O Eu através do espaço

micro cascalhoPor esses dias, andei remexendo os arquivos e os livros da estante e eis que me deparo com a abertura “aleatória” do vertiginoso e belo romance Lavoura arcaica, do Raduan Nassar: no qual o protagonista André veste-se de terra roxa ao que segundo ele: “amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho” (Nassar, p. 13). Automaticamente vejo as palavras de Terry Eagleton figurarem as mesmas páginas: cultura é um conceito que deriva de natureza e um de seus significados originários é <<lavoura>> (Eagleton, p. 11). A cena havia se repetido, há um ano atrás, a mesma situação, em seguida pensei: “abrirei os livros de Manoel de Barros e Fernando Pessoa”, dito e feito, estava eu repetindo como um dejà vu minhas leituras anteriores, tomo a ousadia de partilhá-las, serei breve:

“O guardador de águas” de Manoel de Barros, ilustra a possibilidade de uma leitura do sujeito lírico a partir de uma análise do espaço natural sob a perspectiva de uma chamada ética biótica. É possível percebermos este sujeito lírico completamente ambientado ao espaço natural como se fizesse de fato, parte indissociável dele. Em “O guardador de águas”, livro originalmente publicado em 1989 e reeditado pela Leya Editora em 2013, Manoel de Barros nos apresenta Bernardo, o encurtador de águas:

Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.

Ele faz encurtamento de águas.

Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros

Até que as águas se ajoelhem

Do tamanho de uma lagarta nos vidros.

(BARROSa, 2013, p. 219)

 

 Bernardo, nome de origem germânica, significa “forte como o urso”, em Manoel de Barros, a força do personagem é estabelecida a partir de sua relação com a natureza. A intimidade no contato com o espaço natural e a aproximação entre ambos é tão forte, que Bernardo (re)planeja a própria natureza segundo seus olhos, melhor, sua relação com a biota é de tal modo feliz que entendemos a natureza aqui, da mesma forma que James Engelhardt: “the nature  is profoundly the Other and starkly confronts us with what it means to be human[1]”. A simples relação homem/paisagem/natureza – pelo menos aparentemente –  desliga o homem da histórica posição de distanciamento da biota, “Esse homem/Teria, sim/O que um poeta falta para árvore” (BARROS, 2013a, p. 225) e o torna parte dela.

Ao fim de meu rápido devaneio-sonho-repetição, a certeza: A literatura como análise simbólica e/ou metafóricas das relações sócio-culturais do homem funda um discurso de poder transformador, aliado ao pensamento crítico proposto pelos estudos ecocríticos, cuja premissa “fundamental da responsabilidade não está no que somos, como seres humanos, nem em como podemos ‘ser’ melhores, mais naturais, primitivistas ou autênticos, mas no que fazemos” (Garrard, p. 106). Ao descortinar por meio do verso a ideia de uma “comunidade biótica”, reavaliamo-nos enquanto leitores como seres ecologicamente conscientes, promovendo assim a integridade do espaço natural.

 Danuza Lima é escritora, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE. 

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BARROS, Manoel (a). O guardador de águas. São Paulo, Leya Editora, 2013

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo, Rolo & filhos Artes gráficas Ltda.2003

ENGELHARDT, James. The language habitat: an Ecopoetry Manifesto. Disponível em: http://www.octopusmagazine.com/Issue09/engelhardt.htm  acessado em 21 de julho de 2014

GARRARD, Greg. Ecocrítica. Brasília, UNB, 2006.

 



[1] A natureza é profundamente o Outro, que cruamente nos confronta com o que significar ser humano” (Tradução minha)

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