O mundo de cabeça para baixo

Por Clodoaldo Turcato

17439510_1231308250300605_730977103_nQuando você ouve falar em quadros, a primeira ideia que lhe ocorre com toda a certeza é de um suporte com figuras sobrepostas por alguma técnica de pintura de maneira plana, ereta e normal. Por mais que o quadro seja abstrato, sempre seria de forma usual, conexa com nosso campo de visão. Bem, não é o caso das obras de George Baselitz, um artista que vêo mundo de cabeça para baixo literalmente.

Nascido como Georg Kern, em 23 de janeiro de 1938 em Deutsch baselitz, no estado alemão da Saxônia, o pintor Georg Baselitz chegou aos 70 anos com um estilo diferente do que o caracterizara desde o final dos anos de 1960, quando, para escapar do Conceitualismo, começou a pintar seus quadros de cabeça para baixo.A marca registrada de Baselitz tornou-se também uma espécie de obsessão do mercado de arte, ao qual muitas vezes o pintor tentou agradar: “Qual o problema em ter sucesso?”, afirma o artista. Conhecido como um provocador desde que foi expulso da Academia de Belas Artes da antiga Berlim Oriental, Georg Baselitz se renova com uma nova provocação através do resgate pictórico de antigos quadros.

Ao emigrar para a antiga Berlim Ocidental, em 1958, Georg Kern passou a utilizar o pseudônimo Georg Baselitz, em alusão à sua cidade natal, na antiga Alemanha Oriental, da qual o pintor emigrara três anos antes da construção do Muro.Baselitz divide assim com SigmarPolke e Gerhard Richter o mesmo passado: a lembrança de uma infância numa guerra e de uma adolescência num regime cujo estilo artístico era caracterizado pelo Realismo Socialista.

Tal atitude maneirista – e não foi à toa que Baselitz tanto se interessou pelo Maneirismo ao passar seis meses em Florença em 1965 – pode ter origem nos conflitos internos de seu passado.Para escapar do fogo ideológico comunista, pintores como Baselitz, Polke e Richter deram as costas ao Leste, encontrando um Ocidente carregado de ideologia artística. Eles não quiseram pertencer a nenhum dos lados e escolheram o caminho do entremeio, da “arte do sim e do não”, explica Rauterberg.Foi assim que Baselitz, para escapar do Conceitualismo e do Minimalismo da década de 1970, começou a pintar, a partir de 1969, seus quadros de cabeça para baixo, explorando o lapso entre o ver e o pensar. No entanto, esse feitiço virou contra o feiticeiro. Baselitz ganhou uma marca registrada que retirou de sua pintura a força que esta encontrava na contradição de pintar figuras, que, ao mesmo tempo, desintegrava.

Um dos seus quadros mais impressionantes é Mais loiras, um óleo sobre tela medindo 162×130 cm. Dedo e rudes pinceladas foram usadas para pintar este nu de mulher de ponta cabeça, preso nu contorno preto pesado. O forte impacto da tinta preta foi na verdade obtido pelo artista andando sobre a tela. Baselitz retratou a mulher sem compaixão ou sutileza. Cores opacas compõem uma imagem simples e despojada, sem detalhes que distraiam a atenção. Este artista de vanguarda gosta de pintar cenários teatrais com uma figura berrando ou gesticulando que se repete nas telas. Ele cria imagens violentas e marcantes com figuras de pernas para o ar e pinceladas livres e cheias de cor.  Quando me defrontei com a obra pela primeira vez, passei minutos longos procurando a tal mulher nua que a sinopse se referia. Não foi fácil, precisei de muita boa vontade e aguçar minha percepção e enfim compreendi onde estava a figura . Em toda obra de Baselitz é necessário bastante paciência e uma dose de ousadia, nada é dado de maneira primária, levando o expectador à várias interpretações, o que torna ainda mais encantador.

Com tudo isso, não é de se admirar que Georg Baselitz veja o mundo de ponta-cabeça. O alemão oriental tornou-se internacionalmente famoso ao virar seus quadros de cabeça para baixo, a começar pelo “Bosque de ponta-cabeça”, em 1969. Com isso, garantiu-lhes um lugar nos museus mais famosos do mundo. Baselitz foi o terceiro artista alemão, depois de Joseph Beuys e Rebecca Horn, a quem o Museu Guggenheim de Nova York dedicou uma mostra representativa da obra, em 1995.Ao inverter o quadro, provoca uma pequena revolução na história da arte. De repente, não é mais o objeto retratado que está em primeiro plano, mas sim a reflexão sobre espaço e composição. Quando o motivo perde significado, questionam-se as regras e mecanismos vigentes da arte. Georg Baselitz manteve-se fiel a esse seu princípio. As pinceladas rudes e até agressivas, as cores intensas continuaram características de seus trabalhos até o final dos anos 80. Muitas vezes, misturou todos os gêneros e técnicas, combinando desenho, pintura e gravura.Já as obras dos últimos anos mostram mais leveza e transparência. Também são de datas mais recentes pinturas abstratas de grande tamanho, com manchas de tinta, linhas rabiscadas e também pegadas, as marcas originais do artista que, por assim dizer, entra ele mesmo no quadro.

Outros quadros famosos do pintor são Melancholie, Der Ausgang Carl, Ceia em Dresden e ElkeNude2.

Você também vai gostar:

Das obras e óperas das palavras
Caio Viana em Sinestesia

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>