O incrédulo Tomé, um quadro pintado por anjos e Caravaggio

Por Clodoaldo Turcato

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Algumas obras de arte são míticas. Já se falou demais em Monalisa e teorias surgem todos os anos, sem que se saiba exatamente o que o pintor Italiano pensava naquele momento em que tinha Gioconda diante de seus olhos. Eu, mais um “teorista”, imagino que ele estaria apenas testando um novo experimento e o fato de ter criado Monalisa foi um acaso, que poderia ter sido repassado a obras como um gato, um cão, um pássaro… enfim, um contexto de claro e escuro, composição e temática tão comum a Da Vinci.

De qualquer maneira, Monalisa impressiona pela técnica, mesmo que a maioria dos que sabem do quadro não compreenda o porquê de tanta fama se é “apenas uma mulher sorrindo.” Não é isso, e comentamos sobre isso noutros textos – Não irei me repetir. Algumas outras obras são tão impressionantes quanto, e vou escrever sobre uma delas hoje, que ao meu primeiro olhar me deixou estupefato.

Aos que me classificam como modernista ou “um cara que gosta apenas dos quadros fáceis de pintar”, este texto vai demostrar que sigo com coerência minhas observações: eu não gosto de arte fácil de pintar. Eu gosto de arte. Eu tento entender a arte e não sou modernista, sou um crítico que procura o mérito sempre em detrimento do demérito. Portanto, um quadro sendo bom vai me encantar sempre. Um dos maiores mestre de todos os tempos foi Michelangelo Merisi ou Amerighi, conhecido como Caravaggio. Sua morte desgraçada ou sua suposta homossexualidade (isso em nossos tempos) são temas recorrentes. Vejam os senhores. Que pena que seja a desgraça o primordial em alguns críticos. E sua obra? E os quadros? Caravagio foi escolhido o maior pintor de Roma, isso em tempos de Rubens. Ele foi o mestre maior do Barroco e dono de uma técnica inconfundível, superior, divina.

Esta impressionante técnica foi demostrada em sua obra O incrédulo Tomé, um Óleo sobre tela medindo 107×146 cm, que está em Potsdam, Berlim, Alemanha. Depois da crucificação, São Tomé toca as feridas de Cristo para ver se são reais. As cabeças de Jesus e dos três Apóstolos são o foco da composição. O momento é intenso – os apóstolos olham por cima de São Tomé, que, com a testa muito franzida, mergulha o dedo no flanco de Jesus. O impacto deste detalhe chocantemente realista e ampliado pela luze sombras intensas.

A tela pintada por Caravaggio volta de 1601, por encomenda do Marchese Vincenzo Giustiniani, para a galeria de pinturas de seu palácio, conforme consta em: “A vida dos escultores pintores e arquitetos” de Giovan Pietro Bellori, publicado em 1672, em Roma, e também por muitos documentos que se relacionam com o inventário. Caravaggio constrói a pintura através de uma estrutura simples que, a essencialidade da cena aponta direto para o coração da narrativa evangélica. Cristo é cercado por três apóstolos, incluindo Pedro, por trás, e os outros dois na posição mais alta, e Tomé, que assustou, ao se deixar levar pelo próprio Cristo e colocá-lo na ferida em seu lado. Jesus é representado com uma tez mais clara do que o grupo de apóstolos, criando, assim, um forte contraste cromático que resultaria na narrativa; para levar os fiéis a um envolvimento direto na ação, fazendo presente do que está acontecendo debaixo de seus olhos, e para enfatizar a fisicalidade do Cristo ressuscitado como o texto do Evangelho descreve.

Os três apóstolos de sobrancelhas franzidas espontaneamente (curvas salientes) perante o mistério da Ressurreição, seus olhos e bocas estão de alerta e abertos sem uma palavra, como que petrificados; ‘um retrato do momento em que são pegos de surpresa’; diferencia a atitude psicológica de Tomé, que tem os olhos arregalados e perdeu com o olhar atônito para o abismo do que ocorre na sua frente. Jesus, inclinando a cabeça, com a mão direita desvia suavemente capa, mostrando a ferida no lado ainda em aberto e com a mão direita do apóstolo, introduzindo o dedo trêmulo de Tomé na ferida em seu lado; seu rosto parece sugerir uma expressão de dor imperceptível enquanto acompanhava o gesto que realiza com a mão de Tomé. O dedo de Tomé mergulha na carne de Jesus; a mão áspera com unhas sujas de seu trabalho diário, é a mão de todos os que são chamados por fé para crer em Cristo. O ceticismo derrete na maravilha; olhos estão bem abertos na frente dessas feridas e a boca tremendo gagueja em uma voz fraca: “Meu Senhor e meu Deus!”.

A pintura de Carravaggio apresenta uma das questões centrais do Barrico – o questionamento do pensamento religioso e, por consequência, o questionamento da existência de Deus. Tomé precisa ver para crer, assim como o homem barroco, que não aceitava mais silenciosamente os preceitos católicos, como o homem medieval. A dúvida de Tomé, metaforicamente, representa a dúvida do homem renascentista dia da perspectiva do pensamento vigente: na arte barroca, há uma tensão que nasce da tentativa de fundir visões opostas – perspectiva de antropocêntrica, herdada do Renascimento, e a teocêntrica, resgatada pela Contrarreforma, como fica evidente na dúvida demostrada por São Tomé. Tomé precisa primeiro se certificar, colocar o dedo na ferida e depois acreditar.

Caravaggio foi um criador de um movimento sozinho. Ao contrário do que se poderia imaginar, aproveita seu papel como artista “sacro” para desacreditar a própria religião. Poucos percebem que em obras como Judite e a decapitaçãoHolofernes, Salomé com a Cabeça de São João Batista, Medusa, Cristo na coluna, Flagelização de Cristo, Narciso, Cristo coroado com espinhos, David com a cabeça de Golias, A decapitação de São João Batista, A negação de Pedro, O sacrifício de Isac, Baco doente e O descanso em viagem ao Egito (onde usou prostitutas como modelo), o artista se utiliza de duetos,  formas metafóricas para demostrar sua descrença em religiões e tudo aquilo que não pode constatar.

Depois de parar para refletir em tudo isso, o leitor ou leitora, irá perceber que não tinha visto isso. Então percebam que tantas vezes não vemos o que está diante de nosso nariz por pura preguiça ou preconceito. Mesmo desatento, uma obra de Caravaggio deixará sua marca em qualquer espectador. Não se trata apenas de crer ou não em Deus. Isso é irrelevante. Se tratar de olhar a obra, entrar no quadro e sentir as emoções de seus componentes. Isso poucos quadros conseguem. O quadro O Incrédulo Tomé é um caso.

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