1994, p 72).         

O desejo de se romper nas ondas, de encontrar novamente a liberdade é expresso pelo mergulho no mar, nas águas salgadas, que, segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “são símbolos da vida, puras, elas são as criadoras e purificadoras” (2003. p 18 – 19).

Agora, dono de si novamente, ele questiona seu pranto: por que essa agonia a lhe dominar? “Mas por que afligir-me, pensava. Não voltei a ser dono de mim mesmo? Não estou livre outra vez?” (LINS; 1994, p 72).

O desejo de se romper nas ondas, de encontrar novamente a liberdade é expresso pelo mergulho no mar, nas águas salgadas, que, segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “são símbolos da vida, puras, elas são as criadoras e purificadoras” (2003. p 18 – 19).

Agora, dono de si novamente, ele questiona seu pranto: por que essa agonia a lhe dominar? “Mas por que afligir-me, pensava. Não voltei a ser dono de mim mesmo? Não estou livre outra vez?” (LINS; 1994, p 72).

Entre ele e o mar, existe uma ligação estreita entre o desejo de fusão com desejo de fuga. Se as águas correm soltas, donas de si mesmas, ele também deve correr como elas, que são livres e completas, não se ligam a nada. Ele também é assim. Ao sentir que sua afeição pela garota Helena ultrapassava seus próprios limites, o personagem foge da ideia de instabilidade, do amor. A possibilidade de amarras ou de pouso é prisão para quem deseja aportar para a liberdade. O amor o prenderia, o faria outro. Dessa forma, teria ele outra identidade – perderia até mesmo a dor de cabeça, como um dos mal-amados de João Cabral de Melo Neto –. Sucumbir aos desígnios da paixão e aos carinhos de uma mulher seria o fatídico fim de si mesmo.

Como o mar, ele corre solto, estranha sua própria natureza, seu próprio ser e foge, porque seu destino é fugir de tudo que o sufoque, que o amarre como a um animal. Seu ser desbravador e estrangeiro precisa sair de todos os lugares, pois não se firma, não cria raízes. Mas o outro nunca compreende essa vontade intermitente de desancorar em cada porto, por isso ele é sempre compreendido como aquele que não ama, ou tem medo de amar, de embarcar em um terreno desconhecido, porque “a felicidade estranha do estrangeiro é a de manter essa eternidade em fuga ou esse transitório perpétuo” (KRISTEVA; 1994, p 12).                                                     

– Sou doente – dissera-lhe. – infelizmente, nenhuma doença física. Posso trabalhar. Podia ter filhos. Mas isso me seria penoso. Detesto o dinheiro e não suportaria vê-la grávida. De resto, eu não quero me amarrar. Não posso ter amarras[1] (LINS; 1994, p 73).


[1] Grifo meu.

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