O dia em que o vendedor de flores salvou uma relação

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Foto: Caio Queiroz

Por Lmar Macêdo

Ele está em todos os lugares – Sim, ele. Mas não estou falando de Deus e nem do diabo. Ele é o semeador do amor, nessa Recife que pouco ama. Chega do nada, como quem sai de alguma árvore, ou das brechas dos paralelepípedos do Recife antigo. Quando você percebe, uma mão estirada aparece na sua frente,com uma cara de cachorro com fome e uma voz que da dó: “Compre uma flor pra moça”. E você gentilmente, diz: – Não, obrigado.

Mas se ele insistir, você diz: – Não, amigo, muito obrigado. Ele vai embora, cabisbaixo, em busca de outro casal para perfumar o encontro com suas flores. Todo casal apaixonado já topou com ele. Seja no Recife Antigo, no Parque 13 de maio, na Jaqueira, na Praça do Arsenal, na Mamede Simões, na Rua da Aurora, na beira do rio de frente pro Paço Alfândega, onde alguns casais ficam namorando ao som da maré subindo. Ele chega como quem não quer nada e oferece aquela flor, o símbolo da surpresa amorosa. Mas quem decide é você, se vai querer surpreender a moça(o), ou deixar que ele insista na compra. O lendário vendedor de flores do antigo, ou o onipresente, como é conhecido, também ajuda aquelas pessoas que querem surpreender a namorada(o) que está de mal. Conheço um amigo que pisou na bola com a sua amada, fez besteira, esqueceu a data do aniversário de namoro e ainda foi jogar futebol com os amigos. Quando chegou em casa ela já estava dormindo após chorar e chorar. No dia seguinte ela deixa um recado pregado na geladeira. “Obrigado por lembrar da data do nosso aniversário de namoro, fiquei te esperando até tarde, e você me deixou sozinha”.

As ironias foram escritas com caneta bic azul numa folhinha de papel amarela. O rapaz sentiu o peso da vergonha e o medo de perder a mulher. Lembrou do vendedor de flores, aquele que passa todo dia pela frente do seu escritório, ali na Rua da Guia, sentido Praça do Arsenal. Naquele dia, por volta das dezoito horas, ele viu o vendedor passando do outro lado da rua e saiu correndo atrás. Enquanto uns tentam fugir dele, o meu amigo foi atrás – veja como são as coisas. Comprou todas as flores do rapaz e fez um buquê, – ele me disse que eram umas vinte e cinco flores. Voltou pro escritório, preparou um bilhete, passou numa livraria famosa e comprou um blu-ray de uma cantora que ela adora.

Correu pra casa e chegou primeiro do que ela, ornamentou toda a casa, derramou pétalas na cama e pôs pra tocar o blu-ray da Marisa Monte. Ela entra, sente o cheiro das rosas e ouve a música Ainda Bem, prontamente ela fez um riso de cantinho de boca, aquele que deixa a covinha. O coração da moça dispara e surge na sua frente um buquê de rosas vermelhas… Um abraço e um beijo acompanhavam aquelas flores compradas na pressa do final do dia. Os pombinhos voltaram ao amor de anteontem, as flores curaram. Essa foi uma das histórias que o vendedor transformou, melhorou o relacionamento com suas flores. Ele não tem ideia do que já fez pelas pessoas, acho até que ele tem uma vaga no céu, com um jardim só pra ele.

Lmar Macêdo é radialista por formação, estudante de publicidade e amante de todo tipo de arte.

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